ARTICULISTA CONVIDADO

O Ovigopólio

Crônica anônima, aumentada por Jorge Baptista Ribeiro


       Pegaram o cara em flagrante roubando galinhas de um galinheiro e levaram para a delegacia.
       – Que vida mansa, hein, vagabundo? Roubando galinha pra ter o que comer sem precisar trabalhar. Vai pra cadeia!
       – Não era pra mim não. Era pra vender.
       – Pior. Venda de artigo roubado. Concorrência desleal com o comércio estabelecido. Sem-vergonha!
       – Mas eu vendia mais caro.
       – Mais caro?
       – Espalhei o boato que as galinhas do galinheiro eram bichadas e as minhas não. E que as do galinheiro botavam ovos brancos enquanto as minhas botavam ovos marrons.
       – Mas eram as mesmas galinhas, safado.
       – Os ovos das minhas eu pintava.
       – Que grande pilantra.
       Mas já havia um certo respeito no tom do delegado.
       – Ainda bem que tu vai preso. Se o dono do galinheiro te pega?
       – Já me pegou. Fiz um acerto com ele. Me comprometi a não espalhar mais boato sobre as galinhas dele, e ele se comprometeu a aumentar os preços dos produtos dele para ficarem iguais aos meus. Convidamos outros donos de galinheiro a entrar no nosso esquema. Formamos um oligopólio. Ou, no caso, um ovigopólio.
       – E o que você faz com o lucro do seu negocio?
       – Especulo com dólar. Invisto alguma coisa no tráfico de drogas. Comprei alguns deputados. Dois ou três ministros. Consegui exclusividade no suprimento de galinhas e ovos para programas de alimentação do governo e superfaturo os preços.
       Aí, o delegado mandou pedir um cafezinho para o preso e perguntou se a cadeira estava confortável, se ele não queria uma almofada, perguntando em seguida:
       – Doutor, não me leve a mal, mas com tudo isso, o senhor não está milionário?
       – Trilionário. Sem contar o que eu sonego de Imposto de Renda e o que tenho depositado ilegalmente no exterior.
       – E, com tudo isso, o senhor continua roubando galinhas?
       – Às vezes. Sabe como é.
       – Não sei não, excelência. Me explique.
       – É que, em todas essas minhas atividades, eu sinto falta de uma coisa. Do risco, entende? Daquela sensação de perigo, de estar fazendo uma coisa proibida, da iminência do castigo. Só roubando galinhas eu me sinto realmente um ladrão, e isso é excitante. Como agora. Fui preso, finalmente. Vou para a cadeia. É uma experiência nova.
       – O que é isso, excelência? O senhor não vai ser preso não.
       – Mas fui pego em flagrante pulando a cerca do galinheiro!
       – Sim. Mas réu primário, e com esses antecedentes, terei sérias dificuldades para enquadrá-lo na forma da Lei!!! Ademais, livre-me Deus de flagrantes dessa natureza. Quem se mete numa dessas acaba entrando em fria. Sabe como é.... Tem ai uma turma dos Direitos Humanos, da CNBB, da OAB, da ABI, etc. que com apoio da imprensa, dá nó em pingo d'água, inverte tudo....Vão acabar convencendo a todo mundo que tenho que indenizar você. Isto na melhor das hipóteses. Meu medo maior é acabar indo em cana, tal a onda que eles fazem. Mas olha! Vê se alivia o meu lado e vai roubar galinha em outra jurisdição.