Dois exemplos de pseudojornalismo
Por Alceu Garcia
A pretensão de Alberto Dines de ser o fiscal inflexível da imprensa brasileira não resiste ao mais superficial exame crítico. Para ilustrar: O veterano jornalista acusa a Folha de São Paulo de apoiar tacitamente Ciro Gomes em artigo divulgado na última edição do Observatório da Imprensa. Motivo? A publicação naquele jornal da coluna de Mangabeira Unger, ideólogo de bolso do ex-governador do Ceará. E mais nada de relevante, apenas fofocas. Ora, quem quer que leia ocasionalmente a Folha não poderá negar, sem mentir descaradamente, que o veículo apóia o PT agora, como vem apoiando há anos. Há muito mais ideólogos e simpatizantes de Lula do que de Ciro escrevendo no diário paulista, se é que há algum a favor deste último, além de Unger. Como então interpretar o ataque escandalosamente inverídico de Dines? Simples, o editor do Observatório da Imprensa está agindo, como sempre, no interesse do PT, uma vez que importa estrangular a candidatura de Ciro. Dines quer a cabeça de Mangabeira Unger e menos espaço na imprensa para Ciro, que já não tem mesmo quase nenhum.
Alberto Dines é uma ilha cercada de petistas por todos os lados no Observatório da Imprensa. O governo Olívio Dutra vetou a retransmissão do programa televisivo do OI na TV estatal do Rio Grande do Sul, porém, fora umas poucas e patéticas reclamações, Dines continua emprestando seu prestígio pessoal a uma empreitada nitidamente petista. Estranho jornalismo masoquista: o mesmo movimento político que supostamente censura o OI não deixa de merecer sua adesão implícita e explícita. Um dos mais ortodoxos ideólogos do PT, Bernardo Kucinski, escreve em praticamente todas as edições do OI e foi alçado recentemente por Dines à condição de guia ético supremo da publicação. Convenhamos, é abusar do direito de ser cara-de-pau o roto falar assim (e, pior, mentindo) do rasgado. Quem é ele para exigir neutralidade da Folha? Dines e seu OI, é claro, têm o direito de sustentarem o partido político que bem quiserem. Mas não têm o direito de apoiar simulando que não apoiam. A imoralidade está na mentira. Para usar as mesmas palavras com que o conceituado jornalista açoita a Folha de São Paulo, "no peito de Alberto Dines bate um coração pró-Lula. Nada demais, escolher é legítimo. Ruim é fingir indiferença e distanciamento olímpico."
Quando jovem ele era um marxista incendiário. Todas as suas atividades visavam a revolução. Com seus companheiros de geração, moços e moças ardentes como ele, acatava e seguia cegamente a liderança dos grandes centros do comunismo: URSS, China e Cuba. Era jovem, mas nem tanto assim. Já tinha idade para se eleger deputado federal. Mas deixemos que o próprio Márcio Moreira Alves descreva sua atuação política na época: "Todas as minhas atividades parlamentares haviam sido uma longa e concatenada provocação. Éramos um punhado de parlamentares........Cobríamos com nossas imunidades toda sorte de movimentos de protesto, especialmente as manifestações estudantis e as greves operárias. Chegávamos a exercer contra os deputados da situação o que chamávamos de terrorismo cultural........Nossa estratégia era ..... a destruição completa de instituições liberais sobreviventes. Encarávamos o processo político como uma luta de classes.......Pensávamos que era altamente improvável que o proletariado pudesse optar por uma resistência clandestina e armada enquanto ainda existissem possibilidades de ações abertas e legais. Daí a necessidade de destruir as estruturas legais." (Um grão de Mostarda - O Despertar da Revolução Brasileira", de Márcio Moreira Alves, edição "Seara Nova", Lisboa, 1973, páginas 30/32).
O tempo passou e "Marcito" mudou. O ardoroso efebo de outrora é hoje o jornalista de nomeada encarregado de comentar o cenário político pelo prestigioso jornal diário de Roberto Marinho. E os principais atores desse palco são seus antigos camaradas, agora encarapitados no poder como cardeais dos grandes partidos políticos de esquerda do país. Mas será que Marcito mudou tanto assim? Não creio. No fundo do peito do aparentemente respeitável social-democrata pulsa ainda forte um coração bolchevique. Basta um liberal ou conservador produzir uma crítica verídica, ou pelo menos verossímil, aos seus amigos para Marcito ressuscitar o discurso mequetrefe do "terrorismo cultural" que praticava nas heróicas jornadas revolucionárias dos anos 60. O recente artigo do americano Constantine Menges publicado no Washington Times, fez eclodir a fúria retórica do ex-deputado e ex-terrorista cultural (O Globo, 7/9). O articulista é desconhecido e, ademais, agente da CIA. O jornal, fundado pelo reverendo Moon, é um reles pasquim de terceira categoria. O arrazoado do articulista, versando sobre a possibilidade de uma aliança esquerdista entre um governo petista, Cuba, Venezuela e outros, é sumariamente desqualificado como "aberração delirante" de "neofascistas". Nada além de devaneios quiméricos e sinistros de ultradireitistas desajustados.
Será mesmo? É bom lembrar, para começo de conversa, que os principais líderes do PT dividem um passado de subordinação a potências externas interessadas em atrair o Brasil para uma frente antiamericana. Para citar só uns poucos, José Dirceu fez treinamento militar em Cuba, José Genoíno integrou uma ofensiva guerrilheira no país comandada pelos comunistas chineses e Milton Temer foi um disciplinado quadro do PCB durante décadas, obedecendo rigorosamente todas as ordens emanadas de Moscou. Dir-se-á que isso foi há muito tempo. Sim, mas Dirceu e seus comandados continuam muito ligados ao companheiro Fidel, tanto que costumam periodicamente frequentar a ilha do Caribe em animadas romarias e rastejantes bajulações ao decrépito tirano barbudo. O PT efetivamente integra o Foro de São Paulo, organização que congrega esquerdistas radicais e terroristas de toda a América Latina. A simpatia e apoio dos petistas aos narcoterroristas das FARC colombianas não são segredo para ninguém. Tampouco são secretas as intenções ditatoriais do venezuelano Hugo Chávez, queridinho dos petistas, seus vínculos com Fidel e a esquerda colombiana, bem como seu namoro público com regimes terroristas do Oriente Médio. Ideólogos petistas como Emir Sader publicam semanalmente nos grandes jornais do país seu sonho de formar uma aguerrida entente antiamericana com África do Sul, Índia, Rússia e China. A milícia armada do MST e seus padres apregoam abertamente a insurreição violenta e até mandam emissários para apoiar publicamente o terrorismo palestino. Ninguém discute que Tarso Genro é um dos mais destacados políticos do PT e um de seus principais ideólogos. Pois Genro vislumbra o panorama atual como "... uma longa disputa pela hegemonia (...) com a construção de uma cultura política e de uma ideologia socialista em bolsões altamente organizados daqueles setores revolucionários, em direção a uma ruptura com o Estado burguês (...) com respostas dentro e fora da ordem (...), sob pena de limitar-se aos enfrentamentos na esfera política das instituições da ordem, sendo inexoravelmente sugado por ela." (Tarso Genro, Teoria e Debate, n°4, 1998, pp. 38-41).
Tendo em vista os fatos, e considerando as palavras e atos passadas e presentes da esquerda brasileira, nenhum observador honesto pode deixar de ter ao menos como plausível e digna de preocupação a hipótese suscitada pelo articulista americano. E nenhum brasileiro honrado tem o direito de ignorar a questão, pois é o destino do Brasil que está em jogo. Será Marcito um observador honesto? Não quando se dedica a desinformar, não a esclarecer. Por que ele falseia os fatos tão despudoradamente? A resposta tem, a meu ver, fundamentos psicanalíticos. Marcito provocou os militares com seu "terrorismo cultural" e, quando o tempo fechou, fugiu tranquilamente para a Europa, onde viveu no bem-bom enquanto seus camaradas enfrentavam o inimigo de armas na mão. O sentimento de culpa e inferioridade deve corroer sua alma e fustigá-lo particularmente quando vê-se diante de ex-guerrilheiros como Dirceu, Genoíno, Aloysio Nunes. O servilismo e a calúnia contra o inimigo comum são a paga com que Marcito procura reparar a sua covardia pretérita.
Alceu Garcia -Rio de Janeiro
Setembro/2002