A Elite Venceu
Por Alceu Garcia
"It destroys everything and everyone; is the essence of destruction - in towns, a darkness; a paralysis; in the country, a blight, sterility; shouting monotonously its empty formula - a classless, socialist society - it attacks with methodical barbarity, not only men and classes and institutions, but the soul of a society. It tears a society up by the roots and leaves it dead."
Malcom Muggeridge, The Great Liberal Death Wish
Há pouco mais de vinte anos a elite brasileira decidiu que Lula seria um dia presidente da república. Após anos de paciente, laborioso e tenaz esforço, esse dia está próximo. Qual o significado desse triunfo longamente desejado? Para começar a entendê-lo, é preciso afastar in limine a idéia de que elites são formadas pelos grupos economicamente mais fortes. Não são. Essa é a falsa idéia de elite que a elite difunde para preservar sua força; esse é o seu segredo mais íntimo: fingir que não existe. As pessoas mais influentes não são aquelas que controlam o dinheiro ou mesmo o poder político, e sim aquelas que dominam as idéias que, a partir de sua difusão pelo corpo social, formam o imaginário, a consciência e os valores que, em última análise, são os fatores decisivos que imprimem esse ou aquele rumo à sociedade. Quem controla as idéias termina por controlar também o dinheiro e o poder político. Os filósofos, escritores, jornalistas, professores e clérigos, agindo concertadamente, formam um poder irresistível essa é a verdadeira elite.
Não foram os empresários, banqueiros, cientistas e comerciantes a dita burguesia que fizeram a grandeza da Inglaterra no século XIX e dos Estados Unidos no século XX. Empresários, banqueiros, cientistas e comerciantes sempre existiram, mas eles, somente, nunca foram capazes de moldar uma ordem social à sua imagem. Foram pensadores como John Locke e Adam Smith que, no contexto da moral cristã, conceberam e difundiram as idéias que formataram a atmosfera de liberdade na qual os empresários, banqueiros, cientistas e comerciantes puderam dar vazão às suas energias criativas. Ingleses e americanos tiveram (mas não têm mais) a sorte de contar com elites intelectuais verdadeiramente grandes e generosas, preocupadas com a verdade e o bem-estar geral. Nós nunca tivemos essa sorte. E essa falta de sorte nunca foi tão agourenta como agora.
A elite brasileira é constituída de indivíduos terrivelmente mesquinhos, cruéis e inescrupulosos. Por isso mesmo são tão eficazes. Sua mentalidade empanturrada de marxismo e leninismo é absolutamente amoral e fria. Essa gente almeja enfeixar todo o poder político e econômico para então fazer do povo brasileiro o instrumento de suas taras e ambições megalômanas. Eles não se detém diante de nenhum obstáculo de ordem moral; todos os meios são válidos para se atingir os fins a que se propuseram alcançar. E vão alcançar. Pensam e agem estrategicamente, enquanto suas futuras vítimas são incapazes sequer de se dar conta do que está acontecendo. E como poderiam? Banqueiros, empresários e políticos estão cingidos a pensar nos termos do inimigo. Não há um só deles que, nos seus pronunciamentos públicos, não reproduza inconscientemente os conceitos e raciocínios disseminados pela elite nos jornais, escolas e universidades.
A atual elite brasileira é socialista do tipo soviético em pleno século XXI, o que exclui a priori toda e qualquer alegação de ingenuidade ou inocência. Não é possível ser socialista de boa-fé hoje em dia, após o trabalho de tantos pensadores que refutaram o socialismo além de qualquer dúvida no plano teórico, e muito menos diante do horrível espetáculo que foi a experiência socialista no curso do século XX. O jornalista e escritor inglês Malcom Muggeridge testemunhou o horror comunista como correspondente em Moscou nos anos 30. O trecho na epígrafe desse texto resume admiravelmente os efeitos da loucura das elites intelectuais pervertidas. O socialismo destrói não apenas pessoas e coisas; destrói sobretudo a alma de uma sociedade. É algo efetivamente demoníaco. Os povos que passaram pela experiência socialista sequer conseguiram recobrar sua vitalidade histórica e criatividade cultural pré-socialista. O que restou de setenta anos de comunismo na Rússia? Nada. É como se um vórtice histórico maligno tivesse sugado e esterilizado as energias vitais e espirituais de todo um povo. Esses setenta anos foram roubados aos russos e os danos causados são irreparáveis. Nós corremos o risco iminente de sofrer estragos similares.
O Brasil está em grande perigo, porém do exterior a elite brasileira não cessa de colher alento e incentivo. Economistas famosos, intelectuais de prestígio, políticos influentes, todos garantem que Lula "evoluiu", que ele fará a justiça social no país. Como pode ser assim? O desastre no Brasil não deixará de afetar gravemente boa parte do Ocidente. Mais uma vez recorro ao saber de Muggeridge. No mesmo ensaio The Great Liberal Death Wish ("liberal" na acepção americana do termo, significando socialista de esquerda) ele revela que é a natureza perversa da elite pensante ocidental da qual a brasileira é mera estação repetidora a mãe de todas as catástrofes que desde 1914 ameaçam destruir a civilização. Essa civilização que "sonhou com sua própria dissolução na mente de sua própria elite intelectual". A História registrará, diz Muggeridge, que essa elite "foi a responsável pelo mergulho nas trevas de nossa civilização", "borrando as arestas da verdade, a definição da virtude, a forma da beleza; um sino quebrado, uma névoa, um desejo de morte." Essa intelligentsia internacional apoiará Lula não importa que atrocidades ele cometa, como apoiou Stalin, Mao, Pol Pot, Fidel e todos os tiranos inomináveis que se declararam socialistas de esquerda. A verdade é que o povo brasileiro não conta com amigos externos. Nossa salvação está somente em nossas próprias mãos.
Mas como escapar ao desastre? Quem gosta de xadrez provavelmente conhece a famosa partida Sämisch Nimzovitch, de 1923. Nesse jogo as pretas foram gradativamente sufocando as brancas até um ponto em que qualquer movimento dessas últimas resultaria na derrocada completa. Eu particularmente tenho a nítida sensação de impotência que Sämisch deve ter sentido na ocasião. Aparentemente nenhuma iniciativa das parcas forças contrárias à elite brasileira pode conduzir a qualquer desfecho que não seja a derrota política. Resta aguardar os acontecimentos e torcer para que uma oportunidade favorável permita o reagrupamento dessas forças e uma resistência efetiva.
Nesse ínterim, é fundamental compreender o que se passa a nossa volta. Para tanto não se pode prescindir dos estudos sobre a estratégia gramscista inaugurados no Brasil pelo filósofo Olavo de Carvalho, aliás o analista mais agudamente consciente do momento crucial que vivemos, mas desprezado e caluniado como a profetiza troiana que exortou sua cidade a recusar o funesto presente ofertado pelos gregos. Temamos os gregos até quando dão presentes! O embaixador Meira Penna, um mestre em análise de psicologia social, é outro que há muito vem alertando os brasileiros dos perigos que nos espreitam. A professora Maria Lucia Victor Barbosa, em mais um brilhante artigo, lembra de Ortega y Gasset e sua apreciação dos tempos de degeneração (kali) conforme conceitos hindus. Vivemos uma época kali, não há como negar. E poucos conseguiram dissecar melhor a crise atual do que Martim Vasques da Cunha, cujos estudos baseados na obra de Eric Voegelin, publicados no site O indivíduo, desencavam as raízes do problema, lá na ordem transcendente da alma, onde a batalha realmente se decide. Há outros homens e mulheres excelentes, cuja maturidade e honestidade intelectual precisam ser postas a serviço do bem comum. Não há outro remédio.
Alceu Garcia -Rio de Janeiro
Setembro/2002