A Guerra dos Mundos

Por Alceu Garcia


Não é de hoje que os homens reunidos em comunidades padecem de uma espécie aparentemente incurável de esquizofrenia coletiva. As pessoas parecem aceitar sem problemas viver simultaneamente em dois mundos distintos e incompatíveis entre si: o mundo real e o mundo político. Na esfera da realidade, no cotidiano de cada um, prevalece em geral uma visão pragmática e realista das coisas; o universo da política, ao contrário, é o reino das ilusões, das fantasias e do auto-engano. Essa tensão entre o real e o imaginário não raro precipita sociedades inteiras em crises agonizantes, como a que ora atormenta a Argentina. Em nosso país, esse mundo onírico da política, onde todos os problemas concretos são resolvidos magicamente nos gongóricos discursos dos oradores, nos panfletos incendiários de pseudo-intelectuais, nas nefelibáticas teses universitárias e nas leis grandiloquentes, tem um âmbito de influência bem acima da média global. Como notou José Oswaldo de Meira Penna, o melhor analista da alma e da psicologia social do Brasil, vivemos em uma "sociedade erótica" que tende a sobrepor o princípio do prazer ao princípio da realidade.

É pena que a realidade teime em ignorar solenemente o mundo fantasioso da política e seguir seu caminho implacável e inevitável de causas e efeitos. A reação característica de um povo tomado dessa neurose coletiva, nesses casos, é a de negar a realidade e se apegar ao universo fictício da política. Foi assim, por exemplo, no episódio do "Plano Cruzado", quando o governo garantiu que podia dar cabo da hiperinflação num passe de mágica, congelando os preços, e a população o apoiou efusivamente. Hoje testemunhamos novamente a manifestação dessa psicopatologia coletiva no caso dos relatórios negativos dos bancos estrangeiros a respeito de um Brasil eventualmente governado por Lula e seu PT. Toda a classe política e a intelligentsia dirigiram imediatamente suas baterias retóricas contra esses gringos usurários e sua indevida e inaceitável ingerência em nossos assuntos internos. Conversando com amigos e conhecidos, gente impecavelmente sensata e racional em suas vidas e negócios particulares, fiquei impressionado com o suas explosões de ódio furibundo contra os banqueiros internacionais. Só faltou lançarem bombas incendiárias nas agências das instituições financeiras alienígenas.

É claro que toda essa fúria patriótica é inteiramente injustificada e até mesmo ridícula. Ora, o ignaro Lula e a coorte de iletrados marxistas que o manipula passaram os últimos 20 anos berrando aos quatro ventos que pretendiam impor ao Brasil um regime comunista, no qual, como se sabe, não há lugar sequer para a propriedade particular de quiosques de praia, quanto mais de bancos! O PT bajula servilmente, desde sempre, ditadores coletivistas caricatos, como Fidel Castro, controla as milícias de fanáticos comunistas polpotianos do MST, incentiva o sindicalismo grosseiro da CUT, apóia os narcoterroristas das FARC, organiza eventos violentamente anti-capitalistas como o Fórum de Porto Alegre, integra congregações febrilmente dedicadas à promoção do socialismo na América Latina, como o Fórum de São Paulo e a Via Campesina, e endossa propostas de calote da dívida externa, como o que inspirou um "plebiscito" organizado pelos padres marxistas da CNBB. Os "economistas" marxistas e keynesianos encarregados de elaborar o programa econômico do partido são os mesmos demagogos incompetentes que já demonstraram inequivocamente total incapacidade para compreender os princípios mais elementares de ciência econômica, adotando invariavelmente medidas catastróficas como congelamentos, calotes, confiscos, violação de contratos e moratórias "soberanas".

Pois bem, diante de tudo isso e da clara e iminente possibilidade de vitória eleitoral dessa mesma corrente política, que atitude se poderia razoavelmente esperar dos bancos estrangeiros, zelosos gestores do dinheiro alheio? Só mesmo gente imersa nas fantasias do mundo político poderia exigir que essas entidades aprovassem calorosamente a possível e provável expropriação dos bens de seus clientes. É tolice reclamar dos banqueiros a mesma ingenuidade que nossos políticos e intelectuais expressam ao acreditar que o PT "evoluiu" para posições moderadas, somente porque da noite para o dia as tarimbados raposas leninistas desse partido mudaram o seu discurso.

Se o povo brasileiro, hipnotizado por intelectuais gramscistas, e diante da imperdoável omissão dos grupos que tem tudo a perder com a escalada petista, decidir mergulhar de cabeça no mundo dos sonhos da política, é bom saber que o mundo da realidade persistirá em seu curso inexorável. E na guerra entre esses mundos, a realidade sempre vence. Quem levar a sério as retumbantes promessas "utópico-realistas" de "um mundo mais solidário" e de "uma outra globalização" vertidas incessantemente pelos arautos petistas vai quebrar a cara. Ao invés do paraíso prometido do socialismo "utópico", teremos que viver no inferno do socialismo "real". Tertium non datur; não há terceira opção. Infelizmente, o mundo irreal das ilusões políticas é uma miragem que infalivelmente cobra um preço muito caro no plano da realidade.

Alceu Garcia

Rio de Janeiro - maio/2002


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