REFLEXÕES SOBRE A LOUCURA COLETIVA
Por Alceu Garcia
Diz-se que uma pessoa é louca quando ela se mostra claramente incapaz de distinguir o que se passa no mundo real, com suas causas e efeitos inexoráveis, do universo onírico contido em sua mente desvairada. Não é difícil para um indivíduo mentalmente equilibrado notar a loucura do outro, revelada na ausência de discernimento, de pragmatismo, de prudência, e na tendência para comportamentos absurdos. O sujeito que sofre de uma psicopatologia qualquer necessita de ajuda, pois se abandonado ele muito provavelmente causará danos a si mesmo e a terceiros. Porém, se o louco se recusa a reconhecer sua loucura e continua a agir insensatamente, nem sempre é possível ajudá-lo. Um observador racional poderá quando muito compreender como e por que se o maluco fizer isso ou aquilo, produzirá essas ou aquelas consequências indesejáveis.
Problema muito mais grave ocorre quando toda uma coletividade descamba para a insanidade. As consequências negativas da loucura grupal podem afetar todo um país, região ou até mesmo o mundo inteiro. A Alemanha, antiga terra dos filósofos e dos poetas, contraiu o vírus do socialismo em meados do século 19 e acabou por se tornar um país de militaristas fanáticos que provocou duas hecatombes em escala global. A Argentina, antes uma ilha de prosperidade material e refinamento cultural em meio à pobreza e ao atraso latino-americanos, ensandeceu a partir da década de 1940, afligida pela mania do estatismo, e foi adoecendo progressivamente até chegar ao estado quase terminal que ora testemunhamos. Poderíamos enumerar dezenas de casos similares.
Um deles é o nosso próprio caso. A coletividade brasileira está gravemente doente da cabeça, por assim dizer. E a cabeça de uma sociedade é a sua elite pensante. O gérmen da loucura coletiva nasce invariavelmente no cérebro de uns poucos intelectuais e daí se espalha gradativamente por todo o corpo social. Para variar, o nome dessa patologia mental é socialismo. A elite letrada brasileira, a intelligentsia, aquela que faz a cabeça das novas gerações, que modula as consciências, que imprime sua marca na cultura do povo todo, essa elite quer porque quer implantar o socialismo no Brasil, e, pior, aquele tipo mais nefasto e inexeqüível de socialismo, o marxista-leninista (ou comunista), que atormentou bilhões de infelizes e redundou no mais crasso e inequívoco fiasco moral, espiritual e material. Se isso não é loucura, não sei o que possa ser.
Como tratar ou curar uma demência coletiva? Não dá para internar um povo inteiro à força no manicômio, nem obrigá-lo a consultar regularmente um psicólogo ou um psiquiatra. O que os indivíduos não afetados pela insanidade geral podem fazer é protestar, criticar, tentar alertar as pessoas para o desastre iminente que, se as coisas permanecerem como estão, é inevitável. Provavelmente não será suficiente para impedir a catástrofe - como não foi suficiente na Alemanha, na Argentina e alhures - mas pelo menos se combate o bom combate, preservando-se a semente da sanidade para o futuro e a consciência tranquila.
Não são muitos, mas existem em nosso país alguns talentosos e obstinados "terapeutas" coletivos, gente lúcida, sensata e prudente, conscientes da patologia que está empurra o povo brasileiro para o abismo, conscientes de suas causas e dos passos necessários para a cura. Gente como José Oswaldo de Meira Penna, Olavo de Carvalho, Og Leme, Antonio Paim, Ricardo Vélez Rodrigues, Mario Guerreiro, Ubiratan Iorio, Janer Cristaldo, Maria Lucia Victor Barbosa, José Nivaldo Cordeiro e outros abnegados. Essas pessoas corajosas (pois contrariar os loucos não é tarefa isenta de perigos) têm publicado livros e artigos fervilhantes de análises perspicazes e previsões sombrias solidamente fundamentadas na teoria e na experiência, que no entanto são solenemente ignoradas e cuja eficácia curativa preventiva é absolutamente nula. Poucos lêem, e as classes que conduzem os negócios públicos nem sequer tomam conhecimento dessas advertências. A maluquice socialista já adquiriu contornos irreversíveis, cristalizada em um consenso alucinado praticamente inamovível.
Basta a leitura dos jornais diários e das revistas semanais para se recolher robustas amostras dessa moléstia nacional. Um bom exemplo é o alarido indignado contra as recomendações de cautela quanto ao futuro da economia brasileira feitas por bancos e instituições estrangeiras. Não se passa um dia sem que alguma manchete escandalosa ou algum influente colunista não escreva cobras e lagartos contra esses gringos "especuladores". Ora, é claro que eles estão especulando. Acontece que rigorosamente todo mundo está especulando o tempo todo, uma vez que o futuro é inescrutável para nós, pobres mortais gringos ou não. Nesse caso específico, os observadores e investidores internacionais estão prestando uma bela homenagem a Lula, Serra, Ciro e Garotinho. Eles estão acreditando no discurso e nos atos passados dos principais candidatos ao poder político supremo do país, sobretudo no que concerne ao atual líder absoluto das pesquisas eleitorais. Lula e o politburô petista, como até as pedras sabem, gastaram os últimos vinte e tantos anos afirmando em alto e bom som que seu objetivo último é o socialismo.
E não se pode dizer que sua relação promíscua com os ferozes maoístas do MST, o eterno servilismo ante o velho tirano Fidel, o apoio aberto aos narcoterroristas das FARC e muitas outras atitudes semelhantes não indiquem que o PT é efetivamente uma organização extremista. Os gringos estão apostando que Lula e seus ativistas são homens de palavra, coerentes, fiéis às suas convicções, que, no poder, farão o que sempre disseram que fariam. E o que o PT sempre disse que faria, em especial nos seus documentos internos, produzidos em congressos e reuniões, onde as discussões são mais francas, é o socialismo, ou seja, aquele regime em que a propriedade privada é expropriada, bancos são estatizados e as dívidas do "Estado Burguês" são repudiadas. Diante da perspectiva de terem seus bens confiscados, nada mais natural do que os estrangeiros liquidarem seus investimentos correntes no país e suspenderem novas inversões. E inclusive nada seria mais adequado do que os próprios brasileiros remeterem seu dinheiro para pousos mais seguros.
No entanto, nossos políticos e intelectuais não cessam de denunciar essas atitudes perfeitamente racionais como manobras sinistras, verdadeiros atentados contra a soberania nacional. De duas, uma: ou eles estão exigindo que os estrangeiros também se comportem como malucos o que é em si claro sintoma de loucura e aceitem alegremente o roubo de seu dinheiro, ou estão afirmando que Lula e seus petistas não estavam falando a sério quando pregaram o socialismo esses anos todos, isto é, que Lula é um mentiroso (o que, aliás, é pura especulação). Quem são os malucos nessa história toda afinal?
Outro pequeno, mas revelador, exemplo da insânia nacional pode ser observado nos jornais de hoje (24/05). Consta que altos dignitários da CNBB, antes de solene audiência com o Presidente da República, asseveraram que a atitude receosa dos investidores nacionais e internacionais diante de uma possível vitória de Lula constitui ato de terrorismo político. Isso vindo do chefe de uma instituição que criou, nutriu e controla uma organização paramilitar violenta terrorista, sejamos francos - como o MST. Uma instituição que tem entre seus principais expoentes um sujeito o "frei" Betto - que integrou um grupo terrorista, foi amigo de um terrorista sanguinário Carlos Marighela e se orgulha disso até hoje. Uma instituição que não faz segredo de sua vinculação a um movimento totalitário e a tudo o que ele significa. Quem está tendo uma conduta racional nesse caso, os nossos compungidos prelados marxistas ou os aplicadores financeiros?
Se até a influente e poderosa Igreja Católica enlouqueceu, adotando uma ideologia o marxismo que é a negação mais cabal de tudo o que o Cristianismo representa, o que se pode esperar do futuro do país? Se as Universidades, os centros do saber, tornaram-se fábricas de militantes extremistas; se a imprensa caiu sob a hegemonia da loucura ideológica, não há mais para onde correr. O desastre vem aí. É bom se preparar.
Alceu Garcia
Rio de Janeiro, maio/2002