Sobre provas, professores e alunos

Por Fábio Campos


Outro dia recebi um daqueles e-mails engraçadinhos que vão se disseminando na internet. Em anexo veio um arquivo de imagem com uma questão de prova de biologia escaneada. A pergunta:

"As células resultantes da divisão de uma célula que tenha sofrido mutação são todas anômalas?".

A resposta do aluno foi algo assim:

"Não. Algumas são anômalas e outras não. Como umas são anômalas e outras não, isto significa que umas apresentam anomalia e outras não apresentam anomalia. Se umas apresentam anomalia e outras não, isto significa que umas são anômalas e outras não são. Logo, nem todas são anômalas".

Mais do que engraçado, achei o estilo da resposta do aluno incrivelmente familiar, mas isto é outra estória. Fiquei na dúvida, contudo, quanto à intenção do aluno. Será que ele tinha consciência de que estava enrolando e que sua resposta se resumia, em termos de conteúdo, a um não categórico e indemonstrado (não porque não)? Será que ele tinha consciência de que não sabia como justificar sua resposta e, portanto, resolveu tirar sarro com a cara do professor? Ou será que ele já teria sido vítima deste eficientíssimo mecanismo de imbecilização, estupidificação, desinformação e inibição de inteligência em que se transformou nosso sistema educacional?

Honestamente, eu não saberia, ainda agora, responder. Acho que a última hipótese, contudo, é perfeitamente plausível. É absolutamente verossímil a hipótese de que o pobre aluno tenha acreditado, ao escrever a resposta, que estava apresentando o supra-sumo da argumentação científica. Digo isto porque, por experiência profissional, percebo a cada dia, seja em alunos, seja em profissionais já graduados de diversas áreas (inclusive e, mais dramaticamente, no Direito), uma progressiva perda da capacidade de distinção elementar entre juízo categórico e silogismo, entre afirmar "é porque é" e demonstrar a veracidade ou mesmo verossimilhança de uma afirmação. Isto para não falar no embotamento da mais elementar intuição lógica. Já tive uma aluna que concluiu dissertação com a seguinte pérola: "Como conclusão, concluo que nem tudo o que a gente sabe ou conhece é o que realmente é". Pior: eu precisei de uns dez minutos para explicar à moça a contradição insuperável existente na afirmação de que algo não é o que realmente é (ou de algumas coisas são o que realmente não são, como se prefira).

Hoje, contudo, recebi outro e-mail do mesmo tipo, só que com duas respostas de duas provas diferentes. Uma era de literatura:

"Nessa situação, Brás Cubas confessou ter passado pelas mesmas sensações pelas quais passou à época do emplasto. Que sensações são essas alimentadas pelo nosso protagonista?"

A resposta foi mais surpreendente do que o fato do enunciado da pergunta não conter nenhum erro gramatical:

"Seriam sensações boas? Sensações ruins? 'QUE SENSAÇÕES SÃO ESSAS'? OH, DEUS, EU ME PERGUNTO" (caixa alta no original).

Sem trocadilho, a resposta foi sensacional. O aluno pode não ter lido o livro, ou não ter entendido patavina do que leu, mas pelo menos não perdeu o senso de humor, o que demonstra que sua inteligência ainda não foi totalmente obsedada. E a observação da professora não fica atrás:

"Eu mereço! Estou tendo uma sensação ruim ao iniciar a correção dessa prova...".

A correção gramatical do enunciado da questão e o bom humor tanto do aluno quanto da professora (não considero, sinceramente, crime ou tragédia que um adolescente não tenha tido saco para ler Brás Cubas) me fizeram alimentar uma réstia de esperança quanto à possibilidade de um adolescente não deixar o ensino médio com graves seqüelas intelectuais. Ler este e-mail parecia uma ótima forma de começar o dia.

O problema foi a prova seguinte. Tudo indica que fosse prova de História, muito embora hoje os currículos de Geografia também se dediquem ao tema da questão:

"A consolidação da ALCA corresponde ao auge da política Norte-americana de controle do continente. Suas negociações deixam clara uma postura unilateral, não-democrática e desigual. A partir do texto: a) Identifique o centro da política econômica adotada no Brasil com o Consenso de Washington".

A resposta do aluno foi ainda mais sensacional: ele desenhou um círculo, com um ponto no centro. Do perímetro do círculo ele destacou uma setinha, ao lado da qual escreveu: "política econômica adotada no Brasil com o Consenso de Washington"; uma outra setinha saía do ponto desenhado no centro do círculo, ao lado da qual o aluno escreveu: "centro".

Aqui, no entanto, muito embora o humor do aluno também mereça os maiores elogios, o que merece destaque não é a resposta, mas o enunciado. Veja só:

"A consolidação da ALCA corresponde ao auge da política Norte-americana de controle do continente. Suas negociações deixam clara uma postura unilateral, não-democrática e desigual. A partir do texto: a) Identifique o centro da política econômica adotada no Brasil com o Consenso de Washington".

O enunciado não contém uma pergunta. Contém uma série de afirmações categóricas compactadas, que poderiam ser perfeitamente refutadas ou, no mínimo, discutidas. Senão, vejamos.

a) "A consolidação da ALCA corresponde ao auge da política Norte-americana de controle do continente".

Em primeiro lugar a ALCA está longe de ser consolidada; em segundo lugar, e justamente por isto, não se pode falar em "controle do continente" através da ALCA pelos EUA; há muito o que se discutir e negociar no modelo de livre comércio que se poderá adotar na ALCA; em terceiro lugar, quem é que disse que a adesão, pelos países da América Latina, a um pacto de livre comércio com os EUA - que, mesmo antes deste pacto, é, de longe, o maior parceiro comercial individual destes países (pelo menos do Brasil e do Chile) - é algo pernicioso? Qual a proposta alternativa?
Como se vê, a primeira sentença do enunciado contém diversas premissas implícitas que, se trazidas à luz e discutidas, se revelariam falsas ou, no mínimo, altamente questionáveis. O papel do professor deveria ser precisamente o de provocar este tipo de discussão, dando ao aluno a liberdade para desenvolver um juízo pessoal autêntico sobre o tema. O que se vê no enunciado, contudo, é precisamente o oposto: as premissas questionáveis são compactadas, ocultas, e assim impingidas ao aluno sob a forma de uma afirmação categórica que não admite questionamentos.

b) "Suas negociações [ ou seja, dos EUA ] deixam clara uma postura unilateral, não-democrática e desigual".

Esta é uma pérola de nonsense.

A frase não apresenta nenhum argumento, simplesmente pretende incutir sentimentos de "indignação" no pobre adolescente. Este, imaturo psicológica e intelectualmente (e totalmente ignorante de História antiga, moderna ou contemporânea, pelo que se pode deduzir do nível das provas a que é submetido), termina sendo induzido, tal como um cachorrinho de Pavlov, a se postar automaticamente contra toda e qualquer postura dos EUA. Pior: termina acreditando que, ao ter artificialmente acionado, por meio de um processo de manipulação psicológica, este "modus indignandi", ele está livremente adotando uma posição "crítica", "consciente", "não-alienada" e, pior ainda, abalizada pelo mais elevado saber histórico.

Façamos, no entanto, o que o professor deveria fazer, caso quisesse realmente provocar alguma reflexão crítica, algum tipo de raciocínio individual livre nos alunos. Façamos, simplesmente, algumas perguntas.

1 - Como compatibilizar o fato de que os EUA estão engajados em "negociações" acerca da ALCA com a frase anterior, segundo a qual esta já se consolidou, caracterizando o "auge da política de controle" dos EUA?

É claro que o grau de liberdade existente numa negociação pode variar, a depender as condições dos negociantes, indo desde a igualdade absoluta até o contrato de adesão (take it or leave it). Mesmo neste último caso, contudo, o parceiro aderente pode simplesmente dizer thanks, but no thanks, e ir caçar o seu rumo; se não o faz é porque, de alguma forma, considera que aderir é a melhor opção realista possível, ainda que não a ideal. Isto - optar pelo possível, na impossibilidade de se ter o ideal - é o que eu, você e todo mundo fazer a todo o tempo, o dia inteiro, a respeito de todas as coisas. Se isto caracteriza "controle", é preciso definir bem o que se entende por "controle", uma vez que é manifestamente distinta esta hipótese daquela em que há coação pelo uso da força - tal como uma intervenção militar, no caso de relações internacionais, ou a exigência de tributos, no plano doméstico.

Seria necessário que o professor explicasse, portanto, em que medida a eventual adesão voluntária de países latino-americanos à ALCA corresponde ao resultado de uma política de "controle" dos EUA em relação a estes mesmos países. Partindo dos pressupostos - falsos, mas ainda assim implícitos no enunciado - de que nenhum país da América Latina teria condições de negociar substancialmente as condições de livre comércio da ALCA e de que nenhum deles teria alguma outra opção alternativa realista que se revelasse mais interessante do que aderir à ALCA, tal como determinada unilateralmente pelos EUA (contrato de adesão), resta perguntar: porque estes países chegaram a esta situação em que simplesmente não têm opção viável a não ser dizer amém? Quais as causas, os mecanismos que vieram a colocá-lo nesta posição de dependência? Como, especificamente, se manifesta esta dependência? Em que medida este fenômeno pode ser caracterizado como "controle" dos EUA? Em que consiste este tal "controle"?

Estas são perguntas importantes, cujas respostas não são simples, auto-evidentes. Nosso FhC (superlativo de PhD, como diria o Millôr) escreveu centenas de páginas ilegíveis acerca do tema em sua tese de doutorado, sem chegar a nenhum resultado concreto que não fosse a sua auto-promoção como pseudo-intelectual - e isto é para citar apenas um dentre milhares de autores ilustres. É claro que o professor provavelmente já impingiu aos alunos a leitura das "Veias Abertas da América Latina", do Eduardo Galeano, e da "História da Riqueza do Homem", de Leo Huberman, como se estas fossem obras definitivas e incontestáveis da mais pura ciência histórica, mas a verdade é que estas questões estão looooooooooooooonge de serem objeto de consenso "científico". Para cada Eduardo Galeano ou Leo Huberman é possível encontrar dezenas de autores que sustentam teses diametralmente opostas, com muito mais rigor de argumentação.

O que o professor deveria fazer é oferecer aos alunos estas visões contrastantes e permitir-lhes desenvolver um juízo pessoal sobre o assunto - se ele estivesse realmente comprometido com a eduação destes meninos -, e não forçar-lhes goela abaixo esta pletora de afirmações - aqui, novamente - altamente questionáveis como expressão da Verdade Absoluta.

O mais grave, contudo, talvez seja a utilização de certos códigos linguísticos que, repetidos ad nauseam na mídia, nas escolas e em todos os espaços de "debates públicos", já não funcionam mais como signos dotados de sentido racional, símbolos de idéias passíveis de exame racional, mas como mecanismos infusores de sentimentos difusos (normalmente segundo o modo binário de bom/mau, amigo/inimigo, do grupo/estranho) - ou seja, códigos que deixam de ser instrumentos de educação, informação, para se tornarem instrumentos de doutrinação, de manipulação psicológica.

Dentre as palavras-chave que vão direto ao inconsciente do aluno e já o colocam no modo "indignado-contra-os-EUA-ou-a-burguesia-ou-a-globalização-ou-o-neoliberalismo-ou-o-FHC-ou-quem-quer-que-seja-o-próximo-alvo-da-esquerda-e-portanto-crente-que-sou-o-supra-sumo-da-consciência-crítica", destacam-se, é claro, os adjetivos utilizados pelo professor para qualificar a postura negocial dos EUA em relação à ALCA: "unilateral, não-democrática e desigual". Em face do fenômeno acima exposto, tais palavras terminam por adquirir uma carga emocional que provoca no indivíduo (no caso no aluno), automaticamente, uma noção racionalmente intraduzível, mas com a firmeza das mais profundas verdades intuititvas, de que ele se encontra perante algo mau, muuuuuuito mau.

Aqui também o antídoto é perguntar. O que significam estes adjetivos no contexto da frase?

"Unilateral" é utilizado com o sentido de quem adota uma postura independentemente do consenso alheio, de quem entra numa negociação sem disposição de transigir. Aqui, contudo, voltamos ao problema anterior: como é possível uma "negociação unilateral"? Ou estamos diante de uma proposta de contrato de adesão ou diante de uma coação (e neste caso, não há mais negociação). Falta explicar, como visto, qual destas situações se faria presente neste caso, e quais suas causas etc.

Além disso, o termo "unilateral" é hoje carregado de conotação axiológica negativa. Unilateral = mau. Bom é ser "aberto ao diálogo", ser "plural". Unilateralismo = mal; pluarlismo = bem (pense bem: quantas vezes você ouviu, recentemente, alguém falar que precisamos construir uma sociedade mais "pluralista"? Rigns a bell, eh?). Todas as decisões têm que ser fruto de um consenso coletivo. É o Coletivo a única instância legítima de decisão; o Indivíduo deve sempre sujeitar-se ao coletivo; decisão individual é anátema.

O problema é que este falso critério moral é absurdo em sua pretensa universalidade. Há instâncias e assuntos que exigem, moralmente, a abertura ao diálogo, mas há outras instâncias e assuntos que exigem, moralmente, a firmeza, a "unilateralidade". "Seja o seu sim, sim, e o seu não, não; tudo mais vem do Maligno", disse Jesus Cristo.
Em se tratando de comércio internacional, a que título se poderia exigir dos EUA uma política de "diálogo" com os demais países, senão ao único título pertinente em negociações comerciais - as vantagens comerciais que os EUA teriam? Imagine que você quer vender seu carro usado; que seu carro valha, no mercado, algo em torno de R$ 15.000,00; como você não precisa urgentemente do dinheiro, você põe seu carro à venda por este preço. Se um sujeito te procurar oferecendo R$ 1.000,00 - e, mesmo assim, para pagamento daqui a dois anos, garantido por promissórias - você venderia o seu carro? Não, não é? Você adotaria uma posição "unilateral", simplesmente porque o negócio não é interessante para você.

Relações comerciais são, por definição, relações baseadas em interesse, em juízos subjetivos de conveniência pessoal de cada um dos partícipes. Só há comércio quando cada um dos participantes vê no que o outro tem a oferecer um bem maior do que o que ele dispõe e o outro aceita receber em troca. Quando eu vendo meu carro usado por R$ 10.000,00, eu avalio subjetivamente que para mim é mais interessante, hoje, ter R$ 10.000,00 do que o carro, e o comprador avalia que para ele é mais interessante ter o carro do que R$ 10.000,00. Se, na minha avaliação, é melhor eu ficar com o carro do que ter R$ 10.000,00, eu simplesmente não vou fazer o negócio - não agora, pelo menos, até que minha percepção sobre o que é mais conveniente para mim se altere. Aliás, é o que vem acontecendo: alguém aí quer comprar um Gol 97, com ar e direção, meio castigado por fora mas com mecânica tinindo (38 mil km rodados, acabou de sair da revisão) por R$ 10.500,00 (à vista e em dinheiro)? Se quiser, me escreva (campos@bcr-advogados.com.br).

Voltando ao assunto, ao qualificar a postura negocial dos EUA perante a ALCA como "unilateral", o enunciado encerra pelo menos dois juízos morais implícitos: o de que os EUA teriam que negligenciar seu próprio interesse comercial na negociação em prol dos interesses dos demais países da América Latina e sua consequência imediata: ao não fazê-lo, os EUA agem mal, muito mal. Bad, bad ugly fuckin' yankees.

Resta perguntar: porque diabos os EUA deveriam misturar negócios e caridade? Qual o fundamento moral para que o Brasil, a Venezuela, a Argentina, Colômbia, até mesmo Cuba - que Lula-lá quer porque quer seja incluida na ALCA - exijam que uma negociação internacional se transforme em um gigantesco instrumento de fomento das economias da América Latina pelos EUA (mais um, aliás, tendo em vista que os EUA são os principais financiadores, ainda hoje, de organismos internacionais como ONU, UNICEF, BID, FMI)?

Mais uma vez nos deparamos com perguntas difíceis, diante das quais há diversas posturas possíveis.

Uma delas, por exemplo, é a que Lula defendeu ao elogiar a política de subsídios e barreiras tarifárias que a União Européia usa para proteger seus produtos agrícolas - política que é um dos principais obstáculos ao comércio exterior brasileiro, mas never mind, o que Lula provavelmente quis dizer é que nós também deveríamos fazer a mesma coisa aqui, fechar nossas fronteiras para produtos estrangeiros e que se danem os gringos caso eles achem ruim, nós não precisamos mesmo dos dólares deles, eles é que precisam dos nossos produtos que simplesmente não têm equivalente no mercado internacional). Lula, portanto, seria o primeiro a apoiar a postura "unilateral" dos EUA - claro, se ele utilizasse o mesmo peso e a mesma medida quando se cuida de julgar a postura dos EUA e a postura de outros países, o que por algum motivo não costuma ocorrer. Outras posições seriam possíveis diante do problema, nenhuma delas merecendo rejeição in limine, sem qualquer análise ou reflexão.

Para o professorzinho que fez a pergunta, contudo, esta variadade de hipóteses simplesmente não existe. Os EUA simplesmente têm porque têm a obrigação moral de negligenciar seus interesses puramente comerciais na negociação da ALCA e transformar um acordo de livre comércio num instrumento de fomento das economias latinas. Ponto final. E ai do aluno que, escapando por milagre à lavagem cerebral, ouse perguntar "por quê"!

Mais ridícula ainda é a qualificação da postura dos EUA como "não-democrática".

Aqui vemos mais um exemplo da "metonímia democrática" a que se referiu Olavo de Carvalho (http://www.jt.com.br/noticias/99/01/21/ar1.htm). Democracia é uma forma de governo caracterizada pela participação, direta ou indireta, dos cidadãos nas decisões governamentais. Assim sendo, não tem o menor sentido invocar ou exigir uma postura "democrática" de quem se vê perante interlocutores numa negociação comercial.

O problema é que hoje "democracia", "democrático" e "anti-democrático" também viraram mantras destinados a provocar o mesmo tipo de reação automática acima descrito quanto ao termo "unilateral". "Democrático" = bom, logo, "não-democrático" = mau, muito mau, e como os critérios de bem e mal são aplicáveis a toda e qualquer esfera da ação humana, subitamente, como num passe de mágica, toda e qualquer ação humana passa a ser avaliável pelos critérios de "democrático" e "não-democrático".

A irracionalidade deste mecanismo lingüístico-ideológico dispensa maiores comentários, até porque, deslocados de seu contexto, os termos perdem qualquer sentido e passam a ser utilizáveis como simples instrumento de desqualificação de quem tenha opinião contrária à nossa. A garota que se recusa a fazer sexo com o namorado pode ser criticada por sua postura "unilateral" e "não-democrática", da mesma forma com que o namorado que rompa com ela por causa disso pode ser criticado por sua postura "unilateral" e "não-democrática".

Enfim, despidos de seu sentido original, os termos "democracia", "democrático" e "anti-democrático" viram puro nonsense, na acepção literal desta palavra ("não-sentido", carente de sentido, sem sentido). Tornam-se, contudo e ao mesmo tempo, poderosíssimos instrumentos de manipulação, uma vez que a carga axiológico-emocional difusa que eles carregam fazem com que, ao ouvinte comum, a simples acusação de que alguém é "não-democrático" ou "anti-democrático" lhe infunda a certeza de que este alguém e realmente mau, muito mau. Pior: como a palavra deixou de ser veículo de uma idéia, de um sentido racional, para ser mecanismo de infusão de um sentimento, será muito mais difícil ao acusado ou a um terceiro reverter o efeito persuasivo que a acusação teve no espírito do ouvinte; não se cuidará mais da demonstração racional da falisdade de um juízo fático, mas de uma verdadeira terapia, um verdadeiro exorcismo, em que o sujeito terá que pergorrer um longo processo para revolver sua psique, refazendo os caminhos pré-conscientes que o levaram a ter aquela reação automática (fulano é anti-democrático; ele é mau, muito mau). A manipulação semântica se torna, assim, o mais eficaz mecanismo de lavagem cerebral já concebido (sobre o assunto, vide, também de Olavo de Carvalho, o excepcional artigo "Lógica da Mistificação ou o Chicote da Tiazinha").

É este o caso. Talvez o leitor comum precise de um esforço singular de atenção para perceber que a simples invocação do critério democrático/anti-ou-não-democrático para qualificar uma negociação comercial internacional, no contexto em que tal invocação é feita no enunciado da questão, é simplesmente nonsense, algo desprovido de sentido.

O compromisso democrático que os EUA, enquanto Estado-Nação, têm, é exclusivamente com o povo americano, não com o Brasil, Cuba, Colômbia, Venezuela ou outros países que tanto admiram e amam os americanos e que estão sempre dispostos a estender-lhes solidariedade em todos os momentos. O dever jurídico-político (e moral) dos EUA numa negociação comercial internacional consiste, portanto, na fidelidade à vontade do povo americano. A única hipótese, portanto, em que se poderia cogitar de avaliação da postura dos EUA na negociação da ALCA à luz de um critério de fidelidade ou não à democracia seria a de averiguação da conformidade desta postura com a vontade do povo americano.

Não é este, contudo, o sentido em que o termo foi utilizado no enunciado do professor. Em nenhum momento este iluminado mestre sequer cogitou da defesa da vontade do povo americano. O que ele quis dizer foi precisamente o contrário: que os EUA, ao defenderem os interesses comerciais de seu país (e, portanto, presumivelmente, do povo americano), foram anti-democráticos - o que implica, rigorosamente, na afirmação de que o compromissso maior de um governo não é o respeito à vontade e a busca do bem-estar do seu povo, mas sim o atendimento à vontade e a busca do bem-estar de governos ou povos estrangeiros. Como se vê, uma postura altamente democrática e sã de gestão da coisa pública.

O fato do enunciado afirmar, implicitamente, que é isto, precisamente, o que o Governo Brasileiro vem fazendo ao se sujeitar ao Consenso de Washington, e de afirmar, também implicitamente, que essa vassalagem é o fim da picada, a mais alta traição ao povo brasileiro, não é mera coincidência. Na lógica dual do professor, "democracia" (no sentido em que o termo é utilizado para criticar os EUA) só é bom pros outros; para nós, José Bové para Ministro das Relações Exteriores!

Finalmente, chegamos à pérola, à cereja do bolo: a postura dos EUA na negociação da ALCA foi "desigual".

Fica realmente difícil saber qual dos três adejtivos - "unilateral", "não-democrático" e "desigual" -, usados no enunciado do professorzinho como pretensos sinônimos (e, portanto, com pura finalidade retórica, de persuadir pela repetição disfarçada da mesma idéia - idéia não, sentimento, como visto) é mais imbecil, data maxima venia.
"Desigual" é um termo relacional, que expressa um juízo de comparação entre dois objetos. Alguma coisa é desigual a outra coisa. Não tem sentido falar: "fulano é muito desigual".

Justamente por isto, o juízo de desigualdade exige um critério comparativo. No limite, se adotarmos como critério a substância individual, nada é igual a nada, ou melhor, uma coisa só será igual a ela própria, e isto precisamente é o que se define por identidade. Dizer que eu e você somos desiguais, neste sentido, é dizer o óbvio: eu e você somos indivíduos distintos, temos identidades distintas, não somos a mesma pessoa. Se o juízo de desigualdade não se baseia neste critério de identidade, contudo, será preciso descobrir qual o critério utilizado. Este critério pode ser mais abragente (genérico) ou restrito (específico). Eu e você somos iguais enquanto homens (homo sapiens) e, enquanto homens, somos diferentes de uma vaca. Nós três (eu, você e a vaca) somos iguais enquanto animais; desiguais, portanto, segundo este critério, das plantas e dos vírus. Se o critério for mais amplo, eu, você, a vaca, as plantas e os vírus, protozoários e bactérias seremos iguais enquanto seres vivos.

Na medida, contudo, em que, desde as especulações dos gregos e romanos, a idéia de igualdade é freqüentemente associada à de justiça, o termo "desigual" é utilizado, hoje, como mais um código subliminar. Desigualdade = injustiça; logo, "desigual" = injusto. Esta deturpação da sã especulação filosófica em torno do problema da igualdade e da justiça já se transformou na mais grava de patologia pisco-social da história. A obsessão igualitária domina todos os espaços de "discussão" pública, apresentando apenas variação de matiz, segundo o critério preferido dos novos Prometeus, os reinventores de mundos e homens. Todos querem reformar o mundo e o universo, eliminar todas as desigualdades segundo o critério de preferência de cada grupo. Os ecofanáticos querem direitos iguais para homens, animais, plantas, fungos, protozoários etc; as feministas querem leis que proíbam o mictório de parede, obrigando os homens a mijar sentados no vaso (não é gozação, algumas universidades da Escandinávia já adotam esta política, tendo abolido a separação de banheiros masculinos e femininos), os ativistas gays querem que as crianças aprendam desde o jardim de infância que qualquer forma de exercício sexual é permitida, desde a pedofilia à coprofagia, passando pelo sadomasoquismo e pelo fist fucking (introdução do punho, fechado, de um "parceiro" no ânus do outro) - o que já vem ocorrendo, registre-se, em inúmeras escolas dos EUA.

E os comunistas, nunca saciados, querem eliminar toda e qualquer diferença econômica entre as pessoas - à exceção, evidentemente, daquela, necessária, justa e inevitável, entre os membros da nomenklatura, do Partido, os Grandes Timoneiros, os reengenheiros iluminados a quem a História designou para a reconstrução do mundo, e o resto dos mortais (tal como aconteceu em rigorosamente todos os regimes comunistas da história, campeões absolutos de desigualdade social entre os servos do regime e a casta da burocracia estatal detentora do poder - e, precisamente por isto, como não podia ter deixado de acontecer no Brasil, em que a consolidação do socialismo está em seus estágios finais; para quem duvida, recomendo a leitura da excepcional matéria do "Estadão" de domingo passado http://www.estado.estadao.com.br/editorias/2002/09/22/pol028.html).

Essas cogitações, contudo, passam léguas ao largo do enunciado da prova. Note-se que o enunciado consegue realizar a proeza erística de ocultar, ao valer-se da palavra "desigual", tanto o critério comparativo quanto o objeto comparado. Não se sabe à postura de quem se compara a atitude negocial dos EUA no tocante à ALCA, nem qual o critério comparativo que nos permite concluir pela existência de desigualdade. Explicitar qualquer destes elementos logicamente imprescindíveis a qualquer juízo racional de desigualdade seria permitir ao aluno o exame racional deste juízo, o que o professor quer, tudo indica, a todo custo evitar. Melhor mesmo é simplesmente usar o termo "desigual", como se este dispensasse complementos. Afinal, o que o professor quer é simplesmente acionar o mecanismo de reação condicionada: desigual = injusto. Those bad mothercufkin' american bastards.

E assim, o que deveria ser uma piada termina se tornando mais uma prova concreta da transformação do sistema educacional brasileiro numa gigantesca máquina de doutrinação ideológica e manipulação psicológica - a verdadeira antítese da educação.

É impressionante como às vezes a gente se engana achando que um dia vai começar bem.


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