A Pátria do Espírito

Por Martim Vasques da Cunha


"O Patriota" (The Patriot, 2000), de Roland Emmerich, é um milagre do cinema por duas razões. Primeira, porque Emmerich conseguiu fazer um filme extraordinário, depois de ter feito duas das piores películas já feitas: "Independence Day" (1997) e "Godzilla" (1999). E a segunda, é o fato de ver uma obra que trata dos valores tradicionais como família, pecado e redenção, sem o ranço politicamente correto e - o mais perigoso - a típica pieguice americana em torno dos EUA pois, como veremos, a pátria à qual pertence o personagem Benjamin Martin não é deste mundo.

A história do filme tem um sopro épico raro, em que a dignidade do sofrimento é narrada com sobriedade. Benjamin Martin (Mel Gibson, finalmente provando que sabe interpretar algo além de "Máquina Mortífera" e o medíocre "Coração Valente") é um fazendeiro viúvo e pai de sete filhos da Carolina do Sul, que tenta manter seu mundo em ordem em plena Guerra da Independência. Ele possui um motivo pessoal para isso: durante a guerra entre a França e a Inglaterra, Martin dizimou vários soldados franceses com apenas uma machadinha, instrumento no qual era perito. Este é o passado que ele quer afastar a qualquer custo, pois Martin agora é um homem arrependido de seus feitos demoníacos, mas teme que sua família pague por seus pecados.

É o que acontecerá quando seu filho Gabriel (Heath Lodger) informa-lhe que quer entrar para o Exército dos colonos. Martin rejeita o pedido e faz isso de uma maneira brilhante em uma assembléia pública. Ao ser perguntado por que não deseja ir para a guerra, Martin responde que "não vejo diferença entre tiranos que estão há dez mil metros de distância e entre tiranos que estão há dez milhas", o que mostra muito bem a postura de um homem que já viu de tudo no terreno da política e sabe que, invariavelmente, ela acaba corrompendo o ser humano com sua sede de poder. No entanto, o que está em questão não é se a causa da independência americana é justa ou não; para Martin, a guerra tira vidas e a única coisa que ele quer é proteger sua família, justamenente para evitar que a sombra de seu passado o atormente de novo.

Mas, na verdade, em tempos de guerra não se pode fugir dela - pois ela acaba atingindo aquele que a evita de uma forma muito pior que a usual. Depois de ter-se alistado no Exército, Gabriel volta para a casa de seu pai, ferido, durante uma missão para entregar um telegrama a um general, amigo de Martin (interpretado por Chris Cooper). Na frente da fazenda de Martin ocorre uma batalha entre os ingleses e os colonos que deixa vários feridos. Martin decide ajudar os dois lados da batalha. Contudo, sua solidariedade não é bem interpretada pelo Coronel Tavington (Jason Isaacs, assustador) que, num ato de disciplina draconiana tipicamente inglês, decide enforcar os sobreviventes americanos e queimar a casa de quem ajudou os inimigos. Tendo a informação que Gabriel é um mensageiro dos colonos, decide capturá-lo, e assim Thomas, irmão caçula de Gabriel - que também queria se alistar no Exército -, intervém na discussão, sendo baleado a sangue-frio por Tavington.

É a partir daí que "O Patriota" realmente começa. Benjamin Martin se vê na obrigação de seguir o filho Gabriel na guerra, não por uma questão de acreditar na causa ou por um motivo de vingança, e sim, para manter a unidade de sua família. É a famosa ira de Aquiles, como diria meu amigo José Nivaldo Cordeiro: o sujeito é pacífico até o momento em que pisam no calcanhar daqueles que lhe são mais queridos e próximos. A cena em que Martin entrega armas para seus dois filhos pequenos, depois de decidir que resgatará Gabriel das mãos de Tavington, é vibrante pelo simples motivo que qualquer um em sã consciência faria o mesmo.

Contudo, o dilema que envolve Martin não é apenas o político ou o emocional. Conforme o progresso de sua odisséia, ele verá que se trata de uma luta por sua alma, em que seu passado demoníaco volta para revelar, no fim, um homem redimido aos olhos de Deus. Nesse sentido, "O Patriota" é um filme profundamente religioso, e mostra com muita elegância os tormentos de ser um cristão em um mundo onde a ambiguidade impera e a salvação parece ser quase impossível. Nada mais interessante do que pôr estas questões em uma história que tem como pano de fundo, uma guerra pela independência de uma pátria que é também pela independência do Espírito.

Martin se confronta com o Diabo na figura do Coronel Tavington que, apesar de sua crueldade, é um marionete nas mãos de Lord Cornwallis (Tom Wilkinson), talvez um ser mais demoníaco ainda, pela sua frieza em decisões militares - na batalha decisiva, ele fala que "tomaremos seus espíritos" [o dos colonos]. Na época em que o filme foi lançado, historiadores o criticaram pelo fato de que seria impreciso e incorreto, especialmente no modo de retratar os ingleses. Ora, isto é uma crítica fajuta: se alguém quer ver um filme correto em termos históricos, que veja um documentário tedioso no People and Arts. Isto é um filme de ficção, em que a suspension of disbelief é atingida plenamente, graças a uma direção que deixa o enredo se desenvolver com calma, algo raro em se tratando de um blockbuster, ainda mais dirigido por Roland Emmerich.

Talvez o grande motivo de vitória do filme seja o roteiro de Robert Rodat, historiador que se tornou roteirista, e escreveu também "O Resgate do Soldado Ryan", que tinha até uma boa premissa, se não fosse estragada pela visão pseudo-talmúdica de Spielberg. Basicamente, o tema de "O Patriota" trata do relacionamento de um homem com sua família, e todas as decisões e escolhas que isso implica. Como diz Benjamin Martin ao ouvir a pergunta de um amigo - "Você não acredita na causa?" - quando se é pai não se tem este luxo. Mas é por causa de Gabriel, que acredita na causa da independência e leva outras pessoas nela, que Benjamin Martin se vê obrigado a torná-la realidade. Não há uma razão política ou oportunística; seu único motivo é que ele entrou em um caminho em que não há mais volta.

Este caminho é o da salvação da sua alma, e é óbvio que o Diabo fará a sua parte na trajetória. Tavington é a personificação do Cão quando ele entra montado num cavalo (por si só, um animal com um forte simbolismo demoníaco), na igreja, onde queimará os habitantes de uma cidade que ajudou a milícia de Benjamin Martin; a ressonância se acentua quando ele mata um pastor e dizima a família de um dos soldados, forçando-o ao suicídio. Para pessoas como Martin, a família é a razão de sua vida, o elemento central que lhe dá todo o sentido. Ele foi um assassino, mas o fato de ter sido pai e marido o mudou profundamente, como atesta o próprio Gabriel numa cena. Contudo, para acabar com o demônio dentro de sua alma, Martin terá de perder mais do que o necessário para ter, então, a humildade perfeita.

A cena em que Martin vela o corpo de seu filho Gabriel, depois que ele é assassinado por Tavington (que, por sua vez, matou sua noiva no incêndio da igreja), mostra como a dúvida permeia a fé do homem religioso. "Como o homem pode encontrar algo que justifique a morte?", sussurra Martin naquele modo contrito que torna a revolta um daqueles segredos entre o homem e Deus. A causa do filho só pode ser completada pelo pai e, nessa inversão da ordem das coisas, Martin se vê obrigado, no meio de uma batalha em que poderia acabar de uma vez com a raça de Tavington, a superar o bem pessoal a favor do bem comum. Aqui reina a dialética da circunstância que move a vida do homem religioso, aquele que sabe que Deus não é uma mera abstração e que a vida do Espírito é a única que importa: a história pessoal e a história geral se imbricam de tal forma que elas se tornam um amálgama, algo único, em que o indivíduo deve escolher (ou, para complicar o problema, é obrigado a escolher) entre o bem próprio e o bem comum. O primeiro seria a queda no individualismo, no homem que se fecha no seu próprio umbigo; o segundo seria a ascensão da individualidade, em que a pessoa preserva sua diferença em relação aos outros, respeita-a e, por isso mesmo, decide repartí-la com seus semelhantes.

Neste momento, Martin resolve refazer a linha de frente, erguendo a bandeira americana costurada por seu falecido filho, e muda o curso da batalha. Só depois que o bem comum foi realizado, então a redenção individual será alcançada: Tavington e Martin se encontram. Numa luta sangrenta - como deve acontecer quando Deus e o Diabo se confrontam - Tavington fere gravemente Martin, que se ajoelha e vê a bandeira de seu filho como o símbolo da vitória. "Você disse que iria me matar antes do final desta guerra. Não conseguiu. Prova que você não é um homem melhor", diz ironicamente o coronel inglês. De joelhos, Martin rapidamente pega um arpão empalha Tavington, não sem antes responder: "Você está certo. Não sou um homem melhor. Meus filhos foram melhores do que eu". O homem religioso consegue exterminar o Diabo de dentro da sua alma quando tem noção que seus fillhos serão os continuadores e os aperfeiçoadores de sua obra na Terra, estejam vivos ou mortos.

Embora não seja um filme de autor - lembrem-se que o diretor deste milagre é o abominável Roland Emmerich -, "O Patriota" apresenta uma complexidade temática que ainda deixa muitas cenas para serem analisadas corretamente. No entanto, fica claro que o patriota do título pode ser alguém que lutou pela pátria dos EUA, mas também alguém que lutou pela pátria de seu Espírito. Este parece ser o caso de Benjamin Martin. A maior prova dessa observação é o seu final quando ele, casado com uma nova mulher (a irmã de sua mulher) e com os filhos que lhe restaram, volta para o local onde morava, e encontra os soldados de sua milícia reconstruindo a sua antiga casa, como prova de amizade. Depois da guerra, a única coisa que se deseja não é apaz, mas a possiblidade de recomeçar. A luta para o cristão sempre continua, e a História nunca deixará de pregar suas peças na sua trajetória enquanto indivíduo. Talvez este seja o mistério em torno do Cristianismo: o de se refazer constantemente, sem medo de enfrentar a próxima batalha. E será tal mistério que irei analisar na semana que vem em "O Indivíduo", quando comentarei sobre o livro de Paul Jonhson, "História do Cristianismo", recém-publicado no Brasil.

Martim Vasques da Cunha é escritor e jornalista
Leia seus outros artigos em O Indivíduo



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