A Silhueta

Vou engraxar os sapatos assim que chegar lá, pensou enquanto observava o quanto de pó havia acumulado no couro de seus calçados. As barras da calça também estavam com amostras vermelhas de barro. Deveria fazer a barba? Seu rosto estava muito áspero. Olhou o relógio - faltavam duas horas para o aviso do embarque.
Observou o saguão de espera onde estava. Nenhuma música saía dos auto-falantes. Uma voz rouca alertava os passageiros sobre os números dos vôos e os corredores de saída. Tempos atrás podia-se escutar uma mocinha cantando "Across the universe", expandindo as sílabas - "Nothiiiingggg issss gonnna chhhhange my worrllld" -, ecoando seus acordes e melodias adocicadas, como uma elegia a essa violência chamada viagem. Mas agora havia somente a rouquidão dos avisos, alguns passos e as folhas das revistas virando cada minuto de espera.
Pigarreou. Levantou-se e foi até uma pequena banca de revistas ao lado. Fitou o vendedor - um chinês balofo que lançava mil olhares para mil lados. As revistas eram coloridas, as capas cheias de fotos chamativas - seria possível usá-las para criar uma linguagem cifrada e assim enganá-los? Não fizeram isso na Segunda Guerra Mundial? O rosto do balofo lhe avisou que não, isso não seria possível de forma alguma. Tirou a carteira, viu o maço de dólares que tirara do banco dias antes, sacou uma nota de dez, pegou uma revista literária e pagou o chinês. Sequer se preocupou com o troco. "Boa escolha", o balofo parecia dizer com seu silêncio; "Você acha?", foram o que seus olhos de dúvida responderam, enquanto a boca emitia um miúdo "De nada". Palavras nunca significavam o que era realmente dito. Por isso, preferia o desenho e a pintura - pelo menos era a imagem de alguém ou de qualquer coisa, não o que ela poderia representar neste mundo sem representação.
Voltou a sentar. Abriu a revista: na página dez, uma entrevista com um poeta que pregava a morte do verbo. Na página vinte e cinco, cerca de oito resenhas em torno de livros com um único tema - revoluções. Depois, uma extensa reportagem sobre as memórias de um padre que deixou a Igreja e virou guerrilheiro. Neste momento, sem saber o motivo - talvez o hábito do instinto -, olhou para trás e para o lado. À sua esquerda, uma mulher que fitava o vidro do saguão. À sua direita, uma série de lugares vazios. Algumas comissárias e comissários de bordo passeavam pelos corredores.
Fechou os olhos. Que droga de revista. O relógio do aeroporto estava cinco minutos adiantado em relação ao seu. Como pode isso acontecer, se o tempo é apenas um único tempo? Deixe de filosofias. Concentre-se em pegar esse avião e chegar lá intacto.
- Com licença?
Não era uma voz rouca. Era delicada, fina, quase estridente.
- Sim?
- Você está lendo a sua revista?
As páginas estavam dobradas no seu colo, esquecidas. Sorriu, abobalhado.
- Não, não estou.
- Poderia me emprestar um pouco? Está muito chato ficar esperando sem ter nada para ler.
- Claro. Fique à vontade.
O rosto dela não era simétrico. Mas nenhum rosto humano é simétrico - as aulas de retrato ainda o perseguiam. As aulas de retrato e de silhueta.
Entregou a revista. As mãos dela eram leves nos dedos pontiagudos, deveriam ser muito ágeis. Ela passou a folhear as páginas, lambendo a ponta do indicador com sua língua seca.
- Seu perfil não me é estranho.
Por quê raios foi dizer aquilo justo agora?
Ela se virou. Os olhos eram azuis e de uma opacidade resplandecente. Deveria ter quantos anos? Deveriam ter a mesma idade? Quarenta e quatro, quarenta e cinco anos?
Não. Quarenta e dois anos de idade.
O nariz era ligeiramente torto, em especial na ponta. Sua habilidade como retratista poderia afirmar que ela passou por algumas cirurgias para chegar nesse estágio suportável. Mas um detalhe deixou-o sobressaltado: os olhos dela foram direto para o seu crucifixo de prata pendurado no pescoço.
- É verdade? Por acaso lhe faço lembrar de alguém? - o tom era simpático - Uma mulher?
- Certamente uma mulher.
- Uma mulher bonita?
Ficou atrapalhado. Ela sorriu e voltou a folhear a revista.
Nenhum rosto é simétrico. Mas qual é? - ainda tinha nos ouvidos o modo cristalino que o professor pronunciava as sílabas das lições, nas aulas de retrato: "ssssimééétriiiicooo".
Entre uma página e outra, o crucifixo ainda pendia sobre os olhos.
A simetria somente pode exisistir na geometria e nas sombras, o professor continuava a explicar dando constantes pausas, para refletir qual a palavra correta a ser usada. Na geometria e nas ssssoooombrassss, nunca na vida real.
- Vai para onde? - ela continuava a ler a revista.
Acomodou-se melhor na cadeira. O vidro do ságuão tornava ambos os reflexos mais reais do que o próprio mundo. O céu estava nublado, o dia todo foi encoberto por uma película ácida de chuva, mas um calor pegajoso começava a surgir naquele aeroporto.
- Vou... vou para Londres.
- Não gosta daqui?
- Gosto.
Usou a pausa do professor.
- Gosto, gosto tanto que já sinto saudades.Tenho saudades de um bom banho e de uma boa gilete.
Resolveu ter o seu lance de perguntas:
- E você? Também vai à Londres?
- Não. Vou para a Alemanha.
- Fazer o quê?
- Vender alguns produtos...
- Ah, é vendedora. Do quê?
- Produtos de Natal. Sabe como é, temos de nos apressar. A época já está chegando.
- Acho que você está um pouco atrasada. Faltam duas semanas para o Natal.
Ela parou de ler a revista.
- Sim, é verdade. Mas é nesse período que as vendas aumentam.
- Só se forem as vendas de última hora.
- É claro - voltou a sorrir - as vendas de última hora. Mas sou a responsável por elas.
Fechou a revista. Entregou a ele:
- Obrigado.
- Pode ficar com ela. Nem sei porque comprei.
- Não achou boa?
- É uma porcaria. Sei disso tudo de cor e salteado.
Pela primeira vez, naquela semana, desabafou. Parecia um alívio, mas agora parecia que estava preso a alguma corrente que fugia do seu controle.
Você pode encontrar simetria em um triângulo, um quadrado, um
trapézio, até mesmo um cilindro. A circunferência e as retas
paralelas são os exemplos clássicos.
Os gestos do professor eram cadenciados, leves, tinham uma música própria,
uma precisão reptiliana.
Mas não podemos encontrar simetria em uma árvore ou em uma montanha.
Até mesmo o céu não é perfeito e bem acabado. Até
mesmo o sol e as nuvens. Neste ponto, Deus criou um mundo imperfeito - e nós
temos que torná-lo perfeito.
E as sombras, professor? Onde entram as sombras?
O professor desprezava quem o interrompesse, mas achou interessante o comentário sobre as sombras. É mesmo, ele disse. As ssssoooombrassss. Esqueci-me das ssssooooombrasss.
- Quem era ela?
- Como?
- A mulher que lhe faço lembrar?
- Ah...
- Uma namorada? Uma amiga?
- Não. Não sei. Para ser exato, mal me lembro dela.
- Mas você se lembrou dela agora.
- Sim, agora. E de novo me esqueci.
Ela guardou a revista bem no fundo de sua bolsa. Remexeu em algumas coisas.
- Como você pode se esquecer das pessoas?
- Isso acontece o tempo todo.
Como fui me esquecer das sombras, perguntou o professor, e deve ter sido essa questão que o atormentou até a tarde em que se dirigiu ao um parque para ver as criancinhas brincando, sentou em um banco, deu um tiro na têmpora esquerda e deixou a sombra de seu sangue fertilizar o solo.
Foi logo depois do telefonema, lembra?
Sei quem você é, professsssorrr.
Ele havia conhecido o professor melhor durante as aulas de silhueta. Um dia, se apresentou e disse: Quero aprender a desenhar as sombras.
- Eu não me esqueço de ninguém que passou pela minha vida.
A voz rouca anunciara: Vôo para Londres - 737. Partida vinte e trinta. Partida vinte e trinta.
Já se passaram uma hora e meia.
- O que você faz? - ela perguntou.
- Eu? Sou pintor. Pintor de retratos, na verdade.
- Sério?
- Sim.
- É verdade que o rosto humano não é simétrico?
- Dizem que sim. Mas não acredito nisso.
- Como você não acredita? Você é pintor! Deveria saber disso!
- Eu sei disso. Saber não significa que eu acredito.Você nunca
pode tornar um rosto perfeito. Um rosto guarda segredos, dores, cicatrizes em
que o pus já se cristalizou no fundo da retina. Se você deseja
a perfeição, escolha as sombras. Comece a desenhá-las.
Você sabe como fazer isso.
Não. Não sei.
- Não sei muita coisa sobre pintura - ela remexeu no fundo da bolsa de novo - mas gostaria de saber. Você poderia me ensinar?
Retocava o rosto com um pouco de maquiagem.
Ele ficou surpreso com a pergunta:
- Ensinar o quê?
- O que você sabe.
- Em menos de uma hora? Impossível.
Impossível desenhar uma sombra perfeita.
O crucifixo de um olho para o outro.
Para desenhar uma sombra perfeita você tem de ter um modelo perfeito. Escolherei um para ti.
- Nada é impossível.
- Quem lhe disse isso?
O corpo seminu com apenas uma toalha cobrindo o púbis. Fique calma.
Fique calma. Muito calma.
Eu estou calma.
- O homem que você pendurou no pescoço.
Ele abaixou o queixo para encontrá-lo. Não conseguiu. Tomou-o com a mão direita e brincou entre as pontas do indicador e do polegar.
O olhar dela ficava cada vez mais opaco no limpo reflexo do vidro.
- Você não é católico?
Virou-se rapidamente:
- Por quê pergunta isso?
Tente desenhar a sombra, disse o professor tocando na nuca dele.
Fique calma, Muito calma.
- O crucifixo. Hoje em dia só se usa um crucifixo se for católico. Você é?
Ela parecia querer ter a certeza.
- Sim, sou católico. Ou acho que sou. Não sei.
- Você não acredita em milagres?
Pensou um pouco sobre isso:
- Não. Nunca acreditei nisso.
- Por isso você não acredita no impossível.
O dedo do professor roçando a penugem de sua nuca.
Não parrrecccceee um garotinho?
Fique calma.
O púbis despido, sem nenhum membro, o corpo eriçado.
Desenhe a ssssoooombraaaa. Vamos, desenhe.
- Já sei. Você não quer me desenhar.
- Nada disso.
- Não quer me desenhar. É isso. Certeza absoluta.
Pela primeira vez, ela mostrou os dentes. Eram limpos, claros, afiados nos caninos.
- Como posso desenhar você? Nem tenho papel ou caneta.
- Isso não é problema. Tenho uma caneta aqui na bolsa e quanto ao papel...
Sei quem é você, prrrofessssorrrr.
Alô? Quem fala?
Deixa que eu atendo.
Está tocando o telefone, querido.
- ....tome esse guardanapo. Olhe como isso está presdestinado!
Ele sorriu ao escutar essa frase tão batida.
Vou ao parque ver as crianças. Tudo bem?
Tudo bem, querido. Bom passeio.
Sei quem é você, professor.
Como fui me esquecer das sombras?
- Como você vai me desenhar?
Ele estava com o papel e a a caneta armados.
- Vou desenhar a sua sombra.
- Como?
- A sua silhueta. Vou fazer a sua silhueta.
- É possível?
- No atual momento, é a única coisa possível.
O dedo na nuca.
Tire o pano, por favor.
O púbis eriçado.
Não é uma beleza de modelo?, perguntou o professor. Ela é
a sombra que procurávamos. A silhueta perfeita. E o melhor: não
parece um garotinho?
Fez uns traços simples no guardanapo. Ela estava gostando da experiência.
- Quero ver como você vai consertar o meu nariz torto.
- Você vai ver.
Aproxime-se dela.
Fique calma. Muito calma.
Ele se despiu, deixando apenas o crucifixo no pescoço. O professor esfregou sua unha comprida pela sua espinha.
- Você vai demorar muito? Lembre-se que temos de pegar um avião.
- Vou fazer tudo com muito cuidado.
Deve-se fazer tudo com muito cuidado para que ninguém nos ouça.
Claro, professor, claro.
Aproxime-se dela e deixe a sombra por minha conta.
- Espero que sim.
Em menos de quinze minutos ele terminou a silhueta dela.
- Pronto.
Não. Não. NÃO! NÃO POR FAVOR NÃO!
- Deixe-me ver.
Agora sim teremos a silhueta perfeita, ele suspirou com afeição.
Duas sombras.
Ela pegou o guardanapo e olhou:
- Está perfeito. Nem parece que sou eu.
Duas sombras uma atrás da outra.
A voz rouca avisava - Vôo para Londres 737. Embarque dentro de trinta minutos. Embarque dentro de trinta minutos.
Ele se preparava para levantar e embarcar. Seu corpo estava cansado, seu músculos doloridos.
- Foi um prazer conhecê-la - disse.
Duas sombras uma atrás da outra unindo-se tornando-se uma única silhueta na claridade da parede um rosto fitando o teto um segundo fixo no papel e no lápis e um terceiro no chão o sangue espesso vazando pela narina esquerda.
- O prazer foi meu - ela voltou a sorrir - Mas antes de ir embora quero lhe fazer uma pergunta.
Sei quem é você, professor.
- Fale.
- Por quê você está fugindo?
- Eu não estou fugindo. Por quê deveria?
- Você está fugindo, Felipe.
Embarque dentro de vinte minutos. Embarque dentro de vinte minutos.
- Todos nós estamos fugindo - ele disse - Fugindo de alguma coisa: de nós mesmos, do mundo, da vida.
- Eu nunca precisei fugir, Felipe. Vocês me deixaram aprisionada pela
vida toda.
Ele deixou a mala no chão e deu dois passos para trás. Sussurrou:
- Clarice.
Os olhos dela confirmaram o nome com uma sombra atravessando as pupilas.
Continuou a andar para trás.
- Calma, Clarice. Calma. Faz muito tempo. Muito tempo.
Antes de se levantar, ela pegou uma arma na bolsa e escondeu no casaco.
- Como você conseguiu isso?
O sorriso dela foi apenas no lado esquerdo:
- Os tempos mudaram, Felipe, especialmente para você.
Ela tropeçou e começou a andar mais rápido até alcançar um corredor estreito. Ela caminhava passo ante passo, a voz rouca avisando que o embarque seria dentro de dez minutos.
Virou em um outro corredor à direita e entrou em um banheiro. Logo na entrada, deparou-se com seu reflexo no espelho. Seu rosto não mais lhe pertencia. Sei quem é você, professor. Escondeu-se num vestíbulo, agachado ao lado do vaso sanitário. Encostou as costas na parede gelada. Na mão direita, o crucifixo de prata. Não conseguiu esboçar sequer uma reza. Com os olhos fechados esperou ver, através do vidro empoeirado do vestíbulo, a última silhueta que a sombra de sua mente iria registrar.
Martim Vasques da Cunha é escritor e jornalista
Leia seus outros artigos em O Indivíduo