O Silêncio do Ventre

Por Martim Vasques da Cunha


"Behind every beautiful thing, there´s been some kind of pain"
(Atrás de toda coisa bonita, há alguma espécie de dor)

Bob Dylan, "Not Dark Yet"

Quando o doutor Freud disse que a mulher era um "continente obscuro", ele não imaginava que, setenta anos depois, Luana Piovani fizesse questão de mostrar que a tal da obscuridade se tornou um dom perdido. Seu ensaio na revista Trip é a prova de que a beleza é mais uma maldição do que propriamente uma vantagem. Vejam bem: este texto é escrito por um homem, que acha Luana Piovani uma moça digna de se tirar um suco num sábado à noite, mas só. Existem mulheres melhores, muito melhores - o problema é encontrá-las, e isso é tão difícil quanto encontrar ouro nas abusadas minas de Serra (ops!) Pelada.

O grande problema do ensaio da srta. Piovani é que sua beleza oculta uma tragédia marcante. Se alguém prestar atenção nas fotos apenas com interesse puramente científico e não masturbatório, é só olhar naquelas pupilas brilhantes, desejosas de fama e prazer imediato - pois ninguém faz um ensaio daqueles por pura caridade - e concluir que, apesar de toda a firmeza de busto e coxas da donzela, o espírito sumiu daquele corpo, e, assim, o que temos não é uma mulher em estado digno, mas uma ruína de mulher. Uma ruína impecavelmente bonita, como as de Roma, Atenas e Coimbra.

Contudo, isso só é o primeiro sinal do diagnóstico que esta meditação pretende fazer nas páginas seguintes. É uma pena que a srta. Piovani seja usada como um exemplo. O ideal é que fosse uma outra moça, mas a atriz global é uma amostra de que a mulher perdeu completamente a noção básica e vital, não só na consciência moral de uma nação (como é o caso do Brasil), como também o seu próprio papel no drama da redenção humana. O que nos leva a dar um aviso aos navegantes: este não será um texto "feminista" ou "machista". Será um texto duro, incisivo, que tenta ir direto ao problema apresentado e não quer saber de soluções, já que, na verdade, elas só aparecem depois da ferida ser cutucada, nunca quando elas estão escondidas pela casquinha que coça, coça, mas ninguém quer arrancar por medo. Sim, o xis da questão está na mulher, e talvez seja na sua obscuridade que encontraremos algum rumo. A pergunta que não quer calar é: Como agarrar esta obscuridade sedutora, se a mulher só está em busca de uma luz pálida?

Mas voltemos à srta. Piovani. Há sete anos ela era uma jovem modelo, com mil e um fãs, um exemplo de uma beleza que havia alcançado um prestígio incomum: atriz da Rede Globo, atriz de teatro, entrevistas, fotos nas colunas sociais, namorados famosos. Aos 27 anos, ela viveu mais do que deveria, por assim dizer. Uma de suas mais brilhantes declarações captadas por uma mais brilhante imprensa foi: "Só mostro a minha perereca por um milhão de dólares". Ela não mostra tal órgão na revista Trip (apesar de insinuá-lo sob véus e mais véus), mas seu olhar, seus gestos e seu suposto sorriso dão a entender, embaixo de quilos de maquiagem e bytes de fotografia manipulada no computador, que estamos diante de uma moça à beira de um ataque de nervos, com um nervous breakdown mais ao estilo de Kierkegaard do que propriamente Pedro Almodóvar.

Contudo, não há nenhum salto de fé neste desespero da srta. Piovani. Seu estado mental degradante - observado claramente no reflexo distorcido de suas pupilas - é típico das mulheres que hoje estão no comando dos relacionamentos humanos entre os dois sexos opostos. Veja bem, caro leitor - ou leitora, se chegou a tal ponto: a srta. Piovani não é a única amostra, mas sim uma delas - senão a mais famosa. Existem milhares contaminadas por este vírus da perda de rumo, para não falar da perda do verdadeiro sentido de vida que liga a mulher ao homem e vice-versa. A trilha sonora destas senhoritas poderia ser muito bem o refrão de um cover de um clássico dos anos 80, feita pela cantora Tori Amos: "Strange little girl, where are you going?" (Garotinha estranha, onde você está indo?).

Para o inferno, poderia ser a resposta, mas é a própria Amos que nos dá uma possível e triste alternativa. Que tal o silêncio? No seu novo álbum, "Strange Little Girls", Amos recria canções sobre mulheres, compostas por homens como Lou Reed, Neil Young e Joe Jackson. O resultado seria excelente, se não fosse por uma versão politicamente correta de "Happiness is a Warm Gun", em que George W. Bush declama sobre o armamento dos cidadãos americanos - prova do que acontece quando a política interfere na feminilidade da mulher, até mesmo nos assuntos amorosos. Contudo, existem três covers que valem o preço do risco: "Enjoy the Silence" (do grupo techno Depeche Mode), "Raining Blood" (do grupo de heavy-metal Slayer) e "Real Men" (de Joe Jackson) - isso sem contar a versão melancólica de "Time", de Tom Waits, e a pirueta que ela faz em "Bonnie & Clyde", do - sim, garotas, assustai-vos! - rapper Eminem.

Parece uma salada indigesta, mas Amos é inteligente o suficiente para o trem não sair dos trilhos. "Enjoy the silence" se tornou uma canção triste com um piano esparso e uma voz tímida, como se buscasse no silêncio o único refúgio possível: "Vows are spoken/ To be broken/ Feelings are intense/ Words are trivial/ Pleasures remain/ So does the pain/ Words are meaningless/ And unforgettable" (Vogais são faladas/ Para serem quebradas/ Sentimentos são intensos/ As palavras são triviais/ Os prazeres permanecem/ Mas também a dor/ As palavras são sem sentido/ E inesquecíveis). Este isolamento tem como contraponto a revolta de "Raining Blood", uma revolta que chega às raias do satânico, tudo sussurrado com um piano calcado nas notas graves, deixando a melodia seguir um ritmo de horror interno, prestes a explodir - "Raining blood/ From a lacerated sky/ Bleeding its horror/ Creating my structure/ Now I shall reign in blood" (Chovendo sangue/ De um céu lacerado/ Escorrendo seu horror/ Criando minha estrutura/ Agora eu reinarei no sangue). Claro que sempre terá um engraçadinho que pensará que esta canção fala mais sobre as funções fisiológicas de um determinado período do mês feminino, mas ninguém aqui é ginecologista ou mórbido para cair numa interpretação baixa de uma situação mais baixa ainda.

Em "Real Men", Amos reclama como a boa feminista que se esconde sob sua pose de artista. "Time to get scared/ Time to change plan" (Tempo de ficar assustado/ Tempo de mudar os planos), ela canta com um sarcasmo amargo "Don’t know how to treat a lady/ Don’t know how to be a man/ Time to admit/ What you call defeat/ ‘Cause there’s women running past you now and you just drag your feet" (Não sei como se trata uma dama/ Não sei como ser um homem/ Tempo de admitir/ O que você chama de fracasso/ Porque existem mulheres atravessando você e você só está atolado). Onde estão os homens de verdade?, Tori Amos pergunta. Ora, bolas, se os homens perguntam onde estão as mulheres de verdade, e as mulheres fazem a mesma coisa, o que raios está acontecendo? Há alguma coisa errada nesta história. Aqui chegamos a um ponto de retorno que até agora fomos guiados por duas senhoritas, uma menos inteligente, a outra um pouquinho mais. Está na hora de ir buscar a visão de um homem - no caso, um homem sufocado numa selva das Filipinas, dirigindo uma odisséia no coração das trevas em que soldados americanos encontram, em um Vietnam insano, duas coelhinhas da Playboy prontas para fazerem sexo em troca de cinco litros de gasolina.

A cena está em "Apocalypse Now Redux", a nova versão do clássico de Francis Ford Coppola, remontado pelo próprio e lançado no ano passado. O capitão Willard (Martin Sheen) está com seus soldados, subindo o rio para alcançar a aldeia onde está o alvo de sua missão: o coronel Kurtz (Marlon Brando). No meio da jornada, eles encontram duas modelos da Playboy que fizeram um show para o Exército americano dias antes e que estão abandonadas numa aldeia porque a gasolina do helicóptero acabou. Vendo que seus soldados precisam dar uma descarga de fluídos emocionais para se manterem relativamente sãos durante a exaustiva viagem, Willard negocia cinco galões de gasolina com o empresário das moças em troca de uma noite de sexo com os pobres rapazes.

É uma cena de dar nos nervos. São apenas duas playmates para cinco homens. Willard prefere ficar dentro do barco, junto com outro soldado. Somente Chief (interpretado por Frederick Forrest), Lance (Sam Bottoms) e Clean (Laurence Fishburne) querem gastar um tempo com as moças. No entanto, os escolhidos são apenas Chief e Lance - Clean fica berrando como um louco, querendo dar uma rapidinha, mas não consegue. As moças estão muito ocupadas com seus respectivos parceiros - mas não em matéria de sexo. Elas querem conversar, nada mais. Isso mesmo, conversar, mesmo que seja do modo mais desconexo possível. Agora, o bom leitor pode perguntar: será que os soldados também querem conversar? É lógico que não. Uma das playmates fica ruminando sobre o desejo de ser um passarinho, enquanto Chief reclama que "seus peitos e sua bunda não se parecem com o que eu vi na revista" ou ajeita o traseiro da moça para que possa penetrá-la melhor. A outra playmate diz que "gostaria de ter um namorado para conversar, não para trepar, só para conversar, só para conversar" e gagueja esse raciocínio por um bom par de minutos, até que Lance se prepara para um sexo oral e... bam! Um estrondo ensurdecedor dentro do quarto fétido onde os dois estão deitados, um estrondo que, por incrível que pareça, eles não deram a mínima.

A situação fica mais esquisita quando o espectador vê que a causa do barulho foi a queda de um caixão e dentro sai um defunto em estado acelerado de decomposição. Mas, mesmo assim, Lance e a playmate fazem sexo sem se importar com o morto ao lado. É uma seqüência que acentua o clima insano que Coppola retratou a guerra do Vietnam, como também mostra, com um absurdo implacável, a incomunicabilidade entre um homem e a mulher. Não precisamos de uma guerra no Vietnam para comprovar tal fato - podemos ver isso no dia a dia, no local de trabalho, na escola, na rua, até mesmo no lar, doce lar. Os relacionamentos são como o morto que cai do caixão: faz um barulho irritante, mas ninguém anuncia que acabou. Quando acaba, é com o aviso de um suspiro e o lamento de uma sombra.

Como chegamos a tal ponto? De quem é a culpa? Do homem ou da mulher? Os homens são animais racionais suficientemente burros para serem enganados pelas mulheres. Elas são de uma inteligência misteriosa, e esta qualidade, que consegue captar os mais sutis instintos do comportamento humano (não é à toa que falam no "sexto sentido feminino"), é tão afiada e tão bem usada que conseguem se tornar muito mais fúteis que uma criança de seis anos. "Frailty, thy name is woman" (Fragilidade, teu nome é mulher), murmura Hamlet para si mesmo nos corredores de Elsinore, e é só tirar a fragilidade que caracterizava o medo da solidão de Gertrudes por futilidade e, voilá, temos uma sentença ideal sobre o fim do poço que as mulheres jogaram a condição humana.

Veja bem, leitora minha, se você ainda não me mandou para o quinto dos infernos ou desligou o seu computador de tanta raiva, verá que o papel do homem na história da evolução humana é quase insignificante. O macho nunca teve vontade própria e, para falar a verdade, ele só se meteu em encrencas por causa das fêmeas. Portanto, esse papo feminista de exploração do falo é uma tremenda besteira. Uma mulher não precisa de um homem em termos precisamente biológicos e até afetivos. Hoje em dia, consegue-se esperma até de clone humano ou de qualquer desconhecido que passe pela vida afora, e a questão do carinho poderia ser resolvida com um homossexualismo feminino bem resolvido e discreto (se existe tal negócio). Quem usou e abusou do falo foi a mulher, não por prazer, e sim por necessidade. Afinal de contas, quem ia enfrentar um tigre na selva para levar comida para casa, na idade da pedra? Quem ia lutar nas guerras para defender a família? Quem acordava todas as manhãs para trabalhar no comércio e voltar, cansado, pedindo nada mais nada menos que um cafuné e um aconchego no colo? O homem, sempre foi o homem, esse bicho aparentemente forte, mas tão fraco quanto o galho de uma árvore seca. (Obs: Atualmente, no Oriente-Médio, pioneiro nas mais diferentes técnicas de matança, mulheres palestinas são usadas como bombas humanas em atentados terroristas contra Israel. O termo "usada" é o mais próximo que se pode chegar da realidade maluca que se instaurou naquela região, porque as moças em questão passaram por uma lavagem cerebral que tirou qualquer noção da conseqüência de seus atos. Ver mais sobre isso no artigo de Janer Cristaldo, "Terror explode ventres".)

A mulher não precisa do homem, mas a recíproca não é verdadeira. Um homem precisa desesperadamente de uma mulher porque ele, no seu instinto de primata que só evolui conforme a tirania do progresso o atinge, sabe que há algo mais em jogo, e o que está em jogo é justamente a vida secreta chamada espírito, e a mulher tem um papel determinante na salvação deste espírito.

O problema é que elas sabem disso - mas não dão a mínima. A grande diferença entre os homens e as mulheres é que estas têm uma autoconsciência assustadora de seus próprios atos, falas e pensamentos. É este pequeno detalhe que possibilita aquilo que Jung chamava de "a janela aberta para a eternidade" quando os opostos tratavam de se unir na "mysterium conjunctiones". Jung era, na verdade, um mulherengo empedernido que gostava de bolinar suas pacientes e explicar a elas, quando percebia que algumas tinham inteligência suficiente para entendê-lo, a sua complicada teoria do inconsciente coletivo e da anima (isso sem contar com a da sincronicidade e das relações entre psicologia e alquimia). Mas seus fabulosos insights sobre a "conjunção dos opostos" (que nome chique para falar de uma cópula!) podem nos dar uma pista do que a mulher perdeu com esta escolha idiota, de ser mais uma em busca de um tempo que já estava perdido antes de ter começado.

Para Jung, a anima (parte feminina da alma) tem como complemento o animus (parte masculina da alma) e esta relação é definida como "a personificação da natureza feminina do inconsciente do homem e da natureza masculina do inconsciente da mulher". O papel da anima é essencial nesta relação:

"A anima é o arquétipo da vida... pois a vida se apodera do homem através da anima, se bem que ele pense que a primeira lhe chegue através da razão (mind). Ele domina a vida com o entendimento, mas a vida vive nele através da anima. E o segredo da mulher é que a vida vem a ela através da instância pensante do animus, embora que ela pensa que é o Eros que lhe dá a vida. Ela domina a vida, vive, por assim dizer, habitualmente, através do Eros; mas a vida real, que é também sacríficio, vem à mulher através da razão (mind), que nela é encarnada pelo animus".

Contudo, o que marca este fenômeno - observado na vida real, como insiste bem Jung, e visto no aspecto cristão do sacríficio - é a interdependência entre o homem e a mulher. Ambos têm características que os ajudam na convivência cotidiana, apesar da natureza conflitante de suas diferenças:

"Em sua primeira forma inconsciente, o animus é uma instância que engendra opiniões espontâneas, involuntárias, excercendo uma influência dominante sobre a vida emocional da mulher; a anima é, por outro lado, uma instância que engendra sentimentos espontâneos, os quais excercem uma influência sobre o entendimento do homem, nele provocando distorções. O animus é projetado particularmente em personalidades "espirituais" e toda espécie de "heróis" (inclusive tenores, "artistas", esportistas, etc.). A anima se apodera facilmente do elemento que na mulher é inconscientemente, vazio, frígido, desamparado, incapaz de relação, obscuro e equívoco... No decurso do processo de individuação, a alma se associa à consciência do eu e possui, pois, um índice feminino no homem e masculino na mulher. A anima do homem procura unir e juntar, o animus da mulher procura diferenciar e reconhecer. São posições estritamente contrárias... No plano da realidade consciente constituem uma situação conflitual, mesmo quando a relação consciente dos dois parceiros é harmoniosa".

Jung era um poeta frustrado porque o trecho acima já foi dito com menos palavras e mais concisão poética por um outro sujeito, o francês Charles Baudelaire: "A mulher é o único ser na Terra que pode trazer a mais clara das luzes e a mais escura das trevas". Ele deveria saber o que dizia já que, afinal de contas, tinha como amante favorita uma mulata bissexual e viciada em haxixe. Não é uma surpresa saber que, no meio da tampa da marmita onde vivia, Baudelaire tenha buscado momentos de transcendência nas anônimas com quem cruzava nas ruas de Paris, como prova um de seus sonetos mais bonitos, "A uma passante":

"A rua em torno era um frenético alarido
Toda de luto, alta e sutil, dor majestosa,
Uma mulher passou, com sua mão suntuosa
Erguendo e sacudindo a barra do vestido.

Pernas de estátua, era-lhe a imagem nobre e fina.
Qual bizarro basbaque, afoito eu lhe bebia
No olhar, céu lívido onde aflora a ventania,
A doçura que envolve e o prazer que assassina.

Que luz... e a noite após! - Efêmera beldade
Cujos olhos me fazem nascer outra vez,
Não mais hei de te ver senão na eternidade?

Longe daqui! tarde demais! nunca talvez!
Pois de ti já me fui, de mim tu já fugiste,
Tu que eu teria amado, ó tu que bem o viste!"

(Tradução de Ivan Junqueira)

A luz fugaz que a mulher emite quando passa ao seu lado, é a mesma que acontece quando os homens menos dotados de poesia sentem ao ver a esperança que o aceno de uma mulher traz. "No fundo, os machões são uns sentimentais", dizia Vinicius de Moraes, "apesar de querermos sempre o aconchego da mulher do lar e a perversão da mulher da vida". Claridade e obscuridade se confundem no corpo e na alma feminina de tal forma que a história do mundo está entre a Eva pecadora e a Maria redentora, os dois polos de atração que lutam constantemente no espírito humano. A unidade - ou a resolução, para muitos - está no sacríficio do nascimento e o símbolo que melhor representa é justamente o ventre feminino. É o ventre que nos acolhe quando ainda somos fetos indefesos, é ele que nos traz ao mundo, que nos faz lembrar constantemente de onde nascemos. Mas, no momento, o ventre está em absoluto silêncio. Sua quietude é assustadora numa hora em que a morte parece vencer cada poro da ordem da civilização. O ventre nos lembra, afinal de contas, que para o sacríficio do nascimento - e da participação de outras pessoas no drama da salvação - é preciso termos o sentido que só o amor pode trazer. A mulher é "a janela aberta para a eternidade" porque ela, com sua simples presença corporal, impõe-nos um sentido na alma que só o amor pode provocar, nunca o ódio.

O silêncio do ventre impede a abertura erótica da alma na compreensão do mistério divino. Os falsos puritanos entendam o termo "erótica" como quiserem, mas aqui é usado como abertura da alma que une o sensualismo da carne e a pureza do espírito. E isso é possível? Ó leitora minha, não se espante se disser que sim e que só se precisa de um único esforço: repartir as experiências. Jung pode ser um maluco que deu origem aos cultos de New Age para muitos, mas em uma coisa ele estava certo: tanto o homem como a mulher, precisam um do outro. Partindo deste ponto de vista, o movimento feminista foi um dos fatos mais abomináveis que já aconteceu e qualquer mulher que faça parte dele, alegando que luta pelos direitos etc e tal, deveria ser internada, expurgada e eliminada da face da Terra. Estas pessoas contribuem para a destruição do ventre, impondo um silêncio que todos precisam que seja quebrado porque a abertura amorosa da alma pode se tornar uma descida aos infernos.

As mulheres viraram as passantes que Baudelaire tanto louvara, com a diferença que elas passam sem deixar nenhuma lembrança da transcendência. Luana Piovani que o diga: linda, famosa, firme nas carnes, mas flácida na mente. "Death will be our aquisition" (A morte será nossa aquisição), treme de medo a voz de Tori Amos ao continuar seu "Raining Blood" e estamos bem próximos disso. O ódio corroeu o ventre e as mulheres perderam o dom de resistir à dor da vida para encontrar a beleza da vida eterna. Em um artigo anterior sobre uma dama comprida de bem, perguntei se existia alguém mais precioso que os rubis. Este texto responde que não e se houver, tenha certeza que os rubis são falsos e seu ventre estará tão silencioso como uma tumba.

Martim Vasques da Cunha é escritor e jornalista
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