Os Vencedores de Batatas

"We all socialists nowadays"
(Hoje em dia, todos nós somos socialistas)
Edward, Príncipe de Gales, em 1895, fazendo uma previsão com
cem anos de antecedência.
"Você não morre nunca". Quem já
não ouviu este dito popular quando a pessoa em que você está
pensando passa exatamente naquele momento na sua frente? A mesma coisa acontece
com o socialismo. Apesar de todos os anúncios de óbito precoce,
de todas as manifestações de escárnio, afirmando que quem
acredita que a ideologia esquerdista ainda está viva é um reacionário,
conservador, com pensamento voltado para os anos da Guerra Fria, ninguém
em sã consciência de seus atos pode negar o contrário. O
socialismo está vivo, sim, e passando bem, muito obrigado. Querem uma
prova? Olhem esta notícia publicada no site do jornalista Claudio
Humberto, na última segunda-feira:
"Republicanos pró-Lula
Acredite se quiser, mas o Partido Republicano americano, que elegeu Bush filho
e até mandou observador à reunião pefelista de março,
em Salvador, já flerta com o PT de Lula. Os republicanos avaliam que,
eleito, Lula seria um presidente politicamente enfraquecido, ao contrário
de José Serra, cuja arrogância os incomoda."
Acredite se quiser mesmo, como diria Jack Palance. O Partido Republicano americano,
considerado pelos esquerdosos de plantão como o bicho-papão do
imperialismo dos EUA, vendo em Lula-lá uma oportunidade melhor de mandar
no Brasil do que José Serra, as known as O Trator. O leitor leu esta
notícia direito? Pois bem, vamos para outra, também publicada
no site de Claudio Humberto:
"Eleito por Gates
Cristovam Buarque, o ex-governador petista de Brasília que criou o programa
bolsa- escola adotado por FhC, foi convidado pelo milionário Bill Gates,
dono da Microsoft, para integrar um grupo de 60 intelectuais e cientistas de
todo o mundo que vão discutir o futuro da humanidade."
Bill Gates, o enfant terrible da indústria capitalista da tecnologia
mundial, o homem que explora milhares de escravos para seu plano diabólico
de alienação do trabalhador, convidando Cristovam Buarque, um
petista aparentemente light, para pensar sobre o futuro da humanidade. Estas
duas notas levam a pensar naquilo que Hamlet disse a Horácio, depois
de ver o fantasma de seu pai - um morto que, do nada, se mostrava mais vivo
do que nunca - e que iremos emendar com alguma vantagem para o caso que queremos
discutir: "Há entre o céu e a terra mais coisas do que sonha
a nossa vã ignorância". Ou, para continuar no nosso
ímpeto shakespeariano - "Alguma coisa de podre está acontecendo
no reino da...Inteligência". E, sim, este algo de podre é
aquilo que pensaram que estava morto, mas continua vivo, agindo nas mentes,
envenenando o espírito: o socialismo.
Mas qual é a implicância desse pessoal com o socialismo?,
perguntará um leitor ingênuo (ou malicioso, dependendo do sujeito,
mas ficaremos na primeira opção, no benefício da dúvida).
Afinal de contas, o socialismo não quer fazer somente o bem? À
primeira vista, parece que sim. Como bem definiu Roger Kimball, no seu artigo
"Socialism - an
obituary", publicado na revista The New Criterion, "o socialismo
é, em parte, otimismo traduzido em um programa político".
No mundo onde vivemos, otimismo não produz resultado nenhum. Por quê?
Porque o otimista não saber distinguir entre o verdadeiro mistério
que é a esperança - o mistério que nos faz acordar todo
o dia e tocar a vida para frente, não importa quantos obstáculos
cruzaremos - e a vontade primária de querer resolver todos os problemas
do planeta Terra, da destruição ecológica à fome
de crianças de rua. Ele joga tudo no mesmo calderão e, com isso,
criam-se as duas doenças que moldam o pensamento do mundo moderno: a
falta de uma hierarquia e a conseqüente revolta que ocorre quando o otimista,
impotente por resolver os problemas que lhe aparecem, joga a culpa no Outro
(geralmente representado por Deus, a sociedade, o capitalismo e, mais recentemente,
o Império Americano) e deseja criar seu próprio sentido nas coisas,
transformando suas naturezas a seu bel-prazer.
No fim das contas, a questão em torno do socialismo não é algo simplesmente político, mas algo essencialmente religioso. É uma doença do espírito, causada pela vontade imbatível de querer realizar o bem, e nada mais que o bem. Daí vem a outra pergunta - O que é o Bem? Se nem Platão, que passou a vida toda atrás de uma resposta para isso, conseguiu responder, não cabe a nós fazer o mesmo em algumas poucas linhas. Há muito de trágico neste desejo de realizar o bem a todo custo e que acabou criando uma ideologia totalitária, uma manjedoura de lunáticos que viam os seres humanos como meras quantidades, meras idéias prestes a serem rabiscadas no papel, como rascunhos e nada mais.
Contudo, o mais trágico é ver que existem pessoas comuns, que não participam do ambiente político ou intelectual de uma nação, tão atraídas e seduzidas por esta mesma ideologia, e que tentam praticá-las com a melhor das intenções. Trágico e estranho porque, se analisado ao fundo, o socialismo não pode sequer ser considerado como uma ideologia ou uma filosofia - isto é, um modo de ver a vida. Ele é, na realidade, um projeto de tomada de poder, que quer transformar o mundo e a natureza do ser humano. Talvez aí esteja a sedução socialista para o homem comum, já intoxicado pela doxa, a opinião ordinária segundo Platão. É como a serpente no Eden: se esgueira furtivamente, até induzir alguém a cometer a escolha sinistra (literalmente) de substituir o conhecimento tendo como eixo Deus, pelo conhecimento que tem como eixo única e exclusivamente o homem. Ao modificar a fragilidade de sua podridão, e sem a ajuda de uma realidade transcendente, o ser humano prefere apenas o Poder e, para consegui-lo, pretende mudar também a ordem das coisas, culminando nesta violência que é a revolução. E para questionar corretamente o socialismo e suas vertentes mais dissimuladas, temos de atacar o problema do fascínio que a revolução tem sobre a alma humana.
As bases para uma boa revolução, segundo o sacerdote
máximo dos socialistas, o sr. Karl Marx, é a traição
a todo e qualquer passado, a todo e qualquer aliado. Não existem aliados
para o socialista, exceto aqueles que trabalham a favor da sua causa. "É
interesse dos comunistas fazerem a revolução permanente para que
a pequena burguesia não fique contente com ganhos iniciais", explica
Eric Voegelin em seu notável estudo sobre Marx, publicado no seu "History
of Political Ideas". E em que consiste esta "revolução
permanente"? Revolução significa "re-volvere",
dar a volta, ou volta em torno, enfim, um movimento cíclico em que não
há libertação, um eterno retorno nietzschiniano. Seu centro
é a Revolta em que o homem não se contenta em ser somente um homem.
Ele quer ser mais. Mas estas revoltas se desdobram em inúmeras ramificações,
ainda que em todas elas há um fundo comum que as une, como descobriu
José Osvaldo de Meira Penna no seu fundamental "O Espírito
das Revoluções":
"O que é, então, exatamente, a Revolução? Prossigamos
na tentativa de definir o termo. Há revoluções políticas,
há revoluções sociais, revoluções culturais,
revoluções científicas e tecnológicas, revoluções
econômicas, revoluções espirituais. Há revoluções
internas e revoluções contra opressores externos. A expressão
pode ser malbaratada. A mística da Revolução, entre nós
e no Terceiro Mundo, representa em geral a herança romântica da
Revolução Francesa que a Revolução Russa reviveu.
No âmbito político, estamos subjugados por essa mitologia espúria.
Ela configura a exaltação mórbida do ímpeto utópico,
a aceleração frenética da noção de progresso
e a expressão do protesto antinômico - de dissidência e de
contestação - que, nos últimos séculos, tão
bem define nossa civilização ocidental: o triunfo do espírito
rebelde de Lúcifer. Na Revolução, a mente utópico-progressista
descobre a panacéia universal para suas expectativas mais alvissareiras:
a salvação pela Política. A Revolução deverá
suprimir definitivamente os males deste mundo imperfeito que nossa sociedade,
outrora mais paciente e resignada, considerava inevitáveis e inerentes
à própria condição existencial que o Deus Pai nos
impôs".
É o fechamento à realidade transcendente. O homem se revolta contra
a Criação, contra Deus, e pretende substituir ora por um Demiurgo,
ora pela Idéia, ora pela História, ora pela luta de classes. Nesse
sentido, Hegel e Marx são descendentes diretos da reação
gnóstica ao cristianismo, e se antes havia uma religião que ligava
Deus e os homens, agora há a religião que submete os homens ao
poder do Estado auto-suficiente e voltado para si mesmo e nada mais. Isto são
os resultados de uma revolução política, e eles só
podem ser conseguidos à custa de muita violência. Marx, aliás,
defendia a violência como meio necessário para a ditadura do proletariado
chegar ao poder. Ora, bolas, a violência implica em traição
atrás de traição, na destruição de todo um
passado e, principalmente, na eliminação de qualquer possibilidade
de ascese espiritual através da religião posto que, como os esquerdosos
adoram repetir, ela é "o ópio do povo".
Contudo, o mais estranho nisso tudo é que os ideólogos da Revolução são de uma pobreza filosófica incrível. Jean-Jacques Rousseau era um gigôlo que se disfarçava de escritor, e suas idéias filosóficas eram tão absurdas que nem ele se atreveu a realizá-las. Sua visão do contrato social é o início do Estado totalitário, apesar de muitos verem como a semente da democracia. Já Karl Marx era aquilo que Voegelin exprimiu muito bem com sua costumeira ironia germânica - "an intelectual swindler", um trapaceiro intelectual. Além de plagiar as idéias de Friedrich Engels sem dar o devido crédito (aliás, Roger Kimball reafirma a importância de Engels na história do socialismo no seu artigo na New Criterion), Marx inverteu a dialética hegeliana de ponta cabeça, misturou com Epicuro, embolou com a luta de classes e o mito de Prometeu, e emoldurado numa linguagem de profeta de quinta categoria, criou o seu sistema socialista. Deu no que deu: um rebanho de infelizes, achando que o sujeito era um gênio quando não passava de um impostor.
Mas o socialismo fascina o ser humano, e mais particularmente o latino-americano, porque a Revolução tem uma mystique de prova de machismo, de rito de passagem, de teste do fogo. Uma tremenda mentira, é claro. "Não devemos fazer a revolução política", exclama o Dr. Stockmann em "O Inimigo do Povo", de Henrik Ibsen, "e sim a revolução do Espírito!". A mesma idéia Albert Camus desenvolveu no seu admirável "O Homem Revoltado", mas o Espírito pressupõe um esforço individual que a Revolução Política - um instrumento diabólico, afinal de contas - impede a todo custo. No entanto, a violência das armas foi substituída pela violência psicológica, e assim o termo "revolução permanente" tem um novo sentido, se virmos os fatos da atualidade sob essa nova perspectiva. A questão não é mais a Salvação pela política e sim a destruição desta Salvação. A política dá lugar ao caos, e o Espírito fica apático, como uma ameba. Talvez seja verdade decretar a morte do socialismo depois da queda do Muro de Berlim, posto que o socialismo antigo, apesar dos mais de cem milhões de mortos na Rússia, China e outras republiquetas, preferia a ação à reflexão, deixando mais cristalina a sua insanidade. O socialismo que vigora nas redações, editoras, TVs, rádios, escolas e universidades é uma farsa do socialismo "heróico". Porém, o ser humano adora a covardia que existe em seu íntimo, e não é à toa que a farsa ao cubo é uma melhor escolha para muitos que decidem fugir da realidade implacável que é a morte, esta indesejada das gentes.
Assim, fica óbvio porque o povo da Venezuela apoiou a volta de Hugo Chávez à presidência e porque Lula-lá deu a volta por cima nas pesquisas, subindo para 35% enquanto Roseana Sarney, uma socialista enrustida, foi para a vanguarda do anonimato. É muito engraçado ver alguns militares pseudo-paranóicos, esfomeados para executarem ou assisitirem um golpe contra-revolucionário nos moldes de 1964 quando poucos perceberam que, na verdade, o golpe esquerdista já foi dado. O alvo desta empreitada foi as consciências de cada um, invertidas minuciosamente num processo de inversão de valores morais e de manipulação da própria História. Parece paranóia, mas como dizia William Burroughs, "um sujeito paranóico é apenas alguém que descobriu a verdadeira realidade das coisas". No entanto, o problema não é se está certo ou errado, verdadeiro ou falso. O problema é que o socialismo é uma das coisas mais medíocres já produzidas pela humanidade.
Como caímos nesta armadilha? Somos iguais àquela tribo sobre a qual Quincas Borba contava a Rubião para demonstrar a teoria absurda do Humanitismo e, ao ver que ganhara como prêmio de uma sangrenta batalha um saco de batatas, gritava a máxima: "Ao vencedor, as batatas!". O socialismo são as mesmas batatas, que enchem o estômago, mas não alimenta nada. O artigo de Alceu Garcia, "O Subdesenvolvimento Está na Mente", comenta exemplarmente a insanidade que tomou conta com a volta de Hugo Chávez:
"Se a história da America Latina é uma farsa, o episódio venezuelano é a farsa se repetindo como farsa. Já vimos essa tragicomédia, reprisada incessantemente em todo o continente. Na Argentina, por exemplo, Perón protagonizou nos anos 40 o feito agora duplicado por Chávez. O ditador argentino iniciou o processo pelo qual seu país, um dos mais ricos e prósperos do mundo, foi rebaixado do primeiro para o terceiro mundo. Como a Venezuela, a despeito do maná petrolífero, já está no terceiro mundo, só lhe resta descer para o quarto mundo. Uma tragédia, sem dúvida, mas uma tragédia amplamente respaldada e desejada pela maioria do povo. E dessa vez não se pode sequer invocar os tradicionais bodes expiatórios estrangeiros, como é o nosso costume. A URSS e sua KGB não existem mais, e os Estados Unidos estão indiferentes. Os americanos sabem que a Venezuela, inexpressiva no cenário internacional, depende da venda de seu petróleo, único produto de exportação relevante, e que, qualquer que seja o regime político, o país não tem alternativa senão vender o óleo a compradores americanos pelo preço de mercado. Hoje em dia os países são livres para se auto-destruírem, se esse for o desejo de seu povo. Ninguém se importa".
Ninguém mais se importa porque a coragem e a responsabilidade de dizer o que todos pensam, mas têm medo de abrir a boca para expressar, foram aniquilados. A imprensa internacional, aparentemente a favor da Pax Americana, é tão esquerdosa quanto uma célula eficiente da KGB, e foi ela quem acentuou essa covardia. O exemplo mais recente, além dos elogios a Chávez feitos por Emir Sader e Luís Fernando Verissímo, é o completo desprezo da carta do embaixador Armando Valladares sobre a questão de consciência que envolve condenar China e Cuba nos crimes internacionais. Nenhum jornal brasileiro, nenhuma revista, nenhum telejornal ou programa de rádio comentou sobre o apelo, nem mesmo numa simples sessão de cartas do leitor. Qual seria o nome disso? Palhaçada, naturalmente, mas uma palhaçada macabra pois está em jogo a vida de homens que foram perseguidos e mortos, justamente por se oporem a um saco de batatas.
Ninguém mais se importa porque, ao imaginar que o grande inimigo é os Estados Unidos, mal imaginam que trabalham a favor dele uma vez que, sim, pasmem companheiros!, eles também estão fascinados pelo saco de batatas. Não será uma mera coincidência de que os Estados-Unidos, pelo menos em sua versão imperial (muito diferente da sua versão governamental, baseada nos princípios da Bill of Rights), eram considerados por Karl Marx como o país mais propício para o comunismo? Não será uma mera coincidência que Bill Gates chame Cristovam Buarque para discutir o futuro da humanidade? E não será por acaso que os republicanos consideram Lula menos perigoso do que Serra justamente por ser mais manobrável? Além disso, não é estranho que todos os intelectuais petistas tenham seus projetos de doutorado financiados pelas fundações McCarthur e Ford, e o próprio PT tem vultosos investimentos da Fundação Rockfeller? Onde está a luta contra o sistema? Onde está o sentido de toda essa revolução?
O sentido de tudo isso está na morte da minoria que pensa contra o rebanho. Assim, a revolução permanente se revela como uma traição ao valor fundamental da existência: a dignidade humana. A política do Espírito dá lugar à política do Diabo e poucos sabem que este se esconde sob o disfarce de um homem de paz. "Não vim trazer a paz, mas sim a espada", disse Cristo, e está na hora do ser humano que tem noção da sua consciência domar os orgulhosos e separar os derrotados porque o tempo da guerra está prestes a chegar. E quando isso acontecer, não teremos sequer as batatas para entregar ao vencedor uma vez que este terá apenas ossos e sangue na sua comemoração.
Martim Vasques da Cunha é escritor e jornalista
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