Rock e Política, ou: O Mundo como Argila

Por Martim Vasques da Cunha


"Os melhores vacilam, enquanto os piores estão cheios de intensidade" escreveu o poeta irlandês W.B.Yeats em 1921, e esta é a sensação que fica ao escutar um álbum como "Know Your Enemy" do grupo galês Manic Street Preachers. É um disco impecável, tocado com vigor, cheio de inventividade melódica dentro dos canônes do rock, que o ouvinte não pára de escutar nem por um segundo para ver como terminará. Mas, ao lermos as letras, deparamos com um grande problema; não, o problema não é com as qualidades das letras - de fato, elas são boas até demais (Um exemplo? "Vou beijar o traseiro do Dalai Lama" e "Vejo o amor nos olhos de Richard Gere" são dois petardos de ironia jogados na canção "Freedom of Speach Won´t Feed My Children"). O xis da questão - pois o que se apresenta na nossa frente é uma questão das mais complicadas - é que os Manic Street Preachers pregam nada mais, nada menos que a revolução e a desordem política. E, o pior, usam o rock e a mídia como armas para isso.

"Know Your Enemy" é descendente direto de um outro grande álbum do rock-n´-roll, "London Calling" do grupo punk inglês The Clash. "London Calling" é também uma obra longa (tanto "London" como "Enemy" tem 75 minutos de duração, o que os tornam álbuns duplos nos tempos do vinil), mas nunca cansativa: Jon Strummer e Mick Jones fizeram de tudo para que cada canção fosse diferente da outra, fugindo do estigma do punk mal-tocado, preferindo gêneros díspares como o raggae, o ska, a disco music, o soul e até mesmo a balada pop - com "Train In Vain". O eixo do material tão heterôgeneo era justamente a política, ou melhor, a revolução política; Strummer & Cia chamavam os ouvintes para a revolta num cenário apocalíptico em um mundo completamente sem sentido exceto no engajamento ideológico. No entanto, o que torna "London Calling" uma obra-prima divertida e agradável de se escutar, ao contrário de "Know Your Enemy", que é apenas um grande disco que se acompanha do início ao fim, é que o The Clash tira um sarro de sua própria escolha revolucionária. Strummer canta como um bêbado (muitas vezes porque ele cantava realmente bêbado), Mick Jones faz questão de tocar a guitarra desafinada e os metais - bem, metais de trombone e saxofone é a coisa mais alienada que um músico politizado pode tocar. E também não é à tôa que "London Calling" termina com "Train In Vain", a única canção que fala de amor, retratando um homem que fala sobre a mulher que o deixou literalmente na mão. Tudo bem, rapazes, o The Clash parecia estar avisando, falar sobre política é legal, mas a vida é também garotas e outras coisas.

Já o Manic Street Preachers gosta de ser levado a sério. O seu nome fala tudo: são pregadores maníacos que não sabem o que é certo e o que é errado, e fazem isso com talento, o que complica tudo. "Know Your Enemy" é a continuação do luto que a banda ainda está passando, depois do desaparecimento do seu líder Richey James, que até hoje ninguém sabe onde foi parar (muitos ingleses afirmam que viram ele vestido de guru em algum lugar distante na India). A purgação do defunto, por assim dizer, começou com "Everything Must Go" (1995), continuou com "This is My Truth Tell Me Yours" (1997) e veio com este manual de conhecer o inimigo. Mas quem seria o inimigo? Em "Baby Elian" (sobre o fedelho cubano que foi jogado como bola de pingue-pongue entre as autoridades cubanas e americanas), James Dean Bradfield berra que é "a América, o playground do Diabo". Óbvio, não? Ao mesmo tempo, numa turnê de promoção para o novo álbum, eles não hesitam em ir à - advinhem? - Cuba, o paraíso da esquerda, e fazer um show especial para el presidente Fidel Castro, um sujeito que mandou milhares de pessoas para o fuzilamento e entre seus pecados menores está a abolição da liberdade de expressão. Antes do show, numa conversa privada com a banda, Castro, ao ouvir a afirmação dos galeses de que o show seria muito barulhento, como numa batalha, respondeu com aquela lógica de eterno guerrilheiro que "provavelmente vocês nunca estiveram numa guerra".

Na sua malícia de ditador, Castro acertou no alvo: esse pessoal nunca foi para a guerra. Ou melhor, eles ficam sonhando com uma guerra, mas, na hora H, desistem como carnerinhos indo para o abatedouro. Isso não acontece somente com os Manic Street Preachers, balzaquianos maduros, supostamente responsáveis por seus atos, patrocinados pela ultra-capitalista Sony Company, mas também com os garotos e garotas de classe-média que se orgulham de vestir camisetas com o rosto do assassino Che Guevara, com intelectuais que adoram ler Karl Marx como se fosse o Novo Evangelho e com políticos que estufam o peito cada vez que bradam a palavra "ética", como uma marca de sabonete. São um grupo privilegiado que vive, respira e come política e que acredita que ela é o início e o fim de tudo.

Essa adoração - que chega às raias de um paganismo - pela revolução política, a fascinação pelos mecanismos do Poder, é uma doença comum nos tempos atuais. Ela é a verdadeira alienação - palavras que os engajados adoram declamar em seus discursos pueris e juvenis. É claro que a conscientização política, o fato de uma pessoa escolher uma ideologia, um ideal e lutar por ela neste mundo usando dos meios justos e corretos, é algo louvável e deve ser respeitado, pois exige do sujeito uma atuação e um movimento que traz vida à sua existência. Mas, infelizmente, não é o único modo de se ter uma consciência. A política tem uma área bem ambígua, e ela não cheira muito bem, uma vez que só existem dois caminhos possíveis: a conseqüente elevação espiritual, ou a demência total.

O primeiro que percebeu essa faca de dois gumes na música popular foi Bob Dylan, que começou como bardo das músicas políticas - com "The Times They´re A-Changin" e "Blowin´in the Wind" - quando ninguém entendeu - principalmente os hippies e os esquerdistas-burgueses (sim, existe este tipo de gente) - que Dylan não falava só sobre política. "Não sou da esquerda ou da direita", disse ele em uma entrevista em 1963, "minhas letras são só sobre pessoas, e nada mais". Ninguém o ouviu na época - e Dylan teve que eletrificar seu violão, escrever as letras mais simbólicas possíveis para afirmar que o lado dele era o da arte. Sua procura incessante para mostrar suas outras faces é a prova do misterioso "Jonh Wesley Harding" cair no rótulo de "uma obra com várias interpretações". Gravado em 1968, depois do acidente de motocicleta que quase lhe tirou a vida, "Jonh Wesley Harding" é um álbum que pode ser tanto bíblico, como político. Na verdade, ele é um álbum bíblico-político, mas sua polítca é outra. Dylan sente o clima de revolução como ninguém (com "All Along The Watchtower"), sem deixar de lado a redenção espiritual ("I Dream I Saw St. Augustine") e a relação amorosa (a comovente "You´re My Baby Tonight"). A partir de 1968, Bob Dylan partiria para a sua faceta Johnny Cash, cantando country e blues, mas preocupado com aquilo que Albert Camus e Henrik Ibsen falavam: "A verdadeira Revolução não é a políitca; a verdadeira Revolução é a do Espírito".

Dois anos depois, em pleno horror do Vietnem, o soulman Marvin Gaye lançava seu álbum mais ambicioso, mais complexo e mais perfeito - chamado significativamente de "What´s Going On" (O Que Está Acontecendo?), de 1971. Escrito, produzido e com todos os instrumentos tocados pelo próprio Gaye, o disco era um grande sermão em que ele se perguntava sobre a loucura do mundo, o preconceito, a morte das crianças, a guerra, a dor e o sofrimento. Parece chato, mas não é: "What´s Going On" é um clássico da música política, mas Gaye - um sujeito que ia à Igreja todo o domingo e cheirava uma carreira de cocaína na segunda-feira - tinha conhecimento das áreas cinzas e construiu o disco sobre o seguinte raciocínio: política é religião, e religião é política. Canções como a faixa-título, "God", "Save the Children" e "Mercy Mercy", querem fazer esta estranha síntese que, obviamente, não deu certo na vida de Gaye. Sua fase como o Padre Vieira dos negros acabou em menos de três anos, e Gaye virou o melhor cantor de motel que já se ouviu, como prova "Sexual Healing" ("Cura Sexual"), antes de ser assassinado com um tiro no peito pelo próprio pai - por sinal, um pastor.

Uma outra vertente de discos de rock engajados começaria com o The Clash no melhor estilo "Vamos Fazer a Revolução". Ainda assim, existem alguns solitários, os oásis de esperança no meio do deserto do inferno político. O mais marcante de todos é "Zooropa" (1993) do U2, um grupo sempre conhecido por suas posturas polticamente corretas desde "Sunday Bloody Sunday", uma canção que falava sobre o massacre que atingiu protestantes e católicos na Irlanda do Norte. "Zooropa" é um disco radical, talvez o mais radical que um supergrupo de rock já fez depois do "Sgt.Pepper´s" dos Beatles. As sonoridades eletrônicas, os falsetes exagerados de Bono, a bateira quase marcial de Larry Mullen, o baixo de trovão de Adam Clayton e a guitarra minimalista de The Edge, construíram uma obra que criticava a famosa globalização que a Europa e os Estados-Unidos tanto pregavam no início da década de 90. Seguindo a trilha de "Achtung Baby" (1991), o U2 queria dizer, por meios ocultos e dissimulados, que a Europa estava se tornando literalmente um zoológico, que a globalização podia aumentar a comunicação entre os negócios, mas a incomunicabilidade dos sentimentos crescia em proporções assustadoras. Bono estava mais afiado do que nunca em suas letras, principalmente na faixa-título (uma declamação de slogans publicitários), na ode à pedofilia que é "Babyface", na linda "Stay (Faraway So Close)", na mordaz "Daddy´s Gonna Pay For Your Crashed Car" (o "daddy", no caso, é gíria para heroína), para terminar com "Dirty Day" (canção aterrorizante que tem um verso digno de antologia: "You can´t even remember what I´m trying to forget" - em tradução: "Você mal lembra o que estou tentando esquecer") e com "The Wanderer", cantada por Johnny Cash, que fala uma verdade universal sobre um mundo dominado pela política: "They say they want the Kingdom, but they don´t want God in it" ("Eles falam que querem o Reino, mas não desejam Deus dentro dele").

A frase acima deveria ser incluída no Livro de Provérbios de Salomão porque é justamente isso o que a política faz na alma humana: ao se entregar por uma causa terrena, o homem se esquece da transcendência e da Eternidade, e se preocupa com este mundo, justamente o palco em que todas as coisas são transitórias, para não dizer passageiras. O homem quer as glórias para ele, e não dedicar seu trabalho para as glórias de Deus. A partir do momento que se perde a consciência da existência de Deus, o mundo se fragmenta em algo incompreensível e a única coisa que o ser político tem de fazer para resolver o seu tormento, é tentar mudar o mundo como se ele fosse uma idéia e não aceitar tal como ele é. E se você não aceita o mundo, e não tenta compreender a natureza divina que se oculta nele, não há como compreender o próprio ser humano e, por fim, a própria vida.

Philip Roth - um escritor judeu-americano - captou a demência do revolucionário político no seu romance "Pastoral Americana", ao mostrar a trajetória de Seymour Levov, o típico filho de imigrantes que deu certo na América, com um bom casamento, boa situação financeira e uma filhinha que, depois de entrar na universidade com as melhores notas, se envolve com um grupo esquerdista e explode uma bomba num posto do Correio. A menina começou como uma simples politizada, virou uma engajada enfurecida e terminou como uma terrorista sanguinária - um caminho comum para qualquer animal político que trilhe a via estreita da ideologia, seja da esquerda ou da direita. Na ânsia de mudar o mundo para algo melhor, resolveu destruí-lo como um pedaço de argila que pode ser moldado. Infelizmente, isso não pode ser feito: a natureza humana nunca será mudada de forma radical, a não ser pela educação individual e ´pelo profundo desenvolvimento espiritual que o ser humano pode conseguir em sua solidão, algo que uma atividade coletiva como a política, não consegue realizar.

Essa não é apenas uma situação que acontece na Europa, nos Estados-Unidos ou em Cuba. Acontece aqui nesta nossa terra-papagalis, o formoso Brasil, berço esplêndido dos esquerdistas e dos direitistas mais sujos do planeta. Só mesmo aqui no Brasil é que um partido como o PT - pretensamente socialista, mas financiado pela Fundação Rockfeller - pode ser considerado "o baluarte da ética e o defensor da democracia", quando atiçam os pobres camponeses a pegarem foices e invadir terras que não lhes pertencem, alegando "a injustiça da reforma agrária"; ou então, homens de governo que acham que o poder aquisitivo do brasileiro aumentou quando o dólar vale o triplo da moeda nacional e que uma crise de energia pode ser controlada com sucessivos cortes de abastecimento. Nesse meio tempo, o rock-n´-roll tupiniquim não mexeu uma palha: os Titãs avisam que vão colocar um DJ na banda, Raul Seixas sempre foi um lesado que só o Paulo Coelho entendia (o que não significa muita coisa), Marcelo Nova só fala palavrão, Cazuza fazia crítica social para agradar os gays, o Barão Vermelho é ainda uma banda de garagem, Herbert Vianna perdeu o que restava de sua massa encefálica, e Marisa Monte prefere mostrar seus pés de gazela enquanto declama Arnaldo Antunes como se ele fosse Luís de Camões. Os únicos que disseram algo de valor sobre a situação do brasileiro foram Lobão - que fez o incrível "A Vida é Doce" - e o já falecido Renato Russo que, com a Legião Urbana, fez um dos álbuns mais incompreendidos de todos os tempos: o épico "V" (1991), lançado depois do sucesso de "As Quatro Estações" (1989).

"V" é uma obra atormentada e ingênua, como deveria ser qualquer coisa escrita por Renato Russo. Retratava a insanidade que foi o período Fernando Collor, com seu saqueamento de poupanças e golpe de estado disfarçado de impeachment, criticando a alma do brasileiro e do governo do país, mas também querendo inserí-lo numa perspectiva universal. O melhor exemplo disso é a longa "Metal Sobre as Nuvens" e a enigmática "A Montanha Mágica", canções duras, difíceis, que não conseguem dar alento ao ouvinte mesmo com as delicadas "Serenissíma" e "O Mundo Anda Tão Complicado". Russo canta sobre desilusões espirituais, socias, políticas e - claro - amorosas, tecido nas guitarras a lá Johnny Marr de Dado Villa-Lobos e a bateria sempre precisa de Marcelo Bonfá. Mas as desilusões não o transformam em um vencido: feito na época em que Russo descobriu que estava com o vírus da AIDS, "V" mostra uma incrível dignidade frente à dor e ao sofrimento que somente terminará em "A Tempestade", o último álbum do Legião (lançado três meses antes da morte de Russo em outubro de 1997). Ele levanta a cabeça e segue em frente, cantando "tudo passa, tudo passará, estamos apenas começando".

Sim, tudo passará, mas o que fica? A resposta não é fácil, e nem seria da intenção deste colunista. Talvez possamos voltar ao início deste texto, com o mesmo W.B.Yeats que disse sobre o vacilo dos melhores e a intensidade dos piores. Em 1939, três dias antes de morrer, às vésperas da Segunda Guerra Mundial, ele escreveu seu último poema chamado - com a devida ironia - de "Política":

POLITICS

"In our time the destiny of man presents its meaning in poltical terms"
Thomas Mann


How can I, that girl standing there,
My attention fix
On Roman or on Russian
Or on Spanish politics?
Yet here´s a travelled man that knows
What he talks about,
And there´s a politician
That has both read and thought
And maybe what they say is true
Of war and war alarms,
But O that I were young again
And held her in my arms.

("No nosso tempo o destino do homem apresenta o seu sentido em termos políticos"
Thomas Mann


Como posso, com aquela garota parada ali,
concentrar a minha atenção,
nas políticas de Roma, Rússia
ou da Espanha?
Ainda assim, aqui tem um homem viajado que sabe
o que ele fala
e há um político
que tanto leu como pensou.
E talvez tudo o que eles estão falando
sobre a guerra e seus alarmes
seja verdade.
Mas, ah!, se eu fosse jovem de novo
e segurasse ela em meus braços.)

À beira da morte, um homem quer abraçar a vida, mas ela não está nos alarmes da guerra e sim nos braços da garota - não há atitude mais rock-n´-roll que essa. Yeats mostra em poucas linhas a futilidade da política, como ela obscurece a visão do homem nas pequenas coisas que realmente valem a pena. E é uma pena que o rock seja usado atualmente para ser uma celebração da desordem e do caos, quando deveria ser uma celebração do sentido da vida.

Martim Vasques da Cunha é escritor e jornalista
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