Mulholland Drive: Uma introdução ao estudo do avesso

"No hay banda. There´s no orchestra. Il n´y a pas de
orchestra. It´s all recorded. It´s all in the tape"
Um ditado zen que serve para resolver o enigma que é o novo filme
de David Lynch?
Você não sabe o que é mais absurdo: se o próprio filme de David Lynch, chamado "Mulholland Drive", ou a tradução brasileira idiota que fizeram dele - "Cidade dos Sonhos". Como se não bastasse, fizeram questão de criar um cartaz que coloca em primeiro plano as faces de duas mulheres, aparentemente ingênuas, olhando para o céu, procurando alcançar seus ideais com o máximo de pureza e dignidade. A distribuidora deveria ser enquadrada no artigo 171 do Código Penal porque aquelas moças não possuem nada de pureza e dignidade - aliás, algo óbvio em se tratando de um filme de David Lynch.
Muitos não suportam Lynch pelo seu gosto do bizarro. O apelido mais carinhoso que seus opositores lhe deram foi "charlatão". Bem, é verdade que ele teve seus momentos de charlatanice - vide "Wild at Heart" (1992), um dos filmes mais insuportáveis já feitos. Mas, algo aconteceu com Lynch nos últimos anos. É como se ele não se importasse mais em fazer filmes segundo as regras dos outros, e sim segundo suas próprias regras, muito particulares. Nesta atitude quase terrorista, Lynch resolveu implodir com a gramática cinematográfica tradicional, para fazer apenas o que sempre desejou: cinema puro, baseado na manipulação sutil de som, imagem e atuação. Com a ajuda de seus fiéis escudeiros, o músico Angelo Badalamenti, a editora e sua esposa Mary Sweeney, e o diretor de fotografia Peter Deming, David Lynch usa o cinema para uma investigação em torno de um tema que o preocupa permanentemente - o avesso do ser humano.
"Mulholland Drive" é uma espécie de continuação mais radical de "Lost Highway" (1997), o filme em que Lynch começou a acabar com os alicerces do que seria uma história com começo, meio e fim para o espectador ameba dos nossos dias. Para provar que era um sujeito realmente perigoso, Lynch fez um parêntesis enganoso, "The Straight Story" (2001), na superfície uma parábola sobre a perseverança, mas na verdade um estudo sobre como um homem pode vencer o avesso que o corrói por dentro da sua alma. Mas, com "Mulholland Drive", Lynch volta a investigar o Mal com uma inventividade quase doentia, e seu sucesso talvez se deva ao fato de que este filme sempre foi aquilo que procurou durante toda a sua obra.
Apesar da sua estrutura insólita, "Mulholland Drive" é um filme bem conservador na crítica que faz das pessoas que rodeiam Los Angeles, a tal cidade dos sonhos. Mas para entender o que Lynch quis dizer com seu nó górdio, temos que dividir a história em dois níveis: o da realidade e o da fantasia. A primeira história é sobre Diane Selwyn (Naomi Watts), que chega a Hollywood depois de vencer um concurso de dança, disposta a se tornar atriz. Num teste de elenco, conhece outra mulher, Camilla (Laura Elena Harring), que ganha o papel. As duas se tornam amigas e, posteriormente, amantes. Aos poucos, contudo, Camilla se revela como uma carreirista, ficando noiva do diretor de cinema Adam Keshner (Justin Theroux), jogando Diane como uma bola de pingue-pongue, dando papéis secundários a ela em seus filmes, em que é a estrela principal, enquanto mantém outros casos homossexuais. Sentindo-se humilhada no jantar de noivado de Adam e Camilla, Diane decide contratar um pistoleiro para matar Camilla. "Quando você vir esta chave, o serviço estará feito", diz ele ao mostrar uma chave azul. Ao ver a chave azul em cima da mesa, Diane tem alucinações sobre sua história com Camilla, e a culpa e o remorso de ter matado sua amada a levam cometer suicídio.
Já a segunda história, mesmo sendo uma aparente distorção da realidade, revela mais que a primeira, talvez por mostrar, de modo inusitado, como é a alma de Diane Selwyn. Uma mulher misteriosa (Laura Elena Harring) é vítima de um atentado enquanto anda de limousine na Mulholland Drive, mas um acidente com um carro em alta velocidade a salva da morte. No entanto, ela não escapa de uma amnésia, e vai parar no apartamento de Betty (Naomi Watts), uma aspirante à atriz que é irritante de tão boazinha, de quem fica amiga e, depois, amante. Paralelamente, também se conta a história de Adam Keshner, o mesmo diretor de cinema que se envolve com a máfia italiana ao ver que seu filme não sairá como quer devido à escolha impositiva da próxima estrela, uma modelo desconhecida chamada Camilla Rhodes. Há também a história de um homem que vê monstros atrás de lanchonetes (Winky´s Diner, o mesmo local onde Diane contrata o assassino para matar Camilla), de um tal de Club Silêncio e de uma caixinha azul que parece ser o elo entre a alucinação de Diane e o seu conto de fadas de Betty.
Sim, leitor, o enredo é intricado, e a forma como Lynch o desenvolveu é mais intricado ainda. Várias perguntas surgem enquanto o filme desafia o senso comum do espectador: É tudo uma alucinação? O que significa a caixinha azul e o Club Silêncio? Onde foi parar a Tia Ruth? E o acidente? - Como se explica o atentado na Mulholland Drive, rua sinuosa de Hollywood que dá título ao filme? Ao contrário de "Lost Highway", em que não se sabia se tudo foi um sonho do personagem de Bill Pullman ou uma viagem esquizofrênica sem sentido nenhum, "Mulholland Drive" deixa claro que a primeira parte da história é a conseqüência da desintegração psíquica de Diane Selwyn, remoída pela culpa de ter matado a sua querida Camilla. Sem este norte na interpretação do filme, não se pode chegar ao ponto em que David Lynch queria realmente falar ao fazer "Mulholland Drive" (e, talvez, em toda sua obra): a impossibilidade de se fugir da realidade.
Nesse sentido, Lynch faz parte do panteão de diretores que fazem questão de jogar na cara do espectador uma outra forma de ver a vida real como um tortuoso delírio: Stanley Kubrick, Fritz Lang, Alfred Hitchcock, Luís Buñuel, Andrei Tarkovski, e os mais recentes David Fincher e Darren Aronofsky. A história de amor entre Diane Selwyn e Camilla Rhodes se torna uma história de vingança e, no fim, de crime e castigo. Os sonhos de Diane em ser uma estrela são arrasados em um mundo onde as mulheres manipulam outras mulheres em troca de favores sexuais, e qualquer possibilidade de inocência é vista caricatura de uma época que não existe mais. Isso não mostra que Lynch é um pessimista; mostra apenas que a realidade é dessa forma, e a única coisa a se fazer é enfrentá-la.
Enfrentar a realidade é justamente o que Diane Selwyn não fez, da mesma forma que Laura Palmer, Fred, Renée, Alice, e outros personagens famosos da galeria de David Lynch. É nesta recusa que o avesso aparece como a única maneira da pessoa encontrar algum sentido para a vida - o que é, naturalmente, um erro. Minucioso investigador do Mal, Lynch retrata Diane como uma mulher fascinada com aquilo que não pode ter e, ao ver que não terá de nenhuma maneira, decide eliminá-la para ninguém mais a possuir. Aqui deve-se dar os parabéns à atriz Naomi Watts, realmente extrordinária como Betty/Diane, na primeira, uma moça ingênua e na segunda, uma alma atormentada pela desumanidade que causou. A cena do teste é a maior prova deste novo talento descoberto por Lynch: do nada, Betty se torna um vulcão de sensualidade, uma nítida projeção (para usar a linguagem psicanalítica) de sua personalidade sobre Camilla e de sua vitória imaginária sobre o mundo real em se tratando de Diane.
Mas explicar tudo pelas alucinações de Diane, não significa que "Mulholland Drive" se tornou um filme mais apreciável. Como explicar o Clube Silêncio? Numa das cenas mais nervosamente divertidas já feitas, Lynch mostra Betty e a mulher misteriosa (agora chamada de Rita, por ter visto um cartaz de "Gilda", com Rita Hayworth) indo ao um clube misterioso, depois que esta sussurra em espanhol as palavras "silencio" e "no hay banda". No clube em questão, as duas, com vestimentas idênticas, vêem um apresentador declamar o seguinte texto: "No hay banda. Il n´y a pas de orchestra. There´s no orchestra. It´s all recorded. It´s all in the tape" (Quando chega nessa hora, o espectador pensa seriamente se Lynch teve uma overdose de LSD, tamanha a insanidade da cena). Betty e Rita choram ao escutar a principal atração, uma cantora chamada Rebekah Del Rio (considerada a mais chorona de Los Angeles), que canta uma versão de "Crying", de Roy Orbinson, em castelhano. De repente, ela desmaia, mas, mesmo assim, a canção continua a ecoar pelo palco porque "no hay banda, It´s all recorded, It´s all in the tape". Entenderam?
É claro que não entenderam. Ninguém entendeu.
Mas a pergunta certa a se fazer é a seguinte: é importante entender
alguma coisa? Não. David Lynch sabe que o avesso da vida é tão
inexplicável quanto a própria vida. E aí está a
vitória de "Mulholland Drive" como obra de arte: ela pode ser
incompreensível em muitas partes, mas possui uma lógica interna
que nunca se rompe ou se vende a concessões alheias. Pertence ao mundo
único de seu autor, e ninguém mais poderia criá-lo. Contudo,
um aviso deve ser feito ao espectador despreparado. Ao sair depois da exibição,
ele pode encontrar na vida real, detalhes assustadores que levarão a
concluir que a luta com a realidade e o avesso que surge da fuga desta luta
terminam no silêncio da morte, de acordo com a visão bizarra de
Lynch. Mais um engano: para ele, a realidade é a coisa mais linda para
ser enfrentada, e, mesmo que ela pareça ser terrível, deve-se
aceitar o seu mistério para não ficar preso nos sonhos sem nexo.
Martim Vasques da Cunha é escritor e jornalista
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