Meu Ódio Será Tua Herança

Elvis Costello
"I love you just as much as I hate your guts"
(Amo você tanto quanto eu odeio as suas tripas)
Alibi, do álbum "When I Was Cruel".
Talvez junto com David Bowie, ninguém soube explorar as diversas faces da música pop com tanta inventidade e coerência quanto Elvis Costello. Capaz de compor uma canção pop na melhor tradição dos Beatles com uma letra que questiona o sentido da vida - (What´s so Funny About) Peace, Love and Understanding - ou então fazer uma crítica à guerra das Malvinas com a ajuda de Chet Baker - "Shipbuilding" -, Costello tem aquela habilidade que, na verdade, fascina mais os críticos do que o público: juntar o experimental com o popular, sem perder a profundidade, muito menos o humor.
Mas isso não significa que Elvis Costello - o codinome pop por excelência de Declan Patrick McMamus - é um sujeito engraçado. Ele faz parte daquela linhagem de senhores como Bowie, Bob Dylan, Lou Reed e Nick Cave, em que o rock é um meio para expressar um mal-estar no mundo que pode ser visto ou como uma melancolia mórbida, ou como um modo de resistir à barbárie. A originalidade de Costello em relação a seus antecessores é que seu pop possui uma sofisticação musical ímpar, chegando inclusive a flertar com a música clássica (com os belissímos "The Juliet Letters", feito com o Brodsky Quartet, e "For the Stars", em parceria com a soprano Anne Sophie Von Otter, além de ter composto duas sinfonias), com o jazz (um álbum com o pianista Bill Frisbell) e até - pasmem! - com Burt Bacharach, na obra-prima "Painted From Memory", para traduzir em letras ácidas e sombrias, como o ódio, este sentimento comum a todos, pode paralisar a vida.
"Tudo o que eu quero é escrever canções sobre vingança", Costello disse uma vez numa famosa entrevista à Rolling Stone, quando seu primeiro álbum, "My Aim is True", foi lançado em 1977. Sob a aparência cândida de uma canção como "Alison", em que ele canta "Alison, I know the world is killing you", ou então sob o ritmo raggae de um "Watching the Detectives", Costello continuou nesta meta até o seu mais novo álbum, lançado no mês passado, "When I Was Cruel". A diferença é que Elvis amadureceu, e sua tão planejada vingança ficou no passado, por assim dizer, já que ele percebeu que isso não levaria a nada. Mas, para chegar a essa conclusão, foi necessário um longo e tortuoso caminho.
Dave Lee Roth, um péssimo cantor, mas um bêbado
divertido, dizia que os críticos adoravam Elvis Costello porque ele
era muito feio e isso dava a ilusão que qualquer pessoa poderia ser um
rock-star. Acontece que Costello não é um rock-star: seus álbuns
sempre foram cults entre os compositores, e a falta de um grande sucesso nas
paradas não foi impedimento para ele se tornar uma espécie de
Robert Altman do pop - todo mundo quer trabalhar com ele, mesmo que seja por
uma pechincha. Isso talvez ocorra porque Costello é um dos poucos que
leva a sério o processo de composição de uma canção.
Sua discoteca selecionada, publicada na revista "Vanity Fair", tem
cerca de 500 títulos essenciais para qualquer fã de música,
e surpreende pela variedade e pelo bom-gosto: vai desde Wagner, regido por Georg
Solti, até o soul de James Brown, passando pela voz rouca de Tom Waits
(um de seus ídolos).
Além disso, Costello é um letrista afiado. Querem uma prova? Ouçam
"Man Out of Time", um retrato a lá Jonathan Swift do cotidiano
da família de um político inglês:
"But for his private wife and kids somehow
Real life becomes a rumour
Days of dutch courage
Just three French letters and a German sense of humourHe's got a mind like a sewer and a heart like a fridge
He stands to be insulted and he pays for the privilege"
Isso é apenas o início de uma sentença devastadora sobre o pobre tecnocrata que Costello faz questão de adocicar com o piano de Steve Nieve e um arranjo cheio de violões aparentemente melancólicos:
"Love is always scarpering or cowering or fawning
You drink yourself insensitive and hate yourself in the morning"
Um dos grandes motivos de identificação que os críticos têm com Costello é o fato de que ele é um cantor extremamente limitado. Sua voz é frágil demais, para não dizer humana demais. Às vezes, isto pode irritar o ouvinte, em especial em álbuns que supõem exigir mais do cantor, como "The Juliet Letteres", em que Costello tenta brincar de falsetes no estilo Plácido Domingo, ou então em "Painted From Memory", que tenta imitar o estilo de um Hal David. É claro que irrita numa primeira audição, mas o que encanta nos álbuns de Costello é que você sempre é obrigado a escutá-los mais de seis vezes para compreender suas verdadeiras intenções. Elvis Costello não é o irlandês Declan Patrick McManus, apesar de ambos terem a mesma voz e viverem no mesmo corpo. O primeiro é ninguém menos do que uma persona do segundo, e é nessa máscara que Costello aproveita para jogar suas obsessões, medos, inseguranças e, principalmente, sua desilusão em relação à raça humana.
Todos estes temas são traduzidos em cada um de seus álbuns, mas Costello faz questão de evitar um rock intelectualizado. Quando ele quer fazer barulho, faz como poucos. Quando quer fazer uma melodia simples e assobiável, é o sucessor de Paul McCartney. Quando quer ser sarcástico, só Lou Reed ou Tom Waits podem superá-lo. No entanto, quando quer ser romântico, atinge um ódio que só Bob Dylan conseguiu com "Like a Rolling Stone", "Positively 4th Street" e, claro, "Idiot Wind".
O fato é que, para Elvis Costello, qualquer relacionamento amoroso desce colina abaixo depois do primeiro beijo, para citar um aforismo do sábio de Nova York, Lou Reed. A causa seria, claro, o tão famoso ódio que ele perseguiu desde o início da carreira. Mas por quê esta fixação em torno de um sentimento tão nefasto? Costello não é nenhum filósofo; no entanto, se analisarmos a sua obra musical sobre uma reflexão de como o ódio impede as pessoas, justamente, de prevalecerem no sentido da vida, verá que toda a sua sofisticação e ecletismo são apenas diferentes facetas de uma mesma unidade: a do homem que não agüenta mais ver a destruição à sua volta e, no final, pede ajuda a algo maior que sua própria vontade.
Esta conclusão melancólica - digna de um Leonard Cohen e de um Nick Cave - se dá em duas canções recentes de Costello; uma é "God Give Me Strength", uma parceria sua com Burt Bacharach, o rei do lounge music que, na aparente cândura dos arranjos e da melodia, esconde uma letra amarga sobre perda e desespero; e a outra é "I Want To Vanish", do álbum "All This Useless Beauty", uma balada no estilo Cole Porter, com ajuda das cordas do Brodsky Quartet. Na primeira, Costello parece um sujeito que já não tem nada a perder e, por isso, pede que Deus lhe dê forças:
"Now I have nothing
So God give me strength
'Cos I'm weak in her wake
And if I'm strong I might still break
And I don't have anything to share
That I won't throw away into the air".
O que parece ser uma canção de cunho religioso-doutrinário, vira a ode a uma raiva incurável:
"God if she'd grant me her indulgence and decline
I might as well
Wipe her from my memory
Fracture the spell
As she becomes my enemy".
O ser amado é seu maior inimigo - mas a memória não deixa isso acontecer, por isso quer tirá-la de sua mente de qualquer maneira. No fim, o personagem que Costello encarna nesta canção pede forças a Deus para que Ele o ajude a esquecer da mulher amada, e seu desespero se dá porque é impossível que isso aconteça. Ele só tem duas alternativas: ou aceita que não pode esquecê-la, ou decide que vai desaparecer do mundo.
Apesar de ter sido composta dois anos antes de "God Give Me Strength", "I Want to Vanish" parece ser seu complemento natural. Aqui, Costello fala que avisou o ser amado, mas, como ela não o escutou, ele resolveu sumir de vez da sua vida:
"If you should stumble upon my last remark
I'm crying in the wilderness
I'm trying my best to make it dark
How can I tell you I'm rarer than most
I'm certain as a lost dog
Pondering a sign post".
Este "sumiço", que pode ser visto como suicídio, ou mais como uma apatia, ocorre porque o aviso do personagem não pode ser mais escutado no vazio da vastidão do cotidiano. Talvez seu desejo de sumir seja, no fundo, a covardia de não agüentar carregar o peso de uma verdade que ele mal sabe expessar, como se vê no seguinte trecho:
"I want to vanish
This is my last request
I've given you the awful truth
Now give me my rest".
Este descanso não é o descanso justo de Rilke. É o descanso dos inúteis, daqueles que não conseguem suportar a realidade implacável e, por isso, fracassam fragorosamente. No centro desta corrosão está, claro, o ódio, a única coisa que o sujeito deixou como herança e que nem Deus lhe pode dar forças para extirpá-lo. Elvis Costello, com seu nome paródico e seu talento musical, faz na música pop, a mesma análise lúcida que José Ortega y Gasset pensou a respeito sobre a situação da Espanha, em 1914, nas suas "Meditações do Quixote":
"Suspeito eu, que mercê de causas não conhecidas, a morada íntima dos espanhóis foi tomada há tempo pelo ódio, que permanece ali artilhado, movendo guerra ao mundo. Ora bem: o ódio é um afeto que conduz à aniquilação dos valores. Quando odiamos algo, colocamos entre nossa intimidade e o objeto uma impiedosa cortina de aço que impede a fusão, mesmo transitória, da coisa com nosso espírito. Só existe para nós aquele ponto onde se fixa nosso ódio; tudo o mais, ou nos é desconhecido, ou vamos olvidando, tornando-o estranho a nós mesmos. A cada instante vai sendo o objeto menos, vai-se consumindo, perdendo valor (...).
O amor, pelo contrário, nos une às coisas, ainda que passageiramente. Pergunte-se o leitor que novo caráter sobrevém a uma coisa quando sobre ela se derrama a qualidade amada. Que sentimos quando amamos a mulher, quando amamos a ciência, quando amamos a pátria? O amado é, de pronto, o que nos parece imprescindível. Há, por conseguinte, no amor, uma ampliação da individualidade que absorve outras coisas dentro desta, que as funde conosco. Tal liame e compenetração nos leva a internar-nos profundamente nas propriedades do amado. Vemo-lo inteiro e nos revela em todo o seu valor. Então advertimos que o amado é, por sua vez, parte de outra coisa, que necessita dela e está ligado. Imprescindível ao amado, também se faz imprescindível para nós. Deste modo vai ligando o amor coisa com coisa e tudo conosco, em firme estrutura essencial. O amor é um divino arquiteto que baixou ao mundo, segundo Platão, 'a fim de que tudo no universo viva em conexão'.
A inconexão é o aniquilamento. O ódio fabrica inconexão, isola e desliga, atomiza o orbe e pulveriza a individualidade (...)".
Costello não é nenhum Ortega y Gasset, mas depois de seu disco feito em parceria com a cantora lírica Anne Sophie Von Otter, "For The Stars", em que faz até mesmo uma versão de uma canção do ABBA, talvez ele tenha percebido que o ódio deveria ficar no passado. Foi por isso que demorou tanto tempo para fazer seu primeiro disco de rock, depois de seis anos, e que se chama, por uma estranha coincidência, de "When I Was Cruel".
A faixa-título de seu novo álbum mostra que Elvis Costello não parou no tempo. Copiando descaradamente Portishead, com uma percussão forte, uma linha de baixo discreta e um riff de guitarra que cita "Watching the Detectives", Costello narra uma festa da high-society, repleta de jornalistas, modelos e super-stars, onde o tédio do narrador é evidente porque "era muito mais fácil, quando eu era cruel". Claro que não deixa de ter seu humor ácido ao citar "Dancing Queen", o clássico do mal-gosto do ABBA, numa homenagem um tanto dúbia. Contudo, a verve swiftiana não foi abandonada com a satírica "Tear Off Your Head (It´s a doll revolution)", sobre os homóbofos, a lasciva "Spooky Girlfriend" e a já clássica "45".
Mas existem outras canções mais interessantes, como, por exemplo, "Alibi", com o refrão que faz parte da epígrafe deste texto - "I love just as much as I hate your guts" (Amo você tanto quanto odeio suas tripas). O ódio se tornou, como o próprio fala repetitidamente, um álibi para uma fuga da vida. Qual o resultado disso? Costello explicita em duas canções - "Dust" e "Radio Silence". Em "Dust", ele resume uma visão de mundo bastante simples: "Well I believe we just become a speck of dust" (Bem, acho que apenas nos tornamos uma partícula de pó). E em "Radio Silence", desencantado pela separação com a esposa, fala que "tudo é uma comédia porque eu sou um refém" dele mesmo. O que sobra é o silêncio do rádio que diz que não há nenhuma diferença entre "um rei e um zé-ninguém, um poeta e um vândalo". Não há diferença porque o ódio contaminou tudo e aquilo que se chama vida, para este sujeito, é apenas um eterno passado, irredimível, vivendo num vácuo do presente. Costello fez toda a sua obra em cima deste mal que contamina todos nós. Ortega y Gasset percebeu que isso aniquilava a sua Espanha invertebrada já em 1917. Quando alguém terá coragem de avisar que o Brasil, antes conhecido pelo seu homem cordial, dará como herança aos seus descendentes a grande partícula de ódio que nos aniquila todos os dias?
Martim Vasques da Cunha é escritor e jornalista
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