O Toque Áspero da Eternidade

Por Martim Vasques da Cunha


Eugenio Montale publicou, em 1927, o seu primeiro livro, "Ossos de Sépia". Um dos poemas que faziam parte da seção-título fala sobre um dos grandes mistérios que rondam o homem: o momento em que ele se depara com a vida do espírito.

"Talvez uma manhã andando num ar de vidro,
árido, voltando-me, verei cumprir-se o milagre:
o nada às minhas costas, o vazio atrás
de mim, com um terror de embriagado.

Depois como em painel, assentarão de um lanço
árvores casas colinas para o habitual engano.
Mas será tarde demais; e eu irei muito quedo
entre os homens que não se voltam, com meu segredo
".

Em poucas palavras, Montale captou com precisão o que realmente acontece no espírito humano quando ele realiza o seu "leap in being" - ou salto no ser, na terminologia de Eric Voegelin. É um daqueles acontecimentos únicos, que permitem ao homem a possibilidade de ver o mundo por trás deste mundo, um mundo que, apesar de seu esforço em vivê-lo com todas as suas exigências, é o único que vale a pena vivê-lo. Contudo, muitos confundem o seu surgimento na alma humana como uma ilusão produzida pela mente ou então uma predestinação divina que torna a pessoa "uma escolhida", um ser muito especial, destinada a fazer coisas especiais, tais como, por exemplo, mudar a natureza a seu bel-prazer, para cumprir uma vontade de Deus ou coisa parecida.

O ar messiânico que deram - seja de forma religiosa ou política - ao "salto no ser" mostra que, antes de tudo, o medo que domina ao saberem que existe a vida do espírito, é uma espécie de muro impossibilitando todo o verdadeiro poder que este tipo de revelação - porque, sem dúvida, é uma revelação e, o melhor, que acontece sem nenhuma razão aparente - oferece ao aprimoramento da vida nesta terra, em especial na vida com as outras pessoas e com a própria consciência individual.

Em seu poema, Montale recria, com hábil rigor artístico, o acontecemento interno do "salto no ser". Apesar de ter sido um ateu, depois um cético, um gnóstico e, no fim da vida, aceitar alguns princípios cristãos (como comprova o seu "Diário Póstumo"), Eugenio Montale sempre foi um poeta preocupado para que "a vida não se tornasse um mero jogo" porque nela "havia muito espaço para o inútil", como ele falou em seu discurso de agradecimento ao receber o prêmio Nobel em 1975. Suas inquietações metafísicas - reveladas não só em "Ossos de Sépia", mas também em "A Tormenta" e no ciclo de poemas "Xênia", dedicado à sua companheira, Mosca - sempre resultaram em poemas de intensa linguagem hermética que, por mais paradoxal que seja, possuem uma cristalinidade incomum, que dão a impressão que o sentido do poema está prestes a ser desvendado em sucessivas leituras.

No poema exposto como base para esta meditação, o que importa é o instante em que a eternidade aparece aos sentidos do homem como um fato que não pode ser refutado e, por isso mesmo, é de um terror impressionante. Devido ao estilo minimalista que Montale usou nos versos - estilo que se refere à própria essência da poesia, com os versos servindo como núcleo perene, em que a língua adota vários significados devido ao seu caráter compacto - vamos analisá-los parte por parte, ramificando nossas idéias com outros textos e outros poemas, como as sementes do pensamento que Sócrates adoraria lançar na alma humana para vê-las crescer em todo o seu esplendor, mesmo que neste processo haja morte e destruição, mas também vida e ressurreição.

Talvez uma manhã

Montale começa o poema com a conjunção "talvez", que implica em dúvida, indefinição - ambigüidade. Estamos não só no terreno próprio da poesia - o do mistério -, como também o de sentimento de inquietação que antecede o "salto no ser". A vida do espírito nunca surge quando a pessoa tem certeza absoluta de todas as coisas. Já dizia São Paulo, "a dúvida pressupõe a fé" - mas aqui vamos nos apressar porque ainda não se deve tocar no tema da fé, que é vista por alguns teólogos como uma das conseqüências da revelação (ou, para ser mais exato, da aceitação desta revelação). O "talvez" indica que o eu-lírico, nesta indefinição, espera também algum acontecimento futuro, uma vez que um "talvez" sempre envolve uma espera e uma decisão, geralmente incorporadas naquela palavra vaga que se chama "esperança".

Com a ambigüidade declarada, Montale situa, também vagamente, o tempo do acontecimento, ainda que este tempo esteja relacionado com o "talvez". Tudo pode acontecer numa manhã. No entanto, a manhã também significa que o fato pode se passar no período do dia, ou no início de um dia, o que nos leva a concluir que haverá alguma espécie de luz. Como se trata de uma revelação, a luz talvez seja o elemento mais importante no fato - mas é uma luz que, por causa do "talvez", sempe ficará em segundo plano, escondida, se preparando para fazer apenas o seu trabalho essencial - iluminar a consciência do indivíduo. Eis aqui uma amostra que "talvez" estejamos à frente de um poema de clara iniciação esotérica (esotérica no sentido de "voltar-se para dentro").

andando num ar de vidro,

Montale que, no mesmo verso, insinua um ambiente indefinido no espírito do eu-lírico, o põe em movimento, o mais comum de todos - "andando" -, sempre no gerúndio. Aqui se mostra como Montale não brincava em serviço: se antes o tempo era indeterminado ("talvez"), ele o torna mais exato com o gerúndio, indicando que o fato está ainda acontecendo num presente que não pára e que ainda não terminou. Além disso, o verbo "andar" não é casual: remete à peregrinação espiritual, símbolo muito comum quando se trata de pessoas que buscaram sua ascese.

O toque de gênio está no "ar de vidro". Ninguém caminha sobre o ar - especialmente num ar de vidro. Mas a poesia é a linguagem atravessando as barreiras da linguagem ordinária, para descobrir seu significado mais profundo - e insólito. É claro que Montale não usou o termo "ar de vidro" por uma simples boutade estética, um exibicionismo de técnica. Ele quer mostrar a fragilidade do mundo onde o eu-lírico está caminhando, um mundo que reflete também a fragilidade de seu espírito, corroído por dúvidas que o machucam como vidro - uma metáfora perfeita para a ferida que prova esta fragilidade, pois o vidro pode quebrar, mas ao serem quebrados, seus cacos podem também machucar. Montale vai além na sua descrição de como o mundo está corrompido no verso seguinte, quando continua a dizer que o ar, além de ser de vidro, é

árido, adicionando na metáfora do frágil, também o símbolo do deserto, presente no êxodo judaico, na fuga de Elias, no exílio de Israel e nos quarenta dias de Cristo depois de seu batismo. O deserto é o lugar propício para o "salto no ser", pois, como Sócrates diria em "Fédon", a vida nasce da morte, e a morte nasce da vida, num ciclo em que Platão elaboraria com requintes poéticos no seu mito da reminiscência, desenvolvido mais completamente no diálogo "Fedro". Mas para a vida surgir da morte, é preciso que haja uma acão do sujeito, mas não uma ação que o faça ir para frente, e sim uma ação para trás, para que o passado possa, enfim, se tornar um presente. O retorno ao início será o estopim para o "salto no ser", o salto que ultrapassará toda a percepção do tempo, para que a alma se desdobre na tensão entre a realidade deste mundo e a realidade do espírito e, enfim, crie a sua própria história e também se abra para a eternidade. Esta ação de "retorno" é mostrada por Montale com um simples verbo, também no gerúndio, seguido de outro verbo, desta vez posto no futuro (também indefinido), preparando para o fato decisivo que narra o poema.

voltando-me, verei cumprir-se o milagre

O milagre é o "salto no ser". Este salto não é um movimento para fora da realidade ou da existência como participação desta mesma realidade. É um momento em que o tempo vai subitamente para frente, para trás e continua o mesmo, simultaneamente. T.S. Eliot dizia nos "Four Quartets": "Only through time time is conquered" (Somente através do tempo o tempo é conquistado). Mas o eu-lírico não vai apenas sentir o salto: ele irá vê-lo. A capacidade de visão que o poema insinua, nos leva a concluir que a revelação só pode ser amplamente compreendida pelo espírito se também for vista. Logo, o "salto no ser" é um movimento que explicita a tensão interna da alma e a tensão externa da realidade - sendo que ambas estão intimamente ligadas.
O confronto entre as forças que puxam para cima e as forças que puxam para baixo, a alma humana tem sua descrição exata no "Fedro", de Platão. Sócrates explica a seu discípulo, Fedro, como se pode ter a beleza da alma e, para isso, conta o Mito da Parelha Alada:

"A alma pode ser comparada com uma força natural e ativa, constituída de um carro puxado por uma parelha alada e conduzido por um cocheiro.

Os cavalos e os cocheiros das almas divinas são bons e de boa raça, mas o dos outros seres são mestiços. O cocheiro que nos governa rege uma parelha na qual um dos cavalos é belo e bom, de boa raça, enquanto o outro é de raça ruim e de natureza arrevesada. Assim, conduzir nosso carro é ofício difícil e penoso".

Ao afirmar que movimentar o carro que simboliza a alma humana (o cocheiro é a inteligência e os cavalos são as forças que a movimentam) é um ofício díficil e penoso, Sócrates tem pleno conhecimento do confronto interno que o homem tem de enfrentar durante a sua vida. O "salto no ser" é o instante em que essa tensão se explicita no limite do insuportável. É quando a ordem e a desordem do mundo se digladiam em sua alma e em nenhum outro lugar. Tudo depende do indivíduo.

Como se não bastasse, há também a ordem e a desordem dentro de sua própria alma, representada pelos cavalos:

"Quando se dirigem para o banquete [dos deuses] que os espera, os carros sobem por um caminho escarpado até o ponto mais elevado da abóbada celeste. Os carros dos deuses que se mantêm em equilíbrio, graças à docillidade dos corcéis, sobem sem dificuldade. Os outros sobem com dificuldade porque o cavalo de má raça inclina e puxa o carro para a terra. Isso dá então grande trabalho para a alma".

Contudo, o milagre precisa ser cumprido - ou já foi cumprido, ou irá se cumprir. A palavra "cumprir" significa que ela deve ter um fato externo concreto, marcado dentro do tempo e do espaço. O "salto no ser" não é uma transfiguração da realidade, muito menos uma mera alucinação ou então um estalo do instinto, como quiseram demonstrar William James e Henri Bergson no início do século XX, com seus "As Variações das Experiências Religiosas" e "As Duas Fontes da Moral e da Religião". O milagre pode ser absurdo, mas não significa que não possa ser provado. No entanto, ele só pode ser provado se for visto - pelo olho da alma que registra a realidade do espírito.

A luta das forças que estão dentro da alma são também consideradas como "ações" e "contra-ações". O "salto no ser" é, essencialmente, um conjunto de ações que não se importam com sua linearidade, apesar de que só poderemos compreender seu sentido, conforme o retrospecto do tempo. Por ser ação, também não significa que não haja reflexão - mas aí não chegamos na bios theorétikos que Aristóteles falava na sua "Ética a Nicômaco", a vida teorética, em que a meditação sobre o "salto no ser" só pode ser adquirida conforme o exato entendimento deste acontecimento. As forças dentro da alma que Sócrates retratou no "Fedro" são também as forças que lutam para distinguir o que é a realidade e o que é a ilusão. A escolha de uma delas pode significar a salvação ou a danação completa:

"[As almas] tudo fazem para seguir os deuses, seu condutor ergue a cabeça para a região exterior e se deixam levar com a rotação [do Céu Platônico]. Mas, perturbadas pelos corcéis do carro, apenas vislumbram as realidades. Ora levantam, ora baixam a cabeça, e, pela resistência dos cavalos, vêem algumas coisas mas não vêem outras. Outras há ainda que, nostálgicas, seguem atabalhoadas acompanhando a rotação, incapazes de se levantar, empurrando-se e derrubando-se umas às outras, quando alguma pretende passar adiante. Há confusão e briga, e abundante suor. Muitas saem feridas, por culpa dos cocheiros. Muitas perdem as penas de suas asas. Todas, após esforços inúteis, não conseguindo se levar até a contemplação do Ser Absoluto, caem, e a sua queda as condena à simples Opinião. A razão que atrai as almas para o céu da Verdade, é que somente aí poderiam elas encontrar o alimento capaz de nutrí-las e de desenvolver-lhes as asas, alimento que conduz a alma para longe das baixas paixões".

o nada às minhas costas, o vazio atrás
de mim, com um terror de embriagado.

Mas, às vezes, a própria danação se encontra dentro do "salto no ser". Antes de tudo, o leitor deve estar querendo uma definição razoável do que seria esse tal de "salto no ser". Chegamos no momento propício para isso.

O "salto no ser" (leap in being) é o momento em que o ser humano entra em contato com o Ser divino e vice-versa. A ordem do mundo e a ordem do espírito se chocam e produzem o salto para frente, mostrando à alma a verdadeira medida da ordem do ser. Deve-se entender que, para o salto acontecer efetivamente, a existência do homem não é vista como um mero espetáculo onde ele é apenas um espectador. O homem é um ator: age sempre para frente, apesar de que, esse "para frente" não significa uma evolução ou um progresso, uma vez que o "salto no ser" é algo compacto, que rompe o tempo com uma semente de eternidade, e depois vai-se articulando conforme a compreensão deste fato. O "para frente" pode ser para trás, no sentido de restauração dos princípios que guiam a alma, princípios que, devido a aridez do mundo, estão perdidos em algum canto da verdadeira ordem do ser e na verdadeira estrutura da realidade. Isso não significa que o tempo simplesmente parou ou que o tempo não exista. O tempo nunca deixou de existir, ele é um outro fato incontestável, porque é no desdobramento sucessivo (mas não linear) de momentos que descobrimos, simultaneamente ao acontecimento do "salto no ser", o efêmero no eterno - o "nada às minhas costas, o vazio atrás de mim". O choque com o Ser divino dentro da tensão da alma e da existência da realidade, causa a consciência da nossa mortalidade - a de que seremos eternos algum dia, porque teremos que enfrentar as sombras da morte.

A única reação possível a esta constatação - a realidade implacável da morte - é justamente o "terror de embriagado". É aqui que se dá aquele fenômeno maravilhoso na alma que se chama "livre-arbítrio", em que o sujeito decide se enfrentará a vida do espírito ou então se refugiará numa fuga estéril. A morte sempre foi vista como algo negativo, um corte radical na vivência desta terra - uma prova difusa que poderia acabar com a imortalidade da alma e, portanto, reduziria a pó qualquer sentido na busca por um conhecimento mais sólido. Outra vez, foram Sócrates e Platão que mostraram que a alma poderia ser imortal, porque a busca sincera pela verdade implica numa preparação para a morte. Vejam este trecho de "Fédon", outro diálogo platônico:

"É certo que os verdadeiros filósofos trabalham com o objetivo de se preparar para a morte e esta não se lhes afigura horrível. Se, por outro lado, desejam que sua alma seja em si mesma e por si mesma, não é absurdo que, ao chegar esse momento, tenham pavor, aflijam-se e deixem de ir prazerosamente para onde esperam conseguir os bens pelos quais suspiraram a vida toda, isto é, o pensamento, objeto de suas paixões, e, além disso, com a esperança de se verem livres daquilo contra que lutaram? Pois que paixões humanas, jovens, esposas, filhos puderam, mortos, inspirar a muitos o desejo de ir espontaneamente às moradas do Hades para reunirem-se a eles, embalados na esperança de ver lá embaixo o ser que amavam e permanecer com ele, e um homem apaixonado pelo pensamento, que sinta ardentemente a esperança de encontrá-lo, ainda que seja no Hades, pesaria a este homem morrer e não se sentiria feliz de ir a esses lugares? Ah, meu estimado Símias! Deve-se acreditar que irá com muito prazer, se é realmente filósofo, porque estará persuadido de que em nenhum outro lugar encontrará em toda sua pureza esse pensamento que busca. Por ser assim, não seria, como acabo de dizer, estranho que tal homem receie a morte?".

Apesar de que Platão joga com uma metáfora poética para desenvolver e comprovar que a alma é imortal - criando a "teoria da reminiscência" -, percebe-se que o homem que busca a verdade tem a preocupação incessante de, mesmo na morte, enfrentá-la com dignidade. A imortalidade da alma não é uma mera ilusão, porque, como o próprio Sócrates afirma, "uma coisa sempre nasce do seu contrário", portanto a vida nasce da morte e a morte nasce da vida. Mas o que coloca a alma numa encruzilhada quando se depara, na sua existência êfemera, são os caminhos que ela cruza para se purificar de seus erros e de todas as suas dissipações. O mundo é um lugar onde, apesar de sua ordem, habita não a explicação exata e perfeita, mas a incompletude e o mistério. E são nestas lacunas em que o "salto no ser" se manifesta, para depois deixar ao indivíduo a dolorosa escolha do entendimento, ou o caminho espinhoso da perdição:

"Se a alma é de fato imortal, se faz necessário que zelemos por ela, não só durante o tempo presente, que denominamos viver, mas ao longo de todo o tempo, pois seria grave perigo não se preocupar com ela. Suponhamos que a morte seja apenas uma completa dissolução de tudo. Que maravilhosa ventura estaria então reservada para os maus, que se veriam libertos de seu corpo, de sua alma e de sua própria maldade! Mas, em verdade, uma vez que se tenha demonstrado que a alma é imortal, não haverá escapatória possível para ela em face de seus males, exceto que se torne melhor e mais sábia. A alma nada leva consigo ao chegar ao Hades, a não ser sua formação e regime de vida, o que, de acordo com a tradição, é exatamente o que mais valoriza ou prejudica o morto, a partir do início da viagem para o além. Portanto, dizem que o mesmo gênio que acompanha cada um de nós ao longo da vida, é também quem conduz o morto a um determinado lugar. Os que lá estão submetidos a um julgamento e, proferida a sentença, são levados ao Hades por um guia a quem foi ordenado conduzi-los até lá. Após receberem o que mereciam e terem permanecido lá o tempo necessário, outro guia os reconduz para cá, através de muitos e demorados intervalos de tempo. Dessa forma, o caminho não é como pretende o Télefo de Ésquilo, que declara ser simples o caminho que leva ao Hades; para mim, não é tão simples nem único, pois, se existisse um só caminho para chegar ao Hades, não haveria necessidade de guias, pois ninguém erraria a direção. Mas fica evidente que tal caminho possui muitas encruzilhadas e curvas, e uma prova disso são os cultos e costumes religiosos de que dispomos". (Fédon, Platão, Pág. 178, ed. Nova Cultural)

Depois como em painel, assentarão de um lanço
árvores casas colinas para o habitual engano.

Montale separa a primeira estrofe da segunda, com um espaço em branco que parece ser uma mera técnica poética, mas significa muito mais. O uso da conjunção "depois", mantendo o tempo no futuro - ou seja, prevendo no próprio presente o que acontecerá depois do milagre -, mostra as conseqüências do "salto no ser" - desta vez, já percebido na consciência do sujeito. O espaço em branco é a lacuna que retrata a meditação em torno daquele fato ímpar. Este branco na página talvez seja onde mora o perigo para aquele que teve contato com a vida do espírito.

É perigoso porque é neste abismo entre o que acontece na sua alma e o que está acontecendo com o mundo, que o eu-lírico fará a escolha fundamental de sua vida: a de ficar na tensão entre o tempo e a eternidade, ou recusar a luta e partir para a esterilidade de ser um "homem carbuncular". Um outro poeta que mostrou isso com alta intensidade poética foi Carlos Drummond de Andrade com o seu "A Máquina do Mundo". Aqui temos um ser desenganado, andando numa estrada pedregosa de Minas, com aves pairando sobre um céu de chumbo e, de repente, se vê à frente de uma máquina do mundo, que se abre "sem emitir um som que não fosse impuro/ nem um clarão maior que o tolerável", e mostra "toda uma realidade que transcende/ a própria imagem sua debuxada/ no rosto do mistério, nos abismos". Ela apenas diz ao eu-lírico:

"O que procuraste em ti ou fora de

teu ser restrito e nunca se mostrou,
mesmo afetando dar-se ou se rendendo,
e a cada instante mais se retraindo,

olha, repara, ausculta; essa riqueza
sobrante a toda pérola, essa ciência
sublime e formidável, mas hermética,

essa total explicação da vida,
esse nexo primeiro e singular
que nem concebes mais, pois tão esquivo

se revelou ante a pesquisa ardente
em que te consumiste... vê, contempla,
abre teu peito para agasalhá-lo
".

O irônico neste poema é que foi um cético quem conseguiu captar, na poesia moderna, o que acontece na alma do homem do século XX quando ocorre o retorno do símbolo do "EU SOU AQUELE QUE É", o famoso nome que Deus dá a si mesmo para Moisés, no episódio da sarça ardente. O "salto no ser" dá brecha para uma filosofia do ser, em que a união entre homem e Deus se dá através da vida meditativa, como aconselha a própria Máquina ao eu-lírico: "Vê, contempla, abre teu peito para agasalhá-lo". A vida da contemplação, que de nenhuma maneira significa uma vida inativa, é a preparação para a vida de ação plena que só um homem pode realizar - e este homem é o spoudaios de Aristóteles, o homem maduro no alto de seus poderes facultativos, que teve um confronto direto com a ordem que rege a sociedade, a ordem que rege a sua alma que, por extensão, é a mesma ordem que rege o Ser divino. O spoudaios consegue evitar o "terror do embriagado", somente depois de um processo de purgação meditativa, em que ele tem plena consciência que o sofrimento é apenas uma forma de expulsar o pecado, de fazer o ser humano retornar - mesmo temporiaramente - a um estado antes da Queda do Paraíso, para então encontrar a flor da redenção. Mas para o spoudaios acontecer na vida de um homem, é necessário dedicação, disciplina e, sobretudo, uma educação que tenha como princípio racional - isto é, o contato do humano com o Divino, como fonte de sua principal ordem moral e espiritual - o equilíbrio da virtude, tal como Aristóteles explicita em sua "Ética a Nicômaco".

A dispersão da alma é o pior pecado que se pode escolher se o "salto no ser" já se manifestou dentro dela. É o verdadeiro ato de apostasia, uma bestialidade sem tamanho que o mesmo Drummond demonstrou com toda a riqueza de significados que só a linguagem poética pode fazer: "Mas como eu relutasse em responder/ a tal apelo assim maravilhoso/, pois a fé se abrandara, e mesmo o anseio/ a esperança mais íntima (...)/ baixei os olhos, incurioso, lasso,/ desdenhando colher a coisa oferta/ que se abria gratuita a meu engenho".

O "salto no ser" se transformou no "horror metafísico", na denominação de Lezlez Kolakowski: o horror de talvez perceber que, de tão perturbadora que é a vida do espírito, o nada se ofereça como uma possibilidade de existir, como se Deus fosse apenas uma criação de nossa mente e a experiência religiosa um mero fato das nossas sensações. Esta inversão é a herança deixada pelos pensadores do século XX, com suas ideologias totalitárias e sistemas filosóficos auto-suficientes, e que nos incomoda até hoje, em proporções gigantescas. O "depois" no poema de Montale será a volta para o fluxo da existência tal como conhecemos e tal como sempre existiu - o habitual engano que volta em um lanço. As árvores, casas e colinas são captadas sem as pausas das vírgulas, como a intuição explosiva que Bergson tanto se referia, e a metáfora do painel - voltando ao aspecto da visão que está intimamente relacionada ao "salto no ser" - serve como o distanciamento meditativo que o eu-lírico absorveu entre uma estrofe e outra, o que será uma conseqüência razoável dos versos seguintes:

Mas será tarde demais; e eu irei muito quedo

entre os homens que não se voltam, com meu segredo.

A frase "Mas será tarde demais" mostra que é impossível ver o painel como um habitual engano depois do milagre ter acontecido. Este "tarde demais" é o fato de que a vida do espírito não pode ser ignorada. A humildade do eu-lírico sobre esta imposição gratuita fica claro quando ele se refere a si mesmo indo "muito quedo entre os homens que não se voltam". Quem seriam os homens que não se voltam? O restante da humanidade? E o que significa não se voltar? Já dissemos que o movimento de "voltar-se" pode ser de olhar para o passado, mas aqui o "voltar-se" também pode ser voltar-se para si mesmo, para a sua própria alma. O "salto no ser" provoca ações simultâneas na alma, seja para frente ou para trás ou mesmo uma inércia total. A alma fica irriquieta, em busca de uma unidade, de algo que possa dar o fio comum a todas essas experiências que ocorreu na eternidade de um instante.

No entanto, a descoberta desse sentido será a de uma tormenta exasperante porque, como descobrimos nesta nossa investigação, não há como fugir da vida do espírito. É o "segredo" que fecha o poema de Montale, segredo que causa na alma uma perturbação afiada, porque o mistério da existência é mostrado em toda a sua crueldade e poucos podem suportá-lo. Quem quer mostrar este segredo através de visões místicas - ou melhor, delírios místicos -, sequer teve o poder de meditar sobre ele, sobre o que significa compartilhar do sofrimento divino dentro do sofrimento humano, e o grande perigo disso tudo é perverter a vida numa metástase da fé, em que a existência é alterada a fim de transfirgurar algo impossível: o mundo em que nós vivemos.

O segredo é ter a coragem de aceitar o toque áspero da eternidade. Ninguém disse que a vida do espírito é fácil, mas ela é a única que vale a pena viver. Os obstáculos são muitos, a solidão é constante, a luta com o Mal, que está ao redor e dentro de nós, quase sem trégua. Mas, no fim, o que nos resta não é a sensação de desamparo e sim a de alguém que nos acompanha, desde o início dos tempos. O verdadeiro poder do homem maduro é saber que a humildade da experiência não provém da sabedoria e sim, do medo de perder a aspereza do eterno. Pois, como disse T. S. Eliot:

"Do not let me hear
Of the wisdom of old men, but rather of their folly,
Their fear of fear and frenzy, their fear of possession,
Of belonging to another, or to others, or to God.
The only wisdom we can hope to acquire
Is the wisdom of humility: humility is endless
".

 

Martim Vasques da Cunha é escritor e jornalista
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