A Guerra Subversiva

Nasce um otário a cada minuto: Gareth Malham oferecendo sua alma na
e-Bay
Não se fazem mais artistas como antigamente. Um tal de Gareth Malham resolveu vender sua alma por US$ 16,95 (cerca de R$ 45) na e-Bay (leilão eletrônico na internet), como se fosse parte de uma "experiência artística". Ele afirmou à BBC que fecharia um acordo com o comprador, assinando um documento com seu próprio sangue - uma paródia grotesca de "Doutor Fausto" que nem Christopher Marlowe imaginaria, mesmo com seu gosto pelos baixos instintos do ser humano. Não bastasse o ato por si só, Malham encontrou um comprador para a sua mísera alma, que disse ter perdido a sua numa aposta para um jogo de hóquei.
Num passado não muito distante, falavam em "um vintém pelos seus pensamentos". Era uma maneira aparentemente inofensiva de querer saber o que o outro matutava na cabeça. Agora, o chiste ficou mais profundo. Virou "tua alma por um vintém", em que ninguém mais precisa de um Mefistófeles para fazer o acordo, pois o pseudo-Fausto tomou a liberdade de transformá-la em uma mercadoria de quinta categoria. O motivo? "Dificuldades financeiras", alegou o energúmeno. Até mesmo o Diabo deve ter ficado ofendido com tamanha estupidez.
O problema é que o sujeito se diz ser um "artista". Parece que chamar alguém de "artista" dá um certo prestígio e, quiçá, uma certa irresponsabilidade divertida às coisas do mundo. É como ser um maluco de hospício - mas um maluco com grife da moda, em que suas ações e idéias são descartadas pela sociedade sob o rótulo de "excêntricas", quando, na verdade, são dignas de uma sentença de interdição judiciária, segundo qualquer juiz que se preze e que saiba o Código Civil.
Ser um artista não é desculpa para agir como um imbecil - e isso é um detalhe do qual o mundo inteiro esqueceu, particularmente o nosso querido Brasil. Em 1924, Franz Kafka escreveu um conto chamado "Um Artista da Fome", em que o personagem principal era um mestre do jejum que, exposto ao escracho público numa jaula de circo, vê o desinteresse de sua arte crescer até o momento em que, prestes a morrer, ele pede desculpas às pessoas que o observavam com desdém, porque ele "não havia encontrado o alimento que apreciava".
O que Kafka queria dizer com sua parábola era que o artista tem uma responsabilidade que ultrapassa as necessidades deste mundo. E esta responsabilidade envolve nada mais, nada menos que sua alma - a mesma alma que Gareth Malham vendeu por parcos dólares. Atualmente, uma atitude de renúncia e sacríficio é considerada uma piada para nossos artistas. Segundo eles, quem quer passar fome, não é artista - é um mendigo. Mas isto não impede que façam seus eventos beneficentes, em homenagem aos pobres e oprimidos, querendo acabar com a miséria do mundo, mas sem se preocupar em encontrar o alimento de sua própria arte, produzindo esterilidade atrás de esterilidade.
Nesse sentido, o comportamento do artista é o mesmo do intelectual. Ambos querem mostrar a todo custo aquilo que Adorno chamou de "o amor ideal pelo pessoal da cozinha". Fazem parte de um grupinho muito seleto, o dos esquerdosos regados a champagne, caviar e colunas sociais, fingindo que sonham com um mundo melhor. Sua arte é pobre no rigor da concepção e da execução, baseada apenas nas próprias dificuldades financeiras, nunca nas verdadeiras questões que movem a humanidade, como, por exemplo, o problema da salvação da alma e o que fazer com o sentido da vida.
Precisou um otário como Gareth Malham mostrar a que ponto chegou a desumanização da arte. Mas Malham é um inglês, e os ingleses ainda têm o álibi da ironia e do sarcasmo. No Brasil, não há nenhuma dessas duas fugas, apenas uma lerdeza de espírito e uma preguiça moral. O que motiva o artista brasileiro na procura de seu alimento, não é a abertura amorosa da alma que força o ser humano a desejar a imortalidade, através da procriação de suas obras ou da conseqüência de seus atos, e sim, esta série de equívocos chamada fama. Os efeitos desta descida aos infernos são muito simples: uma inveja crescente, que corrói a consciência de um povo e, o mais impressionante deste fenômeno, cria uma comunhão com ele, dando a impressão de sermos testemunhas do nascimento de um novo culto satânico.
É por isso que no Bananão idolatram os Gareths Malhams da vida, como Caetano Veloso, Rubem Fonseca, Marisa Monte, Miguel Fallabella, Arnaldo Antunes, Chico Buarque e muitos outros. Os nossos artistas já venderam a alma há muito tempo e o que receberam não foi quarenta e cinco reais: foi a ilusão de uma vida sem eternidade, fundada apenas nas mazelas sociais de um país que nunca teve muito futuro. No final de seu conto, Kafka mostra que, logo depois da morte do seu artista da fome, substituem-no por uma pantera que fascina e perturba o público, por causa do bafo de liberdade que sai de suas mandíbulas. Esta pantera comerá os restos da arte brasileira que nos deixaram como herança. Sua fome será muito maior do que a desses artistas e será necessário mais de dezessete dólares para encontrar e comprar o alimento que deveríamos apreciar porque, como alguns devem saber, existem certas coisas que não têm preço.
Martin Scorsese, em seu documentário "Uma viagem pessoal através do cinema americano" (1998), mostra a carreira de alguns diretores que, apesar de atenderem aos propósitos comerciais de Hollywood, conseguiam fazer filmes autorais que passavam mensagens subversivas. Eram os cineastas "contrabandistas" que, com muita astúcia, tratavam de temas relevantes sem perder a noção de entretenimento. Scorsese colocava nesta linhagem diretores do porte de Joseph H. Lewis, William Wyler (ganhador do Oscar por "Ben-Hur") ou Michael Curtiz (que fez "Casablanca"). Atualmente, podemos acrescentar um novo nome: George Lucas.
Para quem temia um filme pior do que "Episódio 1 - A Ameaça Fantasma", pode respirar aliviado. "Star Wars: Episódio 2 - Ataque dos Clones" é um filme infinitamente superior, não só porque Lucas corrigiu as bobagens feitas no filme anterior (como Jar-Jar Binks, que, desta vez, só aparece por dez minutos), mas também porque fica claro o que ele realmente quer fazer com sua saga - um filme político de caráter subversivo, em que mostra que toda república aparentemente democrática é o estopim para uma ditadura.
Na verdade, isto sempre esteve presente na trilogia original. Contudo, o disfarce de uma fantasia de ficção-científica, os milhões de dólares jogados em marketing e uma série de equívocos envolvendo "Episódio 1" não deixaram o público perceber o plano de George Lucas. Desta vez, em "Episódio 2", o aspecto político está tão cristalino que não há como ser evitado.
Claro que existem falhas - e muitas. Mas somos obrigados a esquecer a interpretação amadora de Hayden Christensen como Anakin Skywalker, um fedelho tão arrogante que qualquer um pode compreender porque o Lado Negro da Força o chama constantemente. Somos obrigados a esquecer alguns diálogos abomináveis ou os figurinos espalhafatosos da Senadora Amidala. Somos obrigados a esquecer que o Mace Windu de Samuel L. Jackson parece ter saído de um beco do Brooklyn do que de um planeta em uma galáxia muito, muito distante. E, enfim, somos obrigados a esquecer o visual hiperrealista que Lucas impôs com sua obsessão pelo filme digital, uma obsessão que não sossega se não mostrar milhares de naves flutuando atrás de uma janela ou três gigantescas cachoeiras numa cena de amor, quando poderia mostrar somente uma.
Temos de fazer esse esforço por causa do aviso que Lucas quer passar ao público. Quando ele fez a primeira trilogia de "Star Wars", a aliança rebelde de Luke Skywalker, Princesa Léia e Han Solo representava os movimentos libertários que desejavam o fim de ditaduras totalitárias como a do General Pinochet, no Chile, ou a da União Soviética, na Polônia e na Tchecoslováquia. Agora, vinte e cinco anos depois, ao contar como Anakin Skywalker virou Darth Vader, a nova trilogia mostra como a política é um jogo de poder fútil, em que os bons são manipulados pelos maliciosos através de seus ideais pervertidos, para distorcer o princípio da ordem e impor somente a desordem. Nada mais atual e, ao mesmo tempo, nada mais subversivo nesses tempos em que ninguém percebe que uma nova ordem mundial quer acabar com a liberdade do ser humano, gerando seu espírito através de guerras ou do terrorismo armado com bombas e movimentos de guerrilhas revolucionárias.
Assim, podemos reconsiderar os inúmeros defeitos do filme e perceber que, apesar de se passar num mundo de fantasia, Lucas narra uma história profundamente humana. Da mesma forma que Tolkien fez com "O Senhor dos Anéis" (mas em menor grau), são as fraquezas da paixão e da arrogância que impelem os personagens a entrarem no teatro de marionetes criado pelo verdadeiro protagonista da saga, que nunca foi Anakin ou Luke Skywalker, e sim ninguém menos que o Senador-Que-Será-Imperador Palpatine, interpretado com elegância afetada por Ian McDiarmid (que deveria dar aulas de etiqueta a um Fidel Castro).
É bem provável que, durante os anos em que ficou recluso no seu Skywalker Ranch, George Lucas tenha lido Murray Rothbard e Ludwig Von Mises, os economistas políticos que fizeram uma anatomia devastadora do Estado no século XX. "Star Wars" parece ser uma saga paralela da história da Humanidade, em particular dos EUA. Como bem observaram David Caldwood no site Lew Rockwell.com e Mark Thorton na Mises.org, isto fica óbvio em "Episódio 2", quando Lucas cita explicitamente Abraham Lincoln ao botar na boca do Senador Palpatine as seguintes palavras: "Eu amo a democracia, eu amo a República e, por isso, criarei o Grande Exército da República para impedir o avanço dos separatistas". Ora, bolas, esta foi a mesma declaração que Lincoln, considerado um grande democrata, fez antes de entrar na Guerra da Secessão, um dos conflitos civis mais sangrentos já realizados. E qualquer um que tenha lido Rothbard e Von Mises sabe que, para aumentar o poder do Estado, nada como inventar uma guerra e amá-la a qualquer custo.
No entanto, apesar de ser subversivo no seu conteúdo, Lucas continua sendo um cineasta antiquado na forma. Mesmo com a revolução digital em que ele está empenhado em divulgar, "Episódio 2" tem a estrutura de um episódio de matinê, abusando da montagem paralela de Griffith, ao intercalar as investigações de Obi-Wan Kenobi com o romance de Anakin e Amidala. O relacionamento entre estes dois jovens é marcado pela trilha-sonora de John Williams, que consegue dar um tom trágico e dolorido que poucos irão compreender. Talvez seja apenas na estréia de "Episódio 3", ao mostrar a queda definitiva de Anakin Skywalker, que o espectador entenderá o que George Lucas quis dizer com sua saga política-libertária, em que a desordem das paixões está conectada com a desordem das idéias. Mas então será tarde demais e nem a Força poderá impedir a escuridão que reinará por muito tempo.
Martim Vasques da Cunha é escritor e jornalista
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