As Lições Obscuras

Por Martim Vasques da Cunha


Quinhentos anos separam Dante Alighieri de Henry James, mas o mercado editorial brasileiro tratou de reuní-los com os lançamentos da pequena biografia de R.W.B.Lewis sobre o poeta florentino ("Dante", Editora Objetiva, R$ 27,90) e de "A Taça de Ouro" (Record, R$ 55,00), o último grande romance do escritor americano, naturalizado inglês. Os anos não significam muita coisa quando se trata de dois mestres: Dante é o pilar da literatura mundial, com seus poemas, tratados filosóficos e, principalmente, com sua "Comédia" (o adjetivo "Divina" foi cortesia de Boccaccio e assim ficou); Henry James mudou a arte do romance no século XX, influenciando pessoas do calibre de James Joyce, Ernest Hemingway, F. Scott Fitzgerald, Vladimir Nabokov e até mesmo o português Antonio Lobo Antunes.

Henry James pode ser o mestre no gênero romance, mas ele não existiria sem Dante Alighieri. Superlativos se tornam clichês quando se fala do poeta de Florença, o homem que estendeu aos limites da linguagem a expressão da transcendência e do inefável. Tudo o que se pode pensar que foi feito na literatura, Dante já fez antes de todos - e melhor que qualquer um. Segundo T.S.Eliot, um sujeito que levava a sério o que lia e o que pensava, o único que poderia se igualar a Dante seria Shakespeare e ainda assim, o misterioso Bill perderia por alguns pontos por não ter a mesma "riqueza imaginativa".

Realmente, "riqueza imaginativa" é o que não faltava a Dante, até porque a sua imaginação não era uma mentira. Erich Auerbach acertou na mosca quando afirmou que o leitor que tinha um primeiro contato com a obra de Dante, deveria entendê-la como a manifestação de uma alma atormentada na procura de uma unidade por trás da mudança e, por isso, só poderia traduzí-la em palavras através de visões. Sua poesia é visionária ao extremo, chegando ao ponto de fazer algumas profecias na "Divina Comédia", nitidamente inspiradas no pensamento gnóstico de Joaquim De Flora, mas há um profundo vínculo humano que o torna próximo de nós, que é justamente a sua meditação sobre "a condição obscura do Amor".

Hoje em dia, até uma criancinha do primário sabe da paixão que Dante Alighieri teve por Beatriz Portinari. Já virou um melancólico conto da carrochinha: aos nove anos de idade, Dante viu a pequena Beatriz e logo sentiu um tremor que o apossou na "câmara secreta de seu coração". Ele a veria novamente nove anos depois, quando Beatriz o cumprimentou com sua graça peculiar, e Dante se sentiu o homem mais abençoado do mundo. Uma benção que duraria pouco: Beatriz casaria com um outro pretendente e morreria de tifo dois anos depois.

Dante poderia ter ficado inconsolado, mas fez mais. Em homenagem a Beatriz e para recuperar o amor que nunca teve, criou os poemas de "Vita Nuova" e a catedral minuciosa da "Comédia", com seus versos em terza rima, narrando a caminhada do próprio poeta pelo Inferno, Purgatório e Paraíso, acompanhado por Virgílio (o criador de "Eneida", o poema romano por excelência), até o seu reencontro com a amada perdida.

Mas uma obra poderosa como a de Dante Alighieri, não é apenas sobre uma mórbida dor de cotovelo. É a prova de que a humanidade vale a pena neste mundo de incertezas. Quem não leu Dante sequer pode ser chamado de ser humano. Ele é tudo o que a arte da poesia foi e poderia ter sido, se o resto do mundo não tivesse escolhido a bárbarie dos versos concretistas e do multiculturalismo anti-cristão. Seus poemas são o retrato mais perfeito de uma inteligência que sempre buscou uma forma de unir as duas pontas da vida - a da ilusão e a da realidade - para encontrar, embaixo das aparências, a unidade do espírito.

Henry James pretendeu seguir a mesma meta. Entretanto, se Dante é o representante máximo do fim da Idade Média e o início do Renascimento, James é a ponte que liga o romance realista do século XIX com o modernismo que busca imitar a percepção humana. Somente uma pessoa conseguiu igualar James nessa proeza - e ela foi Machado de Assis. Aliás, como já foi comentado na coluna da semana passada, com o ensaio "Os Espelhos Secretos", Machado e Henry James têm muito mais em comum do que sonha a nossa vã literatura, e uma das provas do nosso desastre cultural é que nenhum crítico literário teve a coragem para fazer um estudo sério sobre estes dois gigantes, que provaria não só a genialidade do Bruxo de Cosme Velho, como também o pioneirismo do Velho Solteirão.

"Velho Solteirão" era o apelido no qual os detratores de James o chamavam para ridicularizar sua total dedicação à literatura ao escolher o celibato. Assim como Dante, James era uma prima-donna que via nas palavras a única maneira de unir os fragmentos que restavam da sua civilização. Dominou os gêneros do conto, romance e ensaio como poucos, apesar de ter sido um fracasso completo no teatro. "A Figura no Tapete", "Retrato de uma Senhora", "A Arte da Ficção" são exemplos de um escritor que procurava nos meandros da mente humana, a mesma "condição obscura" que Dante tentava iluminar com sua poesia.

A grande diferença entre Dante Alighieri e Henry James é a forma como tentam buscar a luz. James é muito mais pessimista, enquanto Dante tem a velha e boa esperança cristã amparando-o sempre. James prefere a ambigüidade, a incerteza, a indefinição de sentimentos, a relatividade de um mesmo fato permeando diferentes pontos-de-vista no momento de narrar a história; Dante quer ser tão claro em suas descrições que cada parte da "Comédia" parece ser um quadro arrancado de sua mente, na certeza de que a aventura heróica da fé, apesar de ser árdua, é a única maneira de ser pleno nesta vida; James retorce o seu estilo, tornando a consciência humana uma espécie de átomo, no qual cada parte é esmiuçada até o fim, criando o efeito fascinante ao leitor de conhecer cada vez menos o personagem que se apresenta à sua frente; Dante condensa os versos, deixando-os mais compactos e cristalinos à medida que se aproxima do inefável (como nos últimos cantos do "Paraíso"), mesmo que isso leve-o a forçar o seu espírito ao um limite exasperante.

Infelizmente, a biografia de R.W.B.Lewis não mostra essas peculiaridades do poeta de Florença, preferindo contar sua vida numa narrativa pálida e, heresia das heresias, dissecar a "Comédia" em doses homeopáticas, como se fosse um guia de estudos explicativos, desestimulando alguém que queira ler o maior poema do Ocidente. Coisas de um mundo globalizado que o Brasil macaqueia com perfeição. O pior acontece com Henry James que, numa tradução gaguejante de "A Taça de Ouro" feita por Alves Calado, dá a impressão ao leitor de que o "Velho Solteirão" era um chato de galocha que antecipou os filmes da dupla Merchant-Ivory, não transmitindo a riqueza estilística da língua inglesa, quando, na verdade, é um estudo fascinante sobre como o ser humano pode manipular as intenções e os sentimentos do seu semelhante - aliás, um tema corrente na ficção de James, desenvolvido plenamente em seu último romance.

Mas essas são as penas que sofremos por viver num país que cometeu o crime de deixar a sua cultura numa "condição obscura". Hoje em dia, ninguém mais lê a "Divina Comédia" porque anos e anos de Rubem Fonseca e Paulo Coelho escravizaram o brasileiro numa literatura baixa, repleta de perversões que só podem ser expiadas através de rituais de pseudo-religião. E quando alguém se interessa por algum livro de Henry James, é para descobrir algum recalque freudiano que revelará uma suposta homossexualidade ressentida do "Velho Solteirão", ou para analisar as classes sociais na Inglaterra e nos EUA no melhor modelo marxista, esquecendo-se que James foi um dos grandes investigadores de como o Mal se dissemina no coração humano. Depois que Paulo Coelho foi eleito por um bando de zumbis para ser o novo imortal na Academia que antes tinha o selo de Machado de Assis e Joaquim Nabuco, nada mais pode ser feito. Dante Alighieri e Henry James se tornaram dois fosséis mal-tratados para o mundo cultural brasileiro. Esta ignorância é o estofo do qual os pesadelos são feitos.


A pergunta crucial que une os discursos dos candidatos à presidência é a mais simples de todas e, por isso mesmo, nenhum teve coragem de dizê-la, preferindo as fugas medíocres da retórica populista: De quem é a culpa? Sim, leitor, os presidenciáveis querem responder a você, pobre cidadão, quem é o culpado pelo fundo do poço em que o Brasil entrará - se já não entrou há quinhentos anos. Infelizmente, as respostas que eles pretendem dar são insatisfatórias, trazendo na boca o travo amargo da irresponsabilidade e da covardia.

O que os brasileiros precisam é de alguém com a ousadia moral de um Sólon. Modelo de legislador para um sujeito rigoroso como Platão, Sólon, quando percebeu os primeiros sinais de decadência na frágil ordem da polis ateniense, afirmou que a culpa nunca foi dos deuses, como muitos queriam pensar, mas sim dos próprios atenienses que, por não terem compreendido a "medida invisível" da justiça divina que mora dentro de cada alma, se revoltaram contra a natureza das coisas, prejudicando a estabilidade social e política de Atenas. Obviamente, ele foi escorraçado pelo povo, e sua única escolha foi o exílio, para que o "julgamento do Tempo" desse a resposta justa, sempre em conformidade com a "medida invisível" que orientava a sua alma em direção à verdade transcedente.

Hoje em dia, pouca coisa mudou - e se mudou, foi para pior. A simples menção da palavra "transcendência" na boca de um candidato virou um palavrão cabeludo. Mas o sinal claro de decadência está no espinho da culpa, que perfura nossas mãos justamente por fazermos um joguinho de empurra-empurra em que a responsabilidade sempre é do Estado, da sociedade capitalista, da pobreza mundial, da Igreja Católica, do FMI, do Império Americano, do Fernando Henrique Cardoso, do Pedro Malan, do Banco Central, da Dercy Gonçalves, do Roberto Marinho, do Sílvio Santos e, quiçá, do vizinho da esquina, quando, na verdade, a culpa de estarmos neste pandemônio é da nossa natureza mesquinha, enraizada numa inveja que os acadêmicos catalogaram no eufemismo burocrático do "homem cordial".

Os discursos populistas de Lula, José Serra, Ciro Gomes e Anthony Garotinho refletem, respectivamente, os quatro tipos de político que o brasileiro deseja ser, para se agir nos bastidores do poder: o operário orgulhoso de sua ignorância, o estatólatra peso-pesado, o caudilho simpático e o evangélico charlatão. Para eles, querer dar uma de messias é a mesma coisa que querer ter a dignidade de um Sólon. São candidatos medíocres para um país mais medíocre ainda, que sequer passou por um verdadeiro trauma, um trauma que poderia crescer a alma nacional e adicionar um pouco de nobreza no cotidiano. Entretanto, para assumir a responsabilidade sobre algo que está dando errado há mais de quinhentos anos, é necessário ter o aprendizado do sacrifício e purgar o espinho da culpa.

O problema é que o brasileiro se esqueceu o significado da palavra "sacríficio" porque sequer tem coragem de enfrentar a realidade implacável da morte. Vivemos em um eterno pandemônio, financiado pelo mantenedor de inúteis chamado Estado, e se o sexo é nossa razão de ser, porque não aproveitamos para transformá-lo em uma nova forma de negócio? O aspecto lúbrico da mentalidade brasileira se estende na nossa intelligentizia, rodeada de cafetões e prostitutas, prontas para vender seu pensamento em nome de Fidel, dos petófilos ou em homenagem a assassinos transformados em heróis de papelão. Nestas terras em que as aves só sabem gorgear ao ritmo da Internazionale ou do pseudo-samba de Caetano Veloso, pensar na morte é um pecado mortal porque quem manda na História, segundo nossas cabeças pensantes, é a luta pelo poder - e o poder faz o sujeito imaginar que pode vencer a indesejada das gentes.

Mesmo assim, a culpa permeia cada um de nossos atos, cada um de nossos olhares, cada um de nossos gestos. Nós sabemos que levamos o país ao desastre, mas escolhemos a neurose como estilo de vida. O sujeito que vê a destruição ao seu lado e não faz nada, sequer pode ser chamado de ser humano - é um pústula. Contam-se nos dedos aqueles que, sabendo muito bem onde mora o problema - na consciência invertida de todos nós -, resolvem extripá-lo, usando os meios que estão ao seu alcance, como a educação e a palavra escrita.

A responsabilidade moral que o brasileiro carece não é uma experiência imposta pela realidade exterior, mas sim pela "medida invisível" que, sabe-se lá como, nos impulsiona para a compreensão do mundo, respeitando a sua natureza. A descoberta de Sólon em Atenas depende de um desejo individual, nunca de um desejo coletivo - e atualmente, pensamos apenas na companhia desordenada dos outros, com raciocínios que não guardam nenhuma coerência com a vida real. A conseqüência é mais simples do que parece: o homem que não atende a esta "medida invisível" trai não só a si mesmo, mas também está prestes a corromper seus semelhantes, como se fosse o verdadeiro juiz deste mundo.

Este é o motivo oculto no qual os quatro principais candidatos à presidência, são eficazes apenas para acelerar o desastre nacional. Alguns leitores obtusos poderão pensar que este artigo está sendo catastrófico demais ou que é uma apologia do voto nulo. Não é nem um, nem outro - é somente um aviso de que as coisas saíram do nosso controle. Escolhemos a religião do Estado ao invés de descer nas profundezas da nossa alma e descobrir a justiça que pertence a cada um de nós - a justiça que realmente julga as coisas como elas são e não como pensamos que devem ser. A receita para a cura de nossa doença foi um sonho e agora descobrimos que o sonho sempre foi um pesadelo.

Entretanto, isto não significa que devamos desistir. A coragem de Sólon foi a de aceitar que o "julgamento do Tempo" purgasse todos os vícios para reclamar a posteridade que lhe era devida. Quem, entre nossos futuros estadistas, terá semelhante atitude? A perseverança em ver o futuro como algo indefinido e misterioso foi trocada pela ansiedade de querer ter o futuro na palma da mão. Os vícios que atacaram Atenas há seis mil anos são os mesmos que atacam esta terra papagalis. A única maneira de termos um pouco da dignidade de Sólon é enfrentar a lição de trevas que se aproxima para, algum dia, se o Tempo deixar, podermos conhecer o pouco de paz que nos resta.


Era uma vez um diretor chamado Steven Spielberg que tinha um talento incomum para dirigir superespetáculos cinematográficos. Ele fez fama com vários filmes que já se tornaram clássicos, como "Tubarão" (1974), "Contatos Imediatos do Terceiro Grau" (1977), "Os Caçadores da Arca Perdida" (1981) e "E.T. - O Extraterrestre" (1982), marcantes por unirem a visão de uma criança em torno de um mundo de fantasia e aventura, com a perfeição técnica de um adulto que sabia muito bem o que fazia. Mas o sucesso também provoca desvios de conduta: Spielberg começou a querer ficar adulto demais, emulando pateticamente os grandes mestres que fizeram a sua cabeça, como David Lean ("Império do Sol"), Walt Disney ("Hook"), Akira Kurosawa ("A Lista de Schindler", na verdade um pseudo-Kurosawa dedicado às suas raízes judaicas) e Stanley Kubrick, com "Inteligência Artificial" (2001) e agora com "Minority Report - A Nova Lei" (Minority Report, EUA, 2002).

"Minority Report" não é a redenção de Spielberg, como muitos críticos proclamaram, inspirados em seus inúmeros press-releases, distribuídos por eficientes assessorias de imprensa. Na verdade, é uma meia-bomba que sofre do mesmo problema de "Inteligência Artificial": esquizofrenia aguda. Spielberg quer fazer um filme de ficção-científica, um filme policial, um filme de idéias, um filme de atores, um filme político, um filme existencial, um filme de amor, um filme visionário e um filme de ação - tudo de uma vez só e esta massaroca só pode ficar indigesta para o estômago do pobre espectador que só quis ver, simplesmente, um filme de Steven Spielberg, com Tom Cruise no elenco.

Nada contra brincar com vários gêneros - desde que o diretor tenha controle sobre eles. Spielberg não tem esta capacidade. Ele quer imitar Stanley Kubrick em cada uma de suas tomadas, mas o que consegue é uma caricatura para satisfazer os impulsos de críticos que, como Spielberg, sequer chegaram à idade adulta. Aliás, o que falta a ele é ter a mesma coragem que tinha um Kubrick, de ir até o fim da perversidade que está retratando, sem nenhum pudor, para entregar ao espectador inteligente não um bombom gorduroso, mas sim um belo soco no esôfago.
"Minority Report" quer ser pertubador e sequer perturba o cachorro da vizinha. É um bom filme de entretenimento e só. Tom Cruise continua com seu plano de carreira de implodir, a cada filme que faz, a sua fama de galã e bom moço, interpretando com sutileza um personagem atormentado, viciado em drogas e obcecado pelo desaparecimento do filho - um arquétipo constante que aparece nos inúmeros contos de Philip K. Dick, o gênio paranóico em que os roteiristas de "Minority Report" se inspiraram para criar a trama que deseja ser intrincada, mas termina com mais furos do que um queijo suíço. O visual é realmente impressionante, graças ao olho de Janusz Kaminsky, o polonês que acompanha Spielberg desde "A Lista de Schindler", e é sempre um alívio saber que num futuro em que o Estado invade cada centímetro de sua privacidade, ainda se pode escutar Schubert, Henry Mancini e Billie Holliday em shoppings e lojas da marca Gap.

Contudo, é um filme que também transmite um incrível sentimento de perda porque poderia ter sido um grande filme, provavelmente um dos melhores de Steven Spielberg. "Inteligência Artificial" também dava essa mesma sensação, uma vez que Spielberg não mergulhava nas idéias que filmava. Nadava apenas na superfície. A mesma coisa acontece com "Minority Report": há pinceladas sobre o ato de ver, sobre a divinização de videntes, sobre a questão do livre-arbítrio, sobre as lacunas de uma lei autoritária, sobre a transformação do Estado em um Leviatã de proporções bíblicas, sobre os burocratas e, finalmente, sobre o confronto do ser humano com seu próprio destino. A pergunta que se faz durante a exibição é: Será que Spielberg vai enfrentar todas essas questões espinhosas como o velho Kubrick fazia - com mão de ferro, coragem e sentidos afiados?

Não, caro leitor, ele não vai fazer isso. Entretanto, "Minority Report" acentua ainda mais a sensação de tristeza para o cinéfilo quando aparecem as quatro seqüências que Spielberg dirigiu dentro do filme, seqüências que nos dão uma sensação de dejá-vu ao sentir a mão de um sujeito que foi um grande diretor. Elas são as seguintes e qualquer espectador concordará com este texto: o fantástico início, em que se mostra detalhadamente como funciona o Departamento de Pré-Crime, amparado numa montagem de suspense que deixaria Hitchcock de cabelo em pé; a cena da operação dos olhos de Tom Cruise, de um humor negro insuspeito para Spielberg e com um toque demente que faria Kubrick sorrir carinhosamente; a cena da invasão das aranhas-robôs, num ousado plano-seqüência, em que Spielberg parece homenagear o seu amigo Brian De Palma; e a perseguição no shopping, ao som de "Moon River", onde a vidente Agatha (Samantha Morton), seqüestrada pelo personagem de Cruise, prevê de forma assustadora cada acontecimento do futuro. François Truffaut chamava estes momentos de "atos de bravura". É melhor chamá-los de "atos de perdição", porque, com "Minority Report", Steven Spielberg perdeu a chance de fazer um grande filme. E quem perde com isso é o espectador e, claro, o próprio cinema.

Martim Vasques da Cunha é escritor e jornalista
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