Jornalismo despedaçado

Por Martim Vasques da Cunha


Ultimamente, não há sujeito mais caluniado no jornalismo brasileiro do que Sandro Guidalli. Colunista no portal eletrônico Comunique-se, Guidalli faz na sua coluna "Nas Entrelinhas" um pouco do que Olavo de Carvalho faz na grande imprensa. Mas se Olavo impressiona a todos pelo modo assustador como coloca seus argumentos, com verdadeiras estocadas no estômago do leitor anestesiado pela mídia esquerdosa, que provocam feridas que, se não forem cuidadas, podem causar sérias hemorragias psíquicas no cérebro de alguns pobres fracos de espírito, Guidalli é muito mais sereno e tranqüilo. Por isso mesmo, é muito estranho ler os comentários publicados no portal sobre as colunas semanais de Guidalli. Todos o atacam sem dó, nem piedade, alguns ameaçando a deixar de assinar o Comunique-se, como se tamanho boçal fosse de grande importância para os administradores do site.

O fato é que Guidalli mexe em vespeiro atrás de vespeiro nos seus textos. E faz algo melhor: deixa os outros falarem sobre os mais diversos assuntos, sem prejudicar sua independência como jornalista. Tudo bem, ele faz parte de um grupo que luta contra a imbecilidade que pôs este país na rota do inferno - mas isso só prova que, afinal de contas, existe um pensamento liberal e conservador, mas que falta justamente uma articulação e, principalmente, uma aglutinação. Isto já foi feito com a criação do "Mídia Sem Máscara", a mais nova empreitada de Olavo de Carvalho e Diego Casagrande e, de forma pioneira, com este próprio "O Indivíduo", que, graças a Alvaro Velloso de Carvalho, Marcelo Tostes, Alceu Garcia e, em menor escala, eu mesmo, trouxe ao público brasileiro, as idéias de Ludwig Von Mises, Murray Rothbard, Hans-Hermann Hoppe, Friedrich Hayek e Bertrand de Jouvenel, antes conhecidos pelos felizes leitores das obra de Meira Penna, ou então integrantes dos Institutos Liberais.

Contudo, o que falta é uma articulação geral do pensamento liberal-conservador, chamado aqui com a alcunha pejorativa de "direita". Um dia desses, um amigo me perguntou qual seria a diferença entre direita e esquerda e a única resposta possível, depois de ter analisado todas as vertentes do pensamento esquerdista, de Marx até Hegel, passando por Antonio Gramsci, foi que nunca houve uma direita organizada. A "direita" é um farrapo de homens isolados que, amparados por uma única coisa a não ser a ordem moral de suas almas, resolveram denunciar a desordem que corrompia a sociedade em que viviam. E, infelizmente, essa situação não parece mudar tão cedo.
Por quê? A resposta é muito simples: somos muito poucos perto dos milhares de imbecis que assolam as escolas, universidades e redações do país. A nossa "direita" é tão desarticulada que ela se reúne apenas em tentativas heróicas - para não dizer, quixotescas - na hora da confrontação. Mas isto não é uma desvantagem: na realidade, é nossa maior virtude, pois se fossemos um grupo organizado, com uma ideologia definida, perverteríamos todo o nosso trabalho, e aí sim seríamos iguaizinhos aos nazistas e aos fascistas que muitos tentam nos igualar.

Ser da "direita" também não é um bom negócio porque não entramos nesse combate por amor à política, mas sim por prezar algo maior, que é a unidade do espírito humano e sua capacidade miraculosa de transcender este mísero mundo. Rejeitamos qualquer espécie de ditadura porque queremos que o homem seja livre, na liberdade que é aceitar os limites da nossa existência. Quem quer fugir desse fato indiscutível, através de críticas maliciosas, só pode ser considerado um rato, nada mais, nada menos.


Primeira entrevista dada a Sandro Guidalli, não publicada no portal eletrônico Comunique-se.

Sandro Guidalli: O episódio da morte do repórter Tim Lopes e a recente condenação de dois jornalistas no Sul por terem criticado o governador Olívio Dutra, parecem dois fatos muito ligados um ao outro e de extrema importância para se entender o que se passa no país hoje. De um lado, temos o tráfico cada vez mais entranhado na sociedade (o que muitos chamam de estado paralelo) enquanto do outro assistimos ao avanço do estado fascista controlador dos poderes e dos meios de opinião, signos vitais da democracia. Diante do atual quadro, quais as observações que você faria a este respeito? Estamos caminhando realmente rumo à Colômbia ou trata-se na verdade de um imenso exagero, são fatos absolutamente isolados e sem conexão um com o outro?

Resposta: Os dois fatos estão ligados, mas não em relação à liberdade de imprensa ou às forças coercitivas legais contra a profissão de jornalista, como podem pensar os mais afobados. Eles estão ligados em relação à questão da responsabilidade. O que seria esta "responsabilidade"? É a forma como a consciência individual do sujeito se relaciona com a realidade em que vive concretamente, sabendo que suas ações e suas idéias têm conseqüências e que afetam as outras pessoas. A noção de responsabilidade foi perdida não só no jornalismo brasileiro, como também na elite intelectual em geral. O que liga estes fatos aparentemente díspares, é a responsabilidade que os próprios jornalistas têm com seus pares, que são atingidos por escolhas nefastas feitas há trinta anos.

Estas escolhas foram as ideologias políticas, sejam da direita ou da esquerda. Jornalismo pode lidar com política, mas não é política - é apenas uma maneira de um sujeito querer retratar o mundo em que vive. Não é sequer uma ciência, porque a formação intelectual pedida para um jornalista é tão carente de uma tradição sólida que, para eles, Marilena Chauí é filósofa e Marx um grande gênio da humanidade (obviamente, estão errados - Marilena é uma mera professora universitária e Marx é, nas palavras de Eric Voegelin, um trapaceiro intelectual). A única definição possível para o jornalismo nos tempos atuais é a de ser um posicionamento contra qualquer Poder instituído (no caso, o Estado-Leviatã, a menina dos olhos dos socialistas, dos democratas e dos ditadores), um posicionamento em que está em jogo, não uma ética própria e sim, como diria Claudio Abramo - ironicamente, um trotskista - , a ética do cidadão, do brasileiro que luta todo o dia para ter o seu sustento.

Isto aconteceu porque os anos da ditadura foram um trauma que até hoje tentam purgar e não conseguiram. Os militares fizeram o certo em 64, ao impedir o levante das esquerdas revolucionárias, mas deram com os burros n´água ao ficarem amantes do Estado-Leviatã e prolongarem-se por mais 20 anos. A cicatriz se deu na liberdade de expressão, a matéria-prima do jornalismo. Com isso, os jornalistas procuraram por um meio para dar um sentido às suas profissões e, lógico, às suas vocações. Encontraram nas ideologias políticas. E o que aconteceu foi o seguinte: uns partiram para a direita, outros (a maioria) partiram para a esquerda e, no fim das contas, o que era um meio para compreender e criticar o lugar onde viviam, se tornou uma forma de querer mudá-lo, partindo da insana idéia de que poderiam transformar a natureza das pessoas. A notícia não era mais um objeto de informação: era agora um instrumento de interesse político, entre os donos de jornais e a burocracia estatal ou entre os próprios jornalistas na redação e a suposta oposição que quer, na verdade, ter o seu lugar cativo no Estado.

A ideologia política obscureceu o problema humano intrínseco ao jornalismo. Assim, compreende-se porque um jornalista dá salvas de palmas a um terrorista como Lamarca, ou admira por seus ideais um assassino como Che Guevara. Mas não se compreende porque chora por Tim Lopes, que foi morto por um traficante com uma espada ninja. Não há correspondência entre as idéias e as ações do sujeito, característica fundamental para que alguém tenha ou saiba o que é responsabilidade. A mesma coisa acontece com a condenação (em primeira instância, diga-se de passagem, o que significa que ainda existe esperança) dos jornalistas da RBS, Marcelo Rech e José Barrionuevo. É notório que o governo do PT no Rio Grande do Sul está perseguindo sistematicamente jornalistas que fazem o papel de qualquer jornalista que se preze: ir contra quem está no poder, seja o Fernando Henrique Cardoso, o Lula ou a nossa vovozinha. Os exemplos mais significativos são Diego Casagrande, Políbio Braga e o próprio Barrionuevo, com processos de mais de 11 instituições do Estado gaúcho contra este último. Apesar de ter sido uma decisão da Justiça, é, na realidade, uma decisão que tem seus frutos há trinta anos, quando o próprio meio judiciário seguiu o mesmo caminho dos jornalistas e, em busca de um narcótico que desse alívio às suas aflições, partiu para o mito da justiça social e do relativismo moral (a maior prova disso está no próprio Rio Grande, o berço desta perigosa estratégia política da doutrina legal chamada Direito Alternativo).

Portanto, a ligação destes dois fatos estão no mistério da responsabilidade que cada indivíduo tem por seu semelhante, algo que transcende os tempos e não pode ser cristalizada por qualquer visão obtusa, principalmente a política, que visa, afinal de contas, uma única coisa: o Poder. É esta luta pelo Poder (com P maíusculo mesmo, já que ele é uma entidade com vida própria, com bem observou Bertrand de Jouvenel) que destrói qualquer possibilidade do Brasil perdurar como projeto de nação. O termo "estado paralelo" para designar o narcotráfico é uma piada grotesca: ele era um "estado paralelo" há mais de dez anos e agora é um "império total", alimentado pelo próprio Estado-Leviatã que deixamos governar, onde os próprios jornalistas têm culpa no cartório, pois fizeram uma assustadora aliança entre bandidos e letrados, idolatrando os primeiros como se fossem os rebeldes com causa, ou então jogando a culpa das mazelas do mundo no governo assistencialista que tanto sonham. Não há democracia nenhuma neste atual estado de coisas e se alguém estava preocupado se o Brasil se transformará na próxima Colômbia, não se preocupe mais: ele já é a Colômbia.

Sandro Guidalli: Falando um pouco agora sobre a maneira como as pessoas estão interpretando os fatos. Uma coisa que muito me espanta é a quantidade de leitores anestesiados pela propaganda socialista que já não conseguem enxergar além da superfície das manchetes dos jornais. Geralmente, quando lêem uma crítica ao controle da mídia pela esquerda, dizem que o autor está fantasiando, enxergando coisas, influenciado por fantasmas do passado, vivendo ainda sob impressões da época do regime militar. Te pergunto: isso se deve à sutil manipulação realizada pela própria mídia esquerdista ou as pessoas perderam mesmo o senso da realidade em que vivem?

Resposta: É muito difícil as pessoas terem o verdadeiro senso de realidade. O que seria esta "realidade"? Temos que tomar cuidado para não cair no relativismo fácil dos materialistas ou dos epicuristas. A meu ver, a realidade é a tensão que vivemos entre o mundo, tal como ele é e o mundo como idéia. Quem percebeu isso foi o poeta Bruno Tolentino, que conseguiu articular este fenômeno em palavras claras e precisas, mas esta tensão já está presente na filosofia e no curso da História desde que o homem é homem. O senso de realidade que você fala seria justamente a maneira como o ser humano percebe a brecha que há entre o mundo tal como ele é e o mundo como idéia e isso só se dá de uma única maneira: com o reconhecimento da nossa mortalidade. Todos nós vamos morrer, isto é um fato. Com isso em mente, o senso de realidade fica mais afiado e podemos perceber que, a qualquer momento, podemos também cair no perigo do mundo como idéia e do da morte na própria vida - o alimento de toda ideologia, que quer explicar a existência como um sistema perfeitamente ordenado.

É neste ponto que a propaganda socialista deve ser atacada. Ela não é um problema puramente político. É, na realidade, um problema religioso. Todos nós sabemos que jornalista tem uma aversão a religião, fato agravado na faculdade quando os professores, do alto de sua sapiência, declamam que "Deus não é notícia" e que "Deus é tão grande que não cabe em manchetes". Não iremos discutir, no caso, o problema da existência de Deus, assunto para teólogos e filósofos. Mas devemos atacar o socialismo, isso sim, pela impossibilidade de transcendência que ele provoca no espírito humano. Como o jornalista é um sujeito preocupado exclusivamente com as coisas deste mundo, seu sentido na vida vai se tornando cada vez mais pesado, até cair de vez e perder toda e qualquer noção moral. A mesma coisa acontece com o leitor ou com o espectador: se a elite intelectual perdeu qualquer vontade de manter uma unidade de pensamento coerente e independente, conectada a uma vida mais profunda, as conseqüências serão sentidas nas massas, no povão, no pobre-diabo que quer se informar pela imprensa e o que recebe em troca é uma lavagem cerebral digna de Pavlov. É uma reação em cadeia: as pessoas perderam o senso da realidade porque, simplesmente, tiraram a realidade da imprensa, já que os jornalistas e os intelectuais resolveram jogar o senso (de "sentido", "percepção") de escanteio, escolhendo a idéia e, logicamente, a morte como meio de vida. É como disse Bob Dylan em "Ballad of Thin Man", aliás inspirado num jornalista da Time Magazine: "You know something is happening here? / Do you, Mr. Jones?" (Você sabe que alguma coisa está acontecendo?/ Será, Sr. Jones?). Quem alega que as poucas pessoas que se opõem a esse estado de coisas estão vendo "fantasmas do passado", estão absolutamente certas. Estamos vendo realmente os fantasmas do passado e estes fantasmas se chamam stalinismo, despotismo esclarecido e nazismo (que, é sempre bom lembrar, se chamava, por extenso, NACIONAL-SOCIALISMO).

Sandro Guidalli: Falando em regime militar, gostaria de ouvir a tua opinião sobre algo que é recorrente na imprensa brasileira: a comparação entre a democracia e o período que se inicia em 1964. Às vezes não te dá a impressão que havia
menos censura naquela época? É justamente quando os jornalistas e intelectuais de esquerda ficam definitivamente livres de qualquer ameaça do Estado que a liberdade de escolha e de expressão começa a ser mais vigiada, controlada e selecionada. Como explicar este paradoxo?

Resposta: Antes de tudo, vamos deixar uma coisa bem clara: a democracia é o início das ditaduras. Bernanos já falava isso e atualmente há um cientista político chamado Hans-Herman Hoppe, que escreveu um livro chamado "Democracy: The God That Failed" (Democracia: O Deus Que Falhou), em que ele argumenta incisivamente que a democracia é o mais pernicioso dos sistemas porque permite a expansão do Estado-Leviatã. O raciocínio dele é o seguinte: na democracia, o governante fica por um tempo provisório no cargo. Com isso, ele aproveita o seu mandato para o seu próprio interesse, aumentando os gastos públicos, o que significa que a taxa de juros sempre subirá e os impostos sempre saquearão o dinheiro privado. Hoppe faz uma defesa interessante da monarquia, em que o rei daria o governo a um sucessor da família, mantendo assim uma unidade de soberania que não existe na democracia, fundada na fragmentação de opiniões do povo, geralmente inculto e pronto para ser enganado pelos maliciosos de plantão.

Essa predominância da opinião ordinária, que não atinge a essência das coisas - ou doxa, segundo Platão - é o que torna a democracia um problema insolúvel. Maquiavel já dizia que quem se apóia somente no povo, tem pés de barro. O mesmo acontece com o Brasil, que defende a democracia como se fosse um deus único, numa espécie de paganismo assustador. Mas o povo não sabe escolher, como ficou claro nos governos democráticos da Alemanha e Itália que elegeram Hitler e Mussolini. Quem usa as emoções baixas da população é o Estado-Leviatã, entendido aqui como um símbolo que se modifica com o tempo e o espaço, mas, paradoxalmente, nunca perde sua característica principal, a de manter a natureza secreta do Poder. E o modo como o Estado controla as massas é através da ideologia política, que obscurece a consciência individual.

Assim, podemos explicar que o paradoxo de que você fala sobre os anos 60, com a ditadura militar, e a aparente liberdade de expressão que temos hoje, não é bem um paradoxo, mas uma forma obtusa de ver as coisas, se me permite dizer. Há o seguinte fato: houve uma censura nos tempos da ditadura militar, uma censura de cunho ideológico direitista, terrível, que vitimou a liberdade de expressão no Brasil e isso não pode ser negado. Mas há o outro fato: continuamos numa censura em tempos democráticos, que é a censura da ideologia esquerdista, inspirada na Revolução Cultural de Antonio Gramsci e que fez uma completa inversão de valores na mente dos brasileiros. Destes dois fatos, tiramos uma conclusão terrível: o Brasil nunca conheceu liberdade de expressão. As denúncias contra políticos e traficantes são formas de estratégias políticas que servem para outros interesses que não os do leitor. Quando um jornalista de respeito como Alberto Dines se propõe a vigiar a imprensa através do seu Observatório, ele hesita em tocar o dedo na ferida porque, como bem observou Alceu Garcia (algo já retratado por Hans-Herman Hoppe no seu texto "Natural Elite, Intelectuals and the State", que pode ser encontrada no endereço www.mises.org), detém relações, em maior ou menor grau, com o Estado.

O problema dos jornalistas brasileiros é que qualquer um tem ou quer ter uma relação com o Estado. Em termos políticos, o Estado é o nó górdio. Com ele, temos a sistematização dos meios predatórios de roubo, nas palavras de Murray Rothbard. Sem ele, temos a anarquia pura e simples, e a anarquia é uma solução para jovens imaturos. No fim, só temos a opção do Estado de Direito que, por sua vez, é uma ordem muito frágil, que permite a expansão dos tentáculos estatistas. É como no filme "Dr Fantástico", de Kubrick: para pararem de se preocupar com este assunto tão espinhoso, todos resolvem amá-lo, mas ele aplica a seleção natural de Darwin não para os mais fortes, mas para os fracos de espírito, justamente aqueles que querem se integrar à opinião da massa ou então fabricá-la, porque enfrentar o Leviatã implica numa solidão que poucos suportam. Quem quer ser jornalista deve ter uma integridade de alma que nenhuma faculdade pode ensinar. Deve aprender que a escolha que fez vai transformar sua vida em uma guerra perpétua, à margem da luta pelo Poder, enfrentando algo pior que a própria morte: a maldade humana. Mas não podemos desistir, nunca. Não somos nós que devemos ter medo do Estado; é o Estado que deve ter medo de nós. E isso nenhum amante estatólatra - como são os jornalistas esquerdistas que dominam as redações - pode suportar, impondo sua ideologia como a única visão aceitável com tamanha força que me faz lembrar os versos de Yeats: "The best lack all conviciton/ while the worst are full of passionate intensity" (Os melhores vacilam/ enquanto os piores estão cheios de intensidade apaixonada).


Segunda entrevista dada a Sandro Guidalli, esta publicada na íntegra no portal Comunique-se.

Sandro Guidalli: Em recente debate neste portal sobre o futuro da regulamentação da profissão de jornalista, foi possível perceber, na minha opinião ao menos, que há mais preocupação a respeito da qualidade do ensino das faculdades de comunicação do que a respeito do fim ou não da exigência do diploma universitário para a obtenção do registro profissional. É verdade que uma parte dos estudantes ou recém-formados mostra-se preocupada consigo mesma, ou seja, lamenta ter pago pela faculdade quando , em tese, ela não é mais necessária. A pergunta que te faço é: na tua opinião, o que é melhor para as faculdades, a exigência ou não do diploma? De que maneira o fim da obrigatoriedade pode provocar a elevação do nível do ensino?

Resposta: Para responder sua pergunta, temos que partir de dois princípios para analisar o fato com rigor: 1) A faculdade é importante e não deve ser menosprezada; 2) O ensino nas faculdades, no Brasil atual, tem por finalidade apenas atualizar o mercado de trabalho e não educar o estudante além do mero emprego.

A faculdade é importante porque um país não funciona sem uma elite intelectual - e esta elite é produzida nos círculos acadêmicos, onde há tempo e espaço suficientes para o estudo e a meditação. Se eliminarmos a faculdade, teremos apenas um grupo de autodidatas que, apesar de todos os seus louvavéis esforços em adquirir conhecimento, não conseguem ter o necessário método para a investigação criteriosa a que se propuseram. Isto é, claro, o que deveria ser a faculdade ideal, ou melhor, a função a que se propõe qualquer faculdade que se preze. Mas, ultimamente, no mundo todo, as faculdades passaram por um processo terrível, que foi o da politização, seja para o lado da direita ou para o lado da esquerda. Isso prejudicou, obviamente, a matéria-prima da faculdade: a educação de seus alunos que se tornou objeto de ideologia e doutrina política, substituindo o aprimoramento da alma pela ação partidária. Ora, este é o método mais eficaz para destruir o espírito humano, ao aniquilar a possibilidade que o sujeito tem de se educar para a virtude e pela virtude. E qual a maneira mais rápida de dominar os alunos, convencendo-os de que a faculdade está certa e eles estão errados? Criando o famoso mito do mercado do trabalho, na verdade uma máquina de fazer pastéis em que o recém-formado entra em um mundo onde a virtude foi para o ralo, o compromisso com a confiança foi descartado e, principalmente, a capacidade do sujeito pensar de forma independente. Ele só vai pensar, ver, ler e comer o que seus colegas pensam, lêem, vêem e comem e, sobretudo, será servil aos seus chefes como um cão ao seu dono.

Dessa forma, fica mais claro o que aconteceu com o jornalista brasileiro. O problema não é se a profissão de jornalista deve ou não ter o diploma obrigatório, mas sim, se o diploma serve para alguma coisa, exceto ficar pendurado na parede. O jornalismo não é uma profissão que deva ficar sob o formato de letras góticas: ela exige que o sujeito tenha uma necessária dose de irritação para que ele vá até o fim em sua investigação. Ele é muito mais uma espécie de vocação, como a literatura e a filosofia, do que propriamente uma ciência acadêmica que possa ser dissecada em sistemas neo-kantianos, como acontece com o Direito. O jornalista respira vida e nenhuma faculdade pode ensinar isso. Infelizmente, o diploma se torna um instrumento de tortura para aquele que quer ser jornalista, minando aos poucos sua vocação e jogando-o não para a finalidade maior de sua atividade - que é a de retratar a realidade que o cerca -, mas para o famoso "mercado de trabalho", o paraíso para os exploradores dos sindicatos e para os chefes de quinta categoria. Aqui no Brasil, com a faculdade como uma espécie de comitê político dos partidos de socialistas fabianos ou stalinistas, a obrigatoriedade dos diplomas é uma piada de mau gosto. Se continuar dessa maneira, é melhor que cada cidadão - no sentido de ter uma responsabilidade com o outro, não no sentido de Rousseau de estar inserido no contrato social do Estado - que saiba o sujeito e o predicado na língua portuguesa, seja também um jornalista, pois a ética de ambos, como diria Claudio Abramo, são iguais.

Sandro Guidalli: Partindo ainda do princípio de que as faculdades de comunicação têm um papel a cumprir e não devem ser descartadas pelos futuros jornalistas mesmo com o eventual fim da exigência do diploma, qual deveria ser então a principal mudança no seu currículo? Não te parece que, de uma maneira geral, há uma preocupação muito maior na formação política dos estudantes do que numa formação técnica?

Resposta: Não sou educador para saber qual seria a principal mudança no currículo para um jornalista que quer se formar na faculdade, mas, após alguns anos conversando com professores, acredito que se poderia fazer uma grande revolução ao tirar qualquer sinal da intelligentzia da USP e da Unicamp, especialmente a turma da Maria Antonia e o grupo do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas. Seus símbolos maiores são os veneráveis Marliena Chauí, Renato Janine Ribeiro, José Arthur Gianotti, Roberto Romano e, last but not least, Rubem Alves. Estas pessoas são responsáveis pela ocultação de uma outra realidade na cabeça dos estudantes. Você pode comprovar isso quando vê um estudante com "Introdução à Filosofia", da Chauí, que distorce o significado da alegoria da caverna de Platão, ou então "O que é religião", de Rubem Alves, que faz uma bagunça ao misturar Teologia da Libertação com Cristianismo, quando, na realidade, o primeiro é uma perversão do último. Substitua esse pessoal por um estudo correto dos clássicos, como Platão, Aristóteles, Shakespeare, Fernando Pessoa, Machado de Assis, com a análise dos grandes textos jornalísticos de centauros como Gay Talese, Tom Wolfe, Edmund Wilson, Robert Hughes, Claudio Abramo, Alberto Dines, Émile Zola, Jack London, Ryzard Kapuchinski e muitos outros, que você terá uma educação que visa um jornalista independente e não um boçal que copia os press-releases de outros boçais. Só com a verdadeira literatura e a verdadeira filosofia que se provocará a evolução esperada no currículo de qualquer faculdade, porque elas nos abrem para uma realidade que, por uma estranha coincidência, é a mesma em que vivemos e que, felizmente, nunca mudou, apesar dos desejos dos sofistas que infestam a academia.

Sandro Guidalli: Outra confusão que de vez em quando vem à tona é quanto à aquisição dos valores éticos e morais dos jornalistas. Para muitos, isso se aprende nas
faculdades quando, a meu ver, isso deve vir do berço. Aproveito a questão para te perguntar sobre o verdadeiro papel das faculdades e exatamente onde elas devem atuar para melhorar ou refinar a formação humana dos futuros jornalistas...

Resposta: O verdadeiro papel das faculdades é guiar o estudante que, não sabendo o caminho das pedras por inexperiência, pode procurar um tipo de vida que não se enquadra com o que havia previsto. A faculdade deve ajudá-lo em ler os melhores livros, ter as melhores idéias, pô-lo em contato com as melhores pessoas. Mas isso sequer faz parte da realidade - é simplesmente uma alucinação. Hoje em dia, temos apenas alguns professores dentro das faculdades que, isolados dentro da própria comunidade acadêmica, tentam fazer esse trabalho de formiguinha, mas são desprezados por seus pares e o trabalho deles entre os alunos é deixado em segundo plano, como é o caso de verdadeiros gigantes como Eric Voegelin e Eugen Rosenstock-Huessy. A ansiedade do estudante de querer ser assimilado, em ser aceito por uma nova sociedade que se abre para ele, provoca uma atração pelas estrelinhas da academia que, na sua maioria, são os maiores embusteiros, porque sempre estão em conluio com interesses políticos e partidários e querem arregimentar novos agitadores e cabos eleitorais nas redações brasileiras. Os professores deveriam aprimorar a formação dos futuros jornalistas não só com livros ou sermões, mas vendo o aluno como um indivíduo e não como mais um entre milhares, instruindo a procurar na área jornalística o que realmente ele procura e não o que o mercado de trabalho deseja. Enfim, o que a faculdade deveria fazer com o futuro jornalista é ensiná-lo a ter independência de crítica e liberdade do espírito - algo que, infelizmente, tanto a academia como o berço não estão ensinando nos últimos tempos.

Sandro Guidalli: Sabemos que, ao contrário dos médicos, advogados e engenheiros, por exemplo, os jornalistas podem ser bons profissionais sem passar pelas faculdades de comunicação. Mais importante para nós é a nossa própria formação cultural, nossa capacidade de compreensão e de crítica da realidade e da história. Sozinho, o jornalista ao exercer sua profissão não consegue diretamente matar, prender ou construir uma casa, daí a
necessidade menor de cursar uma faculdade, ao contrário das demais profissões. Gostaria que você comentasse o que realmente forma um bom jornalista, excluindo-se aqui a passagem pela universidade.

Resposta: O que forma o bom jornalista não é o quanto ele sabe de gramática, não é quantos livros ele leu, quantas línguas ele sabe falar, quantas pessoas ele conhece para um dia usar como fonte para uma matéria. Tudo isso são instrumentos, meios para se realizar um bom trabalho. O importante para um jornalista não ser apenas um entre milhares são duas qualidades: a perseverança e o compromisso com a palavra, nos seus dois sentidos - a da palavra escrita, matéria-prima do jornalismo, e da palavra como juramento a uma outra pessoa. Especialmente aqui no Brasil, estas qualidades se perderam nas redações. Ninguém mais perservera, ninguém mais sabe qual é a responsabilidade em cumprir acordos que não precisam de interferência judicial e que se baseiam apenas na confiança. O jornalista deve enfrentar qualquer um que fique no poder e é sua função cuspir na cara, vigiar o país onde vive com os olhos injetados de irritação - não a irritação do ódio, mas a irritação daquilo que você preza de verdade, como se fosse seu. Para isso, é preciso independência, o que é muito diferente de ser imparcial, um eufemismo semiótico para a crítica individual. Esta é uma qualidade que nem o berço, nem a faculdade ensinam. É o próprio sujeito, sozinho consigo mesmo, que vai descobrir que, se ele não fôr livre dentro de sua própria consciência, sua vida e sua vocação não têm sentido nenhum. E seu compromisso, o único compromisso que ele pode ter durante a sua trajetória neste mundo medíocre, é com a palavra escrita que atinge a vida do cidadão que a recebe e com o juramento que fez com este desconhecido que fica no outro lado da página e que se chama leitor. A partir daí, ele terá de cumprir os acordos que fez com suas fontes, com seus amigos e seus familiares. A palavra é a base de todo o bom jornalismo e quem não saber cuidar dela, não faz jornalismo e sim prostituição.


É um insulto ao bom senso quando os candidatos à Presidência começam a propalar as costumeiras besteiras sobre a causa da crise econômica que nos atingiu há duas semanas. Todos, sem exceção, culpam, de forma direta ou indireta, o sistema capitalista como se fosse o responsável pelo rombo nas contas públicas e internacionais que, no fim, acabam atingindo o bolso puído do brasileiro.

Devemos dar os parabéns por estas bobagens aos gramscianos de carteirinha, que conseguiram disseminá-las nas escolas, redações e universidades nacionais. Essas pessoas sabem muito bem que o socialismo é um pesadelo, um narcótico usado como arma para a tomada de poder, mas abusam da burrice humana com uma facilidade de espantar, espalhando-a desde a favela até a mansão com seus BMWs na garagem.

É claro que eles tiveram uma ajuda. Esta veio dos próprios "conservadores", um eufemismo enganador para os socialistas fabianos, discípulos de um homem mais perigoso do que o revolucionário italiano - o economista pedante Jonh Maynard Keynes. Se um comunista é insuportável porque acha que o Bem está ao seu lado, o "conservador" é um tapado que acredita sempre estar com a razão, pois o seu socialismo é mais razoável. Ambos acreditam no Estado para suprir as necessidades da sociedade, começando com interferências no mercado econômico, ajustando preços conforme sua vontade, criando paridades ilusórias como a do dólar e a do real, alimentando juros sobre juros, satisfazendo a inflação com taxas excitantes para os poucos que podem entrar numa licitação de uma obra pública, no qual seus gastos serão pagos por aquele que, com seu trabalho independente e privado, cobrirá o buraco no erário.

Os esquerdosos, mudando os sentidos das palavras, chamam as burradas dos "conservadores" de - advinhem? - "capitalismo". O que o bom leitor deveria saber é que a economia praticada no Brasil nunca foi capitalista e sim completamente socialista. Se existisse algum traço de capitalismo neste país, não estaríamos no Terceiro Mundo. Como alguém pode classificar de capitalista, um sistema econômico que se baseia na auto-suficiência do Estado, em impostos elevadíssimos, que trituram o pequeno-médio empresário com uma Justiça do Trabalho que privilegia mais o empregado revolucionário do que o sujeito que investe sua vida e seu dinheiro num mercado em que o especulador é um termômetro para os jornais econômicos, que anunciam um apocalipse já previsto no primeiro germe do Plano Real?

Não, isso não tem nada a ver com o capitalismo. O verdadeiro motivo da rixa entre socialistas e capitalistas é a inveja dos primeiros sobre os últimos, em torno de um único assunto: como vencer no mundo. O capitalista prevalece sobre o mundo; o socialista quer apenas sobreviver a ele, de preferência sentado nas poltronas do Poder, um modo muito confortável de ver a morte passar. Quem acredita que o dinheiro move a humanidade - como é o caso dos socialistas - não passa de um asno. O capitalista sabe que o dinheiro é um meio de troca entre serviços e que sua única função é fazer a circulação do mercado ficar mais rápida e eficiente. Seu fim é a produção de um serviço para preencher uma determinada necessidade e assim suprir a carência de um bem.

A economia nos moldes socialistas não supre a necessidade de ninguém, exceto a de uma determinada casta - a dos proletários. As duas palavras-chaves para que o capitalismo funcione são risco e confiança, elementos que estão em falta no Bananão. O capitalista é obrigado a arriscar para que o investimento dê certo e este não pode ser algo individual e sim acompanhado por outras pessoas, unidas por um vínculo muito frágil, que é o compromisso. E para se fazer um compromisso, a confiança é fundamental.

Esta é a liberdade que o capitalismo oferece: a escolha de acreditar no outro e realizar uma ação que terá uma influência decisiva na passividade humana sobre a tormenta do mundo. O nó górdio nunca foi o dinheiro, caluniado por questões de propaganda ideológica, mas a coragem que um capitalista possui em enfrentar anos e anos de medidas intervencionistas, e conseguir, depois de todas as batalhas, vencer a guerra com muito sofrimento e custo. E que custo: até hoje, não se escuta uma única pergunta sobre quantos empresários que, na tentativa de abrirem seus pequenos negócios, morreram de ataques cardíacos e derrames, ao pagarem as dívidas causadas por impostos abusivos, ou foram obrigados a aturar empregados, aconselhados por sindicalistas e agitadores políticos que, na verdade, queriam acabar com o projeto de uma vida inteira.

Logo, quando os candidatos cospem abobrinhas sobre como o capitalismo acabou com a economia brasileira, eles contribuem para a queda definitiva da nação. No Brasil, não se pode falar em capitalismo porque este sequer foi cultivado. O que existe é uma casta política defensora de uma economia que não deve nada a um Lênin ou a um Fidel. Assim, as confusões só aumentam, e o pobre leitor acha que FHC é neo-liberal e que Lula caminha suavemente para um "capitalismo moderado". Ambos não são nem um, nem outro: são dois políticos, afoitos em sobreviverem no mundo, usando de macaquices verbais para esconder o mais grave de todos os crimes - eliminar a liberdade do ser humano.

A crise econômica brasileira pode ter se acalmado com o dinheiro do FMI, mas, como todo viciado que volta à cocaína por não agüentar o delirium tremens, é uma forma de adiar a bomba para jogá-la nas mãos do próximo presidente. Como os quatro principais candidatos não compreendem a liberdade que o capitalismo nos oferece, preferindo as alucinações de uma economia planificada segundo os desejos do Leviatã, é bem possível que os façamos um fato digno do Guinness: atravessaremos o fundo do poço para chegarmos ao fundo do inferno. A ditadura ideológica da esquerda conseguiu acabar com um país inteiro, arruinando da cultura até a economia, passando pelos detalhes do cotidiano. Quem tiver um pouco de confiança no futuro, saberá do seu compromisso de avisar aos outros da perversão que atingiu o nosso presente.

Martim Vasques da Cunha é escritor e jornalista
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