Insônia perpétua

"Filho do homem, fala a teus compatriotas e dize-lhes:
Quando eu faço vir a espada contra um país, a população
deste país escolhe um dos homens da região e o coloca como sentinela.
Ao ver a espada que vem contra o país, ele toca a trombeta advertindo
o povo. Se alguém escutar o toque da trombeta mas não der atenção
e com isso for atingido pela espada, será responsável pela própria
morte. Escutou o som da trombeta mas não deu atenção; é
responsável pela própria morte. Se tivesse dado atenção,
teria escapado com vida. Se, porém, o sentinela vê a espada se
aproximando e não toca a trombeta, de modo que o povo não é
advertido, e a espada vem e tira a vida de algum deles, pedirei contas desta
vida ao sentinela, mesmo que a pessoa tenha morrido por própria culpa".
Ezequiel 33:2-6
Ciro Gomes, acompanhado por Leonel Brizola e por sua namorada, a atriz Patrícia Pillar, visitaram o túmulo de Getúlio Vargas em São Borja, na comemoração dos 48 anos de sua morte. Seria mais um fato corriqueiro na história política do país, se não fosse pela declaração que Ciro fez no discurso em homenagem ao caudilho: "É um momento alto para a minha alma". Poderiam ser meras palavras, mas elas simbolizam um fato terrível: o de que, finalmente, passamos da democracia para a tirania - e, o pior, sem sabermos disso.
Não há nenhuma nobreza na alma de alguém que faz uma homenagem a Getúlio Vargas. O que Ciro Gomes fez foi pior ou igual aos cândidos olhares que Lula trocou com Fidel Castro e ao desespero hipocondríaco do qual sofre atualmente José Serra, apoiando-se neste socialista fabiano que é FHC. Vargas era um ditador, um homem que acreditava que tudo girava em torno do Poder, um admirador entusiasmado de Mussolini (escondia um retrato do Duce no seu gabinete), o criador deste monstro chamado CLT, inspirada na Carta di Lavoro do fascismo italiano, além de ser um amante fiel ao Estado-Leviatã, criando dinossauros que até hoje atormentam o povo brasileiro, como a Petrobrás e a Vale do Rio Doce.
Como se não bastasse, foi um suicida - e um homem que tira a própria vida é um fraco, porque é incapaz de capturar o verdadeiro momento alto de sua alma, escolhendo a morte como uma fuga das armadilhas que o Poder lhe aprontou. Ao expor sua alma no jogo político para a presidência, Ciro Gomes mostrou qual foi a sua escolha: a de ser um estadista que, ao invés de criar um tecido bem urdido e coeso, prefere os retalhos do populismo e, com a igualdade dominando a sua alma, ela se torna excessivamente democrática, para se cristalizar na mais odiosa das tiranias.
Mas, o que seria um homem tirânico? Seria aquele que detém o poder absoluto, sobre tudo e sobre todos? A alma do tirano quer impor uma ordem estranha ao mundo, uma ordem que sequer seu íntimo sabe da sua existência, pois, por ser uma conseqüência da alma democrática, ela não possui nenhuma hierarquia em suas paixões - portanto, nenhum domínio sobre as qualidades que devem ter o bom estadista: sabedoria, coragem, temperança e justiça. O tirano desconhece essas quatro qualidades; elas vivem dentro dele em constante embate, sem nenhuma lógica, exceto a do sentimentalismo excessivo, refletido num carisma que, por ter um toque messiânico, cativa a opinião popular.
Logo, o tirano é o mais infeliz de todos os homens, porque depende dos outros para a sua aprovação e, quando não a consegue, tenta impô-la através da força coercitiva. Tudo isso está esboçado quando Ciro Gomes diz que faz parte da tradição de Getúlio Vargas. Ninguém em sã consciência poderia afirmar que é "um momento alto para a sua alma", homenagear uma pessoa que contribuiu para o declínio moral do Brasil como tentativa de civilização. Contudo, nos últimos tempos, o que mais falta às mentes pensantes do país é justamente qualquer tipo de consciência - e, em especial, consciência de admitir que erraram e que a culpa por esta lição de trevas é de todos nós. Vargas foi o tirano em seu estado mais refinado e não podemos deixar que um outro venha em seu lugar, para saborearmos o gostinho do inferno.
O problema é que estamos rodeados por quatro almas tirânicas. Isso é o que dá quando se acredita piamente na democracia. Todos são bem-educados, bem vestidos, bem assessorados, mas nenhum é sincero para mostrar que querem a mesma coisa que Vargas: o Poder. São cegos para verem além desse mundo, procurando uma justiça que, acompanhada pelo adjetivo "social", só tende a destruir o espírito e criar ruínas, ao invés dos grandes castelos que planejam. Mas eles não estão sozinhos: jornalistas, professores, estudantes, artistas, filósofos - vários sujeitos contribuem para este embotamento da razão humana, levando-nos ao um período histórico que só tem paralelos com o da Alemanha de 1933, antes da eleição de Hitler, e o da decadência de Atenas em torno dos anos 350 A.C., em que o Mal mostrava ter uma patologia coerente, com uma lógica bem peculiar, e que não tinha nada a ver com ignorância.
Nesta guerra, em que a ordem do indivíduo se opõe à (des)ordem da sociedade, sobram apenas uns poucos, protegidos nas pequenas fortalezas de suas almas, e que a maioria não hesita em chamar de malucos, pelas palavras doloridas e cruéis que cravam na pele de seus inimigos. Mal eles sabem, mas estes são as verdadeiras sentinelas, aquelas que se sentem verdadeiramente responsáveis pelo o que acontecerá. O filósofo Eric Voegelin, em uma conferência realizada na Alemanha nos anos 60, disse que, para diagnosticar corretamente o coração do Mal, temos de agir como o profeta Ezequiel: avisarmos a todos que a trombeta está tocando, dissuadi-los a saírem do caminho da injustiça, porque somos os que cuidam daqueles que morrerão, e cada um que for destruído pela espada e pelo fogo, a culpa cairá sobre a sentinela que não o avisou.
Não se pode ser sereno com o grito do Mal se aproximando nos ouvidos moucos, muito menos bem educado. "O princípe das trevas é um cavalheiro", escreveu Shakespeare em "Rei Lear", e a sentinela deve ter a aspereza do espírito, a mesma aspereza que machuca os fracos de caráter, com a adaga da culpa e da consciência, para, enfim, um dia, torná-los fortes, impedindo-os de realizarem as homenagens macabras que levaram a nação ao caminho do irracional e do desumano. A união entre Ciro Gomes e o espectro de Getúlio Vargas - estes dois gentlemans da política nacional - joga a alma brasileira para um velório de projetos falidos e de ilusões que querem ser vendidas como se fossem parte da realidade. Mas o mundo do sonho não sobreviverá por muito tempo, uma vez que mundo nenhum suporta tamanha alucinação. É necessário que a sentinela se prepare com os sentidos afiados da irritação e da ternura, para nos alertar quando começará o pesadelo, no momento exato em que a espada e o fogo cruzarem o solo com a fúria da verdadeira justiça.
"Insônia" (Insomnia, EUA, 2002), parece ser um policial psicológico sobre um sujeito que, ao investigar um crime numa cidade do Alasca, não consegue dormir por causa das "noites brancas" que afetam o local, onde o sol nunca se põe e um pouco de escuridão é um alívio. Parece ser apenas isso, mas, felizmente, não é nada o que parece - algo normal num filme de Christopher Nolan, o mesmo diretor que nos deu "Amnésia", ou como é conhecido por seu título original, "Memento".
Se "Memento" instigava por sua montagem alinear, em que a trama era contada de trás para a frente, para imitar a sensação de confusão que dominava o personagem de Guy Pearce, "Insônia" pega o espectador lentamente pelo pescoço e, quando menos se espera, estamos dentro de uma história tensa, em que o jogo de gato-e-rato não é apenas entre mocinho e bandido, mas também com a própria alma do protagonista.
Nolan brinca com os procedimentos do policial psicológico para transformá-lo, no final, em um polícial metafísico. Ele não é como Steven Spielberg em "Minority Report", que tem medo de enfrentar os temas que seu filme apresenta, temas que não são muito agradáveis para o espectador mediano de cinema e que vê a sétima arte apenas como uma fuga da realidade. Nolan usa, de maneira subliminar, a fotografia magistral de Wally Pfister, saturada nas luzes opacas das janelas e na escuridão de quartos e apartamentos, para colocar-nos como testemunhas na culpa que corrói a consciência do policial Will Dormer, numa interpretação de gênio de Al Pacino.
Pacino nos dá, em "Insônia", um personagem aparentemente corrupto, mas que se revela como um homem de uma nobreza moral impressionante - mesmo que seja por um único momento. Poucos atores conseguem dar uma dimensão trágica a um sujeito que tinha tudo para ser "mais um tira malvado das telas", tornando seu Will Dormer alguém tão marcante quanto a sua criação mais famosa, Michael Corleone. O mesmo acontece com Robin Williams, num papel em que a sutileza esconde a verdadeira natureza de seu personagem: a consciência diabólica de Dormer que o atormenta sempre, que sabe de tudo o que ele faz, para o enganar com sua trama sórdida e dar a falsa impressão de que tudo está de volta ao normal.
É claro que não está - e Nolan mostra isso com uma perícia invejável, jogando com os símbolos cristãos do batismo, da luz branca, do sol, da cor branca e do pacto faustiano. Com este filme, o jovem diretor inglês entra no grupo seleto de cineastas que subvertem o sistema de Hollywood, ao contarem suas histórias num modo muito particular: David Fincher (de "Seven"), Paul Thomas Anderson (de "Magnólia") e Darren Aronofsky (de "Réquiem para um sonho"). O novato Nolan, aliás, deveria dar uma aula de integridade moral ao veterano Steven Spielberg, pois com este "Insônia", temos as mesmas preocupações éticas que são apenas timidamente sugeridas em "Minority Report". Contudo, se neste filme Spielberg prefere a redenção de folhetim, conseguida ao custo de reviravoltas que só atrapalham a meia-hora final, em "Insônia", Christopher Nolan nos mostra a redenção como algo extremamente dolorido e que depende da vontade do próprio indivíduo e não dos efeitos especiais que entorpecem o olho do espectador.
Com a ajuda de Al Pacino, Nolan fez um filme que complementa e, ao mesmo tempo, contraria a sua obra anterior, "Memento". Pode-se dizer que ele é o cineasta da consciência culpada, em que o sujeito não consegue suportar os crimes que cometeu contra os outros e contra si mesmo, e resolve fugir, manipulando sua própria memória, ou então tentando tapar, a qualquer custo, a luz que atravessa a janela da alma. Mas em "Memento", Nolan mostrava os efeitos devastadores da fuga da consciência com um final amargo e sem esperança; em "Insônia", a alma percebe o que está acontecendo e tenta não desviar-se do caminho que sempre tentou seguir, mesmo que isso implique no confronto com a realidade implacável: a morte. A última cena do filme, com Pacino expondo fisicamente o destroço que se tornou seu espírito, é pungente: mostra como a nobreza surge das ruínas mais insólitas e que, na verdade, nossa existência neste mundo é de uma insônia insuportável.
Martim Vasques da Cunha é escritor e jornalista
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