A Ascensão Desesperada

Por Martim Vasques da Cunha


"Mas é mesquinho, isso
de pensar no que não foi. Há também uma aparência
de censura na comparação que não te atinge.
O que acontece tem tamanho avanço
sobre a nossa opinião que não o alcançamos nunca
nem descobrimos como era realmente.
Não te envergonhes quando os mortos te roçarem,
os outros mortos, os que aguentaram
até o fim (O que quer dizer fim?). Troca
o olhar com eles, tranqüilo, como de uso,
e não temas que o nosso luto te
sobrecarregue, a ponto de lhes dares na vista.
As grandes palavras de outrora, quando
acontecer não era ainda visível, não são para nós.
Quem fala de vitórias? Suportar é tudo
".

R.M.Rilke, "Réquiem" (tradução de José Paulo Paes)

Bruce Springsteen é considerado o Bardo de New Jersey, o que é a mesma coisa que cantar sobre o inferno. Quem viveu algum tempo em Nova York sabe disso: New Jersey é o lugar mais caipira do mundo para um habitante da Big Apple e qualquer um que mora por aquelas bandas é considerado um pária da sociedade. Exceto Bruce Springsteen, também conhecido como "The Boss" (O Chefe). Sozinho, armado com sua guitarra e palavras duras inspiradas no linguajar de Jonh Steinbeck e Bob Dylan, às vezes escudado pela E-Street Band, Springsteen atravessou os limites de New Jersey ao cantar sobre vidas que não tinham sentido nenhum, vidas de perdedores ou operários que lutaram na guerra do Vietnam e voltaram mais estropiados no próprio país do que na linha de fogo. A vida sempre prega peças nas canções de Springsteen e seus personagens são sobreviventes desses truques sujos, tentando ir para a frente, mesmo que o passado volte para atormentá-los.

Dessa forma, Springsteen seria o homem perfeito para contar ao mundo o que aconteceu com os sobreviventes do Terror de 11 de setembro - vivos ou mortos. Este é o tema de "The Rising" (A Ascensão), seu novo álbum, lançado para ser a trilha sonora de um dos fatos mais cruéis que já aconteceram na história ocidental, não só pelas vítimas, mas principalmente pela precisão da destruição, planejada com requintes lógicos. "The Rising" pode parecer um produto de oportunismo comercial, e muitas vezes parece que é, quando escutamos canções como "Worlds Apart" e "Let´s Be Friends (Skin to Skin)", em que Springsteen se esparrama no vírus do politicamente correto, ao querer fazer um ecumenismo entre raças diferentes, como os americanos e os árabes. Entretanto, o álbum mostra algo que está muito distante para os brasileiros, que foi o impacto pessoal da tragédia na vida de cada um dos sobreviventes e a tentativa deles de querer superar a dor e a revolta. A mesma coisa aconteceu na década de 40, quando os EUA lançaram as bombas atômicas em Hiroshima e Nagazaki, e qualquer poeta que tinha algum ímpeto humanista criava alguns versos para tentar compreender o choque daquele ato.

"The Rising" é um álbum irregular, mas não deixa de ser sincero em suas intenções de querer captar a dor de cada um que se envolveu - ou melhor, se viu envolvido - nos ataques de 11 de setembro. Neste aspecto, Springsteen continua com seu estilo em fazer canções com refrões pegajosos e pulsantes, em que as letras contam mais as impressões e as sensações de perda e morte, do que propriamente emitem uma opinião política ou patriótica. Aliás, este é o trunfo de "The Rising": ele não é um panfleto em homenagem à pátria americana - é uma reflexão sobre como superar a dor e transformá-la em uma fortaleza.

Contudo, o problema está que esta superação pode partir de uma ascese desesperada, em que o confronto com a realidade implacável não foi devidamente purgado. É aqui que "The Rising" deve ser analisado: como o reflexo da alma de um povo que luta para sair de uma situação que ninguém esperava e que, quando aconteceu, não havia meios para compreendê-la um pouco melhor - justamente porque eles se esqueceram deles. A quintessência da alma americana se encontra nas canções de Bruce Springsteen, talvez o único que consegue captar o que ocorre dentro do americano médio - já que o 11 de setembro atingiu, em especial, as vidas dos americanos médios. E onde se pode encontrar um americano médio? Em New Jersey, é claro.

Assim, Bruce Springsteen é o artista ideal para a homenagem àqueles americanos médios que se foram com o 11 de setembro. O início de sua carreira é marcado pelas odes à tristeza operária, aos bares cheios de bêbados desiludidos e mulheres que se insinuam porque perderam toda a glória do passao, passando pelas sombras dos assassinos e policiais corruptos (como mostra em "Nebraska", seu melhor álbum), chegando até aos heróis de guerra que tiram sarro do fato de terem nascido nos Estados Unidos. Mas Springsteen é também capaz de mostrar como a realidade pode ser cruel com os sonhos da inocência e, ainda assim, manter uma razão para viver, mesmo que isso pareça impossível. Agora, com "The Rising", esta razão para viver não é apenas necessária: tornou-se obrigatória porque, sem ela, não há como recomeçar - mesmo que tudo pareça abandonado por um Deus que vaga pelo paraíso.

"The Rising" também é a volta de Springsteen com a E-Street Band e isso fica claro com a primeira faixa, "Lonesome Day", um rock de primeira que poderia ter saído de "Born In The U.S.A.", o grande sucesso de The Boss e que o transformou em um superstar. Será que tudo está bem, mesmo neste dia solitário? Não, não está. Springsteen desfia pequenos contos sobre diversos personagens: um bombeiro que morreu no dever, a pessoa que espera por um dia mais ensolarado, o morto que não percebeu que está morto, o sujeito que espera um milagre a qualquer instante, a revolta que ocorre na alma de um marido ao descobrir que sua esposa está morta, o árabe que quer ajudar o ocidental, a lembrança de um desejo entre um casal destroçado pela tragédia, a festa entre amigos que se foram, a dor em perceber a falta que faz a pessoa amada, o espírito que tenta ascender à luz feroz do Paraíso e, por fim, o sobrevivente que vê a sua cidade em ruínas e se pergunta como deve recomeçar.

É um painel ambicioso e não é à toa que "The Rising" tem 72 minutos de duração, um verdadeiro épico que Springsteen faz questão de contar como se fosse um homem prestes a fazer o seu último ato de bravura. Na realidade, está mais para um ato de desespero do que propriamente de bravura. Não que falte dignidade ou nobreza: em pelo menos três canções, "You´re Missing", a faixa-título e "My City In Ruins", Springsteen mostra uma disposição de captar os escombros da alma dilacerada, capturada em algo que está além da compreensão humana. Mas essa vontade imensa de agarrar uma luz é própria do "kantismo" do americano, ainda mais um americano de New Jersey, que gostaria de ser um americano de Nova York (quando, na verdade, existem mais imigrantes do que americanos legítimos na Big Apple): a possibilidade de que a América seja o país da paz perpétua, do sistema completo e acabado, da vida sem rombos ou costuras mal-feitas. O aparecimento da morte, da perda e do sofrimento não são apenas modos de amadurecimento: são provas de que Deus deve nos ajudar de qualquer maneira.

Contudo, Deus nos ajuda quando pode, essa é a verdade - boa parte do trabalho fica sob nossa responsabilidade. Qualquer coisa que façamos para recuperar a quebra de um mundo, o destroço de um coração e a ruína de um espírito já pode ser considerado um triunfo. A condição humana, como diria Olavo de Carvalho, é o "pega-para-capar", a incompletude, o desvio a qualquer momento na beira da esquina, o imprevísivel que confirma que a vida, muitas vezes, tem a aparência de uma trapaça. E o 11 de setembro confirmou justamente aos adeptos do american way of life que a vida é a exceção que nunca confirma a regra que é a morte pois esta não é o fim de tudo, mas apenas um começo. Logo, para começar verdadeiramente, é preciso morrer - e a morte não é algo que se possa enfrentar como se fosse pedir a vitória de uma batalha para um futuro próximo, quando a batalha é aqui e agora.
Springsteen se pergunta, ao sentir a perda da pessoa amada: "Without your sweet kiss, my soul is lost, my friend/ Tell me how do I begin again?" (Sem o seu beijo doce, minha amiga, minha alma está perdida/ Diga-me: como vou começar de novo?). A cidade em ruínas é a alma da América, mas também pode ser do mundo - apesar de todos os protestos dos esquerdosos, que preferiram ver no atentado uma forma de punição aos imperialismo americano. Isso sim é o verdadeiro terrorismo: não perceber que os seres humanos que ali morreram não tinham nada a ver com isso, da mesma forma que os japoneses em Hiroshima e Nagazaki, os alemães, os franceses e os ingleses nas duas guerras mundiais, os russos na Revolução Socialista de 1917. Esse é o problema de qualquer guerra: a vida é tratada como mero passatempo e o ser humano como uma mera idéia. Matar é uma nova brincadeira e um funeral se torna uma festa de comemoração, principalmente se você morrer embaixo de toneladas de concreto e metal.

Mas, depois da perda e dos efeitos devastadores que ela traz, a ascensão não pode ser desesperada, um pedido como se fosse o ítem mais importante na lista do supermercado. Ela chegará, disso não temos dúvidas, na sua lentidão peculiar, dentro do seu devido tempo, num processo que depende do próprio indivíduo. Esta é a encruzilhada de Bruce Springsteen em seu álbum e, conseqüentemente, da América atualmente: o confronto com a morte fica apenas na superfície, ela não atinge as profundezas da alma e a ascese, que deveria servir para purificar o espírito, se transformou em uma fuga. Springsteen se esconde no rock e nas melodias fáceis do pop; os EUA se escondem numa guerra inútil contra um tal de terror que ele próprio criou e que só serve para aprisionar ainda mais o povo nos braços do Estado-Leviatã.

Neste ponto, se compararmos "The Rising" e "Heathen", de David Bowie, que falam sobre o mesmo tema, o disco de Bowie é muito mais bem-sucedido e mais saudável. Bowie fez um álbum pop, mas com subtextos conceituais que mergulham na cabeça do ouvinte e deixam ele confuso, desorientado, com um sentimento de melancolia, de mortalidade, como escutamos na faixa-título: "I can feel die" (Posso sentir morrer). O mundo, para Bowie, só vai renascer se enfrentar e aceitar a mortalidade do passado pagão que construímos sobre nossos braços, o paganismo moderno que deu origem à relatividade dos terroristas, à psicanálise da nova medicina, à revolta do super-homem marxista. Springsteen sequer é tão intelectual: ele tem medo da luz terrível do Senhor e pede apenas um pouco de ajuda para que sua alma volte a ficar completa, o que, naturalmente, é impossível.

Entretanto, para um americano, ou para o imigrante que tenta ser americano (naquele fenômeno que Hans-Herman Hoppe chama de "imigração forçada"), até mesmo a luz terrível do Senhor é um problema. Por isso, a razão kantiana volta a imperar sobre o povo americano, com sua vontade inabalável de reconstruir sobre o trabalho, como uma nova fé, uma nova missão que terá seus frutos num paraíso muito distante. Max Weber adoraria analisar a situação atual, se estivesse vivo. Mas hoje temos Bruce Springsteen para fazer o serviço. E ele até faz corretamente, dentro de suas limitações; e são suas limitações que também denunciam suas fraquezas, ainda não percebidas, até mesmo para um artista que deveria conhecer suas falhas mais do que todos. Se Rilke afirmou que suportar é tudo, Springsteen acredita que tudo é suportável, desde que ele tenha coragem de ficar de joelhos. Atitude louvável, sem dúvida. Mas não seria mais corajoso cavar até os confins da terra e da alma para, enfim, ascender para sempre?

Martim Vasques da Cunha é escritor e jornalista
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