A política do Espírito, ou:
a luta pela unidade do Ser I
A Pedra da Alma - Introdução e §1
There´s no distinguished philosopher or thinker
in the Western world today who, firstly, is not aware and has not also
expressed this sentiment that the world is experiencing a serious crisis,
is undergoing a process of withering, which has its origins in the secularization
of the soul and in the ensuing severance of a consequently purely secular soul
from its roots in religiousness, and, secondly, does not know that recovery
can only be achieved through religious renewal, be it within the framework of
historical churches, be it outside this framework. Such renewal, to a large
extent, can only be initiated by great religious personalities, but everyone
can be ready and willing to do his share in paving the way for resistance to
rise up against evil.
Eric Voegelin, "The Political Religions" (1938)
INTRODUÇÃO:
Uma das grandes questões do nosso tempo é o fato de como a política entendida aqui como a arte de fazer o possível para o bem comum da sociedade, respeitando a individualidade do ser humano, mesmo que tenha que se equilibrar na ambigüidade do Poder pode ter sido pervertida a níveis assustadores. Na verdade, a política foi alçada à categoria de mal absoluto, seja pelos próprios políticos da esquerda e da direita ou por aqueles que se dizem ser oposição, quando na verdade não passam de aspirantes ao mesmo cargo de advinhem? políticos. A política é insultada como se fosse uma criança sapeca, mas é uma das mais importantes atividades humanas, porque, como Aristóteles definiu naquela sentença clara e precisa, copiada por milhares de acadêmicos que sequer pensaram realmente sobre o que aquelas palavras dizem, é um animal político.
Contudo, mesmo sendo uma característica intrínseca ao ser humano, isto não significa que é a única característica. Ao contrário: a política é apenas a parte de um todo muito mais amplo, um todo que, na verdade, se encontra oculto sob a superfície das coisas não vistas e sob uma linguagem que, embora espelhada na nossa, ainda permanece secreta. E é a partir desse mistério que tentaremos decifrar e expor ao leitor, ao começar nossa investigação porque será este mistério que poderá nos ajudar no longo inverno da alma que se estenderá sobre a nação brasileira e, muito provavelmente, sobre o mundo.
Com isso, temos que expor o problema que nos aflige e que perturba a verdadeira compreensão do que seria o nosso assunto: A política se restringe somente aos círculos do Poder e à satisfação pessoal do político ou ao compromisso de atender às exigências da sociedade? Na verdade, a própria pergunta pode induzir ao erro nesta investigação já que ela questiona apenas uma parte do estado de coisas. Ora, se a política é algo natural ao homem, temos de procurar as raízes no próprio indivíduo logo, dentro dele, cavando nos porões de seu espírito. É o espírito que guia o homem para suas atividades mais sérias e é ele que, por uma maneira inexplicada, o mantém em contato com outros homens, o que lhe permite desenvolver duas de suas habilidades mais dignas: a do livre-arbítrio e a da responsabilidade consigo mesmo e com seu semelhante. O homem que consegue dirigir sua alma para estas ações realiza uma política que ultrapassa os meros interesses da sociedade em que vive. Sua política é total, não local; sua existência tem uma coerência que dá unidade aos fragmentos que poderiam por sua alma a perder. Portanto, a verdadeira pergunta que se deve fazer sobre o nosso assunto é a seguinte: A política se restringe somente aos círculos do Poder e à satisfação pessoal do político e ao compromisso de atender às exigências da sociedade ou a algo além deste mundo, refletido numa ordem transcendente?
Exposto o problema, temos que fazer o mesmo com o método que será utilizado na investigação, até para justificar o eventual desprezo que possa surgir destas páginas, em relação às exigências da sociedade. Usaremos a dialética entre a ordem do indivíduo, retratada em sua alma, e a ordem da sociedade, retratada em suas leis, instituições e, sobretudo, ritmo histórico. A primeira começa com a descoberta da transcendência da alma, no momento em que esta se volta para si mesma, desce até as suas profundezas e então inicia uma ascese dolorosa, marcada pelo caminho que a leva das trevas até a luz feroz do Bem. Já a segunda sempre está em mutação, pois esta é a característica marcante do ritmo histórico, que nunca foi linear e sim sincrônico, baseada numa abstração de indivíduos em que não podemos conhecê-los realmente, apenas através de números ou então através de uma excessiva racionalização que, aos poucos, não deixaria nada a dever ao um irracionalismo digno dos bárbaros.
O método da dialética não será, em hipótese nenhuma, o de Marx e Hegel. Antes desses dois teutônicos, a dialética era usada por Platão e Aristóteles naquele combate interior que há na alma do indivíduo, para alcançar a síntese que ultrapasse os contrários e que possa chegar numa conclusão que, mesmo que provisória, se apóia em princípios evidentes por si mesmos, princípios que guiam os homens desde os inícios dos tempos e além destes.
Santo Tomás de Aquino, Dante Alighieri (em seus tratados filosóficos e políticos) e, no século XX, Eric Voegelin, sempre usam dessa dialética de expiação, em que as impurezas são purgadas numa meditação na qual as opiniões são tratadas a chibatadas, sempre na busca sincera pela verdade, nunca querendo manter seus interesses ideológicos que sempre acabam numa política falsa, de forças nitidamente diabólicas.
A dialética é uma luta contínua, mas mesmo uma luta cruel tem certa lógica. Não podemos deixar de ter um eixo na nossa investigação e, como estamos procurando o espírito individual que guia a política que possibilite o bem comum dos outros homens, escolhemos ninguém menos que Dante Alighieri. Tivemos vários modelos, como Platão, Aristóteles, Thomas More, Erasmo de Rotterdam, Maquiavel, mas, além do fato de vários já terem sido abordados em escritos anteriores, Dante nos parece um homem mais completo em suas atividades: além de ter sido o poeta da Comédia, das líricas, das Rime Petrosi e da Vita Nuova, ele foi diplomata, pesquisador minucioso da língua latina e italiana, e escreveu os tratados Da Monarquia e O Convívio, obras que mostram que sua existência foi uma ampliação da consciência humana em especial a Comédia, que chega perto de ser uma revelação e que suas idéias sintetizaram o final da Idade Média para influenciar o Renascimento e, para o bem e para o mal, os nossos dias.
Começaremos por analisar a alma do indivíduo e, para isso, utilizaremos das Rime Petrosi, de Dante, combinados com alguns diálogos de Platão e obras de Aristóteles; depois, teremos de dissecar os assuntos da justiça e de sua conseqüente perversão no mundo moderno, a ordem e a desordem e como, enfim, pode-se aplicar a política que se origina do espírito e não da sociedade. Nossa finalidade é, com esta obra, dissipar um pouco a névoa de inconsciência que atinge alguns de nossos leitores, sejam eles ignorantes ou maliciosos, mesmo que isso implique em não sermos escutados a curto prazo. Contudo, sabemos que o tempo sempre trabalhou a nosso favor, mesmo que a alma fique um pouco danificada com tamanha espera, porque nunca esperamos muito do próprio tempo. Mas é o momento de se iniciar a restauração da vida do espírito no universo da política, em busca de uma unidade que, a partir do momento em que ela é encontrada, pode nos ajudar a diagnosticar corretamente o coração do Mal. São nestas épocas em que a tirania se aproxima que a luta pela unidade do ser fica mais intensa e, por isso mesmo, mais nobre.
I - A PEDRA DA ALMA
1
O personagem do Estrangeiro, no diálogo Político, de Platão, pergunta a Sócrates, o Jovem, se deveria incluir o político na categoria dos sábios. Esta é a questão crucial desta investigação: Pode o político equilibrar o mundo do espírito e o mundo do Poder mundos que sempre entram em conflitos devastadores? Devemos entender que o político apresentado aqui, não será aquele que busca somente o oportunismo eleitoral, mas sim o sujeito que dominou as forças que se digladiavam na alma, para depois dominar as mesmas forças que domina a sociedade. É o velho princípio do antes de querer consertar o mundo, primeiro conserte sua casa. A intenção de um político, é bom frisar, não é a de querer consertar o mundo, mas sim fazer o possível para torná-lo um pouco mais suportável. Sua sabedoria seria compreender os problemas, para harmonizá-los em um plano em que eles possam ser controlados, ainda que por um tempo muito breve.
A brevidade deste sucesso ocorre porque é da natureza de nossa existência viver através da luta, da tensão que há entre o campo divino da transcendência e o campo mundano da imanência. Isso não é um privilégio exclusivo do político é um fato que ocorre com todos nós. A ansiedade que floresce com esta tensão provoca na alma do ser humano a possibilidade dele escolher a abertura amorosa para a ordem que ultrapassa o mero humano, ou a descida sem volta ao fundo mais baixo de um Poder que fica restrito às pessoas sem nenhuma nobreza em suas disposições internas. Neste ponto, o político se vê numa encruzilhada em que a tensão entre os campos divino e humano (que Platão chamava de metaxo termo também empregado por Eric Voegelin em sua teoria da consciência), porque ele deve usar, muitas vezes, da força do Poder para concretizar a autoridade do Espírito.
Portanto, a ordem conquistada por este político, se revela de uma fragilidade fascinante mas qualquer tipo de ordem, até mesmo a tirânica, é frágil, por mais tempo que ela se prolongue. Não há ordem política permanente porque ela é apenas um esboço muito incompleto da verdadeira ordem que nos rege, a mesma ordem que o político deve ter consciência dentro de seu espírito, para estendê-la na sociedade onde vive.
Assim, chegamos ao um primeiro princípio na nossa investigação: a alma do indivíduo é a alma da sociedade por extenso, e a alma do político deve ser o ponto de intersecção entre as duas. Isto está fundamentado na República, de Platão, em que a política seria a continuidade natural para um filósofo (entendido como philosophos amigo da verdade e não como philodoxos, conceito que, aliás, é usado sem discernimento, o que provoca as confusões atuais nos debates de idéias) que, por ter visto e suportado a luz do Bem e da Verdade, volta para o seu antigo mundo a famosa caverna onde todos estão agrilhoados e vêem apenas sombras e avisa seus companheiros da nova realidade que lhe foi apresentada, realidade que, por sinal, decreta uma nova ordem do ser humano em contato com o divino.
Entretanto, este aviso não será muito bem recebido pelas outras pessoas e, talvez, pelo próprio sujeito que teve a revelação. E se lhe fosse necessário julgar aquelas sombras, em competição com os que tinham estado sempre prisioneiros, no período em que ainda estava ofuscado, antes de adaptar a vista e o tempo de se habituar não seria pouco acaso não causaria o riso, e não diriam dele que, por ter subido ao mundo superior, estragara a vista, e que não valia a pena tentar a ascensão? E a quem tentasse soltá-los e conduzi-los até cima, se pudessem agarrá-lo e matá-lo, não o matariam? (517 a), pergunta Sócrates a Glauco em A República, diálogo que medita sobre o tema da justiça ou melhor, se vale a pena ser justo em um mundo onde tudo impele ao contrário. Glauco não hesita em concordar com a pergunta retórica de Sócrates porque sabe que, antes de tudo, o homem é também o maior inimigo de si mesmo, afirmação que o próprio Platão também confirmará em As Leis, sua obra mais extensa e complexa. Preso na ansiedade da tensão entre a transcendência e a imanência, o ser humano pode perverter sua própria alma, uma vez que lhe falta força suficiente para controlar seus vícios e deixar que as virtudes de sua alma vencem, graças a uma longa e penosa luta.
Assim, as guerras que ocorrem nas histórias da sociedade são exteriorizações dos dramas que atormentam as almas de seus governantes o que significa que, para surgir tamanho acontecimento, é sinal que este combate atingiu um limite quase insustentável dentro da alma do sujeito, jogando-o nos ritmos da História e do tempo. Para um evento, como por exemplo, a Segunda Guerra Mundial, ter ocorrido tal fato, deve-se levar em conta que dois de seus participantes Hitler e Stalin não tinham muitas virtudes dentro de suas almas. Quem pagou o preço foi a humanidade, que também não tinha muito conhecimento dessas virtudes, algo que se prolonga até hoje.
Para que as qualidades da alma se sobreponham sobre os vícios, é necessária uma força sobre humana. Platão descreveu o combate, mas apenas implicitamente sugere a participação de uma divindade que possa ajudar o ser humano. Este é o grande diferencial do Cristianismo, em que a Graça seria este elemento importante que, junto com o Espírito Santo, guiaria o homem que procura Deus numa ascese difícil rumo à Fé e à Esperança, mas no final vitoriosa. Ainda assim, a Graça é muito mais um problema do que propriamente uma solução já que seu mistério, como tudo no Cristianismo, é a confirmação da incerteza de nossa existência, sempre no conflito do metaxo.
Segundo Platão e Aristóteles, o homem que deseja ser um político completo deve saber que a coisa mais importante no mundo não é o Poder, mas a busca sincera pela Verdade. A arte de governar seria a demonstração prática deste amor pela sabedoria, pois o político o transmitiria a todos, sem nenhum outro interesse. Entretanto, ele não deixaria de ter consciência da espiritualidade do Mal, já que esta semente vive dentro de sua alma afinal de contas, o homem é o maior inimigo de si mesmo, conforme já dissemos. Esta arte teria de ser aprimorada conforme o passar do tempo e, neste ponto, Aristóteles aprimorou muitas coisas de Platão, ao elaborar a ética para a educação do homem maduro, o spoudaios. Tanto Platão como Aristóteles sabiam que a arte de governar implicava em lidar com as tentações do Poder e que elas poderiam corromper a alma do homem que queria buscar a Verdade. O spoudaios seria aquele que teria pleno domínio de suas potencialidades, dentro da tensão entre o campo divino e o campo mundano, fazendo a passagem sem rupturas da vida contemplativa (também conhecida como vida teorética, bios theoretikos) para a vida prática, justamente a vida voltada para a política.
Eric Voegelin explica com muita propriedade, em A Nova Ciência da Política, a importância de ser um spoudaios:
Uma teoria não é apenas a emissão de uma opinião qualquer a respeito da existência humana em sociedade; é uma tentativa de formular o sentido da existência, explicando o conteúdo de um gênero definido de experiências. Os argumentos usados não são arbitrários, e sim derivam sua validade do conjunto de experiências ao qual a teoria deve permanentemente referir-se para possibilitar o controle empírico. Aristóteles foi o primeiro pensador a reconhecer esta condição das teorizações a respeito do homem. Criou um termo para designar o homem cujo caráter é formulado pelo agregado das experiências em questão, chamando-o spoudaios, o homem maduro. O spoudaios é o homem que realizou ao grau máximo as potencialidades da natureza humana, que formou seu caráter na realização das virtudes intelectuais e éticas, o homem que, no auge do seu desenvolvimento, atinge o bios teoretikos. Assim, a ciência da ética, no sentido aristotélico, é o estudo do spoudaios. Além disso, Aristóteles tinha aguda consciência dos corolários práticos dessa teoria do homem. Em primeiro lugar, a atividade teórica não pode ser desenvolvida em todas as condições por todas as pessoas. O teórico talvez não precise ser a encarnação do próprio modelo de virtude, mas deve ao menos ser capaz de reproduzir imaginativamente, as experiências que sua teoria busca explicar; e essa faculdade só pode ser desenvolvida sob certas condições, tais como a inclinação, uma base econômica que permita o investimento de anos de trabalho nos estudos teóricos e um ambiente social que não oprima o homem que a eles se dedique. Em segundo lugar, a teoria como explicação de certas experiências só é inteligível para aqueles em que a explicação desperte experiências paralelas como base empírica para testar a verdade da teoria. Se a exposição teórica não chegar, pelo menos em parte, a ativar experiências correspondentes, dará sempre a impressão de ser conversa fiada ou poderá ser rejeitada como expressão irrelevante de opiniões subjetivas. O debate teórico só pode ser conduzido entre spoudaios, no sentido aristotélico; a teoria não tem argumentos contra o homem que se sente, ou finge sentir-se, incapaz de reproduzir a experiência. Conclui-se, portanto, que, historicamente, a descoberta da verdade teórica pode não encontrar aceitação alguma na sociedade. Aristóteles não tinha ilusões a esse respeito. É verdade que, como Platão, ele tentou construir, nos livros VII-VIII de Política vii-viii, um paradigma da ordem social que expressaria a verdade do spoudaios; mas também afirmou com muita tristeza que em nenhuma das cidades helênicas de seu tempo podiam encontrar-se cem homens que fossem capazes de formar o núcleo dirigente de tal sociedade; qualquer tentativa nesse sentido seria totalmente inútil. O resultado prático parece ser um impasse(págs. 56-57).
O verdadeiro político deve ser um spoudaios mas aonde encontrá-lo? É aqui que começa a luta pela unidade do ser: temos de entender essa expressão que será bastante utilizada no decorrer do texto como a busca por aquilo que se mantém intacto e puro, dentro de um mundo em que a efemeridade é constante e, em especial, a confusão entre o múltiplo e o uno, que pode levar a um dualismo armadilha em que até mesmo um sujeito como Platão caiu. Para o filósofo dos filósofos (sem ele, não teríamos Aristóteles, Santo Agostinho e até mesmo suas sementes malditas, como Hegel e Marx), o corpo era a prisão da alma. Esta última seria imortal e levaria o homem a privilegiar as virtudes aos vícios. Mesmo assim, o dualismo platônico não implica em uma irresponsabilidade do sujeito sobre sua alma no tempo de sua passagem aqui pela terra. A alma é algo que deve ser zelada a qualquer custo e o preço pela sua corrupção é a morte injusta. Para um filósofo, a vida é uma preparação para a morte e esta aceitação da finitude de si mesmo e das coisas do mundo provoca um carinho pela alma que poucos teriam.
O dualismo platônico, contudo, pode chegar ao ponto de ver o corpo como um mero acessório o que daria lugar a um ascetismo imprudente, como o dos estóicos. Aristóteles corrige este desvio com a unidade do sujeito, em que, por ser, simultaneamente, potência e ato, as ações de uma pessoa são claramente originárias daquele único ser humano e ninguém mais poderia fazê-lo. Corpo e alma são um todo que se relaciona como se um fosse espelho do outro. Da mesma forma que a alma é imortal, o corpo é finito em sua natureza, mas ele não é mais uma prisão e sim o veículo, por assim dizer, que leva a alma até uma certa plenitude de sua existência. As noções de essência, existência e acidente aparecem para aperfeiçoar esta unidade do sujeito, cristalizando a sua responsabilidade sobre quaisquer dos seus atos. Aristóteles não tinha como saber, mas o Cristianismo levaria às últimas conseqüências a unidade entre corpo e alma, com a ressurreição de Cristo sendo comprovada por São Tomé, quando este diz que somente acreditará no milagre ao tocar as chagas.
A unidade do sujeito seria uma espécie de ponto final na luta pela unidade do ser. Mas, no mundo da política, onde o Poder corrompe a pureza, justamente por causa de sua natureza ambígua que será analisada nas páginas futuras, o homem que tenta praticá-la de forma justa deve encontrar a unidade tanto em suas emoções, como também nas pessoas que, direta ou indiretamente, irá administrar. Platão usa a metáfora do pastor no seu diálogo Político, em que o governante deve controlar dentro do rebanho aqueles que lhe serão prejudiciais, tanto na cidade, como dentro de sua alma. Ele deve aprender a unir duas das melhores qualidades de um político: a coragem e a temperança. Em A República, Platão joga mais duas qualidades: a justiça e a sabedoria e as quatro seriam os pontos cardeais para a formação do spoudaios, segundo Aristóteles em sua Ética a Nicômaco, escrita para seu filho. A sabedoria, a coragem, a justiça e a temperança são as virtudes que, dominadas, vigiariam a si mesmas, contribuindo para a harmonia das disposições interiores e dando ao político firmeza às suas ações. Se ele tiver apenas uma delas, o governo pode estar por um fio o político deve unir suas qualidades e seus aliados como o tecedor que arranja a lã e a une numa única manta, em que as costuras são imperceptíveis e na qual não há nenhuma falha. Entretanto, como Platão bem sabia, esta ordem aparentemente perfeita duraria pouco tempo, dentro de um ciclo em que qualquer tipo de ordem se desintegraria no seu contrário. A natureza social de um governo é repleta de contradições, internas e externas, e cabe ao político domá-las, principalmente àquelas dentro de sua alma:
ESTRANGEIRO Este simples conflito de caracteres [entre a temperança e a coragem] não passa de um jogo. Entretanto, nas coisas graves torna-se a enfermidade mais perigosa que há para as cidades.
SÓCRATES, O JOVEM A que coisas graves te referes?
ESTRANGEIRO Naturalmente àquelas que dizem respeito à organização da vida. Há, com efeito, pessoas dotadas de um temperamento extremamente moderado; dispostas a levar uma vida de perpétua tranqüilidade, elas se afastam e se isolam para ocupar-se de seus negócios e, revelando essa disposição, conservam-na com relação às cidades estrangeiras, sempre prontas, também aqui, a qualquer espécie de paz. Por este amor verdadeiramente intempestivo chegam elas inconscientes, vivendo ao sabor de seus desejos, a perder toda aptidão para a guerra, a educar seus jovens nessa incapacidade, colocando-os à mercê do primeiro assaltante: não são necessários muitos anos para que se encontrem elas, seus filhos, e toda a sua cidade, transformados de livres em escravos, sem que disso se apercebam.
SÓCRATES, O JOVEM Dura e terrível sorte!
ESTRANGEIRO Que dizer daqueles mais inclinados à energia? Não têm sempre alguma nova guerra para onde arrastar sua cidade, pela enorme paixão que nutrem por esse gênero de vida, expondo sua pátria aos ódios tão numerosos e fortes que a arrastam à sua ruína completa ou a colocam sob a servidão e o jugo inimigo?
SÓCRATES, O JOVEM É o que também sucede.
ESTRANGEIRO Como, pois, negar que há entre esses dois gêneros de espíritos uma fonte contínua e profunda de inimizade e discórdia?
SÓCRATES, O JOVEM Impossível negá-lo.
ESTRANGEIRO Não temos assim verificado o primeiro ponto de nossa pesquisa, isto é, que certas partes da virtude, e não pequenas, são por natureza opostas entre si, e engendram, nos espíritos onde residem, as mesmas oposições?
SÓCRATES, O JOVEM Parece.
ESTRANGEIRO Examinemos, agora, o ponto seguinte.
SÓCRATES, O JOVEM Qual?
ESTRANGEIRO Procuremos saber se entre as ciências combinatórias há alguma que por ser a mais humilde, aceite, ao compor uma outra de suas obras, tanto os maus como os bons elementos; ou se o esforço de toda ciência é, em qualquer domínio, o de eliminar o mais possível os maus elementos conservando os elementos úteis e bons e, quer sejam estes semelhantes ou dessemelhantes, fundí-los todos numa obra que seja perfeitamente uma por suas propriedades e estrutura.
SÓCRATES, O JOVEM Claro!
ESTRANGEIRO Nossa política, a política verdadeiramente conforme à natureza, jamais consentiria em constituir uma cidade formada de bons e maus. Ao contrário, começaria, evidentemente, por submetê-los à prova do jogo, e, terminada essa prova, confiá-los-ia a educadores competentes e habilitados para esse serviço. Reservaria, entretanto, a si o governo e a direção, assim como faz o tecedor com relação aos cardadores e a todos os demais auxiliares que preparam os materiais que ele urdirá, mantendo-se constantemente junto deles para governar e dirigir todos os seus movimentos, e determinando a cada um as obrigações que julga necessárias ao seu próprio trabalho de tecedura (págs 265-266).
Ao mesmo tempo em que o político tem de buscar a unidade para o seu governo, ele tem de buscar a unidade de seu próprio ser. O que está em jogo na política não é a posição ideológica de esquerda ou direita, mas sim a alma humana, de cada habitante do governo, representada pelo seu governante, que deve entendê-la e cuidá-la como poucos. O verdadeiro político sabe que sua alma pode cair na tentação do vício a qualquer momento, por causa dos meandros ocultos que habitam no território do Poder. É como o mito da parelha alada que Platão tão bem descreveu no seu diálogo Fedro: a alma humana seria como os cavalos alados que podem levar o cocheiro (a inteligência) tanto para o mundo da essência, como para o mundo da mentira, da mera doxa (opinião comum). O ofício de manter harmonia entre esses dois cavalos é penoso, porque sempre pressupõe em uma luta contínua, já que há sempre um cavalo de boa índole e outro de má índole: As almas tudo fazem para seguir os deuses, seu condutor ergue a cabeça para a região exterior e se deixam levar com a rotação. Mas, perturbadas pelos corcéis do carro, apenas vislumbram as realidades. Ora levantam, ora baixam a cabeça, e, pela resistência dos cavalos, vêem algumas coisas, mas não vêem outras. Outras há ainda que, nostálgicas, seguem atabalhoadas acompanhando a rotação, incapazes de se levantar, empurrando-se e derrubando-se umas às outras, quando alguma pretende passar adiante. Há confusão e briga, e abundante suor. Muitas saem feridas, por culpa dos cocheiros. Muitas perdem as penas de suas asas. Todas, após esforços inúteis, não conseguindo se elevar até a contemplação do Ser Absoluto, caem, e a sua queda as condena à simples Opinião. A razão que atrai as almas para o céu da Verdade é que somente aí poderiam elas encontrar o alimento capaz de nutri-las e de desenvolver-lhe as asas, alimento que conduz a alma para longe das baixas paixões (248).
A luta dentro da alma passa por um compreensível período de escuridão, de purgação e conhecimento através do sofrimento que torna o homem mais do que um mero animal racional (pelo menos, no sentido que dão os iluministas e os deterministas). São nestes tempos de trevas que, por algum motivo misterioso, surgem as primeiras luzes e os primeiros sinais de que a alma possui uma pedra, mesmo que ela pareça dura e intratável. No entanto, é necessário polí-la com aspereza para, então, encontrar sua pureza e, talvez, um pouco da luz que nos guia rumo à Verdade, ainda que esta luz nos pareça demasiadamente feroz. E quem captou isso com perfeição no reino das palavras foi o florentino Dante Alighieri, com suas Rime Petrosi.
Na próxima semana: Dante Alighieri e as "Rime Petrosi", a Justiça Divina e a justiça dos homens e a Justiça petrificada.
Martim Vasques da Cunha é escritor e jornalista
Leia seus outros artigos em O Indivíduo