A Geração Corrompida
"Lembra-te, Senhor, do que nos tem sucedido; considera,
e olha para o nosso opróbrio.
A nossa herança passou a estranhos, e as nossas casas a forasteiros.
Órfãos somos sem pai, nossas mães são como viuvas.
A nossa água por dinheiro a bebemos, por preço vem a nossa lenha.
Os nossos perseguidores estão sobre os nossos pescoços; estamos
cansados, e não temos descanso.
Aos egípcios e aos assírios estendemos as mãos, para nos
fartarmos de pão.
Nossos pais pecaram, e já não existem; e nós levamos as
suas iniqüidades.
Escravos dominam sobre nós; ninguém há que nos arranque
da sua mão.
Com perigo de nossas vidas obtemos o nosso pão, por causa da espada do
deserto.
Nossa pele está abraseada como um forno, por causa do ardor da fome.
Forçaram as mulheres em Sião, as virgens nas cidades de Judá.
Príncipes foram enforcados pelas mãos deles; as faces dos anciãos
não foram respeitadas.
Mancebos levaram a mó; meninos tropeçaram sob fardos de lenha.
Os velhos já não se assentam nas portas, os mancebos já
não cantam.
Cessou o gozo de nosso coração; converteu-se em lamentação
a nossa dança.
Caiu a coroa da nossa cabeça; ai de nós, porque pecamos.
Portanto desmaiou o nosso coração; por isso se escureceram os
nossos olhos.
Pelo monte de Sião, que está assolado, andam os chacais.
Tu, Senhor, permaneces eternamente; e o teu trono subsiste de geração
em geração.
Por que te esquecerias de nós para sempre, por que nos desampararias
por tanto tempo?
Converte-nos a ti, Senhor, e seremos convertidos; renova os nossos dias como
dantes;
se é que não nos tens de todo rejeitado, se é que não
estás sobremaneira irado contra nós".
"Lamentações de Jeremias", capítulo 5.
O leitor deve estar se perguntando porque não publico
logo a última parte de "A Política do Espírito"
neste site. O motivo é muito simples: às vezes, uma investigação
precisa parar para que o autor possa ver o que fez, meditar sobre o que fará
e tomar muito cuidado na hora de dar a unidade necessária aos temas que
parecem fragmentados nas partes anteriores. Foi o que fiz: parei para meditar.
Mas isso não significa que abandonei o projeto. Na verdade, já
voltei a escrever a quinta parte e estou fazendo o possível para que
a unidade do espírito que tanto prezo possa se manifestar, mesmo que
de forma efêmera, na conclusão dos meus estudos. Contudo, já
posso adiantar que esta conclusão não será algo fácil
e sim muito, muito dolorido. Estou tentando fazer o possível para não
citar as circunstâncias atuais na investigação, não
por uma questão de medo, mas sim por uma questão de que o trabalho
fique acima de toda essa bazófia ideológica - até porque
não seria do Espírito e sim do Mundo, o que não me interessa.
Mas acho também que não se pode negar que, finalmente, a espada
de Dâmocles descerá sobre nossas cabeças e iremos ladeira
abaixo. A partir deste domingo, dia 27 de outubro, provaremos que o Brasil é
um país que adora cometer suicídio. Esta é a primeira conclusão
que se chega, depois de saber que as últimas pesquisas indicam que Lula
pode ser o próximo presidente da República. O suicídio,
no caso, não é entregar o país nas mãos de um sujeito
nitidamente despreparado e que fala cerca de quatro "menas" em 2,4
minutos de discurso. É entregá-lo nas mãos do grupo que
manipula esta marionete, um grupo que, graças às universidades
públicas, aos jornalistas infiltrados em cada redação da
mídia nacional e aos intelectuais que disparam as idéias mais
absurdas nos ouvidos de estudantes límitrofes, jogaram o Brasil na vala
da loucura coletiva.
É isso o que os brasileiros podem esperar se o PT ganhar as eleições:
caos e desordem. Não por culpa do Lula ser um semi-analfabeto. Na verdade,
é bem capaz que ele seja mais esperto do que todos nós, como provam
suas negociatas com Fidel Castro no Foro de São Paulo. O que não
lhe falta é determinação: durante quatro fatigantes eleições,
Lula lutou tanto pela faixa presidencial que, realmente, como disse um de seus
assessores em uma ode que foi publicada no Correio Popular, de Campinas (jornal
onde escrevia uns artigos impertinentes, que, vejam só!, eram classificados
como "direitistas" ou "radicais"), ele se tornou um político
profissional, mas não como queria Max Weber, o autor que o fiel servidor
de Lula tentou se apoiar para permanecer no mundo do faz-de-conta.
Quem leu Max Weber ou então a parte de "A Política do Espírito" no qual comento sobre o problema que o grande sociólogo apresentou aos seus estudantes revolucionários, que eram a sua platéia ao proferir a palestra "A Política Como Vocação", saberia que se Lula fosse o político profissional que Weber defendia, ele teria de aplicar à risca a "ética da responsabilidade", porque todo mundo já sabe que ele praticou a sua "ética da convicção" ao trocar figurinhas com Fidel Castro e Hugo Chávez. Na verdade, Lula ficou embasbacado pelas suas convicções e se esqueceu da responsabilidade, apesar de pregar nos quatro cantos do país a palavra "ética". Se fosse um homem realmente responsável, Lula teria que responder, com alguma dignidade, três perguntas simples: Qual é a relação do PT com as FARCs colombianas, quando é fato notório de que o governo petista do Rio Grande do Sul recebe, com pompa e circunstância, os comandantes desta organização que, não sei se o leitor sabe, tem íntimas ligações com o narcotráfico latino, em especial com um sujeito chamado Fernandinho Beira-Mar? Como explica a admiração que Lula tem pelo ditador Fidel Castro, exibida em fotos e discursos? E, por último, qual é a ligação do PT com o MST, que nunca foi um movimento de protesto pela reforma agrária, mas sim um grupo organizado de guerrilha maoísta?
São três perguntas simples, que até mesmo José Serra precisa da Regina Duarte para apenas insinuar, nunca explicitar essas relações escusas, porque o PSDB já fez a sua "cristianização", se ocorrer um segundo turno, com o aval do socialista-fabiano FHC. Mas Lula, como dissemos, é esperto demais para dar todas essas respostas, porque elas foram ocultadas displiscentemente por boa parte da mídia que, surpresa das surpresas, reza para que o petista ganhe as eleições. Para muitos sonâmbulos, como são a maioria dos jornalistas brasileiros, a vitória do PT para a presidência seria a prova da rotatividade do poder na democracia, a prova de que o governo neoliberal de FHC se esgotou e é tempo, como diria Leonardo Boff, o ídolo dos hereges da Teologia da Perdição, de colher o verdadeiro socialismo e evitar que o Brasil seja o novo quintal dos EUA.
É um engano primário, que muitos se acostumaram a repetir, como um mantra, talvez para anestesiar o medo de que os novos puritanos serão mais sanguinários do que os aliados de Oliver Cromwell. O problema é que isso não é dito apenas por senis famosos, que os cadernos culturais adoram divulgar como os lumiares da cultura brasileira. São jovens que abusam destes slogans ideológicos, jovens de classe-média, que nunca passaram fome, que nunca souberam o que é a perda da falta de liberdade e que nunca leram um livro de História decente, porque se lessem algum, teriam vergonha em dizer que votarão em Lula.
O PT armou uma bela ratoeira não para os velhos, mas para a próxima geração. A juventude já fez um pacto demoníaco sem saber das condições do contrato, pois seus pais, irmãos, tios e avós assinaram por eles, ao acreditar piamente no deus manco da democracia e no mundo mágico da igualdade perante à lei. Com isso, o sentido de um futuro está acabado, faz parte de um passado que terminará no pó da embriaguez moral. Todos nós somos culpados pela morte espiritual dos jovens que deveriam continuar com nosso trabalho; todos nós somos nossos próprios assassinos. Terminaremos como os bárbaros começaram, ao destruir Alexandria, escolhendo a honra pelo Poder, a dignidade pela humilhação.
A pergunta que não quer calar para aqueles que fizeram o seu trabalho de sentinela e que avisaram meio mundo, mas sabem que gritaram para ouvidos moucos, é a seguinte: O que fazer depois que a ascensão da lulidade (esta expressão é cortesia de Bruno Tolentino) tomar o poder oficialmente? Lamento em informar, mas deveriam ter feito pensado nisso muito antes de imaginar que o molusco sentaria o traseiro na cadeira presidencial. Já conversei com grandes amigos que também lutam o bom combate e avisei-os que, no afã de querer fazer o bem, vamos acabar criando tanto mal quanto os petistas, ainda mais se usarmos os mesmos métodos deles, mesmo de maneira inconsciente ou ingênua, como mostrou Evandro Ferreira em um de seus artigos publicado no site "Outonos". No fim das contas, corremos o perigo de cair na vala da ideologia e criar uma nova fuga da realidade, esquecendo-se dos nossos próximos e lembrando-se apenas dos distantes que, se bobear, sequer prestam atenção ao que fazemos. Infelizmente, esta é a sina de todo o cristão que quer cumprir o seu dever moral: o seu trabalho será incompreendido numa série de erros, que só prejudicará a vida dos outros (a nossa pouco importa, porque nós sabemos o que fazemos). O prejuízo é claro: quem avisa amigo é, e se você não escutou, problema seu, meu irmão. O próprio Cristo dizia que não deveria jogar pérolas aos porcos. E estamos fazendo exatamente isso: tornando-nos jogadores profissionais de pérolas aos porcos. Isto causa equívocos até mesmo na mente de pessoas que considero inteligentes. Por exemplo: Paulo Polzonoff, que tem um dos melhores blogs da internet, comentou em um de seus posts que "O Indivíduo" é um jornal eletrônico "dedicado a discussões contra a mesmice da correção política que impera na coletividade". Não falo em nome do editor Alvaro Velloso de Carvalho, mas era só Polzonoff ler todos os artigos do próprio Alvaro, de Pedro Sette Câmara, de Alceu Garcia e Marcelo Tostes, que ficaria claro que os ataques ao politicamente correto publicados neste jornal são apenas circunstanciais, e que a verdadeira preocupação de seus colunistas sempre foi a busca de uma restauração dos valores tradicionais do espírito, num mundo que dá nítidas amostras de tê-las esquecido. O mesmo Polzonoff também gagueja quando afirma que conhece e admira a obra de Olavo de Carvalho, mas não quer ser considerado como um de seus discípulos. Ora, bolas, por mais que Olavo de Carvalho tenha uma personalidade carismática e atraia muitos pseudo-seguidores, ele nunca quis ter um discípulo. Afirmo isso não pelo fato de conhecê-lo pessoalmente, mas porque é um dado que está em sua própria obra, fragmentada em livros como "O Jardim das Aflições", em apostilas do Seminário de Filosofia e nos seus artigos jornalísticos.
O engano de Polzonoff é o engano criado por muitas pessoas
que circulam na intelectualidade brasileira - de índole gramisciana -
e da qual somos a resistência. Mas como resistir quando nossos inimigos
tomarem o poder? Com armas? Com gritos? Com pauladas? Não, com o Espírito,
que sopra para onde quer, mas ninguém sabe de onde veio, nem para onde
vai. Ele é a única coisa que fica neste mundo de finitude e temos
de aprender o seguinte: um dia, Lula e o PT desaparecerão e até
mesmo o próprio Brasil irá desaparecer. É como escreveu
Bruno Tolentino no soneto "In Passim", do seu recém-lançado
"O Mundo Como Idéia", o maior livro de poesia já lançado
nos últimos cinqüenta anos neste país:
"Tudo vai-se acabando, tudo passa
do que é ao que era; é tudo mais
ou menos uns vestígios de fumaça
no espaço do que deixas para trás.
E tudo o que deixaste ou deixarás
de manso ou de repente, sem que faça
diferença nenhuma no fugaz,
é assim como a garoa na vidraça:
intimações de lágrima delida.
Não valeu chorar nada. Nem te atrevas
a lamentar-te à porta da saída,
pois pouco importa a vida como a levas,
que ela te leva a ti, de despedida
em despedida, a uma lição de trevas".
Temos de passar por esta lição - até para amadurecermos
como seres humanos. Mas também temos de preservar a obra de um Olavo
de Carvalho, de um Bruno Tolentino, de um Meira Penna. E só podemos fazer
isso se ficarmos acima da ascensão da lulidade, mesmo que, a partir de
agora, só terá futuro neste país quem for um canalha ou
um completo ignorante sobre seus próprios passos (bem, isso já
é freqüente). Não podemos nos preocupar com vermes porque
nosso trabalho é muito mais importante: temos de continuar a herança
que nos foi dada, que é o fato de que, enfim, descobrimos pensadores
como Eric Voegelin, Rosenstock-Huessy e Bernard Lonergan (sem falar neste filósofo
monumental que é o nosso Mario Ferreira dos Santos); poetas como Bonnefoy
e Saint-Jonh Perse; e cientistas políticos como Hans-Hermann Hoppe, Bertrand
De Jouvenel e Ludwig Von Mises - sujeitos que, se dependessem das Marxlinenas
Xuxaí da vida, nunca ouviríamos nesta terra papagalis. Essa atitude
não tem nada a ver em querer ser seguidor ou discípulo de alguém.
Tem a ver com dignidade e com nobreza, do fato de perseverar quando tudo parece
estar desabando - mesmo neste país ingrato, que trata suas sentinelas
como a porca que come os próprios filhos.
Para os brasileiros que escolheram o canceroso imperio da DOXA
(para homenagear o meu amigo Tiago
Sacilloto, que adora usar e abusar dos termos platônicos), a única
saída será culpar os outros e recusar a responsabilidade pelo
erro que nos acompanha desde o início. Quinze anos de golpes comunistas
atrás de golpes comunistas e de uma nação esmigalhada -
este será o legado de uma geração corrupta para uma geração
corrompida. Quando Thomas Mann escreveu seu romance "Doutor Fausto"
na Segunda Guerra Mundial, ele esperava que o livro servisse de lição
para que o nazismo não fosse repetido em nenhum outro lugar da Terra.
Sua esperança foi em vão: o Brasil é o novo palco de uma
demência que demorará muito tempo para ser purgada do espírito
brasileiro. Mas, pelo menos, Mann simbolizou a desgraça alemã
na alma de um gênio da música que, por amor à arte, vendia
sua alma ao demônio. Aqui temos um espertalhão que brincará
de ser um político profissional, manipulado por sujeitos que sabem muito
bem que o socialismo é impraticável em qualquer lugar do mundo,
exceto para os inocentes úteis que preferem transformar a sociedade,
ao invés de saberem onde erraram em suas míseras vidas. Além
disso, não há nenhum amor na motivação deles; existe
apenas o ódio ao ser humano. E este ódio não permite que
eles possam escutar o canto do vento que confirma nosso fim, mas também
ilumina a nossa vida, como fala Tolentino no último poema do ciclo "A
Imitação da Música", que fecha "O Mundo Como
Idéia":
"Celebrai-a comigo, ó todos vós
que conheceis, como eu conheço bem,
a rosa em fogo e a terra de ninguém
em que caíram já bilhões de sóis.
Outros virão cair diante de nós,
e esse desastre é doce porque tem
do impulso que nos faz cair também
na escura escadaria... Estamos sós
e todos condenados a perder,
mas celebremos juntos a sentença
e a liberdade em vão do ser que pensa
e repensa essa luz que vai morrer.
Tudo morre e refaz naquela intensa
rosa-múndi agarrada à dor do ser".
Martim Vasques da Cunha é escritor e jornalista
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