Em Busca de uma Política
do Espírito - § 7
O Conforto do Exílio
Conclusão
"There´s
no distinguished philosopher or thinker in the Western world today who, firstly,
is not aware - and has not also expressed this sentiment - that the world
is experiencing a serious crisis, is undergoing a process of withering, which
has its origins in the secularization of the soul and in the ensuing severance
of a consequently purely secular soul from its roots in religiousness, and,
secondly, does not know that
recovery can only be achieved through religious renewal, be it within the
framework of historical churches, be it outside this framework. Such renewal,
to a large extent, can only be initiated by great religious personalities,
but everyone can be ready and willing to do his share in paving the way for
resistance to rise up against evil”.
Eric Voegelin, "The Political Religions" (1938)
7
Mas será mesmo
que a ordem e a desordem que invadem tanto a alma da sociedade quanto a alma
do indivíduo são contrárias? Não seriam complementares? Onde começa
uma e onde termina a outra? A desordem se manifesta através de atos de violência,
destruição e corrupção - que, inevitavelmente, terminarão em morte; já a ordem
é uma série de elementos que se unem para uma unidade em que se possa continuar
o movimento da vida humana. Onde estaria o seu complemento?
Mas também não podemos negar que o Bem se encontra dentro do Mal porque, como já dissemos, ele é a exceção. Assim, a ordem deve ser extraída da desordem, uma vez que é apenas com a perda de alguma coisa que descobrimos o seu verdadeiro sentido - um método heterodoxo, sem dúvida, mas que funciona em todas as áreas do conhecimento humano, da medicina à economia, passando pela estratégia militar. Só sabemos o que é a paz quando temos a guerra; só sabemos o que é a riqueza quando temos a pobreza; e só sabemos o que é saúde quando experimentamos a doença.
Assim, Maquiavel exprimiu de forma
exata a área cinzenta que invade a ciência da ordem, ao afirmar que, para
descobrir o Bem, o político teria de trilhar o caminho do Mal. E René Guénon,
em seus livros “A Crise do Mundo Moderno” e “O Reino da
Quantidade e o Sinal dos Tempos”, prova que uma época de desordem faz
parte do próprio ciclo de ordem divina ao qual estamos ligados - e a nossa
época é a mais estranha de todas, pois se chama Kali-Yuga que, na mitologia
vedântica, é o momento histórico em que todas as vilezas e corrupções do ser
humano são aceitas como normais, indicando o fim de um mundo.
Neste caso,
é o mundo moderno que está terminando e o século XXI é apenas o prolongamento
de um ciclo que está nos estertores. E o que virá a seguir? Não cabe a ninguém
responder porque a história, afinal de contas, é um processo de participação
do homem na existência, contribuindo no mistério da revelação cristã, com
início em um Começo para ir à direção de um Além divino. Logo, só o que nos
resta é aceitar a incerteza de nossa situação - e o quão tênue é a distinção
entre ordem e desordem.
O problema
que surge com esta indeterminação é que, muitas vezes, a desordem pode se
tornar permanente, como se fosse o simulacro de ordem - característica principal
do Kali-Yuga identificado por Guénon. Como separar o verdadeiro do
falso e o falso do verossímil? Este fenômeno dá origem a um outro fato, muito
mais estranho, a respeito do qual poucos ousaram meditar: o Mal também tem
uma espiritualidade, e ela possui uma lógica intrínseca que, se não for bem
diagnosticada, pode seduzir várias pessoas justamente pelas soluções fáceis
encontradas tendo em vista suportar a tensão da existência entre o campo divino
e o campo humano. É algo que demonstra que o pecado, às vezes, não é feito
com ignorância, mas sim com absoluta consciência de meios e fins, mesmo sabendo
que será uma revolta contra a criação divina.
É o chamado
Mal Lógico. Seu alimento é justamente a desordem permanente que domina nossa
época. Sua lógica é esguia, sempre se escondendo pelas frestas do coração
humano, e quanto mais consciência se tem de sua maldade, mais parece que ele
se aprimora e desenvolve novas formas, criando uma mudança na natureza humana
que não deixa nada a dever a uma conversão religiosa. A perversidade desses
novos seguidores tem a aparência de um ideal ou até mesmo de uma ignorância
sobre o real mas, na verdade, delimita claramente os objetos que serão os
alvos de seus ataques. Platão compreendeu muito bem, com uma pergunta, essa
espiritualidade do Mal, em “A República”: “Ou ainda não
te apercebeste como a deplorável alma dos chamados perversos, mas que na verdade
são espertos, tem um olhar penetrante e distingue claramente os objetos para
os quais se volta, uma vez que não tem uma vista fraca, mas é forçado a estar
a serviço do mal, de maneira que, quanto mais aguda for a sua visão, maior
é o mal que pratica?” (518e).
Quem pratica
o Mal Lógico - e estas pessoas são muitas - sabe quais são os limites da realidade
e quais são os sonhos que fazem o espírito humano se perverter em pesadelos
transfiguradores. Eles abandonaram completamente qualquer contato com o divino
e querem que o mundo também fique abandonado, para que possam tomar o controle
de tudo. É neste ponto que se encontra a lógica implacável que exercem sobre
os outros: através de idéias que tentam moldar a imperfeição do mundo, criam
um outro mundo, onde se pode encontrar um pouco de paz e quase nenhum sofrimento.
Esta é a última variação do pensamento gnóstico, que se reflete nas ideologias
políticas modernas, como o comunismo, a social-democracia, o nazismo e o fascismo:
todas acreditam que o mundo foi abandonado por Deus, mas esquecem que isso
aconteceu porque eles O abandonaram em primeiro lugar.
As ideologias
políticas não são apenas deformações da realidade, mas denotam a escolha de
uma vida de sonho que só tende a se transformar em pesadelo. Sua primeira
conseqüência é a politização de todos os setores da vida humana - da cultura
à linguagem, do conhecimento à religião. A vida do espírito é sufocada na
certeza dessas pessoas de que vão encontrar uma ordem que se fecha à incerteza
do divino porque a fé foi substituída pela ação do homem sobre o trabalho
inacabado de Deus. Entretanto, para o Mal Lógico, Deus é somente um detalhe
e o livre-arbítrio é um engodo que esconde o fato de que todos somos determinados
por nossas condições sociais e econômicas - mesmo que isso seja uma mentira
estapafúrdia e contraditória, na qual, por algum motivo além da nossa compreensão,
todos acreditam e propagam aos quatro ventos.
Todos acreditam
nestas incongruências porque pensamos somente no summum malum, nunca
no summum bonnum. É mais fácil colocar o Mal como raiz das ações humanas
do que o Bem, uma vez que este é mais difícil de ser realizado. Sem dúvida,
Aristóteles tinha toda a razão ao afirmar que o Mal era ilimitado e o Bem
era limitado, mas este limite vinha justamente do dom do livre-arbítrio do
ser humano. Com o Mal Lógico, há a predestinação dos fracos de espírito que
pensam que serão os novos homens da graça divina ou do universo socialista;
mas tais homens não se lembram de que precisam de algo que os una nesta jornada
- e este “algo” tem um poder que ultrapassa qualquer Poder dos
homens porque é muito mais sutil e sabe exatamente de onde veio e para aonde
vai.
O Poder deste
“algo” conhece o tempo exato para abandonar o mundo e depois reconquistá-lo.
Platão descreveu este estranho processo em que ordem e desordem se mesclam
no oblíquo trecho do diálogo “Político”:
“Quando se completou o tempo determinado de todas as coisas, e chegada a hora em que deveria produzir-se a mudança, esta raça nascida da terra desapareceu por completo, havendo cada alma completando o seu ciclo de nascimentos e voltado à terra tantas vezes como sementes quantas determinara a sua própria lei. Então o piloto do Universo, abandonando, por assim dizer, o leme, voltou a encerrar-se em seu posto de observação; e o mundo levado pela sua tendência e pelo seu destino natural, moveu-se em sentido contrário. Todos os deuses locais que assistiam a divindade suprema em seu governo, compreendendo prontamente o que se passava, abandonaram, também eles, as partes do mundo confiadas aos seus cuidados. E o mundo, subitamente mudando o sentido de seu movimento, de começo a fim, provocou, no seu próprio seio, um terremoto violento em pereceram os animais de toda a espécie. Depois, ao fim de um tempo suficiente, terminados os distúrbios e o terremoto, prosseguiu num movimento ordenado o seu curso habitual e próprio, zelando e governando, como senhor, tudo o que havia em seu seio, bem como a si próprio e relembrando, tanto quanto lhe fora possível, as instruções de seu criador e pai, de início, com maior exatidão, mas, com crescente enfraquecimento. Esta falta se deveu aos princípios corporais que entraram na sua constituição, aos caracteres herdados de sua natureza primitiva, que comportava uma grande parte de desordem antes de alcançar a ordem cósmica atual. De seu construtor é que recebeu tudo o que tem de belo e de sua constituição anterior decorrem todos os males e todas as iniqüidades que se cometem no céu, e que daí passaram ao mundo, transmitindo-se aos animais. Enquanto desfrutava da assistência de seu piloto que alimentava aos seus, que viviam em seu seio, salvo raros fracassos, só produzira grandes bens; mas uma vez dele desligado, quando o mundo foi abandonado a si mesmo, nos primeiros tempos que se seguiram ainda procurou levar todas as coisas para o melhor; entretanto, com o avançar do tempo e do esquecimento, tornando-se mais poderosos os restos de sua turbulência primitiva que finalmente atingiu o seu apogeu, raros são os bens e numerosos os males que a ele se incorporam, arriscando-se à sua própria destruição e a tudo o que ele encerrara. Por esse motivo, o Deus que o organizou, compreendendo o perigo em que o mundo se encontra, e temendo que tudo se dissolva na tempestade e desapareça no caos infinito da dessemelhança, toma de novo o leme e recompondo as partes que, neste ciclo, percorrido sem guia, tombaram em dissolução e desordem, ele o ordena e restaura de maneira de torná-lo imortal e imperecível”.
É a própria
existência de Deus que está em risco com a permanência da desordem - ainda
mais uma desordem que parece uma ordem. Mas se a divindade de Platão abandona
por um simples capricho, temos de entender que o Deus cristão faz o mesmo
para punir sua maior criação - o ser humano. Por incrível que pareça, Deus
sofre com nosso abandono e sofre com aqueles que tentam mostrar este seu sofrimento.
Sua ira só se manifestará se a desordem chegar a um limite de romper com a
ordem da alma - e ela não é um fim em si, mas apenas um meio para chegar ao
um fim maior: a redenção da éspécie humana. Mas o que é esta redenção?
Seria a salvação pela Graça, pela revelação de Cristo - a crença de que existe
um reino que não é deste mundo? E como se faz para atingir esta Graça? Será
uma questão de desejo ou de uma escolha do próprio Deus? Quem pode responder
a essas perguntas, essenciais para um estudo sério da ordem e da desordem?
O fato é que
a ordem da alma e a ordem de Deus são uma única verdade, ligando-se por um
fio que combina o humano e o divino. E como todo fio é frágil - mesmo que
seja de ouro ou de prata - a sua ordem será de tal uma delicadeza que poucos
teriam coragem de assumi-la. A partir do momento em que este fio se quebra
- e ele pode se partir pelos mais variados motivos -, a ordem da alma e a
ordem de Deus se separam, e chegamos ao coração da desordem que nos perturba
atualmente. O princípio pelo qual Platão se guiou em “As Leis”
- o de que a divindade é a medida de todas as coisas - não se transformou
no princípio de Protágoras - a de que o homem é a medida de todas as coisas
-, mas sim no princípio de que a Idéia é o motor da História e de que é possível,
através do poder transformador do ser humano, criar o paraíso na Terra. A
ordem da alma se fecha para a realidade transcendente e o deus que sobra é
o da História - o Tempo aprisionando cada um de nós numa desordem que, sutilmente,
inverte os valores morais, cristalizando-se nas ideologias políticas que se
tornam a nova Tora, um Testamento de sermões diabólicos que destrói a unidade
do real e coloca, em seu lugar, apenas os fragmentos da alucinação.
O papa João Paulo II estava absolutamente certo ao afirmar que vivemos na “cultura da morte” e que o nosso mundo está dominado pelo Mal. Qual será o limite para a desordem permanente e para o Mal Lógico, se existir algum, como já se perguntava Aristóteles? A única maneira é a imposição violenta da ordem divina e ela só pode se dar através da ira divina - ao mesmo tempo que o que move esta ira é o profundo amor pela Humanidade, como mostra o Apocalipse de São João. Deveria existir um mediador? Mas ele já não apareceu, na figura de Cristo? Como podemos impor o Bem, se usaremos os meios do Mal? Não se pode pagar o mal com o mal, já avisava São Paulo, muito menos com o olho por olho, dente por dente. Um homem sábio como Platão chegou a um impasse extremo, no limite do totalitarismo, ao colocar o seu político do Espírito como um restaurador da ordem divina no mundo corrompido da Grécia antiga. Seria esta a função do nosso político do Espírito? Sem dúvida, qualquer político que quer o bem comum de sua sociedade e se preparou a vida inteira para isso não deveria se espelhar na ordem dos homens, mas na ordem divina. Ainda assim, nasce um novo problema: ele não pode se esquecer da realidade onde vive, onde o Poder luta constantemente com o Espírito e onde o Mal Lógico seduz os inocentes. E a autoridade do Espírito deve ter o peitho, a persuasão que chama a alma através da linguagem divina para caminhar na abertura amorosa rumo à Verdade; ao mesmo tempo, ela não veio para trazer a paz e sim a espada - e sua lâmina afiada nos lembra que nossa luta apenas começou. O Poder e o Espírito se unem num estranho fogo, que consome seus servos, mas este fogo é e não é deste mundo. Ele queima suas almas, seus corpos e também os conserva como se os fortalecesse para uma batalha maior, uma batalha que acontece no coração de cada um de nós. O político do Espírito já venceu a morte para descobrir a pedra da alma que é a justiça; confrontou a lei da sociedade para defender a lei divina que encontrou dentro de sua própria ordem, ligada a de Deus; teve de usar a astúcia para não se enveredar nos meandros do Poder e nas ambigüidades do Espírito; todos os dias ele nos avisa das idéias perfeitas que tentam quebrar com o mistério da existência; e a cada minuto que passa, ele tem de ter a consciência exata de que o Começo e o Além divinos existem somente na tensão que também o puxa para as delícias deste mundo. Não é uma vida fácil e qualquer movimento em falso pode colocar tudo a perder. Como se não bastasse, não pode instituir a ordem de sua alma e a ordem de Deus porque ele vive em um lugar onde todos O abandonaram, sem mais nem menos. Sua única forma é usar o Poder, mas isto pode transformá-lo num novo deus - o que seria uma catástrofe. O fogo da dúvida arde lentamente no rascunho da fé que move o político do Espírito nesta terra desolada. Onde surgirá, finalmente, a semente fértil em que brotará a árvore da vida e da redenção?
III
- O CONFORTO DO EXÍLIO
1
Ela não surgirá
em lugar nenhum, exceto no Espírito. O ser humano, contudo, não vive sem que
esteja localizado no tempo e no espaço - duas correntes que o aprisionam,
mas que ele também deve aprender a tratar com carinho. Então, qual seria esse
lugar do Espírito? O próprio Reino dos Céus? Sim, mas por enquanto ainda estamos
vivos, e suportamos como podemos a nossa cruz. Qual seria um substituto para
um lugar que possibilite, se isso for possível, a prática de uma política
do Espírito, dentro da realidade deste mundo corrompido?
A única resposta
razoável é o exílio. Mas então aparece uma nova pergunta: O que seria o exílio?
Será um país que não é a nossa terra natal, onde nos sentimos estrangeiros
por desconhecermos seus costumes locais? Será um modo de vida, no qual o sujeito
se sente deslocado, por estar ele em total descompasso com a sua época? Ou
então o sentimento de uma solidão fria, que congele cada um de seus movimentos
e ações e que permite, no convívio com o outro, o início de um fenômeno que
se chama incomunicabilidade?
Talvez o exílio
não seja nenhuma destas alternativas. O motivo é simples: elas parecem ser
muito distantes da condição humana, como se fossem perversões de estados do
espírito ou, no mínimo, situações esdrúxulas nas quais ninguém deveria viver.
Mas o fato é que o exílio é a própria condição humana e quem não aceitar essa
dor justa, que se crava na alma como um prego na palma presa ao lenho, está
se recusando não só a viver a vida com a intensidade que lhe é peculiar, mas
também a cometer o maior dos pecados: a recusa de enfrentar a aventura heróica
da fé.
Pois para
suportar o exílio é preciso ter três armas: a fé, a esperança e a caridade.
E aqui poderíamos tocar nestes registros do exílio que são as epístolas paulinas,
mas devemos voltar ao eixo de nossa investigação, que era o poeta florentino
Dante Alighieri - um homem que sabia muito bem o que significava ser um exilado.
Expulso de sua querida Florença, em meados de 1300, por causa da rixa entre
o grupo conservador dos gibelinos e o grupo revolucionário dos guelfos, participando
ele deste último, Dante se opunha à política papal, que queria unir o poder
temporal ao poder espiritual dentro da própria Igreja. Sua pena por tamanha
oposição foi o banimento, que significava, na sua alma, o Inferno que depois
descreveria com detalhes em sua “Comédia”. Heinrich Heine imaginou
precisamente o que deveria ser o sentimento que perseguia Dante: “Quando
Dante atravessava Verona, o povo apontava-o com o dedo e segredava: ‘Ele
está no Inferno’. E como poderia ele, de fato, sem aí viver, descrever-lhe
todos os tormentos? Ele não os tirara da sua imaginação, ele os vivera, experimentara,
vira e sentira. Ele estava de verdade no Inferno, na cidade dos condenados:
ele estava no exílio” (Über Ludwig Börne). O florentino não deixaria
de evidenciar de que sua condenação era uma sina divina a ser cumprida, como
mostra nas melancólicas “Rimas Várias no Tempo do Exílio”:
“E
eu que ora escuto em seu falar divino
consolo e sofrimento
que tem no banimento
gente tão nobre, em meu exílio cresço:
que se o Juízo ou força do destino
quer que um mundo cinzento
turve a flor num momento,
morro entre os bons e logo me engrandeço.
Se ao meu olhar o bem de que careço
pela distância me fugir à vista,
aquele que me atrista,
acharei de leve o que hoje sinto grave.
Chama nada suave,
já consumiu em mim a carne e os ossos
e a Morte já me encosta ao peito a chave.
Se fui culpado, posso
dizer: - foi muita lua ao sol servida
depois de morta a culpa e arrependida”.
(Tradução de Jorge
Wanderley)
Somente os
bons e os agraciados por Deus entram no reino do exílio, diz Dante. Sua política,
em querer uma monarquia separada do poder espiritual da Igreja, tinha como
finalidade a preservação da pureza do Espírito no mundo. Logicamente, houve
um impasse, já que o Poder quer justamente engolir o Espírito, como vimos.
Apesar de ser um discípulo de Aristóteles, Dante não conseguiu seguir o mestre
num dos pontos mais importantes de sua filosofia: a de que o spoudaios
deve viver a vida teorética - bios theoretikos. E o que seria essa
vida teorética (também conhecida como vida contemplativa)? Mesmo sendo um
homem maduro no sentido aristotélico desta condição que apenas poucos conseguem
atingir, Dante nunca aceitou a degradação moral pela qual seu mundo estava
passando. Sua obra é a síntese de uma alma que une as pontas quebradas da
Idade Média e de um Renascimento que, embora ainda incipiente, já mostrava
seus perigos com as teorias escatológicas de Joaquim de Flora, de quem Dante
tomou várias idéias de renovação política, em especial a do Veltro e a do
dux. Por isso, sua reação apaixonada, de querer ir até o fim, não importando
se em assuntos políticos, poéticos ou morais. Serenidade nunca foi um termo
adequado para descrever Dante Alighieri porque, para ele, era impossível ser
sereno enquanto o seu mundo se desmoronava bem embaixo dos seus olhos.
Quando Aristóteles
afirmou que o spoudaios pratica a bios theoretikos, ele criou
um novo tipo de exílio, talvez menos doloroso, mas igualmente relacionado
com a desordem ao seu redor. Foi a única forma que o Estagirita encontrou
para resolver o impasse platônico que, se fosse implantado na realidade, criaria
uma tirania do Espírito terminando no diabólico. O bios theoretikos
é a vida em que o spoudaios aceita, com nobre resignação, o caos que
o envolve e, sobretudo, não pretende resolvê-lo mas apenas estudá-lo porque,
segundo as experiências de sua vida, a degradação do espírito e de suas virtudes
é inerente ao ser humano. Como a vida política, ao mesmo tempo em que é a
concretização das virtudes da alma, é também um território em que elas podem
se perder a qualquer instante, Aristóteles sabia que o spoudaios não
deve se dedicar somente à vida ativa - a vida dedicada à polis -, mas
a uma espécie de recuo, que possibilite a análise das situações sempre por
cima, utilizando-se de um senso de simultaneidade que não o faça perder a
importância do fato na proporção de cada momento e na proporção de toda a
sua existência.
Descrito dessa
maneira, o bios theoretikos parece uma forma mais amena de exílio,
quando sabemos que o exílio não possui nenhuma serenidade em sua natureza.
Contudo, tanto Dante quanto Aristóteles sabiam que o exílio e a bios theoretikos
eram ligados por uma espécie de luta espiritual que os aproximava de algum
contato com algo maior do que a simples realidade terrena. Na verdade, as
duas formas de vida seriam as mais adequadas - se podemos falar isso no caso
do exílio - para que a consciência humana possa suportar o metaxo,
a tensão entre o campo divino e o campo mundano. Mas, hoje em dia, sabemos
que é impossível realizar a bios theoretikos neste mundo, especialmente
no Brasil. Primeiro, porque não há condições materiais, uma vez que a sociedade
não possibilita ao indivíduo o desenvolvimento integral de suas potencialidades,
devido à falta de responsabilidade, jogando tudo nas mãos do Estado-Leviatã,
que quer acabar com a individualidade do ser humano para dominá-lo por completo.
Segundo, porque a perda de noções e valores morais eternos e nunca relativos
provocou uma fraqueza de caráter que impossibilita a existência de spoudaios
- ou seja, de homens que podem atuar na vida política orientados sempre por
uma ordem transcendente que está dentro de suas almas. Enfim, sobra apenas
a segunda alternativa, que é o exílio. E assim voltamos à pergunta feita no
início deste capítulo: o que seria o exílio?
O problema
é que não há como definir o exílio. Se o Poder era mutável em suas conceituações
e o Espírito tem o mistério como essência, o exílio é um território do espírito,
um território que, paradoxalmente, não existe em lugar algum deste mundo.
Ele existe, mas está além - é um paradigma, um horizonte a ser encontrado
algum dia. Em certo sentido, quem está no exílio não deixa de ter fé e esperança
porque sempre espera voltar a algum lugar onde já esteve e de onde se lembrou
de muitas coisas boas. Há um inevitável sentimento de melancolia, de nostalgia,
de perda constante e, sobretudo, de uma busca de um tempo perdido que nem
a memória pode recuperar. Mas há também a esperança de ter alguma coisa novamente,
alguma fagulha do divino que se dissipe no efêmero da nossa existência e que,
por mais estranho que pareça, nos torne mais humanos. E, conforme a nossa
humanidade cresce, a caridade também ressurge, como um novo elo. Assim, com
a fé, a esperança e a caridade, o exílio se torna uma nova pátria e também
uma espécie de pantera, que nos persegue constantemente. Pois o que é o exílio
senão este sentimento que acompanha o seu escolhido durante a vida toda, dentro
de seu país ou fora dele, com sua família ou sem ela, sozinho ou acompanhado?
Para o exilado, uma prisão é apenas uma outra representação do mundo onde
ele vive. Ninguém persegue o exilado (porque ele está sozinho) e, ao mesmo
tempo, todos o perseguem (por seguir um caminho insólito no qual aplicará
seu Espírito a artes desconhecidas). Ele escolheu o seu próprio caminho à
medida que seu destino foi ficando claro - o destino da solidão, da procura,
mesmo que a procura tivesse um fim inútil. É a partir daí que o exílio em
si se torna uma pátria onde as raízes são fixadas somente na vida do Espírito,
onde os únicos hinos possíveis são o silêncio e a espera. Isso pode parecer
um contra-senso numa vida ativa como a da política; mas veremos que, quando
se trata de assuntos do Espírito, ele sopra para onde quer e sabe muito bem
para onde vai, mesmo que os obstáculos nos pareçam intransponíveis.
2
Se Dante viu realmente o inferno porque estava no exílio, então temos de nos perguntar como ele voltou do reino dos mortos para contar a sua viagem para nós, leitores do século XXI. A razão é muito simples: todos nós teremos que realizar, algum dia, mais cedo ou mais tarde, a mesma viagem. O fato de que homens como Platão, Aristóteles e Dante, prefigurando ou imitando a vida, morte e ressurreição de Jesus Cristo, terem atravessado a escuridão da alma e retirado alguma luz de dentro dela é um dos acontecimentos mais significativos da história humana. E qualquer um que queira saber como realizar a política do Espírito terá não só de enfrentar a pedra da alma que pode petrificar a existência, mas também solidificá-la em bases morais virtuosas. Mas a verdadeira justiça é aquela que só vemos com a morte, quando somos levados ao definitivo julgamento de nossa consciência perante a consciência do próprio Deus.
A viagem ao reino dos mortos e
sua posterior ascensão rumo à redenção da alma foi antevista por Homero na
“Odisséia” e por Platão no final de “A República”,
mas atingiu a perfeição em termos de elaboração de linguagem humana (descontando-se
os Evangelhos, em especial o de João, que são revelações) com “A Divina
Comédia” de Dante Alighieri. O adjetivo “divina” foi uma
cortesia de Botticelli, dado quase cem anos depois de seu término, com um
Dante exausto por ter levado às últimas conseqüências a odisséia espiritual
da humanidade. Mas isto não é um estudo literário e sim uma investigação sobre
o conflito entre o Espírito e o Poder na alma do ser humano. Ainda assim,
uma rápida análise de três cantos da “Comédia” pode nos ajudar
- e muito - nesta interrogação perpétua sobre o exílio.
O primeiro
canto a ser analisado é o de número XXV, localizado na primeira parte do poema,
o Inferno. Vejamos o trecho que nos interessa:
“Se
a acreditar, leitor, tu serás lento,
no que eu direi, não me será surpresa,
pois eu, que o vi, a custo inda sustento.
Enquanto eu neles tinha a vista presa,
Uma serpente de seis pés se aventa
Num deles, e seu corpo todo apresa:
As duas patas do meio ela lhe assenta
No ventre, co’as da frente os braços prende
E, em seguida uma e outra face adenta
Co’as traseiras as coxas lhe apreende
E delas de permeio a causa passa
Que, por trás, pelos rins então estende.
Nunca tão firmemente a hera abraça
Uma árvore, como essa horrível fera
Co’os membros todos do outro se entrelaça.
E os dois se colam como fossem cera
Quente, que as formas perca e as cores borre:
Nem um nem o outro já exibia o que era,
Como com o papel queimando ocorre
Já não ter colorido certo algum:
Que preto ainda não é, e o branco morre.
Os outros dois o olhavam; deles, um
Gritava: “Agnel, como mudou tua cara!
Olha, que já não és nem dois nem um!”.
Das duas cabeças já uma só restara;
Surgiam agora os dois semblantes mistos
Num rosto só, que os outros anulara.
Fez-se dois braços dos quatro malquistos;
Coxas co’as pernas, barriga co’o peito,
Transformaram-se em membros nunca vistos.
Cada aspecto primeiro foi desfeito;
Dois e nenhum, e a imagem deturpada
Assim se foi, num passo desafeito”.
(Tradução de Ítalo
Eugenio Mauro)
Os versos se passam na sétima vala do oitavo círculo do Inferno, onde ficam os ladrões, e Dante encontra com dois que se transformam em outros dois e depois mais quatro corpos, por causa de uma serpente que os atravessa constantemente. É uma cena que, graças ao seu poder narrativo e plástico, não sai da cabeça do leitor, mas também impressiona porque mexe com uma das preocupações mais importantes da alma humana: a questão de sua unidade e de sua identidade - temas aliás essenciais ao nosso estudo, já que na ação política é fundamental que se tenha, como já dissemos, a unidade do sujeito se relacionando com a unidade da consciência, para depois se refletir na unidade da própria realidade.
Um dos truques estilísticos de
Dante em “A Divina Comédia” - percebido por um de seus maiores
estudiosos, Erich Auerbach - é que cada personagem que o florentino encontra
em sua peregrinação é também um espelho do estado de seu espírito conforme
o estágio de sua iniciação. Todos os envolvidos - exceto no caso de Vírgilio
e Beatriz, que simbolizam a fé e a razão - são figuras de Dante, isto
é, representam momentos de sua vida em que ele também passou por situações
semelhantes. No caso do Canto XXV citado, a cisão de corpos e personalidades
por causa de uma serpente diabólica não é uma mera cena de horror espetacular;
Dante a inseriu no Inferno porque é justamente isso o que acontece quando
se está no inferno dos infernos, que é o exílio - a completa anulação da unidade
entre corpo, alma e espírito. Este é um dos maiores perigos do exílio, mesmo
que este seja abençoado por uma vontade divina: o exilado não tem mais para
onde se segurar, nem na terra, muito menos no seu coração, porque tudo é de
uma incerteza lancinante em que a alma se separa, se divide em inúmeros fragmentos
e provoca uma doença no espírito que é justamente o fim de qualquer individualidade.
Isto é o que aconteceu com vários imigrantes durante a História, em especial
com os latinos no final deste século XX nos EUA, em que, naquele fenômeno
que Hans Hermann-Hoppe chamou de “imigração forçada”, eles preferiram
jogar com as regras do Estado americano ao invés de preservar o que os tornava
únicos, escolhendo os costumes de um caricatural “american way of life”
- tudo para manter o círculo vicioso de que a vida consiste somente em sobreviver
no mundo e não prevalecer sobre ele.
Robert Frost escreveu em seu poema “The Road Not Taken” que, das duas estradas que encontrou numa floresta, ele escolheu a menos movimentada e a mais longa - e isso fez toda a diferença. Esta estrada é o exílio. Ela não somente se impõe - ela também se escolhe. Para ser exato, quem vive no exílio já vivia há muito tempo nele, mas só depois percebeu que não tinha outro meio exceto escolhê-lo, suportando-o como a loucura da cruz de que fala Paulo em suas epístolas. Mas os perigos do reino do exílio são os mais variados possíveis: é um mundo em que a fé, a caridade e a esperança podem se tornar mais afiadas do que nunca - naquele conjunto de possibilidades infinitas a que chamamos Amor, do qual Dante Alighieri era um fiel servidor. Assim, o exílio coloca o ser humano num impasse cuja única solução, para muitos, é se entregar às tentações do mundo e cair finalmente num outro tipo de inferno, o inferno da danação, onde a alma nunca mais terá a chance de um contato com Deus.
No exílio - o inferno aqui na
terra -, essa possibilidade de que a redenção e a graça divina sejam negadas
é iminente. Aliás, é um fato que a luz que nos envolve no exílio que é a nossa
existência pode tanto nos iluminar, permitindo uma reviravolta frente ao nosso
posicionamento na vida, quanto também cegar. Este é o centro do dilema que
envolve o coração humano, como explica Vírgilo a Dante, no canto XVII do Purgatório,
ao explicar que
“Nem
criador jamais, nem criatura,
meu filho”, começou, “foi sem amor
natural ou o que o ânimo procura.
O natural nunca erra, enquanto por
Mau objeto aqueloutro pode errar,
Ou por excesso ou falta de vigor.
Enquanto ao primo bem se for voltar,
E aos secundários com mente segura,
Não haverá motivo de pecar.
Mas, quando ao mal se volve, ou com mais cura
Ou menos do que deve, ao bem amigo,
Contra o Feitor emprega a sua feitura.
Podes considerar, pelo que eu digo,
O amor semente de toda a virtude
E de todo ato que clame castigo.
Ora, por nunca poder, da saúde
Do objeto seu, o amor por torcer o rosto,
O ódio a si próprio qualquer um elude,
E, se existir não pode ser suposto,
Cindindo do Primeiro um outro ser;
Não pode ser ódio por este ser-lhe oposto.
Resta ao próximo vosso o malquerer
- sem
vosso barro a prosperar, daninho -
que em três modos divide, em meu entender.
Há quem do declinar do seu vizinho
Seu ganho espera, e só por isso almeja
Ver o seu fausto se tornar mesquinho.
Há quem poder, e fama, que o bafeja
Teme perder caso o outro progrida,
Pelo que só o contrário lhe deseja.
E enfim há quem, por injúria sofrida,
Torna-se vingança desejoso;
Co´o mal do outro então seu mal revida.
Daqui para baixo esse querer maldoso
Viste expiar, ora tu o outro entende,
Que busca o bem , mas de modo faltoso.
Cada um confusamente um bem compreende
Que contente o seu ânimo, e o deseja;
Logo, para alcançá-lo ele contende.
Se lento amor vos leva, que fraqueja
Ao chegar-lhe, este giro vos condiz;
Que, após justa expiação, a vós o enseja.
Outro bem há que ninguém faz feliz;
Não é da essência boa, que proporciona
De todo bem o fruto e a raiz.
O amor que a este excesso se abandona
Daqui para cima expia-se em três cordões,
Mas como tripartido se intenciona,
Calo, para que lhe encontres tu as razões”.
(Tradução de Ítalo
Eugenio Mauro)
Esta ambigüidade
do Amor - que Dante já expressara nas “Rime Petrosi” - é a marca
do fogo no reino do exílio, já que, como também podemos incluir a ação política,
muitas vezes as virtudes do Espírito podem se transformar nos vícios do Poder.
Talvez o que mantenha o exílio, mesmo com todo o seu sofrimento, como uma
experiência que todo ser humano deveria enfrentar (se é que já não a enfrenta
no dia-a-dia), é aquela qualidade da consciência que só pode ser estimulada
pelo mesmo Amor que fere e conforta: a memória. O ato de lembrar para não
esquecer do seu passado e encontrar assim um fio comum que possa dar sentido
aos fatos aparentemente aleatórios que se compõe a nossa vida, é uma exigência
do poder sintetizador do Espírito, para que as futuras gerações, graças a
este milagre chamado linguagem, aprendam sobre os acertos e erros de seus
antecessores. Assim, quem passa pelo exílio não deve esconder em nenhuma hipótese
o que viu e quem encontrou, para que aqueles que viveram a mesma experiência
saibam exatamente o que fazer e não se deixem vender às seduções de um amor
incompleto, que escapou ao Primo Bem e que apenas vive do medo de perder tudo,
inclusive de perder-se na morte. Afinal de contas, a vida no exílio é também
uma vida de morte, porque o efêmero domina as coisas deste mundo, uma vez
que não sabemos se as veremos novamente, por mais que tenhamos afeição. Por
isso, quem desceu ao mundo dos mortos tem o dever de contar o que viu aos
vivos - até para dar testemunho deste fato misterioso que acontece sempre,
mas nunca está devidamente iluminado, que é o da ressurreição. Este chamado
ao dever é dado a Dante por seu avô, Cacciaguida, no canto XVII do Paraíso:
“Consciência impura,
seja da própria ou de alheia vergonha,
certo achará a tua palavra dura;
mas, que a qualquer falsidade se oponha
a tua disposição faz manifesta;
e deixa cada qual roçar sua ronha.
Que, se a tua voz se afigurar molesta
À prima prova, vital nutrimento
Poderá fornecer quando digesta.
Esse teu grito será como o vento,
Que aos sumos cimos alça os lanhos seus,
O que à tua honra traz bom argumento.
Por isso te é mostrado nesses céus,
Como no Monte e na vala sofrida,
Só os que a fama elevara aos olhos teus;
Que do ouvinte a razão sempre trepida,
Nem sela fé em modelo procedente
De raiz duvidosa e escondida,
Nem em prova qualquer tão evidente”.
(Tradução de Ítalo Eugenio Mauro)
Certos homens
devem viver no exílio e para o exílio porque Deus quis que eles contassem
aos outros o que é o mistério da existência. Dante aceitou o seu destino de
banido como poucos, mesmo tendo ouvido de seu avô a triste profecia de que
“dos teus mais caros bens a aventurança/ tu perderás, e essa é a
flecha fatal/ que, de primeiro, o arco do exílio lança./ Tu provarás como
tem gosto a sal/ o pão alheio e, descer e subir/ a alheia escada é caminho
crucial”. Esta “alheia escada” é a vida dos vivos que
não aceitaram o reino do exílio que, no fim das contas, é o reino de todos
nós. Os três cantos analisados brevemente aqui mostram quais as condições
que permeiam essa tragédia chamada exílio - mas sugerem que esta tragédia
também pode ser uma benção muito estranha. Esta indefinição é própria da consciência
que - como é o caso de Dante - aceitou a vida, a morte e a ressurreição de
Cristo como a história que reflete todas as outras histórias. Para nos certificar
se o exílio é ou não é uma benção, temos de voltar ao tempo e abordar os grandes
profetas de Israel, além, obviamente, da saga de Jesus e seus apóstolos.
3
Vamos abordar,
em primeiro lugar, os profetas Isaías, Jeremias e Ezequiel. Poderíamos analisar
outros escritos notáveis, como o de Daniel ou o de Jonas, mas o fato é que
Isaías, Jeremias e Ezequiel simbolizam uma notável progressão das intenções
divinas em relação ao destino humano - intenções que, como já vimos no caso
de Isaías e sua metástase da fé, influenciam o nosso presente.
O livro de
Isaías se divide em quatro partes, mas aquela que nos interessa no momento
é a do Deutero-Isaías, que fala sobre o Servo Sofredor. Quem seria ele? Israel
mostra-se como a amada que abandona seu amante (ninguém menos que Deus), e
este, irado, não hesita em destruí-la como a todos os seus poderes. O Servo
é prenunciado como um rei que colocará a ordem divina dentro do mundo corrompido:
“Vejam!
Um rei reinará com retidão,
e príncipes governarão com justiça.
Cada homem será como um esconderijo contra o vento
E um abrigo contra a tempestade,
Como correntes de água numa terra seca
E como a sombra de uma grande rocha no deserto”
(Isaías
32:1-2)
O Rei colocará
a ordem da alma do indivíduo em harmonia com a ordem de Deus, transformando
aqueles que governará em homens com a mesma integridade espiritual. Ao mesmo
tempo, intensificará o sofrimento daqueles que seguem com firmeza a mesma
lei:
“Então
os olhos dos que vêem
não mais estarão fechados,
e os ouvidos dos que ouvem escutarão.
A mente do precipitado saberá julgar,
E a língua gaguejante falará com facilidade e clareza.
O tolo já não será chamado nobre
E o homem sem caráter
Não será tido em alta estima.
Pois o insensato fala com insensatez
E só pensa no mal:
Ele pratica a maldade
E espalha mentiras sobre o Senhor;
Deixa o faminto sem nada
E priva de água o sedento.
As artimanhas do homem sem caráter
São perversas;
Ele inventa planos maldosos
Para destruir com mentiras o pobre,
Mesmo quando a súplica deste é justa.
Mas o homem nobre faz planos nobres,
E graças aos seus feitos nobres
Permanece firme”.
(Isaías 32: 3-8)
Contudo, esta
restauração da ordem não será fácil. Ela terá de enfrentar, simultaneamente,
destruição e carinho, ira e amor:
“Quem
despertou o que vem do oriente,
e o chamou em retidão ao seu serviço,
entregando-lhe nações
e subjugando reis diante dele?
Com a espada ele os reduz a pó,
Com o arco os dispersa como palha.
Ele os persegue e avança com segurança
Por um caminho que seus pés
Jamais percorreram.
Quem fez tudo isso?
Quem chama as gerações à existência
Desde o princípio?
Eu, o Senhor,
Que sou o primeiro,
E que sou eu mesmo,
Com os últimos”.
(Isaías 41:1-4).
O que está
claro nos escritos de Isaías é que existe um combate entre os reis da terra
- caracterizados como anunciadores de um Leviatã e do único rei possível,
que é Deus. A função de Isaías é avisar de que Ele voltará a impor a sua ordem,
custe o que custar. Mas, para isso, o Servo Sofredor, que também é o representante
da fúria e do amor de Deus, vem com o silêncio da justiça e a dor da ingratidão.
As passagens que serão citadas a seguir mostram a crescente evolução de quem
seria o Servo Sofredor:
“Eis
o meu servo
a quem sustento,
o meu escolhido, em quem tenho prazer.
Porei nele o meu Espírito,
E ele trará justiça às nações.
Não gritará nem clamará,
Nem erguerá a voz nas ruas.
Não quebrará o caniço rachado,
E não apagará o pavio fumegante.
Com fidelidade fará justiça;
Não mostrará fraqueza
Nem se deixará ferir,
Até que estabeleça a justiça na terra.
Em sua lei as ilhas porão sua esperança”.
(Isaías 42:1-4)
“O
Soberano, o Senhor, deu-me
uma
língua instruída,
para
conhecer a palavra
que
sustém o exausto.
Ele
me acorda manhã após manhã,
Desperta
meu ouvido para escutar
Como
alguém que está sendo ensinado.
O
Soberano, o Senhor,
Abriu
os meus ouvidos,
E
eu não tenho sido rebelde;
E
eu não me afastei.
Ofereci
minhas costas
Àqueles
que me batiam,
Meu
rosto àqueles
Que
arrancavam a minha barba;
Não
escondi a face da zombaria
E
dos cuspes.
Porque
o Senhor, o Soberano, me ajuda,
Não
serei constrangido.
Por
isso eu me opus firme
Como
uma dura rocha,
E
sei que não ficarei decepcionado.
Aquele
que defende o meu nome
Está
perto.
Que
poderá trazer acusações contra mim?
Encaremo-nos
um ao outro!
Quem
é meu acusador?
Que
ele me enfrente!
É
o Soberano, o Senhor, que me ajuda.
Quem
irá me condenar?
Todos
eles se desgastam
Como
uma roupa;
As
traças os consumirão”.
(Isaías
50: 4-9)
“Certamente
ele [o Servo] tomou sobre si
as
nossas enfermidades
e
sobre si levou as nossas doenças;
contudo
nós os consideramos
castigado
por Deus,
por
Deus atingido e afligido.
Mas
ele foi transpassado
Por
causa de nossas transgressões,
Foi
esmagado por causa
Das
nossas iniqüidades;
O
castigo que nos trouxe paz
Estava
sobre ele, e pelas suas feridas
Fomos
curados.
Todos
nós, tal qual ovelhas,
Nos
desviamos,
Cada
um de nós se voltou
Para
o nosso caminho;
E
o Senhor fez cair sobre ele
A
iniqüidade de todos nós.
Ele
foi oprimido e afligido;
E,
contudo, não abriu a sua boca;
Como
um cordeiro
Foi
levado para o matadouro,
E
como uma ovelha que diante de seus
Tosquiadores
fica calada,
Ele
não abriu a sua boca.
Com
julgamento opressivo ele foi levado.
E
quem pode falar dos seus
Descendentes?
Pois
ele foi eliminado
Da
terra dos viventes;
Por
causa da transgressão
Do
meu povo ele foi golpeado.
Foi-lhe
dado um túmulo com os ímpios,
E
com os ricos em sua morte,
Embora
não tivesse cometido
Nenhuma
violência
Nem
houvesse nenhuma mentira
Em
sua boca”.
(Isaías
53: 4-9)
O
Servo Sofredor pode ser um prenúncio de Cristo - as semelhanças são assustadoras
-, mas fica claro que o próprio Isaías também se vê na mesma posição. É a
metástase da fé em seu ápice, em que a realidade do mundo tal como é fica
abolida na espera por um messias que cure as chagas do mundo. Deus o colocou
como o Servo que suportará os pecados de Israel ao trocar Yahveh pelos deuses
pagãos e do império. No ritmo histórico que se refletirá na consciência do
ser humano atormentado pela ansiedade provocada pelo “metaxo”,
temos um nítido exemplo do intenso conflito entre a ordem cosmológica e a
ordem da revelação divina, que abre a alma do homem para um Deus que, aos
poucos, lhe dará o dom da individualidade. O símbolo do Servo ainda é muito
impreciso para saber quem ele está realmente representado: se Isaías ou alguém
que aparecerá no futuro. Mas já podemos vislumbrar uma das características
que marcam a vida de alguém que escolhe não só o reino do exílio, mas também
a política do Espírito - o fato de que essa pessoa tem de consumir dentro
de sua alma todas as dores, os sofrimentos e os pecados dos outros seres humanos.
O mundo converge com suas trevas para a consciência deles, como se fossem
um espelho convexo ou até mesmo uma bússola - para ser exato, o omphalos
do cosmo, o verdadeiro centro do mundo. Este escolhido será um constante protegido
de Deus, mas sua existência terá como marca de fogo cravada na alma, a ingratidão,
a solidão e a terrível certeza de que não há mais futuro para a próxima geração,
se ninguém escutar os seus avisos. É o que fica cristalino ao lermos essa
passagem do livro de Jeremias, em que Deus diz ao profeta que ele deve recusar
qualquer espécie de convívio em comum com os integrantes do povo de Israel:
“Então o Senhor me dirigiu a palavra, dizendo: ‘Não se case nem tenha filhos ou filhas neste lugar’; porque assim diz o Senhor a respeito dos filhos e filhas nascidos nesta terra, e a respeito das mulheres que forem suas mães e dos homens que forem seus pais: ‘Eles morrerão de doenças graves; ninguém pranteará por eles; não serão sepultados, mas servirão de esterco para o solo. Perecerão pela espada e pela fome, e os seus cadáveres serão o alimento das aves e dos animais’” (Jeremias 16:1-4).
Este
trecho resume a crueldade que espera o homem que escolhe a vida do Espírito
e, conseqüentemente, a política na qual quer atuar: solidão atrás de solidão,
sem nenhuma trégua possível, em que ele fica impossibilitado de ter uma família
porque seu fardo é muito pesado. Jeremias é o autêntico omphalos -
o exílio se consome dentro de seu coração e dentro da sua alma, e não é à
toa que o próprio Deus fará questão que ele sinta o que é o sofrimento divino
na sua própria carne, como provam as suas lamentações:
“Eu
sou o homem que viu a aflição
trazida
pela vara de sua ira.
Ele
me impeliu e me fez andar na
Escuridão,
E
não na luz;
Sim,
ele voltou sua mão contra mim
Vez
após vez, o tempo todo.
Fez
que a minha pele e a minha carne
Envelhecessem
E
quebrou os meus ossos.
Ele
me sitiou e me cercou
De
amargura e pesar.
Fez-me
habitar na escuridão
Como
os que há muito morreram.
Cercou-me
de muros,
E
não posso escapar;
Atou-me
a pesadas correntes.
Mesmo
quando chamo ou grito por socorro,
Ele
rejeita a minha oração.
Ele
impediu o meu caminho com blocos de pedra;
E
fez tortuosas as minhas sendas.
Como
um urso à espreita, como um leão escondido,
Arrancou-me
do caminho e
Despedaçou-me,
Deixando-me
abandonado.
Preparou
o seu arco
E
me fez alvo de suas flechas.
Atingiu
o meu coração com flechas de sua aljava.
Tornei-me
objeto de riso de todo o meu povo;
Nas
suas canções
Eles
zombam de mim o tempo todo.
Fez-me
comer ervas amargas
E
fartou-me de fel.
Quebrou
os meus dentes com pedras;
E
pisoteou-me no pó.
Tirou-me
a paz;
Esqueci-me
o que é prosperidade.
Por
isso digo: “Meu esplendor já se foi,
Bem
como tudo o que eu esperava do
Senhor”.
Lembro-me
da minha aflição e
Do
meu delírio,
Da
minha amargura e do meu pesar.
Lembro-me
bem disso tudo,
E
a minha alma desfalece dentro de mim.
Todavia,
lembro-me também
Do
que pode me dar esperança:
Graças
ao grande amor do Senhor
É
que não somos consumidos
Pois
suas misericórdias são inesgotáveis.
Renovam-se
a cada manhã;
Grande
é a sua fidelidade!”
(Lamentações
3: 1-23)
Se
Isaías fica paralisado na ansiedade de um Servo Sofredor que também será o
Rei dos Reis, Jeremias admite que a realidade do mundo de Israel é somente
de aflição porque o seu povo abandonou a Deus. Contudo, Jeremias também sabe
que Deus somente os abandona por causa do Seu sofrimento ao ver a displicência
dos israelitas, ao idolatrarem não só os deuses do império, mas também ao
recusarem a lei invisível do espírito, preferindo-a à lei escrita e petrificada
da Tora. Jeremias carrega a aflição divina na sua alma com uma sobriedade
impressionante; e ele faz isso porque sabe que, no fim, Deus nunca deixará
de ser fiel ao seu povo - mas será ele que terá de pagar o preço por esta
fidelidade, tanto no seu corpo, quanto na solidão que corrói a sua vida.
Este
preço se torna a responsabilidade que caracteriza o livro de Ezequiel que,
de todos os profetas, é o que concretizará o exílio como um ato de expurgação
fora de Israel. Deus é quem dá a ordem do banimento completo ao profeta:
“Veio a mim esta palavra do Senhor: ‘Filho do homem, você vive no meio de uma nação rebelde. Eles têm olhos para ver, mas não vêem, e ouvidos para ouvir, mas não ouvem, pois são uma nação rebelde.
Portanto, filho do homem, arrume sua bagagem para o exílio e, durante o dia, à vista de todos, parta, vá para outro lugar. Talvez eles compreendam, embora sejam uma nação rebelde. Durante o dia, sem fugir aos olhares do povo, leve para fora os seus pertences arrumados para o exílio. À tarde, saia como aqueles que vão para o exílio. E que os outros o vejam fazer isso. Enquanto eles o observam, faça um buraco no muro e passe a sua bagagem através dele. Ponha-a nos ombros, enquanto o povo estiver observando, e carregue-a ao entardecer. Cubra o rosto para que você não possa ver nada do país, pois eu fiz de você um sinal para a nação de Israel’.
Então eu fiz o que me foi ordenado. Durante o dia levei para fora as minhas coisas, arrumadas para o exílio. Depois, à tarde, fiz com as mãos um buraco no muro. Ao entardecer saí com a minha bagagem carregando-a nos ombros à vista de todos” (Ezequiel 12: 1-7).
Notem que as atitudes de Isaías, Jeremias e Ezequiel frente aos desígnios divinos mostram uma ascensão na consciência humana, ao aceitar o reino do exílio como natural à sua condição. Na verdade, eles revivem nos seus espíritos a própria condição de Israel que, para escapar do Sheol do Egito, teve de passar por quarenta anos de peregrinação no deserto e agora, ao se ver novamente em um Sheol dentro de sua terra, tem de fugir usando os meios do espírito sem, contudo, negar a realidade em que vive. Quem fará a fuga através dos símbolos de uma experiência concreta que se traduz na abertura da alma individual à ordem de um Deus que se preocupa com o ser humano serão justamente estes três profetas. Mas esta abertura não será gratuita, com o único intuito de salvar uma humanidade que pode abandonar de novo o seu Deus; sua principal função é dar responsabilidade ao ser humano de seus próprios atos, principalmente às virtudes e aos vícios da alma, que são os mais importantes e os mais perigosos, e é neste ponto que o símbolo da sentinela representado por Ezequiel surge como a cristalização da unidade do Ser inserindo-se na unidade do sujeito frente ao problema do Mal e do sofrimento - ponto essencial para uma ação política completa e, sobretudo, íntegra:
“Esta palavra do Senhor veio a mim: ‘Filho do homem, fale com os seus compatriotas e diga-lhes: Quando eu trouxer a espada contra uma terra e o povo dessa terra escolher um homem para ser sentinela, e ele vir a espada vindo contra a terra e tocar a trombeta para advertir o povo, então, se alguém ouvir a trombeta mas não der atenção à advertência e a espada vier e tirar a sua vida, este será responsável por sua própria morte. Se ele desse atenção à advertência, se livraria. Mas, se a sentinela vir chegar a espada e não tocar a trombeta para advertir o povo e a espada vier e tirar a vida de um deles, aquele homem morrerá por sua iniqüidade, mas considerarei a sentinela responsável pela morte daquele homem.
Filho do homem, eu fiz de você uma sentinela para a nação de Israel; por isso, ouça a minha palavra e advirta-os em meu nome. Quando eu disser ao ímpio que é certo que ele morrerá, e você não falar para dissuadi-lo de seus caminhos, aquele ímpio morrerá por sua iniqüidade, mas eu considerarei você responsável pela morte dele. Entretanto, se você de fato advertir o ímpio para que se desvie de seus caminhos e ele não se desviar, ele morrerá por sua iniqüidade, e você estará livre de sua responsabilidade’” (Ezequiel 33 1:9).
Mas
como ele pode avisar seus compatriotas se não pertence mais à mesma terra
- se é um exilado? O fato é que é no próprio exílio que o profeta se sente
mais próximos de seus compatriotas. Agora, ele não é mais o homem que carrega
a aflição divina; é também o homem que carrega a responsabilidade por cada
alma que não percebeu o Mal que os invadia em seus disfarces. Ezequiel é a
prova de que o político do Espírito deve ter sua ação dirigida para impedir
que o Mal se alastre em proporções monstruosas, e Aristóteles estava certíssimo
ao afirmar que toda boa ação política se dirige para um único fim: a felicidade
humana. Entretanto, na polis grega ainda não existe essa busca incessante
pela dignidade do ser que aceita a dor e o exílio como princípios de uma vida
espiritual; Platão prefere o desespero de criar o paradigma de “As Leis”
ao ver que seu mundo se desmoronava por perder o contato com a Divindade.
Já Aristóteles escolhe um retiro que, se é um modo de aceitar a desgraça,
pode cair no perigo do distanciamento que Ezequiel veio para evitar. Os três
grandes profetas de Israel são, na verdade, antecipações do que viria pela
frente - no caso, a flor da redenção nascendo no mistério da iniqüidade e
do sofrimento, simbolizado por ninguém mais que Jesus Cristo.
4
Com
Jesus Cristo, a história espiritual da humanidade chega a uma síntese sem
precedentes. A Encarnação de Deus na Terra na forma humana de um filho de
carpinteiro e de uma mulher virgem, nascido na Galiléia, criado em Nazaré,
vivendo numa Roma onde César era o deus de todos os tributos da consciência,
é um desses mistérios que iluminam o antes e o depois de nossa existência
neste planeta. Em um único homem, o Começo e o Além se unem num Ser que participa
de sua própria realidade, para mostrar à humanidade que uma nova vida é possível,
desde que se aceite a renúncia dolorida de abandonar tudo o que construiu
no passado e que, infelizmente, não se mostrou como a Verdade.
Esta
atitude de abandonar uma vida falsa é importante para entender como o Cristianismo
aprofundou - e, de uma certa forma, resolveu - o dilema do exílio. Não há
meio-termo para Cristo: ou se aceita os seus ensinamentos ou se prefere a
vida falsa do passado. “Não pensem que vim trazer paz à terra; não vim
trazer paz, mas espada. Pois eu vim para fazer que ‘o homem fique contra
seu pai, a filha contra sua mãe, a nora contra sua sogra, e os inimigos do
homem serão os da sua própria família’. Quem ama seu pai ou sua mãe
mais do que a mim não é digno de mim; quem ama seu filho ou sua filha mais
do que a mim não é digno de mim; e quem não toma a sua cruz e não me segue,
não é digno de mim. Quem acha a sua vida a perderá, e quem perde a sua vida
por minha causa a encontrará” (Mateus 10:34-39).
Não
há nenhum preconceito nestas sentenças, como podem imaginar alguns boçais
que insistem em ver Jesus como um mero ser histórico. É muito mais uma questão
de coragem. Jesus não quer a destruição da família - como uma interpretação
equivocada pode sugerir -, mas sabe que sua aparição no mundo não resolve
os problemas da humanidade. Ao contrário: intensifica-os até o limite do insuportável.
É a partir da encarnação de Cristo que a luta espiritual do ser humano realmente
começa - e a família, célula-mãe da vida em sociedade, será afetada pelo tormento
que atacará o sujeito que a compõe. Antes dela, era tudo um mero prelúdio.
O próprio Cristo afirma, em João 15:22: “Se eu não tivesse vindo e lhes
falado, não seriam culpados de pecado. Agora, contudo, eles não têm desculpa
para o seu pecado”.
Muitos
intelectuais - viciados por uma perspectiva marxista - preferem ver Cristo
como um mero revolucionário, alguém parecido com Che Guevara. Isso não só
é uma idiotice porque Guevara foi um assassino, mas também pelas razões já
expostas por C.S.Lewis em seus livros apologéticos: se Cristo é um homem comum
e falou todas aquelas palavras (e se identificou com a própria Palavra), então
não pode ser um revolucionário ou um Deus, e sim uma única coisa - o Diabo.
Ninguém ensina aquelas coisas se não é Deus encarnado - e se Deus fez esta
armadilha, a história da humanidade é um tremendo mal-entendido.
Mas
a História em si não nos engana - ela possui um sentido que transcende a si
mesmo e prova que, no final, a batalha foi vencida por Deus com a vinda de
seu filho, ainda que esta batalha aconteça neste mesmo, ainda que esteja presente
em nossas almas. Nunca poderemos falar em um Jesus histórico porque é a sua
eternidade que nos liberta. Durante séculos e mais séculos, o ser humano ficou
preso aos ditames ora de um universo imperial, ora de deuses que eliminavam
o mistério da existência, jogando nossas almas em explicações perfeitas do
que seria o nosso Começo para depois afirmar, com todas as letras, o que seria
o nosso Além. Quando Cristo finalmente diz que “Então, dêem a César
o que é de César, e a Deus o que é de Deus” (Mateus 22:21), ele liberta
o homem de suas correntes em relação ao um mundo que só existe dentro do cosmo
que se reflete na estrutura política do império (seja romano, macedônico ou
israelita), para que ele alcance um dos maiores dons: o da individualidade.
A partir de agora, o indivíduo não tem apenas um corpo e uma alma: há também
uma consciência própria, única, que não deve a responder a ninguém por seus
atos, exceto a si mesmo e a consciência maior, que é Deus. O império cosmológico
e suas variações ideológicas, como o Estado-Leviatã, o Comunismo, o Nazismo
e o deus manco da democracia nunca conseguirão invadir esse território precioso
que torna o homem não só um mero homem, mas um homem digno.
A dignidade do cristão está na atitude de aceitar o problema do Mal como a possibilidade de realizar um bem maior e de enfrentar, com coragem, as aflições que este mundo corrompido trará a ele. Como Cristo veio para acabar com os restos de uma ligação que poderia haver entre a humanidade e o cosmos, marcando definitivamente, como mediador, a relação direta entre homem e Deus, seria lógico admitir que o mundo odiaria com intensidade a obra do cristão. Esta é o tema de uma passagem central no Evangelho de João 15: 18-25:
“Se o mundo os odeia, tenham em mente que antes me odiou. Se vocês pertencessem ao mundo, ele os amaria como se fossem dele. Todavia, vocês não são do mundo, mas eu os escolhi, tirando-os do mundo; por isso o mundo os odeia. Lembre-se das palavras que eu lhe disse: Nenhum escravo é maior do que o seu senhor. Se me perseguiram, também perseguirão vocês”.
E
continua:
“Eu lhes tenho dito tudo isso para que vocês não venham a tropeçar. Vocês serão expulsos das sinagogas; de fato, virá o tempo quando quem os matar pensará que está prestando culto a Deus. Farão essas coisas porque não conheceram o Pai, nem a mim. Estou lhes dizendo isto para que, quando chegar a hora, lembrem-se de que eu os avisei. Não lhes disse isso no princípio, porque eu estava como vocês” (João 16: 1-4).
Cristo
diz estas palavras na última ceia, antes de sua crucificação e morte. É um
momento intenso: ele reafirma que os apóstolos o deixaram sozinho, mas ele
não os deixará sozinhos. A traição de Judas e a negação de Pedro já estão
previstas. Contudo, a lição de Cristo não é a de amargar o sofrimento e sim
de enfrentá-lo: “Eu lhes disse essas coisas para que em mim vocês tenham
paz. Neste mundo vocês terão aflições. Mas, coragem! Eu venci o mundo”.
(João 16:33).
Foi
Cristo quem possibilitou que a política do Espírito atingisse a sua plenitude
ao libertar o homem do cosmos e jogá-lo neste olho do furacão chamado Deus.
Como bem observou René Girard em sua obra inovadora, o sacrifício de
Jesus é o ponto crucial para a inversão de todo o mecanismo político e social
que existia então: a de um bode expiatório. Cristo morre para pagar os pecados
da humanidade, mas também para mostrar aos homens que o reino do exílio só
se consuma na morte que não mata, na morte em que a vida atinge sua completude
porque sofreu o seu amor e sua dor.
A
perenidade da existência humana é um fato que não pode ser negado - e a ressurreição
cristã mostra que, renunciando à vida falsa do passado, é possível renovar-se
constantemente, desde que se aceite o Espírito, e não o Mundo, como guia.
Com a morte de Cristo e, depois, a sua ressurreição e ascensão aos céus, o
exemplo de coragem será transmitido aos maiores apóstolos do Cristianismo,
que são paradigmas de exilados: Paulo e João.
Paulo
é a prova do que acontece com a alma de um homem quando ele reconhece que
sua ligação com o mundo transformava sua vida numa existência fajuta. Claro
que, para reconhecê-lo, foi necessária uma visão surpreendente, no meio da
estrada para Damascos. Fariseu, romano, intelectualizado, Saulo se torna Paulo
porque a aparição de Cristo é um daqueles choques que acontecem na nossa consciência
que poucos conseguem suportar. É bem provável que nunca a tensão do “metaxo”
tenha consumido tanto a alma de um único homem como consumiu a de Paulo.
Suas
epístolas mostram como era seu temperamento: polêmico, intenso, mas nunca
violento como no passado, e sim de uma clareza de raciocínio que pegava o
ouvinte pelo pescoço. Paulo é o homem que espalhou o Cristianismo pelo mundo
afora e preservou a sua pureza; foi ele quem deu aos primeiros cristãos a
noção exata do que deveria ser uma vida cristã dentro das armadilhas do mundo.
Pode-se dizer que Paulo foi o principal filósofo de uma nova política do Espírito,
que atinge tanto o nível privado do cristão como o seu nível público, ao aceitar
que sua consciência individual pode viver dentro de um império quer refletir
a ordem cósmica, desde que ela respeite, antes de tudo, as leis de Deus. Mas
o importante em seus escritos é o modo como Paulo nos explica como superar
os obstáculos do reino do exílio, simbolizados nesta simples expressão chamada
“fé”:
“Finalmente, fortaleçam-se no Senhor e no seu forte poder. Vistam toda a armadura de Deus, para poderem ficar firmes contra as ciladas do Diabo, pois a nossa luta não é contra seres humanos, mas contra os poderes e as autoridades, contra os dominadores deste mundo de trevas, contra as forças espirituais do mal nas regiões celestiais. Por isso, vistam toda a armadura de Deus para que possam resistir no dia mau e permanecerem inabaláveis, depois de terem feito tudo. Assim, mantenham-se firmes, cingindo-se com o cinto da verdade, vestindo a couraça da justiça e tendo os pés calçados com a prontidão do evangelho da paz. Além disso, usem o escudo da fé, com o qual vocês poderão apagar todas as setas inflamadas do Maligno” (Efésios 6:10-16).
Paulo
usa um estilo apressado, como se o Tempo estivesse no seu encalço. E realmente
está: ele é um mero ser humano e sabe da sua condição mortal. Sabe que, para
cumprir sua missão de espalhar as boas novas de Cristo para aqueles que ainda
não O conhecem, o tempo de vida de um apóstolo é muito curto e a extensão
do império é muito maior do que suas limitações físicas. Mas ele não desiste;
Paulo é preso, escravizado, exilado, sofre todas as agruras possíveis. Sua
única certeza - ou, pelo menos, a certeza que ele enfiou na cabeça - é que
a Parousia, a Revelação Final de que Cristo descerá na Terra e instalará
a Nova Jerusalém, acontecerá no dia seguinte. Claro que isso é uma figura
de expressão; contudo, fica óbvio que o próprio Paulo, na sua missão apostólica
(que também se torna uma missão de política espiritual - talvez a mais bem
executada de nossa História), tenta se equilibrar justamente naquela corda
bamba que é a própria essência do Cristianismo: a incerteza da fé.
E
aqui chegamos ao um ponto importante de nossa investigação. Parágrafos atrás,
dissemos que o político do Espírito precisa, para suportar o sofrimento do
exílio, de fé, esperança e caridade - as três virtudes cristãs por excelência.
Será então o político do Espírito um cristão? Se afirmássemos que não, estaríamos
mentindo, mas também perderíamos nosso vigor investigativo. A única resposta
possível seria esta: qualquer espécie de político, principalmente o do Espírito,
deveria tentar ser um cristão. Ninguém está querendo afirmar a superioridade
do Cristianismo sobre as outras religiões, mas ela é a única que possibilita
ao ser humano lidar com o mistério da existência e com o maior problema que
nenhum homem teve coragem de enfrentar: a morte. Com a morte - e principalmente
a morte espiritual - ficamos impossibilitados de ter qualquer chance de uma
política do Espírito. E só podemos superar a morte se soubermos o Mal que
ela pode nos causar se não possuirmos a fé que, por mais incerta que seja,
é o que nos sustém.
Paulo
sabia conhecia essa ambigüidade, e isso fica claro quando ele faz a famosa
afirmação de Hebreus 11:1 - “A fé é a certeza daquilo que esperamos
e a prova das coisas que não vemos”. Mas o que esperamos? E como podemos
ter a prova de algo que ainda não vimos? Paulo dá exemplos concretos de pessoas
que, pela fé, venceram o grande obstáculo que é a morte e encontraram Deus:
Abel, Abraão, Enoque, Noé. E só então faz o arremate:
“Todos estes viveram pela fé, e morreram sem receber o que tinha sido prometido; viram-no de longe e de longe o saudaram, reconhecendo que eram estrangeiros e peregrinos na terra. Os que assim falam mostram que estão buscando uma pátria. Se estivessem pensando naquela de onde saíram, teriam oportunidade de voltar. Em vez disso, esperavam eles uma pátria melhor, isto é, a pátria celestial. Por essa razão Deus não se envergonha de ser chamado o Deus deles, e lhes preparou uma cidade” (Hebreus 11: 13-16).
É
a constatação de que este mundo não é o nosso lugar de origem. Existe uma
Civitas Dei, um Reino dos Céus, um paradigma da ordem que se reflete
tanto na alma individual quanto na da sociedade. Mas onde ela se encontra?
Paulo nunca respondeu a esta pergunta - e nem pretendia -, mas a sua definição
de fé acentuou ainda mais a incerteza e o mistério, além de contribuir para
o aumento da tensão do “metaxo”. E é justamente a ansiedade
da existência - que fica quase asfixiada entre o campo divino e o campo mundano
- que explode na consciência sensível de um homem como João.
Se
Paulo espera pela Parousia, João a vê com seus próprios olhos - mas
também não determina quando ela acontecerá. Estamos falando, é claro, de seu
famoso Apocalipse, o Livro das Revelações, que fecha a Bíblia, e que foi objeto
das mais inusitadas especulações. Contudo, existem três documentos importantes,
que são suas epístolas. Na primeira, a mais longa, João ensina a perenidade
do mundo: “O mundo e suas cobiça passam, mas aquele que faz a vontade
de Deus permanece para sempre” (João 1:17). Esta vontade seria a de
andar na luz, já que não há trevas em Deus, porque Ele é amor. Mas João não
define o que seria esse amor - prefere chamar seus discípulos de “filhinhos”
e repetir incessantemente que o mundo é um lugar muito perigoso. Sua fé não
tem a virilidade de um Paulo, até porque ela deveria permanecer um tanto infantil,
uma vez que é bem provável que ele estava realmente educando crianças ou pessoas
muito jovens na doutrina cristã. Mas citamos as epistolas porque o que vem
a seguir mostra uma outra face do que seria o amor cristão, uma face muito
perturbadora.
A questão que surge quando lemos o Apocalipse é: Como o mesmo homem que escreveu que Deus é amor pode escrever também um livro em que a ira divina se mostra de maneira implacável? Obviamente, não se trata de um livro escrito exclusivamente por João; o Apocalipse é uma revelação - aliás, a descrição simbólica da Revelação Final. Suas imagens transfiguram a realidade e colocam a possibilidade de uma política do Espírito como algo nulo, em que, da mesma forma que Isaías, todos ficam apáticos, esperando pelo ressurgimento de Cristo para restaurar a ordem. A metástase da fé não ocorre, mas temos aqui a esperança pelas coisas não vistas exploradas até o último grau, intensificando uma experiência radical no campo do “metaxo” em que o divino se sobrepõe de tal maneira que não seria exagero afirmar que quem escreveu o Apocalipse não pertence mais a este mundo, apesar de querer resolver seus problemas rapidamente. O livro foi escrito no final da vida de João, quando ele estava exilado na ilha de Patmos, na Grécia, e se o exílio foi um fator importante para o registro deste fato, certamente foi porque João já havia aceitado as trevas deste mundo como algo intrínseco à sua própria condição, não só como homem, mas também como testemunha da vinda e do retorno de Cristo. Quem quer realizar a política do Espírito deve sempre ver o mundo com desconfiança, mas nunca negá-lo; a diferença entre João e os outros profetas escatológicos é que, no caso dos segundos, eles criam uma outra realidade, que possa ser substituída por uma nova e assim todos os nossos problemas seriam resolvidos; já no caso de João, seus símbolos ainda possuem um íntimo contato com a realidade do ser humano, sempre em busca de uma ligação íntima com Deus