Memorial de Saramago

Por Martim Vasques da Cunha


 

"O dark dark dark. They all go into the dark,
The vacant interstellar spaces, the vacant into the vacant,
The captains, merchant bankers, eminent men of letters,
The generous patrons of art, the statesmen and the rulers,
Distinguished civil servants, chairmen of many committees,
Industrial lords and petty contractors, all go into the dark,
And dark the Sun and Moon, and the Almanach de Gotha
And the Stock Exchange Gazette, the Directory of Directors,
And cold the sense and lost the motive of action.
And we all go with them, into the silent funeral,
Nobody's funeral, for there is no one to bury".

Four Quartets - T.S.Eliot


Ultimamente, se existe algo que me deixa muito irritado é o fato da imprensa cultural despejar páginas e páginas a dois sujeitos que nunca fizeram grande coisa pela cultura da língua portuguesa: Elio Gaspari e José Saramago. Gaspari lançou dois livros que, dizem os críticos, serão o início de um painel sobre o período da ditadura militar digno de um Balzac (esta dedução não é aleatória, uma vez que o próprio jornalista pretende ver o seu painel dessa forma ao nomeá-lo de "As Ilusões Armadas"). Muito bem: o problema é que Gaspari sempre teve a fama de um jornalista bem informado porque os poderosos sempre quiseram que ele fosse bem informado. O homem não percebeu que a fama de sua profissão se deve ao fato de ter sido um fantoche dos outros - vide sua relação com Golbery que, como um fantasma, ainda faz questão de invadir os livros recém-publicados com sua presença misteriosa, guiando Gaspari como se fosse um feiticeiro - apelido, aliás, que o seu pupilo não-oficial lhe deu com pretensa ironia, mas que também revela uma enorme gratidão. Os dois primeiros livros, feitos obviamente para agradar a patota gramsciana que anda pelas redações, falam sobre a trapalhada que era o regime militar (de fato, era tamanho o desastre estratégico que o programa "Os Trapalhões", com Didi, Dedé, Mussum e Zacarias, pode ser considerado um documentário bastante fiel dos bastidores do Poder) e sobre - waaallll - a tortura e as guerrilhas. Confesso que preciso ler os livros com maior cuidado, mas o xis da questão não é o livro em si e sim sua recepção na imprensa brasileira, devidamente exagerada e alimentada por um esquema de marketing eficaz - cortesia da Companhia das Letras. Gaspari não merece todo este destaque - a mesma coisa aconteceu com Mario Sergio Conti, quando foi lançado "Notícias do Planalto". Todo mundo afirmou que era uma maravilha, que era uma obra polêmica, que era um livro fundamental. Três anos depois, qualquer leitor com um mínimo de bom senso sabe que Conti fez apenas um livro muito longo, com muitas informações e que precisava mesmo de um bom editor. Aposto um Chokito que a mesma coisa acontecerá com Gaspari.

O outro infeliz é Saramago, ou Saramargo, como muitos gostam de chamá-lo. Seu último petardo, "O Homem Duplicado" (outra cortesia da Companhia das Letras), foi recebido com os adjetivos de sempre. É impressionante notar que, basta Saramago soltar, por exemplo, um peido, que logo chega um jornalista e lhe pergunta qual é a opinião dele sobre aquele peido. E Saramago afirmará, naquela voz empolada de camponês de Atrás-dos-Montes que tenta ser um alfacinha (rectus: um lisboeta), que o seu peido é uma revolta contra o mundo cruel da globalização, contra a sociedade capitalista que escraviza o ser humano ou então uma afirmação de falta de esperança na humanidade porque um peido pessimista é muito melhor do que um peido otimista, já que o pessimista espera alguma coisa e o otimista não espera nada porque está satisfeito com o seu próprio peido. Parece absurdo, mas o fato é que Saramago se tornou uma espécie de iogue-comissário da literatura portuguesa, um comunista que vive numa segunda realidade e que parece falar as coisas mais complicadas do mundo quando o que fala se restringe apenas a uma coisa: peido atrás de peido. E olhem, caros leitores, que vocês estão lendo isso de um antigo fã do homem, um sujeito que, na época de um ateísmo insano, achava que "O Evangelho Segundo Jesus Cristo" era melhor do que os próprios evangelhos. Sim, pequei Pai, mas perdoa-me porque não sabia o que fazia. Agora que eu sei (ou, pelo menos, tento saber) devo avisar aos outros quem é este espantalho das letras, este homem que, pela sedução de seu estilo, corrompe uma nova geração. Perto de Saramago, Elio Gaspari é um mero marionete, manipulado por cadáveres fardados: é mais um que vive na ignorância.

Já Saramago sabe exatamente o que está fazendo e, por isso, escrevo este artigo para cumprir um dever de consciência que me incomoda há muito tempo, mas que explodiu, não sei porque, no mês passado. Confesso que, provavelmente, o motivo de escrever este texto está numa moça que, ao ir a uma livraria comigo, ela viu um exemplar de um dos livros de Saramago e me perguntou se eu já o tinha lido e se eu gostava dele. Respondi que tinha lido quase a obra completa, mas que não gostava dela pelos motivos que analisarei logo mais. Ela afirmou que, apesar de não ter lido nada do homem, achava que eu deveria ter respeito porque ele parecia ser um grande escritor. De fato, falei, ele é um grande estilista, mas não um grande escritor. A moça insistiu na sua opinião mal abalizada. Perguntei qual era o motivo de sua fascinação pelo português. "Ah, eu vi ele naquele documentário, "Janela da Alma", e ele falou coisas tão bonitas, tão profundas que, no momento em que eu estava (meio de bode, sabe?), as coisas que ele disse corresponderam exatamente ao que sentia e o modo como ele falava - apesar daquele sotaque complicado dele, sabe? - me levaram a crer que ele só podia ser um grande escritor".

Eis a resposta da donzela, leitores. Perfeitamente estúpida, claro. Mas o que me intrigou foi o fato de que Saramago fascinou uma moça por causa do seu comentário profundo sobre o peido míope que soltou (o documentário "Janela da Alma" fala de artistas que possuem deficiências visuais) - e eu me perguntei quantas pessoas não teriam caído na mesma arapuca. Várias, foi o que meu instinto respondeu. E foi por causa daquela moça e dos milhares de jovens que escutaram os comentários de Saramago sobre o seu abençoado peido, que comecei a pensar neste artigo. Contudo, não queria ficar somente no peido do sujeito. Não se pode atacar a obra de alguém por causa da visão de vida baixa que ele possui. Temos de atacar o problema por outro lado, talvez forçando o espinho que é a relação deste homem com ninguém menos que Deus. Então, tive de partir do seguinte pressuposto: o de que, sem dúvida, Saramago é um homem inteligente e um escritor talentoso. Tudo bem, vamos brincar de jovem pastora que acha que sabe tudo: classificaremos o ex-camponês de "grande escritor". Sabendo agora que, além de ser um grande escritor, Saramago fala coisas que não passaria pela cabeça de nenhum ser humano normal (como, por exemplo, "o que Israel está fazendo com a Palestina é igual ao Holocauso judeu feito por Hitler" - outro peido lançado na Feira de Frankfurt e que todos os jornalistas beberam como se fosse o novo elixir da juventude), me veio a questão fulminante: Como um grande escritor pode se tornar, de um momento para o outro, em um panaca?

Esta é a pergunta que fiz depois de ter lido, na época do Terror de 11 de setembro, o artigo "O Fator Deus" publicada na Folha de São Paulo - texto que, a meu ver, toca na ferida que expõe Saramago em sua podridão de iogue-comissário. Como já disse, fui um ávido leitor dos livros de Saramago - como "O Evangelho Segundo Jesus Cristo", "Memorial do Convento" e "O Ano da Morte de Ricardo Reis" - e fiquei muito impressionado com eles durante a minha iniciação literária. Seu estilo era complicado para alguém que lia vorazmente as histórias dedutivas de Sherlock Holmes, e algumas referências eram impenetráveis para um garoto de 16 anos de idade. Na verdade, o mais fascinante era o modo como Saramago conseguia harmonizar as vozes dos personagens com a voz do narrador somente através das vírgulas e dos pontos finais. Como eu saberia depois, em estudos posteriores, o escritor português aplicava em exaustão a teoria de Bahktin do romance polifônico em que várias narrações se cruzam e criam uma teia de temas que se dialogam entre si e formam a coerência da história.

Mas, se há uma regra no mundo da literatura, é que nunca devemos ficar presos a um único autor - especialmente quando este apresenta em público alguns atos contraditórios. Sabe como é, prezado leitor, sou um dos poucos que ainda acreditam que a vida de um escritor justifica a sua obra e vice-versa. Os exemplos de lampejos esquizofrênicos do ex-camponês são palpáveis: Saramago se diz comunista, mas tem uma casa enorme na ilha de Lanzarote. Outro fator estranho: Saramago se diz ateu, mas não hesita em acreditar numa visão no meio de uma banca de jornais em Lisboa e ler o título "O Evangelho Segundo Jesus Cristo". Até aí, tudo bem: o paradoxo faz parte do charme dos escritores. Acontece que Saramago afirma aos quatro ventos que o socialismo é o único modo da humanidade alcançar alguma esperança. Daí, lê-se nos livros de História confiáveis que o socialismo matou mais de 100 milhões de pessoas. Como alguém pode falar de esperança defendendo uma ideologia tão macabra?

Então aparece, como o próprio diz, o fator Deus. Em palestras, congressos, discursos, Saramago reafirma sistematicamente que Deus não existe; é apenas mais um nome inventado pelo homem para dar alguma espécie de paraíso ou queimá-lo em alguma espécie de inferno. Porquê tal insistência? No artigo para a Folha de São Paulo, Saramago estabelecia um raciocínio - emoldurado sob um estilo de brilhante retórica - entre os ataques do World Trade Center, a guerra entre Israel e Palestina, os conflitos tribais na India e na Angola, colocando a culpa em... advinhem? Deus, é claro.

Eis aqui um trecho interessante: "Disse Nietszche que tudo seria permitido se Deus não existisse, e eu respondo que precisamente por causa e em nome de Deus é que se tem permitido e justificado tudo, principalmente o pior, principalmente o mais horrendo e cruel". Um leitor ingênuo (para não dizer ignorante) diria que Saramago faz uma crítica ao radicalismo religioso que transforma o Absoluto em um monolito e retira toda a possibilidade de mudança na unidade. O pensamento estaria quase correto se não fosse por outro trecho: "E, contudo, Deus está inocente. Inocente como algo que não existe, que não existiu nem exisitirá nunca, inocente de haver criado um universo inteiro para colocar nele seres capazes de cometer os maiores crimes para logo virem justificar-se dizendo que são celebrações do seu poder e da sua glória, enquanto os mortos vão se acumulando, estes das torres gêmeas de Nova York, e todos os outros que, em nome de um Deus tornado assassino pela vontade e ação dos homens, cobriram e teimam em cobrir de terror e sangue as páginas da história". Uma coisa é cada um ter sua visão própria de Deus, seja o cristão, Yahveh ou Allah. A outra é confundir o que é Deus e o que não é. Claro que não se pode definir Deus, mas com um pouco de religião comparada podemos reconhecer na descrição de Saramago todos os elementos do gnosticismo.

O gnosticismo foi um movimento de reação ao Cristianismo que, com origens greco-romanas, influenciou os artistas e os intelectuais do Renascimento, chegando até ao Iluminismo e radicalizando no século XX com os regimes nazista e comunista. O que distingue o gnosticismo (favor não confundir com gnose que é o processo de conhecimento de um objeto) da doutrina cristã é que, no primeiro, o mundo foi criado não por Deus, mas sim por um demiurgo que se rebelou de sua autoridade (muitos acreditam que seja Lúcifer). Deus ficou escondido, vendo a humanidade sofrer com absoluta imparcialidade. Portanto, o mundo em que estamos seria mera ilusão pois não fazia parte dos planos do Criador - seria um mero acidente. Isso vai contra o Deus ativo do Cristianismo que se preocupa com a humanidade e dá Jesus em sacríficio para redimí-la. Para os gnósticos, a vinda de Jesus foi um mero acaso em um plano que deu errado desde do início.

Esse é o Deus de José Saramago. Claro que não é por acaso que essa visão de mundo tem uma íntima ligação com suas opiniões comunistas. Quem explica isso brilhantemente é Eric Voegelin em sua "A Nova Ciência da Política": as relações entre o gnosticismo e as ideologias políticas totalitárias são muito estreitas devido ao vínculo com a atitude de revolta contra o mundo e, principalmente, à rejeição de um Criador único e a aceitação de um poder místico que envolve tudo em entropia. Isso implica na famosa e batida questão: Você acredita em Deus? Mas em qual Deus?

Reduzir Deus a um fator significa reduzir o mundo como uma criação sem sentido. E se não há um sentido, o mesmo se verifica no modo como o ser humano apreende a realidade, transformando-a em algo que pode ser mudado quando é o inverso que ocorre. Não se pode mudar o mundo; logo, deve se aceitar Deus tal como Ele é: inacessível, poderoso, repleto de um mistério benéfico que Ele deixa a humanidade tomar consciência através da linguagem do conhecimento.

Saramago não aceita Deus como Ele é. Talvez seja por isso que é escritor, numa espécie de missão pervertida. Ao criar seu próprio mundo, ele pode transformá-lo com mágicas ("Memorial do Convento"), desastres geológicos ("A Jangada de Pedra"), versões apócrifas das Escrituras ("O Evangelho Segundo Jesus Cristo"), encontros com mortos que não morreram direito ("O Ano da Morte de Ricardo Reis") e pequeninas mudanças em revisões de livros que mudam o curso da História ("História do Cerco de Lisboa"). Mas ser escritor não é fazer truques de prestidigitação; o maior dever do escritor é compreender o mundo que vive através da palavra, garantindo sua integridade e pureza ("Dar um sentido mais puro às palavras da tribo", como diria Mallarmé, um poeta aprisionado entre o mundo real e o mundo dos sonhos). O Verbo dá sentido ao aparente caos; o Verbo mantém a vida.

O estilo burocrático de Saramago não o impede de ser creditado como um grande escritor - mas não como o grande escritor que a eternidade lhe reservou. Até porque ele próprio renegou essa eternidade. Sua escrita é sedutora, como a de todo impostor competente em seu ofício de enganar, mas, se bem lida (e isso depois de várias leituras de autores realmente preocupados com a Verdade), descobre-se que é a de um escrivão de polícia com um vocabulário sofisticado. Então revela-se que, em nossas mãos, temos não um romance, mas um boletim de ocorrência em que o crime foi perpetrado pelo próprio autor: o assassinato de Deus.

Esse crime não foi feito com armas ou bombas. Precisou somente de anos de escravização espiritual feita através de ideologias narcotizantes e de falsos mediadores. De acordo com Saramago, Deus é mais uma circunstância externa; ele não entende que Deus é a realidade simbólica total, o mundo que se relaciona no interior do indivíduo e no exterior que o cerca. É neste espaço que se dá a apreensão do conhecimento, a verdadeira leitura do mundo tal como ele é e não como uma idéia prestes a ser manuseada.

Assim, é perfeitamente lógico - ainda que seja impossível ser lógico o tempo todo, como vimos - ver Saramago terminar seu texto com essas palavras: "Não faltam ao espírito humano inimigos, mas esse é um dos pertinazes e corrosivos. Como ficou demonstrado e desgraçadamente continuará a demonstrar-se". O "esse" que o escritor português quer se referir é o Deus que teria dado o Seu último aviso naquela terça-feira de 11 de setembro e em cada vítima da guerra entre Israel e Palestina. Mas Deus não é nosso inimigo; ao contrário, é nosso escudo e sua força pode estar escondida pelas sombras, mas Sua luz está sempre no centro. Quem é inimigo é alguém que perverte o sentido da palavra e escreve patetices deste tipo. Para estas pessoas - marcadas com a malícia ou com a ignorância, prontas para viverem na escuridão da consciência - não sobra qualquer memorial porque não haverá ninguém para ser lembrado no pouco de memória que nos resta.

Martim Vasques da Cunha é escritor e jornalista.
Leia seus outros textos em "O Indivíduo"


Página inicial - Busca - Mapa do Site - E-mail