Os chacais da fé
Herman Melville
(1819-1892)
"É quase tão difícil falar em poucas páginas
de uma obra que tem a dimensão tumultuosa dos oceanos em que nasceu quanto
resumir a Bíblia ou condensar Shakespeare. Mas, para julgar o gênio
de Melville, é indispensável admitir que suas obras traçam
uma experiência espiritual de uma intensidade sem igual e que essas obras
são, em parte, simbólicas. Certos críticos discutiram essa
evidência, que não parece mais discutível. Seus admiráveis
livros, que não podemos ler de modo diverso, são dessas obras
excepcionais, ao mesmo tempo evidentes e misteriosas, obscuras como a plenitude
do sol e, entretanto, límpidas como as águas profundas. A criança
e o sábio encontram igualmente nelas seu alimento. A história
de Ahab, por exemplo, que se lança do mar austral ao pólo norte
no encalço de Moby Dick, a baleia branca que lhe cortou a perna, pode
sem dúvida ser lida como a paixão funesta de uma personagem enlouquecida
pela dor e pela solidão. Mas também podemos pensar nela como um
dos mitos mais perturbadores que já se imaginou sobre o combate do homem
contra o mal e sobre a lógica irresistível que acaba por armar
o homem justo primeiramente contra a criação e o criador, depois
contra seus semelhantes e contra si mesmo. Se é verdade que o escritor
de talento recria a vida, ao passo que o gênio, além disso, a coroa
com mitos, então não devemos duvidar que Melville é, antes
de tudo, um criador de mitos".
Albert Camus, "Herman Melville"
"But Faith, like a jackal, feeds among the tombs, and even from these dead
doubts she gathers her most vital hope".
Herman Melville, "Moby Dick", Capítulo 7
A fé é a certeza daquilo que esperamos e a prova das
coisas que não vemos
Hebreus 11:1
Todo escritor tem um problema a enfrentar quando cria a linhagem
de que fará parte: tudo bem, estas são as pessoas que devo
seguir para que meu trabalho não fique vagando ao vento, mas o que devo
fazer quando elas começarem a me oprimir, com o peso da sua obra já
terminada, sobre uma que mal começou? Harold Bloom, um crítico
que tem domínio das palavras, mas possui falhas em suas interpretações
devido ao seu temperamento niilista, nomeou este confronto de "a angústia
da influência". Ainda assim, o que poderia ser um belo trabalho de
análise literária termina sendo um embuste psiquiátrico
porque Bloom prefere calcar a sua tese - a de que todo escritor tem de superar
a tradição que escolheu através de um ato de revolta -
em termos freudianos, relacionando-a com a libido e com a vontade de poder.
É uma verdade que qualquer escritor terá este problema e é
também uma verdade que ele deve superar isso. Mas, como? O seu ato de
revolta não pode ser um ato fútil, caracterizado pelo niilismo
ou pela destruição da mesma tradição em que faz
parte. Esta revolta deve ter um norte, um livro que o guie e que o liberte para
trilhar novos caminhos. E um desses livros libertadores é justamente
"Moby Dick", de Herman Melville.
Mesmo depois de cento e cinqüenta anos do seu lançamento, "Moby
Dick" provoca, em pleno século XXI, a mesma estranheza que causou
nos leitores do século XIX (1). Não
é um livro fácil: seu estilo é túrgido, uma mistura
peculiar de Shakespeare e da tradução inglesa da Bíblia
feita pelo Rei Jaime, com uma estrutura que parece abarcar todas as estruturas
e todos os gêneros literários anteriores, do teatro à descrição
plástica de um quadro, passando pelo manual de como dissecar uma baleia.
Mas devemos perceber uma coisa: seu autor, Herman Melville, também não
era uma pessoa fácil. Filho de um comerciante que terminou seus dias
na falência, Melville foi professor de inglês, vendedor de livros,
fazendeiro, até resolver se tornar um marinheiro. Esta foi a experiência
que o transformou por completo, a experiência que o tornaria, anos depois,
no grande escritor americano, o único capaz de ter escrito o livro que
seria uma espécie de "Divina Comédia", rompendo com
tudo o que foi feito antes e inaugurando um novo tipo de literatura.
Não foi por acaso que o escritor que simboliza os Estados Unidos em suas
dilacerantes contradições percebeu que sua missão como
escritor se daria em pleno mar. As águas do oceano são o limite
do homem em sua busca pelo eterno e foi justamente esta busca que motivou Melville
na sua jornada literária. Contudo, antes disso acontecer, antes de seu
gênio se mostrar em todo o seu potencial, ele precisava de um mestre que
o guiasse e o avisasse se estava indo longe demais. Melville encontrou o seu
Vírgilio em Nathaniel Hawthorne, o fundador do romance americano, junto
com James Fenimore Cooper, mas, ao contrário do vate romano, que avisou
Dante que determinada atitude poderia prejudicá-lo, Hawthorne não
fez o mesmo com o jovem Melville e o deixou meio ao relento, como um órfão
que esperava um pai para salvá-lo do inevitável afogamento.
"Moby Dick" é dedicado a Nathaniel Hawthorne e isso nos ajuda
a decifrar alguns enigmas que o livro insinua. Hawthorne era um escritor preocupado
com a religião, mas se orgulhava de nunca ter ido à igreja ou
assistido ritos dominicais. Ele fazia parte do grupo que - algo muito comum
com os americanos - acreditam em um deus pessoal. Numa anotação
em seu diário, Hawthorne escreve com uma alegria peculiar: "Minha
esposa foi para a igreja de manhã, mas não seu marido". Obviamente,
este era mais o temperamento de um funcionário público do que
um escritor que via a literatura como uma missão. De fato, Hawthorne
se tornou embaixador dos Estados Unidos em Liverpool, na Inglaterra, enquanto
seu pupilo Melville se afogava no anonimato, ainda que tivesse de ser o único
capaz de carregar o fardo da literatura no seu país.
Nos tempos atuais, Nathaniel Hawthorne é visto apenas como uma relíquia
arqueológica. Mas Melville continua assustadoramente atual, seja no seu
trabalho mais famoso, seja nos seus contos mais obscuros, como "Bartelby",
"Benito Cereno" e "O Vigarista". Ele não é
apenas americano; ele é universal, um escritor completo em que qualquer
ser humano que tenha olhado para o oceano e sentiu a imponderável força
do divino rodeando-nos, reconhecerá uma alma gêmea. Entretanto,
este poder de expressão teve um preço a pagar: a fé que
o alimentava foi a mesma fé que o levou a escolher a aniquilação
e, por mais paradoxal que pareça, a uma vida secreta de perseverança.
Neste ponto, Hawthorne foi um péssimo tutor: ele sabia muito bem qual
era a luta que consumia Melville. Nos seus diários, escritos na época
em que Melville veio visitá-lo em Liverpool e já era um autor
em decadência, o romancista escreveu o seguinte: "Melville, como
sempre, começou a ponderar sobre a Providência e o futuro, e sobre
tudo o que está além do entendimento humano (...). É estranho
como ele persiste - e tem persistido em vagar por desertos tão ermos
e monótonos como os montes de areia nos quais nos sentamos. Ele não
consegue nem crer nem sentir-se à vontade em sua descrença".
Reparem que Hawthorne usa o advérbio "como sempre" para caracterizar
os pensamentos de Melville. Isto significa que, mesmo nos tempos em que os dois
eram vizinhos (Melville morando em Arrowhead, Hawthorne em Lanox), o mestre
sempre soube para onde ia o discípulo - e, mesmo assim, não o
avisou dos perigos que corria. Na verdade, é bem provável que
não o tenha avisado por um motivo simples: Hawthorne duvidava se a fé
era necessária; Melville sabia que a fé era essencial, mas não
sabia para que servia ela em um mundo onde o Mal era uma constante. Como todo
bom cético, Hawthorne sempre achou que a questão entre o Bem e
o Mal era algo relativo; para um crente rude como Melville, na melhor tradição
de Abraão e Jó, esta questão era o que movia o ser humano
na sua busca pelo divino.
Ainda assim, o impacto que o iluminista Hawthorne teve sobre o visionário
Melville foi enorme. "Sinto que este Hawthorne lançou sementes que
germinam em minha alma", escreve Melville em uma de suas cartas endereçadas
ao seu amigo Evert Duyckinck, "Ele tanto mais cresce e se aprofunda quanto
mais eu o contemplo; cada vez mais fundo ele lança suas fortes raízes
da Nova Inglaterra no solo quente da minha alma sulista". Na época
em que escrevera estas linhas, Melville elaborava uma narrativa baleeira, que
contaria os tempos de marinheiro em caças às baleias. O seu sucesso
como escritor acontecera justamente por causa dessas narrativas, mas eram contos
de viagem e nada demais. Desta vez, Melville queria ir além. A convivência
com Hawthorne foi crucial para que Melville reescrevesse o livro e assim a narrativa
baleeira se tornou o grande épico americano que conhecemos - "Moby
Dick, ou: a baleia".
"Moby Dick" é, sem dúvida, um grande
épico, mas também é o primeiro passo para a derrocada
de Herman Melville - além de ser, misteriosamente, um dos maiores livros
sobre a aventura heróica da fé. Aliás, a Fé não
é apenas um de seus temas - é o seu principal tema. Mas não
a Fé vista como algo que salva o homem de todas as vicissitudes e sim
como um grande problema de que o homem não se deu conta de seu valor
e de seu poder. Por isso mesmo, ela cria mais os chacais de dúvida do
que propriamente os cordeiros da certeza. Melville coloca a sua crença
no jovem Ishmael que, logo no início, pede para que o leitor o chame
pelo nome. A estratégia é clara: este não será um
mero livro de viagens - será o testemunho de algo terrível. Ishmael,
no entanto, não parece ser um escritor novato. Ele conta calmamente os
momentos antes de sua entrada no Pequod, como se este prelúdio fosse
essencial para que o leitor tenha o sentido completo de sua história.
Melville faz o mesmo: antes da primeira linha de "Moby Dick" - o famoso
"Call me Ishmael" - ele nos dá um catálogo de citações
sobre o que seria as mais diferentes visões das baleias com o passar
dos tempos. Temos desde da Bíblia - em que a baleia é identificada
com o Leviatã que aparece na revelação do Livro de Jó
-, passando por John Milton e terminando com a constatação científica
de um tratado sobre como caçar monstros marinhos. Agora fica mais claro
o subtítulo de "Moby Dick". Não será um livro
sobre uma baleia qualquer. Será um livro sobre a baleia, o Leviatã
em pessoa.
Ishmael está escrevendo a sua história depois dos acontecimentos
do Pequod - é o relato de um sobrevivente, sem dúvida nenhuma.
Mas como ele sobreviveu? E porquê sobreviveu? O seu nome, oriundo do filho
que Abrãao deserdou em favor de Isaac, indica que poderia acontecer o
contrário: Ishmael é um permanente exilado, um homem que nunca
foi muito bem notado no próprio Pequod, exceto por seu amigo Queequeg
e apenas uma ou duas vezes o capitão Ahab trocou alguma palavra com ele.
Contudo, o Pequod não entra em sua vida por acaso, como sugere Ishmael
(e Melville) ao organizar os fatos anteriores à sua entrada no baleeiro.
Duas cenas são importantíssimas para realçar o aspecto
das crenças de Ishmael: a do sermão do padre Mapple e o do encontro
com o canibal Queequeg.
O sermão do padre Mapple é um dos momentos mais belos da literatura
- citado, inclusive, por Albert Camus em "A Peste", no sermão
do padre Paneloux, um romance que, aliás, guarda muitas semelhanças
com o problema melvilliano da Fé. É também a cena em que
Melville explicita outro tema de "Moby Dick": o fato de que não
podemos fugir das garras de Deus - Ele estará por toda a parte, vigiando-nos,
esperando-nos para sentir Sua força. Mapple baseia o seu sermão
no Livro de Jonas que conta, como sabemos, a história do profeta que
fugiu da sua tarefa de avisar a cidade de Nínive de seus pecados e Deus
o castigou jogando-o no ventre de uma baleia. "Deus está por toda
a parte", afirma o padre em seu sermão - e será este sentimento
de totalidade divina que permeará a narrativa de Ishmael. O seu bizarro
encontro com o canibal de Queequeg (que muitos imbecis já tentaram classificá-lo
como um relacionamento homossexual, mas que, na verdade, é uma intensa
amizade entre dois homens), pode ser visto como o encontro entre duas espécies
de fé - a pagã (simbolizada por Queequeg) e a cristã (simbolizada
pelo próprio Ishmael). Estes dois fatores em torno da Providência
- a de que Deus está em tudo neste mundo e a de que há uma evolução
na fé humana, justamente para uma efetiva compreensão dos desígnios
divinos - serão os pilares da luta que acontecerá naquela arena
chamada Pequod.
Com muita habilidade, Melville opõe a Fé ao desespero, representado
na figura do capitão Ahab. De novo, a Bíblia se faz presente:
Ahab era o nome do rei que não acreditava em Yahveh, tinha uma esposa
promíscua chamada Jezebel e ambos foram fulminados em um incêndio.
Toda esta história está relatada no segundo livro dos Reis e ela
possui, sem dúvida, um nítido caráter castigador a um Deus
bastante ciumento. Castigo divino, aliás, parece ser a marca que persegue
o capitão Ahab que comanda o Pequod. Para ser mais exato, Ahab quer saber
o porquê de sua perna direita ter sido arrancada sem piedade pela baleia
branca Moby Dick; ela é, ao que parece, segundo os marinheiros, o mais
perigoso de todos os animais, a rainha dos cachalotes. Mas o que é Moby
Dick? Ishmael deixa evidente que se trata do Leviatã, a mesma baleia
que, por exemplo, engoliu Jonas quando este tentava fugir da sua missão
divina. Talvez não seja mera coincidência o fato de que Ishmael
crê que a baleia que Ahab procura pela oceano seja a mesma de Jonas, a
mesma que descreve Jonh Milton em "Paradise Lost" e a mesma que apareceria
aos olhos de Jó: Ishmael crê nisso porque o que está em
jogo no seu relato é também a sua fé - ou melhor, a certeza
de que a sua fé não foi em vão.
Ahab é o seu duplo - mas o capitão sequer se preocupa com a existência
de Ishmael. O Pequod é como um microcosmo da humanidade, com todos os
seus sistemas de hierarquia e de poder e comando. Ahab é o rei; seu braço
direito é Starbuck; seu capanga é Stubb; um de seus escravos é
Queequeg, uma vez que é um excelente caçador de baleias; e Ishmael,
que nunca sabemos bem porque Ahab decidiu incluí-lo na tripulação
do Pequod, parece ser o homem que testemunhará os feitos trágicos
do seu rei. De fato, ele faz isso muito bem: a jornada do Pequod é descrita
em detalhes tão excessivos, incluindo aí uma análise sufocante
de como caçar e retirar a pele de uma cachalote, que muitas vezes o leitor
desconfia se o próprio texto não se torna, em si mesmo, uma espécie
de Leviatã. E aqui temos um dos indícios da revolução
que Melville provocou na literatura: com "Moby Dick", o texto literário
torna-se algo realmente vivo, orgânico, que cresce em camadas sobre camadas,
como se a vida, com todas as suas ambigüidades, fosse infiltrando-se na
estrutura do livro. Isso seria uma das marcas constantes da literatura moderna,
com as tentativas de Proust, Eliot e Joyce, mas só chegando à
sua plenitude com o "Grande Sertão: Veredas", de Guimarães
Rosa, e a obra do único escritor americano que pode ser comparado a Melville
- Thomas Pynchon.
O combate entre a fé de Ishmael - uma fé que permanece em segredo
- e o desespero de Ahab tem um motivo palpável: se Ahab tinha alguma
fé, ela se perdeu no momento em que teve de lidar com o problema do Mal.
O capitão do Pequod é descrito como um homem solitário;
sabe-se que ele tem uma esposa, mas isso pouco importa numa vida que vive em
função do mar. Contudo, a vida de Ahab não é mais
em função do mar; é em função de Moby Dick,
a baleia branca que, de certa forma, também perturba os marinheiros do
Pequod. E o que provoca esta perturbação?
Ishmael nos dá uma possível resposta que confirma a sua compreensão
das coisas deste mundo, como também a essência da sua fé
(e, por sua vez, a de Melville). No capítulo "The Whiteness of the
Whale" (A Brancura do Cachalote), o narrador faz uma reflexão sobre
a misteriosa luminosidade que emana da baleia:
"Porém não resolvemos ainda o problema da magia da cor branca nem descobrimos por que razão ela atrai a alma com tal força, e, o que é ainda mais estranho e prodigioso, por que razão é ao mesmo tempo o símbolo das coisas espirituais, o verdadeiro véu da divindade cristã e contudo é o agente que dá maior relevo às coisas que mais atemorizam a humanidade.
Será porque, pelo que tem de indefinido, projeta a sombra sem coração dos vazios e imensidades do universo e assim nos apunhala pelas costas com a idéia de aniquilamento, no momento em que contemplamos as brancas dobras da Via Láctea? Ou será antes porque em essência o branco não é tanto uma cor visível como a ausência de cor e ao mesmo tempo a concreção de todas as cores? Será por essa razão que existe um silêncio ermo cheio de significação numa ampla paisagem de neve - a completa ausência de cor do ateísmo, que nos apavora? E quando considerarmos essa outra teoria dos filósofos da Natureza, segundo a qual todas as outras cores terrestres, cada esmalte magnífico e encantador, as tintas suaves dos céus crepusculares e dos bosques, os veludos brilhantes das borboletas e as faces das borboletas das donzelas não são mais do que ilusões sutis de modo algum inerentes à substância e sim meras exterioridades, chegamos à conclusão de que a divina Natureza pinta-se como uma cortesã, cujas atrações nada cobrem senão o sepulcro que leva dentro de si. E ainda mais, quando considerarmos que o mistério cromático, ou seja o grande princípio da luz, permanece para sempre branco ou incolor, em si mesmo, e que se atuasse sem ter ponto de apoio na matéria tocaria todos os objetos, fossem tulipas ou rosas, com a sua própria tonalidade vazia, chegamos à conclusão de que afinal o universo é como um leproso; e, como os bisonhos viajantes da Lapônia que não querem usar óculos de cor, o viajante descrente sente-se cegar diante da mortalha monumental que envolve todas as perspectivas que o rodeiam. E de todas essas coisas a baleia branca constitui o símbolo" (Trad. Berenice Xavier).
Então, o que Ahab persegue seria ninguém menos que Deus? É bem provável - aliás, é uma interpretação muito mais razoável do que comparar Moby Dick ao puritanismo americano ou ao grande Império, que visam somente aspectos ideológicos e claramente deformadores da realidade simbólica que Melville tenta expressar no romance. A passagem citada mostra também como Melville via a implacável ambigüidade do mundo - e, conseqüentemente, da fé que move os homens a continuarem a viver nele. Por isso, a citação do Livro de Jó no curto epílogo: "E eu fui o único que sobrevivi para contar a história". Esta é, claro, a própria condição de Ishmael, que salva-se da destruição do Pequod porque agarrou-se ao caixão que seria a última morada de seu amigo Queequeg. A referência ao lenho da madeira da Cruz de Cristo é evidente. Mas Queequeg - que sofria de uma moléstia rapidamente curada através de seus remédios e rezas pagãs - morre no naufrágio do Pequod, provocado pela ira da baleia branca ao se encontrar finalmente com o capitão Ahab. Não sabemos o que Moby Dick está pensando naquele momento, mas fica claro que ela não gostou muito da ousadia do capitão. Além disso, Ahab faz questão de forjar o arpão com o qual pretende matar o monstro num ritual satânico, "batizando-o no nome do demônio" (Ego non baptizo te in nomine patris, sed in nomine diaboli). O homem está possesso e toda a tripulação do Pequod também. Ishmael limita-se a descrever os últimos dias de seus companheiros de viagem: Queequeg sobrevive à sua moléstia, mas Moby Dick destrói o barco onde ele se encontrava; Starbuck e Stubbs têm o mesmo destino; e Ahab desaparece no redemoinho de destroços, junto com sua algoz. Somente Ishmael, sabe-se lá por qual motivo, agarrado no caixão que deveria ser de seu amigo canibal, volta à terra, para confirmar aos outros que todos nós somos eternos órfãos.
O tema da orfandade é constante em "Moby Dick"
porque fica claro que, no meio de sua crença na Providência,
Melville tinha também a suspeita de que a mesma Providência nos
abandonou num reino do Mal. Este paradoxo dentro de uma mesma alma se divide
nas personagens de Ahab e de Ishmael. O primeiro não agüenta a dor,
o sofrimento e, sobretudo, a solidão que estas duas últimas trazem
quando nos confrontamos com o problema do Mal; por isso, parte para a revolta
insana, luciferina, em que o homem desafia Deus nos confins do mundo para que
ele sinta-se satisfeito com a explicação de que a Divindade possa
lhe dar sobre a razão de seu sofrimento. Obviamente, este pedido será
negado. O segundo é o sujeito que, amparado pela percepção
da loucura da fé (para usar uma expressão de São Paulo),
tem a noção do processo do Todo, em que cada parte tem uma função
num plano maior. Ishmael aceita a realidade do mundo porque, através
da sua fé, consegue suportar o mistério da existência, que
reside justamente no desafio de compreender a iniqüidade, a injustiça
e a mortalidade das coisas deste mundo, ainda que sob direta supervisão
de Deus, e concluir que, por mais estranho que isso pareça, elas tem
um sentido dentro do plano da salvação da alma.
A vida de Melville, depois do fracasso no lançamento de "Moby Dick",
comprova a luta que ele teve para dominar os chacais da fé. No famoso
reencontro que teve com Hawthorne, Melville anunciou que "partira para
a aniquilação", isto é, o mais completo silêncio,
emoldurado sob o emprego como funcionário público no sistema de
imigração de Nova York. Mas foi um estranho aniquilamento, porque
Melville continou escrevendo: seu conto "Bartleby" é uma diagnose
da morte da alma que antecipa Kafka e Camus; sua novela "Benito Cereno"
é um exemplo de como a literatura pode enganar o mais astuto dos leitores
com a manipulação das aparências; seu último romance,
"O Vigarista", disseca o tema da confiança até um final
pessimista que poucos teriam coragem de admitir em suas próprias vidas;
e o conto que deixou inacabado antes de sua morte, "Billy Budd", mostra
um Melville resignado com a morte da inocência num mundo de brutalidades
e incertezas, talvez porque ele tenha sido uma dessas vítimas. Isso sem
contar o fato de que Melville arriscou-se a escrever poesia em homenagem aos
soldados da Guerra Civil Americana e aos judeus e palestinos de Jerusalém,
com "Battle Poems" e "Clarel", respectivamente.
Seu aniquilamento foi um auto-julgamento de sua fé. A doença,
os constantes fracassos profissionais e familiares (seus dois filhos suicidaram-se)
e a intuição de que ele levara longe demais a questão entre
homem e Deus com "Moby Dick" - tudo isso foram fatores de uma renúncia
ao sucesso e a escolha de uma vida secreta, aprisionada na esperança
de que ela fosse apenas mais uma parte que fizesse sentido no processo do Todo.
E não é que ele estava certo? Melville morreu velho e pobre, aos
72 anos. O New York Times, na época, deu três linhas de obituário.
Na metade do século XX, muitos afirmaram que ele era o maior escritor
americano e "Moby Dick" era o livro que todo americano deveria ler,
junto com a Bíblia e Shakespeare. Hoje, Herman Melville não estaria
rindo à toa, como pensam muitos, mas olhando com complacência estes
futuros órfãos da Providência Divina. Porque se a fé
é "a certeza daquilo que esperamos e a prova das coisas que não
vemos", como disse São Paulo, Melville sempre soube que o mistério
da condição humana foi a única certeza e a única
prova do que ele viu e viveu durante a sua conturbada existência. E este
mistério será apenas uma Grande Questão sobre a luz branca
que nos salva e que também nos atemoriza constantemente, com suas promessas
de redenção, promessas que são como os dentes dos chacais
que se alimentam da nossa esperança mais querida.
NOTA:
(1) Sugiro que leiam, em companhia deste texto, o excelente
artigo sobre "Moby Dick" escrito por Paulo
Salles e que foi publicado, há muito tempo, no Digestivo Cultural.
Voltar
Martim Vasques da Cunha é escritor e jornalista.
Leia seus outros textos em "O Indivíduo"