O Julgamento de Pio XII

Por Paulo Afonso Hernandez

A igreja moderna deveras cultiva, com o arado da mídia, o lamentável desejo mimético de seguir o mundo em todos os seus erros, sacrificando sua própria identidade entre os incensos do altar secular.

Deparamo-nos, a cada dia, com humilhados pedidos públicos de perdão dirigidos à imprensa, este despreparado confessor da opinião pública – com sabe-se lá que insondáveis motivações. O mais recente acontecimento deste rol de bobagens é a retomada da perseguição ao Papa Pio XII que, ora injustamente acusado de omisso, atuou em prol da salvação de inúmeros judeus perseguidos pelo nazismo, com a discrição pertinente ao momento. Os golpes vêm de todas as direções, mas visam as regiões mais sólidas da guarda da verdade, deixando muito a desejar na arte da retórica, especialidade de seus promotores. Senão, vejamos.

Desta vez, as acusações visam realçar o que os algozes chamam de "o silêncio criminoso da igreja" face ao extermínio de judeus durante a segunda grande guerra. Cobram os atos, porém ignoram os fatos. Desconhecem, ou fingem desconhecer, que este silêncio acolheu, em sua serenidade, muitas almas perseguidas – o que seria impossível com cartazes do tipo: "Procurando um judeu? Veio ao lugar certo!". Pio XII, reconhecido pelos de sua época como "uma voz solitária no silêncio e na escuridão, envolvendo a Europa(...), o único dirigente restante no continente europeu que ousa levantar-se contra a situação(...)", conforme nos mostra reportagem do New York Times do Natal de 1941, mereceu, no imediato pós-guerra, o reconhecimento de inúmeros representantes do mundo sionista.

Não obstante, o próprio New York Times se encarrega de promover o contrário nos dias de hoje, rejeitando os relatos de seus próprios correspondentes do campo de batalha e preferindo a miopia intelectual de jovens iletrados e velhos mal intencionados. Um outro exemplo, desta vez encontrado na revista Newsweek, nos dá a dimensão correta do logro que nos querem empurrar goela abaixo. Quem escreve é Ken Woodward: "que Pio XII quedou-se silente face ao holocausto, que atuou pró-Alemanha, se não pró-nazismo, que era anti-semita, são monstruosas calúnias que, hoje, parecem fazer parte do senso comum". Note bem: "monstruosas calúnias"! O termo usado nos dá a impressão exata deste movimento anti-católico, que encontra eco entre os próprios representantes do Vaticano.

Por detrás dos pedidos de desculpas, convenientemente arquitetados pela cúria, há uma série de acusações sem provas. Decerto é muito mais fácil acusar do que defender. Principalmente no tribunal da opinião pública, onde o indivíduo inocente debate-se no vácuo de sua impotência – por mais que se defenda e prove sua inocência, nunca o fará na proporção necessária para anular o mal que lhe foi causado.

Entre os acontecimentos mais sintomáticos deste engodo, encontra-se a conversão do rabino Israel Zolli - rabino de Roma quando do conflito mundial. Aos treze de fevereiro de 1945, Zolli e sua esposa se converteram ao Catolicismo Romano, quando Zolli tomou para si o nome de Eugênio, exatamente o nome católico de Pio XII. Teria o rabino se tornado católico – ainda por cima escolhendo o nome de Eugênio – se desconfiasse de alguma cumplicidade entre Pio XII e os nazistas? Por ocasião da morte de Pio XII, em 1958, Golda Meir notificou Roma: "Quando o temor do martírio acometeu nosso povo, durante a década do nazismo, a voz do Papa se insurgiu pelas vítimas". Estaria a mais importante mulher da história moderna do judaísmo se reportando à igreja que ela acreditava ter sido cúmplice da morte de seus irmãos? Quanto à possibilidade de o Vaticano promover algum esforço no sentido de estudar a canonização de Pio XII, possibilidade aventada por uma fração mais esclarecida da cúria, o representante de Israel naquele Estado mostrou até onde iria sua indignação, ameaçando até mesmo as relações diplomáticas entre os dois Estados e exigindo que se cumprisse um período de cinqüenta anos para que os acontecimentos ficassem mais claros...

Ou seja, um século depois de terminado o conflito e após toda a sorte de levianas acusações respaldadas na total ausência de provas e na liberdade de imprensa, segundo o diplomata estaríamos prontos para estudar seriamente o caso. E por que não agora? Porque agora correríamos o risco de ver Pio XII canonizado! Porque a luz ainda chega aos porões do tempo e os mais curiosos ainda podem enxergar, se fizerem algum esforço. Então, esperemos que as trevas caiam também sobre o rastro de mais um período da nossa história e nem a força das lanternas da popa nos permitam decifrar as sombras do passado. Aqueles que hoje promovem esta covarde tentativa de deturpar os acontecimentos históricos agem como urubus, sondando a carcaça do passado semimorto, vacilantes, plantando pequenas notas nos jornais e esperando as possíveis reações – até o momento em que não mais as encontrarão.

De repente, nas horas mortas da noite, quando ouso meditar, lembro-me de um certo Schindler, de um certo Spielberg e de records de bilheteria (o record de bilheteria, um dos fenômenos do nosso tempo, é a encarnação do espírito de rebanho com pipoca e jujuba). Os espectadores de A lista de Schindler deixavam os cinemas aos prantos, emocionados com a história daquele que achavam ser o mais nobre silêncio já berrado sobre a terra! O silêncio de Schindler, gritado em hebraico, deve ser aceito, mas o silêncio de PioXII, cristão, não lhes apraz... E, ainda por cima, os algozes do sumo pontífice cobram da igreja retratações que, inexplicavelmente, acabam atendidas! A cúria, assim, age em total desacordo com a política por ela mesma adotada, seja esta a política de total tolerância quanto aos que dela divergem. Agora, o que era apenas tolerado transformou-se em regra. A galinha do vizinho bota ovo amarelinho...

Assim como o sumo pontífice, muitos outros clérigos acolheram diversos perseguidos durante a segunda grande guerra nas sacristias e nos mosteiros e conventos europeus, muitos deles oferecendo a própria vida pela de chefes de família condenados à morte em campos de concentração.

Ditosos os que, com sangue próprio, escreveram nas linhas da história a antologia de nossa época. Seus nomes não serão esmagados entre os dedos do tempo.