O tribuno e a tribo

por Paulo Afonso Hernandez

Em minhas incursões vespertinas aos porões da justiça, como jovem assistente jurídico, procuro lembrar-me de fixar bem, nalgum ponto escondido de meus hemisférios cerebrais, a fronteira entre estas manifestações da alma que são o senso de humor e o senso do ridículo - atribuições contrárias, visto que enquanto uma fustiga nosso talento, a outra nos lembra, envergonhada, que ele não é tão grande assim... Tal distinção é de suma relevância no quotidiano forense de um aspirante a advogado, visto que nem sempre é o funcionário público cartorário um simpático membro do apostolado estatal (haja talento para enfrentá-lo nos seus dias de ressaca!).

O tribunal de justiça! este estranho mundo paralelo que poucos freqüentam. Mas, deixemos de lado os corredores enfumaçados do foro de justiça e passemos a analisar as declarações da igualmente nublada mente de Márcio Moreira Alves, desde já alertando aquele que se aventurar por estas linhas para que proceda esta leitura pausadamente, a fim de que não se ofenda, caso seja antitabagista, e possa recuperar o fôlego, pois haverá muita fumaça.

Diz a lenda que, ex-deputado de esquerda e fiel defensor das minorias, Márcio Moreira Alves é conhecido entre os seus pelo róseo motejo de "deputado das deputantes" - perdão, das debutantes. Quando debutava como deputado, "dançou" com os cadetes da Escola Superior de Guerra, experiência que muito lhe desagradou e motivou seu célebre discurso: "invocação em defesa do deputado debutante". Gênio mal compreendido, foi prontamente responsabilizado pelo proferimento do AI-5, o conhecido discurso, em réplica, dos militares - mais conhecido como discurso dos 5-Aí, que ora transcrevemos: "Falou das debutantes? - disse um dos sargentões, 1 : - aí você abusou! 2 : - aí nós vamos tirar o seu emprego 3 : - aí nós chamaremos o Roberto Campos só para criar a inflação. 4 - aí o coro vai comer. 5 - aí eu vou chamar a mamãe...

Logo após este trágico incidente, fugiu corajosamente para Ribeirão Preto, onde, malandro que só ele, escondeu-se em um baile de deputados, isto é, de debutantes.

Bem, brincadeiras à parte, é difícil acreditar que um deputado democraticamente eleito, deixe, ao presenciar uma revolução militar, de perceber que, apesar de todas as lágrimas derramadas em homenagem à democracia assassinada, continua subindo ao púlpito, para, legitimado pela mesma contagem de votos que lhe colocou ali, continuar falando bobagens tais como incitar a renúncia à valsa dos cadetes...é muita falta de talento político.

Fosse apenas isto, quisera eu! O fato é que nosso valente ex-deputado insiste em destilar seu ódio a tudo e a todos que - não bastasse isto! - presenciaram sua carreira política. A principal vítima de seus ataques, cadetes fora, é o deputado Roberto Campos, que, anos a fio, não se cansa de nos inteirar dos principais acontecimentos políticos e econômicos de nosso tempo, com erudição inexcedível e não menos boa vontade.

A definição simplória de trinta anos de inflação, que segundo o Sr. Moreira Alves é filha balzaquiana de mãe solteira - seja esta a correção monetária - dá a medida do absurdo que, segundo Stepane Trophimovitch - personagem de "Os Demônios" de Dostoievski - é resultado da preguiça intelectual : "(...) como jamais trabalharemos, serão sempre os outros que terão uma opinião por nós (...)"- obviamente a correção monetária não é a responsável por trinta anos de inflação. Isto só tem cabimento entre as maliciosas cabeças de líderes esquerdistas, e as ociosas mentes de seus seguidores. Criação inovadora do governo Castello Branco, a correção monetária constituiu importante instrumento no processo de reordenação das nossas finanças públicas, que se sustentaria em três pilares: o pilar da reforma fiscal, da verdade tarifária e da restruturação da dívida pública.

Quanto à modernização fiscal, viga mestra deste processo, o instituto da correção monetária, conseqüência lógica da instalação de uma política gradual (ao invés do tratamento de choque) dispensada ao combate da inflação, obrigou os agentes econômicos a agirem em termos reais evitando que os recolhimentos tributários fossem adiados, possibilitando o fechamento de contratos de longo prazo - que até então haviam desaparecido na borrasca do desleixo inflacionário e, até hoje, constituem a mola propulsora da construção civil, fonte inesgotável de emprego e estruturação urbana. A correção monetária foi, naquele momento, tanto um instrumento de incentivo à poupança de médio e longo prazo, quanto uma espécie de esponja, capaz de enxugar a liquidez excessiva presente, e sua instauração suscitou protestos de empresas nacionais, acostumadas que estavam a protelar o pagamento de tributos como uma forma de obter capital de giro.

Quanto às multinacionais, seu sistema característico de auditoria fazia com que se furtassem ao agradável exercício da inadimplência fiscal. A busca por saúde econômica sempre revelou-se, na obtenção de resultados sociais, extremamente mais eficaz do que a insaciável sede de poder político dos comunistas.

Enfim, o tribuno continua a fazer parte da tribo, mas...