Sobre as nossas saídas
Por Paulo Afonso Hernandez
Ele era sempre visto rodeado de nababos e beldades que encheriam os olhos de qualquer um; porém, era um triste. Em sua ignorante inveja, os mais frívolos comentavam: "Lá vai um sujeito de sorte". Contudo , seguia sempre triste. Com o olhar cavo do remorso e do complexo. E vejam vocês que o sujeito não tinha nem vinte e quatro horas de sossego, posto que seu drama sempre se repetia às seis horas da manhã (pior que o drama é a tragédia repetida e pontual).
Pois muito bem. Rômulo ( vamos chamá-lo assim), era um adulto que fazia pipi na cama. Tinha consciência da gravidade deste fato e, por isso , vivia em estado depressivo. Num desses dias em que o porre é inevitável, comentou com um amigo que imediatamente lhe indicou um renomado psicanalista. "Vai que o doutor Palhares é fabuloso" - disse-lhe o amigo, encarando-o com aquele estrabismo que sempre acompanha o ébrio. Rômulo foi.
Alguns meses se passaram e os dois amigos se reencontraram por ocasião de uma festa no alto Leblon.
- Então, meu chapa, como vai indo com o Palhares ?
- Excelente. - Exalava o hálito dos vitoriosos.
- Diga lá, e aquele probleminha?
- Continuo fazendo pipi na cama, mas hoje eu me orgulho disso!!
O colega afastou-se com o semblante sério e pesado.
Reparem que o psicanalista transformou o seu complexo em motivo de orgulho. Os mais íntimos juram que em alguns meses, Rômulo passou a convidá-los para conhecer a mancha em seu lençol - a mancha que se repetia dia após dia - e mostrava-a com um orgulho de pai de debutante.
O tempo passou e o problema convivia diariamente com o orgulhoso problemático, até que uma súbita nostalgia do complexo passou a incomodá-lo. Era como se o espírito se rebelasse contra aquela situação absurda. Sentia que uma espécie de hanseníase lhe corroera a capacidade de entender a realidade objetiva que o cercava. Esta era a mesma de sempre. A mesma que, agora, lhe tratava como um louco.