Para os que duvidam da burrice
Por Paulo Afonso Hernandez
Ainda ontem eu falava dos agnósticos. Não acreditam em nada estes sujeitos!! Contei-lhes sobre a burrice. Esnobaram-na como se fosse um duende ou o curupira. "É lenda...",disseram-me.
Pois bem. Eis que, esta manhã, eu fui até a banca da esquina e troquei meus míseros tostões por um exemplar de O GLOBO. Qual então não foi o meu susto ao deparar-me com aquela espécie de saci-pererê, ali, estampada na primeira página e fazendo careta, qual o boi da canção de ninar. Estaquei. Tomei a bênção à senhora do outeiro e resolvi encarar a assombração jornalística. Súbito, fui obrigado a desviar de um conhecido que gesticulava freneticamente com a esposa aos gritos de: "Feliz foi Adão , que não teve sogra!". Fingi não ver a cena e, de soslaio, hesitante, novamente focalizei o jornal. Não havia mais dúvidas. Era ela: a burrice! Em carne e osso. Travestida de notícia, no rodapé da primeira página, onde estava escrito: " Após três anos de estudos práticos e teóricos, alunos de Comunicação da Universidade de Brasília concluíram que, apesar de a internet ser um espaço livre por excelência, o sexo virtual se limita à repetição de imagens, valores e textos do mundo real." O resultado da pesquisa, dizia o fim da nota, estava num livro (confesso envergonhado que esqueci o nome do livro, mas não faz mal algum pois, a esta altura, a mula sem cabeça já havia mostrado a cara, e era feia pra burro!).
Como um Hércules, aceitei o desafio e decidi por enfrentar aquela personagem da mitologia agnóstica - os agnósticos, se ainda não tive oportunidade de mencionar, são os donos da mais rica coleção mitológica, que envolve, além da inexistência da burrice, a inexistência de qualquer coisa que lhes der na telha e não fizer sentido imediato ( certo dia um agnóstico amigo meu disse não acreditar na existência do Frei Betto, no que lhe dei toda razão...). Mas eu ia dizendo que a personagem que me vinha bater tinha corpo de quadrúpede e também a cabeça.
Analisemos portanto o teor da nota, que era, não custa lembrar, a burrice disfarçada: os alunos de comunicação de uma faculdade do planalto central, constataram, após três anos de estudos, que o sexo virtual, seja lá o que isto for, é uma espécie de imitação paraguaia do sexo escocês, este sim, legítimo, envelhecido e maturado em barris do mais nobre carvalho (sem trocadilhos, por favor). Pouco inovador? Sim. O tal "sexo virtual" era réu confesso desta falta. E, como a nota prometia revelar "estudos práticos (sic)", passei a imaginar o constrangimento a que devem ter sido submetidas as estagiárias de comunicação, que, ao participarem desta legítima experiência, por certo sentiram-se obrigadas a defender a honra da ciência moderna, encarando todo o Kamasutra, com prólogo e epílogo, e constatando com indisfarçada decepção que nada de novo havia na rede. Sempre as estagiárias de comunicação. Classe explorada, por todos os ângulos.
Mas, se a nota já era assustadora, esperem para ver a matéria toda. Toda não, retifico, só uma parte. No segundo ato desta verdadeira ópera de terror - e não sei se existe esta espécie do gênero operístico, mas, na falta, eu o crio - surge, na boca de cena, um Conde Drácula sociólogo, que solta o dó de peito ( a orquestra acompanhava em andante ), entoando a frase fatal: "Ao menos nessa fase inicial da internet, não se percebe a formação de um novo sujeito que rompa radicalmente com o mundo real". Fim da ária. Palmas. Sai o sociólogo de cena, puxando para si a longa capa escarlate, deixando-se por ela envolver. Êxtase total na platéia! Urros!
E me pergunto: como pode alguma coisa existir na internet e, ao mesmo tempo, não fazer parte do mundo real? A não ser que o mundo real deste sanguessuga operístico se resuma ao passeio público e imediações, nas horas mortas da noite. Ou então, o velho senhor da Transilvânia nos promete, em uma fase futura da rede, um sujeito que, entre outras façanhas, será capaz de chupar cana e assobiar ao mesmo tempo, ou existir e não existir concomitantemente.
Inicio o próximo parágrafo com o subtítulo da matéria: "Uma pornografia barata, porém interativa - o sexo na rede está longe de ser inovador; no fundo é chuva no molhado, num mundo igual ao de sempre". Incrível! . Quanto ao fato de ser este mundo igual ao de sempre, discordo. Muita informação deve ter sido perdida nos últimos tempos. Eis a prova irrefutável: três anos de pesquisa para descobrir que sexo é interativo. Talvez, daqui a mais três anos descubram ser também inter-passivo. Enquanto isso, prometo guardar segredo para não estragar a surpresa.
Até então a burrice mostrava tamanha intimidade com o mundo real que eu comecei a desconfiar ser ela uma velha habitante deste planeta, contribuinte em dia com o leão, e zelosa de suas obrigações de burra. "Mitologia, uma ova! Essa assombração é de verdade", pensei e concluí: "devo contar imediatamente ao meu colega agnóstico". Foi quando, ao telefone, lhe contei sobre a burrice. E lhe atropelei com mais essa, tirada ainda do primeiro parágrafo da matéria: "Para os pesquisadores, à medida que os participantes dos chats se relacionam com um ser invisível e estranho, o autoconhecimento é o fator que prevalece". O pobre coitado, a essa altura, já era um ex-agnóstico, fazendo questão de acreditar em boitatá e o diabo. O ex-agnóstico, portanto, objetou que, se os participantes não se conhecem, e só assim podem mostrar o seu, digamos assim, lado mais verdadeiro, o próximo passo deve ser a Galeria Alaska, num momento de coragem.
Segundo concluem os pesquisadores: "está faltando a tecnologia inventar um novo ser humano com homens e mulheres (sic) dotados de imaginários bem diferentes dos atuais". Ou seja, imaginam os pesquisadores, em momento de rara sensatez, que o que ainda está para ser imaginado é inimaginável, pelo menos por enquanto. Bela conclusão, seguida desta outra, não menos interessante: "A pesquisa derrubou o mito de que a internet seria o lugar ideal para as pessoas que fogem aos padrões estéticos convencionais". Convencionais de quem, cara pálida? Porque, se é verdade que foi convencionado em algum lugar que é muito normal o cidadão ficar se travestindo de mulher para ver se é mesmo homem, eu vou me mandar daqui. E se dentro em pouco resolvem dizer que é obrigatório?
Na verdade, o único mito que a pesquisa conseguiu derrubar foi o de que a burrice não existe. Portanto, ex-personagem de mitologia, a burrice foi promovida à vida real, com direito a salário dobrado e férias remuneradas.
Rio, 12/07/99