No. 105 - 13/04/02

Israel, os conservadores e a "sacrossanta" ordem estatal

"[David Brown] asks if Israel has a 'right to defend itself.' Sure they do, on their own dime. He complains about the suicide bombers—but if you invade someone else's land, steal their property, occupy it for 35 years, and then are faced with monstrous attacks on your own civilians even while you humiliate and ethnically cleanse their civilians every day of the week, don't be surprised if you get what Chalmers Johnson calls 'blowback.' Israel made its own bed—now, the Israelis must sleep in it."
(Justin Raimondo)

A questão da contínua agressão de Israel aos palestinos é uma daquelas que servem para distinguir os liberais dos conservadores.

A distinção, no caso, corre de acordo com as seguintes linhas gerais: liberais acreditam numa lei natural universal, que, sendo lei universal, se aplica a todos; conservadores são céticos com relação a tal possibilidade, e preferem defender as forças da ordem contra as forças da "desordem anárquica".

Era disso que eu falava semana passada, ao citar Vitoria, o grande escolástico espanhol, e sua concepção de que os direitos naturais antecediam quaisquer outros direitos. Para conservadores, em contraste, a manutenção do status quo antecede qualquer direito. Em síntese: liberais põem o direito antes da ordem, e vêem na ordem que pretende se impor através da violação dos direitos uma desordem; conservadores põem a ordem antes de qualquer direito, e vêem em qualquer tentativa de fazer prevalecer direitos fundamentais uma ameaça à ordem, às "instituições" e aos "valores estabelecidos".

É claro que essa distinção tem conseqüências políticas graves. É por causa dela que nunca se verá um conservador criticar a brutalidade policial; afinal, se policiais torturam um suspeito, ou atiram em outro pelas costas, eles estão apenas cumprindo seu papel de defensores da lei. Se alguém procura lembrar que suspeitos também têm direitos humanos, logo será taxado por esses conservadores, em seus histéricos sites e newsletters, de comunista, simpatizante de bandidos, subversivo, e uma enxurrada de insultos semelhantes.

Da mesma maneira, nunca se lerão críticas de conservadores às condições dos presídios brasileiros; presos, afinal, animais a ser mantidos sem nenhum direito de reclamar qualquer melhora em suas condições. Se alguém lembra que o que o sistema penal brasileiro prevê é pena de prisão, mas o que ele de fato impõe são penas de estupro homossexual, espancamento, tortura e morte, receberá com força redobrada a mencionada enxurrada de insultos.

No que diz respeito a figuras históricas, então, a sensibilidade dos conservadores é ainda mais delicada. Qualquer sugestão de revisionismo, qualquer divulgação de indícios de que, por exemplo, generais brasileiros possam ter cometido crimes de guerra na Guerra ao Paraguai, ou de que o tratamento de nossos ancenstrais portugueses a índios e negros não foi propriamente adequado a padrões civilizados, é imediatamanete tratado como uma traição à pátria, como uma ameaça subversiva ao que existe de mais sagrado e precioso.

E aqui temos uma outra característica do conservadorismo, que é uma conseqüência direta de seu ceticismo com relação aos direitos humanos e de sua paixão pela "ordem" (mas não pela lei): a identificação entre a nação e seus governantes. Assim, criticar a conduta do Exército brasileiro numa guerra não é criticar a conduta de determinados homens; é criticar a própria nação brasileira - é, pois, uma crítica "antibrasileira".

Se isso funciona dessa maneira na análise conservadora das questões diretamente relacionadas ao Brasil, funciona com furor redobrado em suas análises de questões internacionais. É, afinal, um pouco difícil sustentar que uma figura ridícula como Fernando Henrique Cardoso encarna de fato a "nação" brasileira, mas a distância no espaço parece tornar menos problemática a aplicação de uma idéia tão tola. Assim, em qualquer análise dos conservadores brasileiros a respeito da conduta americana nas guerras, podemos esperar que pululem as distinções de que os "neoconservadores" americanos tanto gostam, entre patriotas e anti-americanos, estes sendo aqueles que ousam sugerir que o governo americano não deveria matar estrangeiros inocentes.

Macaqueando esse nacionalismo belicista, muitos conservadores imaginam estar aderindo às correntes mais importantes do conservadorismo americano, quando na verdade estão apenas repetindo as bobagens dos trotskyistas que tomaram o movimento conservador americano a partir da década de 70, farsantes malignos como Norman Podhoretz e David Horowitz. Em contraste, não há críticos mais eloqüentes do imperialismo americano quanto os liberais que formavam a "antiga direita" americana, escritores como Garet Garrett, H. L. Mencken, Albert Jay Nock, John T. Flynn, Frank Chodorov e Harry Elmer Barnes. Mas, é claro, no conservadorismo brasileiro (que, como eu já disse várias vezes, não é pequeno à toa) ninguém nunca ouviu falar de nenhum deles.

No que diz respeito a Israel, pois, o que os conservadores brasileiros fazem é seguir as fórumulas dos "neoconservadores" americanos, e ver no Estado israelense o grande representante da paz, da grandeza, da democracia e da liberdade, cercado de palestinos "selvagens" e ditadores árabes malignos por todos os lados. Nesse sentido, qualquer ação de Ariel Sharon já estará justificada a priori, porque serão apenas ações das forças da ordem contra o "populacho" revoltoso.

Pouco importa, para essa análise, que Israel tenha sido fundado por terroristas repletos de ideais comunistas/agrários utópicos. Pouco importa que Israel tenha invadido as terras dos palestinos, tomado suas casas, expulsado a maior parte de seus habitantes e transformado os habitantes que restaram em cidadãos de segunda classe, a ser explorados, oprimidos e a ter suas casas derrubadas para dar lugar a "povoamentos" israelenses. Pouco importa que nenhum governo do mundo ocidental trate seus cidadãos com tanta brutalidade quanto Israel trata seus habitantes palestinos, como fica particularmante claro nos episódios de destruição das casas dos palestinos. Pouco importa que as propostas de um "estado palestino" sejam inteiramente fraudulentas, não apenas por restituir aos palestinos menos do que aquilo a que eles têm direito, como também por terem sido calculadas para ceder-lhes um território no qual qualquer vida independente é impossível. Pouco importam consideranções sobre direitos de propriedade e direito de auto-governo dos palestinos. Pouco importa que os palestinos sejam, nas palavras de Charley Reese, "as últimas vítimas do colonialismo racista, com toda a sua feiúra, brutalidade e duplicidade."

Nenhuma dessas preocupações - que são elementares para quem crê que palestinos são membros da raça humana e, como tais, têm determinados direitos - ocorre aos conservadores brasileiros, porque, para eles, a sacrossanta "ordem" estatal se sobrepõe aos direito individuais.

Se essas razões estão subentendidas em tudo o que eles escrevem sobre o assunto, é claro, no entanto, que poucos dentre eles têm a franqueza de explicitá-las, preferindo recorrer às histórias da propaganda israelense sobre como os palestinos ensinam seus filhos a odiar os israelenses. E aqui, mais uma vez, vale citar Charley Reese:

Uma das mentiras que Israel usa em sua corrente inesgotável de insultos aos palestinos é que as famílias ensinam suas crianças a odiar os israelenses. Nada pode ser mais distante da verdade. É o comportamento israelense que ensina as crianças a odiar os israelesenses. Um amigo militar relatou uma história de como membros da Força de Defesa Israelense operavam no Líbano. Eles entraram numa casa, destruíram-na, espancaram o pai na frente de sua esposa e seus filhos, e então abaixaram suas calças e defecaram na mesa de café, na frente da família. Você pensa que essas crianças, vendo a humilhação de seus pais, precisam ler um livro para odiar os israelenses? Até mesmo o militar americano voltou odiando os israelenses.

E o pai na Cisjordânia tentando levar sua filha a um hospital a apenas cinco milhas de distância. Sua criança morreu em seus braços uma hora depois, quando seu apêndice estourou. Você pensa que alguém precisa ensinar a esse pai a odiar os israelenses?

Reese conclui seu artigo com uma observação sobre a qual até mesmo os conservadores pragmáticos, a quem argumentos em favor da justiça não convencem, deveriam refletir - para notarem que o reconhecimento dos direitos dos palestinos também é uma questão de praticidade e que a política de Ariel Sharon, além de injusta e brutal, é também contraproducente:

Então o problema de Sharon não são alguns terroristas. O problema de Sharon é a população palestina inteira. Por mais que desejassem, os isralenses não podem matá-los a todos, e não podem espancá-los até que se submetam. Enquanto os palestinos não tiverem um estado, Israel não terá segurança.

 

 


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