No. 106 - 10/05/02
Le Pen e as perspectivas sombrias para o futuro
"Marches-tu sur ce sol qui bouge, mais tu as
Un autre chant que cette eau grise dans ton coeur,
Un autre espoir que ce départ que l'on assure,
Ces pas mornes, ce feu qui chancelle à l'avant."
(Yves Bonnefoy)
No dia anterior ao das eleições francesas, li no Globo uma matéria entusiasmada com a boa campanha de uma candidata trotskyista, apresentada como a terceira figura mais importante da eleição francesa, a representante da antiga esquerda. Ops, um primeiro parêntese: a esquerda nunca é "extrema"; ela pode ser "radical", "cheia de princípios", "saudosistas", mas nunca "extrema", porque, afinal, nunca se pode ser excessivamente esquerdista - pelo contrário, quanto mais esquerdista melhor.
Mas volto à matéria do Globo. Dizia o repórter que a heróica candidata trotskyista mostrava que existia um clamor popular pelo retorno da esquerda às suas origens, contra a esquerda "moderada", estilo Terceira Via, representada pelo ex-trotskyista Jospin. É claro que o repórter nunca seria capaz de adivinhar que, um dia depois, sua candidata do coração ficaria não em terceiro, mas em quarto lugar, e que a esquerda "moderada" seria derrotada não pela esquerda radical, mas pela "extrema direita". De qualquer maneira, a reportagem revela um sistema de dois pesos e duas medidas que já conhecemos de longa data: apesar de ter mais de 200 milhões de mortes nas costas, políticos comunistas são mostrados na imprensa como heróicos combatentes de românticas causas perdidas, enquanto candidatos um pouco à direita do establishment, mesmo que não diretamente ligados a partidos fascistas, são perigosas ameaças à democracia.
O problema é que, quando olhamos de perto os candidatos da esquerda, normalmente encontramos apologistas de Lênin, Fidel ou Mao; enquanto nos candidatos direitistas, normalmente encontramos apenas protecionistas antiquados, que em comum com os comunistas têm o fato de que certamente, se eleitos, provocariam a ruína econômica do país, mas que, ao contrário dos comunistas, não adotariam, como política, o extermínio de parte da população e não provocariam um banho de sangue.
Assim, temos a figura de Jean-Marie Le Pen. Inicialmente, preciso confessar que qualquer pessoa capaz de despertar tamanho ódio nas esquerdas internacionais conta com um pouco de minha simpatia. Para mim, é impossível conter uma certa satisfação ao ver a perplexidade e a decepção de esquerdistas de todos os tipos.
Em segundo lugar, é preciso destacar que algumas das propostas de Le Pen são de fato louváveis, especificamente seu horror ao monstrengo neocomunista criado pelos planejadores centrais da União Européia, sua intenção de abolir o imposto de renda (que é uma punição à produtividade) e o imposto sobre a herança (um dos principais fatores de desunião das famílias), de rever a carga horária trabalhista obrigatória criada pelo governo anterior (uma espécie de ócio compulsório), e de restringir a imigração.
Esta última é a questão mais delicada, mas ela se resolve lembrando o seguinte: se alguém entra na sua casa sem ser convidado, isso é invasão; expandindo-se este raciocínio, é fácil perceber que não existe um "direito de imigrar", porque a pessoa só tem direito de entrar onde é convidada. No imenso volume em que tem acontecido, a imigração na França equivale a uma invasão forçada do país por ondas de pessoas despreparadas para o trabalho e provenientes de outras culturas (especialmente de países árabes, que trazem, como agravante, sentimentos anti-semitas, que têm levado a ataques a sinagogas, como há anos não se via na França - mas este é um tema tabu para os adeptos da imigração irrestrita), sem nenhuma intenção de adaptar-se à cultura local. Não é "xenofobia" desejar preservar as tradições de um país limitando o ingresso nele de pessoas francamente hostis a essas tradições: é simples instinto de preservação.
Ademais, é preciso uma burrice fora do comum (como a de certos "libertários" esquerdistas americanos) para não perceber que a imigração irrestrita leva a uma expansão do welfare state e, portanto, é incentivada por governos esquerdistas para aumentar sua base eleitoral, criando um número maior de pessoas diretamente dependentes das benesses estatais.
E aqui chegamos ao problema com Le Pen: é que sua oposição à imigração se baseia exclusivamente no desejo de preservar a "França para os franceses", e não numa apreciação das desastrosas conseqüências políticas e econômicas da imigração. Isso porque Le Pen não rejeita o welfare state, nem pretende abolir ou reduzir o referido sistema de benesses estatais - ele só pretende restringi-lo aos franceses (resta, claro, explicar como ele pretende manter o Estado socialista francês e, ao mesmo tempo, cortar impostos, mas a máquina inflacionária serve para isso - pelo menos por algum tempo).
Pior: ele também pretende fechar os portos franceses a produtos estrangeiros e conferir subsídios aos agricultores e empresários franceses - políticas que, como Frédéric Bastiat, ilustre e infinitamente mais brilhante compatriota de Le Pen demonstrou há duzentos anos, prejudicam os consumidores, incentivam a ineficiência e a indolência, e ainda violam direitos elementares.
Ora, mas que tipo de direitista é esse, que apóia o welfare state e é contra o livre-mercado? Não foi, aliás, o nosso futuro presidente Lula, de impecáveis credenciais esquerdistas, que ano passado fez rasgados elogios ao protecionismo europeu e, especificamente, à política agrária francesa, com seu misto de protecionismo e subsídios?
Como essas classificações não significam muita coisa mesmo, talvez Le Pen seja mesmo um direitista; mas ele certamente não é um adepto do laissez-faire. Por que, então, tanto horror?
Certamente não pode ser por causa de seu suposto anti-semitismo (mesmo levando em conta que na França existe uma especial sensibilidade com relação a isso, em função de Vichy), porque Mitterrand, um ídolo da esquerda francesa, foi ativo e condecorado colaborador do regime de Pétain, enquanto Le Pen trabalhou para a resistência. E, ademais, como é que a mesma esquerda que apóia a imigração em massa de árabes anti-semitas pode rejeitar Le Pen por ser anti-semita? A explicação não satisfaz.
Também não satisfaz a referência ao suposto passado negro de Le Pen na Argélia, porque, como lembrou Janer Cristaldo:
"Le Pen é acusado de torturar na Argélia. Mas sobre ele não se tem notícia de envolvimento em episódio algum de tortura. Mitterrand, como ministro do Interior, teve plena consciência das torturas praticadas na Argélia - e hoje confessadas - pelos generais Massu e Aussaresses. E com elas foi conivente."
Não, Le Pen não é odiado pela esquerda por representar um passado negro da França, nem por representar uma autêntica ameaça ao seu precioso welfare state, mas porque mesmo não propondo uma mudança radical do sistema, ele se desvia do consenso estatista num aspecto - a adesão incondicional ao multiculturalismo.
Voltando a citar Janer Cristaldo, é certo que as esquerdas só respeitam a "sacrossanta" voz das urnas quando ela diz o que elas querem ouvir (como no caso do grande democrata Hugo Chávez):
"Chirac ganhará as eleições do segundo turno, com o apoio das esquerdas que o denunciavam como corrupto contumaz. As esquerdas ganharam a guerra semântica, costumo afirmar. Estas eleições na França deixam claro uma tendência esboçada desde a affaire Jörg Haider na Áustria e a vitória de Berlusconi na Itália. Democracia não é mais aquele regime em que os cidadãos, mediante eleições livres, escolhem como representantes quem lhes dá na veneta. Democracia, hoje, só pode eleger políticos de esquerda.
"Se os eleitos não são de esquerda, temos uma ameaça à democracia. Hoje, na Europa, quem não for de esquerda é racista, fascista ou nazista."
Mas não se trata de uma simples questão de "esquerda". Existe, de fato, uma campanha de deslegitimação de qualquer político que desvie um pouco da ortodoxia do establishment social-democrata, uma ortodoxia que une a centro-esquerda e a centro-direita, e que propiciou o seguinte comentário do teórico da direita francesa, Alain de Benoist (citado por Daniel McCarthy):
"75% dos franceses não viram praticamente nenhuma diferença entre os programas de Chirac e Jospin. 56% tinham pouco ou nenhum interesse na eleição presidencial. Seis entre dez franceses eram da opinião de que a distinção entre Direita e Esquerda é uma coisa do passado."
Esse tipo de dado levou Benoist a propor uma nova divisão do cenário político, entre o centro, dominado pelo consenso que mistura mercado ligeiramente livre e welfare state, e a periferia, onde estão nacionalistas como Le Pen (com os quais Benoist simpatiza, especialmente em relação a seu anticapitalismo, com a diferença de que Benoist e a "nova direita" que ele representa defendem uma moral neo-pagã, enquanto Le Pen é católico) e trotstkyistas como a outra candidata a que me referi no início - sendo que os comunistas da periferia são tolerados e até agasalhados pelas classes falantes, enquanto os direitistas são demonizados.
A emergência desse "centrão", que admite apenas pequenas divergências entre seus participantes e considera todas as alternativas como indignas do debate civilizado, é talvez o fato político mais significativo de nosso tempo. Nesse sentido, vale citar uma longa passagem do recente artigo de Daniel McCarthy sobre Le Pen, a esquerda e a direita:
"O colapso do comunismo soviético e o descrédito do socialismo à moda antiga forçaram os partidos esquerdistas ao redor do mundo a adotar novas plataformas e novas identidades, ao menos superficialmente. Mas e a Direita? Partidos "conservadores", do partido gaullista de Chirac aos Republicanos americanos, sofrem eles próprios de uma crise de identidade, cuja origem é sua antiga tendência de não 'conservar' nada além do welfare state.
"Há muito com que um conservador americano pode discordar na filosofia de Benoist, mas ele certamente está correto em enfatizar a diferença entre o 'centro' e a 'periferia'. O 'centro' é o próprio Estado, que assimilou a direita e a esquerda tradicionais em sua própria substância. Esse processo já havia começado antes do final da Guerra Fria, e tem acelerado desde então. Comparado ao triunfo da social-democracia, que aconteceu no curso de mais de sessenta anos, o colapso do comunismo tem significado ideológico apenas secundário.
"Hoje, entre os partidos principais no mundo semicivilizado, existe muito pouca diferença intelectual ou programática, mas isso não acontece porque o eixo Direita-Esquerda deixou de existir. Na verdade, a vitória da esquerda não-comunista no século XX foi tão absoluta a ponto de reduzir a estatura da verdadeira Direita a quase nada; ao status de uma 'periferia'."
Menos até do que uma periferia. Afinal, se uma verdadeira direita precisa estar comprometida com a liberdade e com o direito de propriedade, então ela simplesmente não tem representantes significativos no cenário internacional. Em excelente artigo sobre o movimento "paleoconservador" americano, que começou como uma ameaça ao "centrão" e foi arruinado pelas tendências nacionalistas, protecionistas e - por conseqüência - socialistas de Pat Buchanan, seu principal articulador, Lew Rockwell faz a seguinte observação sobre o cenário político contemporâneo:
"Na política internacional [americana], a tendência 'buchanista' está ressurgindo. George Bush abandonou o livre mercado em tudo exceto na retórica. Bush utiliza o Estado guerreiro para fins diferentes dos que Pat usaria (Pat odeia a China e os países em desenvolvimento, enquanto Bush odeia o mundo muçulmano), mas, independentemente disso, o Estado guerreiro em nome do interesse nacional está em marcha. Na Europa, figuras como Buchanan estão nas manchetes, com sua oferta de uma alternativa populista-protecionista-nacionalista ao igualitarismo esquerdista. Em que medida isso realmente é uma alternativa varia de acordo com o país. Onde estão as vozes em favor da paz e do livre mercado, em favor do comércio global mas contra a guerra global, em favor dos direitos de propriedade e contra o governo consolidado? Elas estão praticamente ausentes entre as figuras políticas viáveis."
É uma verdadeira tragédia que a alternativa ao consenso social-democrata surja de figuras como Le Pen. É uma verdadeira tragédia que o anticapitalismo, o protecionismo, o jingoísmo, o imperialismo e o desprezo aos direitos humanos venha a ser identificado com a direita, e que não haja nenhuma voz liberal a reclamar para si o papel de autêntica oposição ao establishment intervencionista.
Mantidos os traços atuais, não há muitos motivos para esperarmos um futuro de paz e prosperidade. Mas é preciso lembrar que políticos não são "líderes", mas meros seguidores - e que a mudança não depende da ação dos políticos, mas da cultura e das idéias que a inspiram. Especialmente quando não se defende propriamente um ideal político, mas a despolitização da sociedade - a grande proposta liberal.
Adendo:
O assassinato do político holandês Pim Fortuyn, que, embora tivesse idéias inteiramente diversas, era associado pela imprensa a Le Pen porque também recusava a invasão de seu país por imigrantes muçulmanos, por um membro de uma dessas inúmeras entidades terroristas de defesa dos animais, vem dar uma conotação ainda mais tenebrosa ao cenário descrito acima. É que agora já se começa a ultrapassar a linha que separa o banimento de seu adversário político do debate numa sociedade civilizada para a supressão física desse adversário. Nas palavras de Justin Raimondo:
Quem sabe que frases, apanhadas no éter da mídia, um maluco interpretará como uma licença para matar? Mas quando ele encontra um eco de sua própria raiva interior nas primeiras páginas de todos os jornais, convocando-o a cumprir seu dever - como é que ele pode recusar?