ALVARO VELLOSO DE CARVALHO

No. 11 - 26/05/00

O que entende o leitor pela seguinte frase: "Papa canoniza mexicanos perseguidos pela Igreja"?

Qualquer leitor entende que o Papa tornou oficialmente santos mexicanos que a Igreja perseguiu, certo? "Pela Igreja", nesse caso, será o agente da passiva. Esse é o entedimento intuitivo e natural.

Pois, pasmem, o que a frase quer dizer, no contexto em que foi dita, é que o Papa canonizou mexicanos que foram perseguidos pelo Governo mexicano maçônico por causa de sua adesão à Igreja. "Pela Igreja", portanto, é, na frase, adjunto adverbial causal.

É claro que é um recurso estilístico legítimo escrever, no meio de um texto sobre o assunto, que foram canonizados mexicanos perseguidos pela Igreja, querendo dizer que foram perseguidos por causa da Igreja; o recurso é legítimo porque o contexto esclarece suficientemente seu significado. Mas, e se a frase vem sozinha, como chamada para o texto?

Então, é óbvio que estamos diante de uma deturpação, ou produzida de caso pensado por alguém que quer enganar o leitor apressado, ou produzida por alguém especialmente inepto no uso da língua.

E foi sozinha que a frase apareceu no UOL, domingo passado (21/05).

Quem quer que acesse a página do UOL sabe que, na primeira página, há uma seção de notícias onde manchetes curtas introduzem links para as reportagens. A maioria das pessoas lê apenas essas manchetes, sem se preocupar em ler o conteúdo inteiro das reportagens.

Imaginem, então, os leitores desavisados que acessaram o site do UOL e viram essa frase lá. O raciocínio é imediato: como a Igreja, na mitologia midiática, vive de perseguir tiranicamente quem discorda dela, o leitor apressado logo deduz que o papa está se desculpando por isso e canonizando pessoas que sua Igreja perseguiu. Está pronto mais um raciocínio anti-cristão: a Igreja admitiu que cometeu injustiças graves - graves a ponto de aqueles que as sofreram serem santos!

Só que, na verdade, foi tudo ao contrário. O Papa finalmente está reconhecendo os inúmeros mártires da fé católica neste século, e o caso mexicano é um caso especialmente delicado e impressionante. Mas eis que o UOL vem e inverte tudo, com uma simples frase.

Uma vez eu ouvi o prof. Olavo de Carvalho contando sobre seus dias na redação de um jornal tipo "Notícias populares", quando começou no jornalismo. O dono do jornal, contou Olavo, era mestre em manchetes apelativas. Certa vez, pôs na manchete "cachorro machuca a moça", o que tem conotação sexual óbvia. Mas a matéria tratava apenas de um cachorro que tinha mordido uma menina.

Pois bem: agora, o site de notícias que se gaba de ser o maior da internet brasileira está praticando o mesmo expediente. Está usando as técnicas jornalísticas dos jornais populares da década de 60 (repito, não sei se por malícia ou por inépcia, mas se for por inépcia é muito pior). Eis o ponto a que desceu nossa imprensa.

E noto, só por diversão, que o UOL abriga o site que se auto-intitula a reserva moral - não, perdão, de moral eles não gostam - reserva ética da imprensa brasileira. Ora, o que pode ser menos ético do que uma distorção dessas?

Mas duvido que o sr. Alberto Dines tenha coragem de criticar o próprio UOL no seu "Observatório". Ele prefere lançar diatribes contra a Veja, que teve a ousadia de atacar uma causa sagrada - o MST, questiona até mesmo a informação dada pela revista do número de cartas que recebeu. Mas aquilo que é óbvio e está debaixo de seu nariz, ele prefere não ver. Até porque, criticar o cristianismo, de qualquer forma que seja, é sempre ético, e criticar a esquerda, também de qualquer forma que seja, é sempre falta de ética.

 

MUNDO ACADÊMICO

Aconteceu semana passada o vestibular da UERJ, cujo edital analisei em coluna anterior. Li cuidadosamente a prova de português.

A primeira pergunta que fica, para quem lê a prova, é se o vestibular foi feito para examinar o preparo do candidato para entrar na universidade, ou seu preparo para ler jornais e revistas.

Ora, ninguém, exceto na faculdade de jornalismo, vai ficar na universidade lendo jornais. O aluno vai entrar em contato com textos mais complexos, com argumentações mais detalhadas. Ademais, é bom que, para ingressar no mundo da cultura, ele tenha algum conhecimento da literatura da língua que fala, porque, afinal, é essa literatura que forma a língua.

Mas a prova ignora tudo isso. Os textos escolhidos são de uma banalidade impressionante. Vejam só: uma tirinha do Ziraldo, um artigo do Luís Fernando Veríssimo, uma reportagem do New York Times com a (aliás, hilária) troca de e-mails entre os candidatos à presidência americana, uma entrevista do Nouvel Observateur com um especialista em pirataria, uma matéria da Veja sobre comemorações indígenas paralelas às comemorações dos 500 anos do Brasil e um trecho de uma crônica de Nelson Rodrigues, este o único texto com valor literário.

O único texto um pouco mais sério é um trecho de um livro chamado Ética para amador, de um tal Fernando Savater. Mesmo assim, ficamos nos perguntando por que diabos escolher um autor tão obscuro e um texto tão insípido.

Não preciso me demorar sobre o caráter esquerdista da prova, porque é óbvio demais - o texto de Verissimo é, como todos os textos do Verissimo, um ataque ao Governo FHC, e a reportagem da Veja repete todos os chavões politicamente corretos (já discutidos aqui) sobre o descobrimento, a Nouvel Observateur é a revista da esquerda francesa. Mas isso, convenhamos, não é novidade nem surpresa nenhuma.

O que não pega bem são algumas questões totalmente absurdas e outras muito mal redigidas.

Por exemplo, uma das questões sobre a troca de e-mails entre Gore e Bush (para quem não sabe, Gore enviou a Bush um e-mail propondo que este concordasse com suas idéias sobre a reforma na legislação de financiamento de campanhas; Bush, fazendo alusão às inúmeras denúnicas de financiamento ilegal à campanha de Gore, respondeu que, antes de querer mudar a legislação, seria interessante cumprir a atual - e terminou seu e-mail com uma brilhante ironia: "Esta sua internet é mesmo uma bela invenção", referindo-se ao fato de Gore, num ataque de megalomania, ter dito que inventou a internet), a questão 10, diz que a mensagem de Gore, apesar de ter Bush como destinatário, foi tornada pública propositalmente. A questão pede que o aluno assinale a alternativa que melhor explique as razões pelas quais Gore desejou torná-la pública.

As três opções dadas como erradas pelo gabarito estão erradas mesmo ("provocar uma reação desastrada de Bush", "contribuir para a moralização pública através da internet", "acusar seu adversário do uso de dinheiro ilícito na campanha"). O problema é que a opção dada como certa ("convencer o eleitor do caráter desonesto do outro candidato") também está errada - aliás, é até mais absurda do que, por exemplo, a primeira alternativa.

É óbvio que essa é a intenção não do e-mail de Gore, mas do de Bush, que, afinal, faz alusões diretas a acusações sérias de desonestidade que pesam sobre Gore. A intenção do e-mail de Gore é convencer os eleitores de que ele, Gore, é quem tem uma proposta para moralizar o financiamento das campanhas eleitorais, enquanto Bush apenas quer manter o status quo. Isso não quer dizer que Gore queira convencer o eleitor de que Bush é desonesto - acusação, aliás, que ninguém nunca fez a Bush - e sim que Gore quer convencer o eleitor de que é mais preparado para o cargo. Essa incompreensão do sentido de um texto tão óbvio (e do contexto que o rodeia) é inaceitável em quem se propõe a avaliar a compreensão alheia.

O péssimo estilo de redação da prova aparece nas questões 13 e 22. Nesta, o enunciado começa dizendo: "A esposa do milionário convenceu o marido" - o marido em questão é o próprio milionário, razão pela qual a frase deveria ser "a esposa do milionário convenceu-o", ou "a esposa do milionário convenceu seu marido", ou, melhor de todas, "a esposa convenceu seu marido milionário", mas não essa frase infantil que o redator da prova escreveu.

O baixo nível cultural aparece não só na escolha dos textos, mas também nas opções da questão 21, que pede que o aluno compare um paradoxo do texto de Nelson Rodrigues com os versos da poesia brasileira transcritos nas 4 opções. E, na seleção da letra "a", encontramos dois versos de uma música de Cacaso. Agora, se nem quem elabora uma prova de vestibular sabe a diferença entre poesia e letra de música, as coisas estão mesmo pretas nas nossas letras.

Outra coisa incômoda na prova foi a insistência em adequar-se ao que aqueles que a elaboraram imaginam ser o mundo pós-moderno: o mundo da internet. Dos seis textos, dois se referiam diretamente à internet, e uma questão pedia que o aluno assinalasse a alternativa com a melhor explicação de por que a prova era um "hipertexto" - afirmação que, digamos, requer uma definição bastante ampla de hipertexto. Isso deu à prova um caráter meio caipira, meio deslumbrado, além de ajudar a entronizar na mente dos alunos a concepção equivocada que iguala educação a atualização.

Em tudo isso, porém, um ponto positivo se sobressai. Pelo menos três questões exigiram do aluno conhecimento de lógica elementar e argumentação elementar. A questão 5, depois de definir silogismo, pede que o aluno identifique o silogismo a que se referia o texto do Verissimo (intitulado "Silogismo"); a questão 15 pede a identificação do recurso usado pelo entrevistado, no texto do Nouvel Observateur, para responder a uma solicitação de explicação de fato; a questão 16, a mais interessante da prova, dá o esquema argumentativo usado pelo entrevistado em determinado momento (é o esquema de uma reductio ad absurdum, embora a prova não o diga), dividido em três partes, e pede que o aluno identifique, entre as quatro opções, o trecho da entrevista que representa um dos momentos do esquema.

Outras boas questões, essas à moda antiga, são a 17, que pede a explicação do termo "mais" no subtítulo da reportagem de Veja ("Histórias de um Brasil com mais de 500 anos"), e a 23, que exige do aluno a compreensão do objetivo do Nelson Rodrigues ao narrar um encontro entre um milionário brasileiro e uma menina miserável no interior da China.

É exatamente esse tipo de coisa que deve ser cobrada de quem pretende entrar numa universidade. Saber ler e saber argumentar são os requisitos mais rasteiros que se podem exigir de quem pretende ser universitário, mas, infelizmente, nem esses requisitos nosso público universitário atende - nem alunos, nem professores. Pelo contrário, eles são mestres na arte de ler o que não está escrito e só sabem argumentar de forma tosca. Basta ler qualquer jornalzinho universitário para perceber isso.

Aliás, não precisa nem ser jornalzinho universitário: leiam os jornais, e notem as idades dos articulistas e repórteres. Verão como, quanto mais jovens forem, mais desconexos serão seus textos, e pior o nível de sua linguagem. É esse tipo de gente que as universidades andam produzindo - analfabetos funcionais. E esse analfabetismo funcional começa num vestibular mal elaborado e de proposta absurda.

 

DESINFORMATZIA

Eu tenho ainda um outro desafio ao tão corajoso e "ético" Alberto Dines. Que tal noticiar o seguinte:

O "Estadão" publicou, dia 17/05, mais uma excelente matéria de Carlos Soulié Amaral sobre o MST; ele dizia que essa história de o ministro Jungmann dizer que vai cortar o financiamento da reforma agrária, depois das denúncias de que o dinheiro estava sendo desviado pelo MST para a ação política, é mero jogo de cena, inclusive porque foi Jungmann que pôs o MST no comando da reforma agrária.

Pois bem, no último parágrafo publicado, Soulié citava uma declaração do fazendeiro Carlos Rochelle:

" 'Como grande marqueteiro que é, Jungmann dá falsas marteladas no MST para acalmar a opinião pública e obter mais verbas para seu ministério', diz Carlos Rochelle Júnior, que tem sua fazenda invadida desde 1998, em Itaquiraí (MS). 'O ministro Jungmann faz também afagos ora nos fazendeiros ora nos sem-terra e assim vai levando seu cargo', finaliza Rochelle."

Mas o original do artigo não terminava assim. Havia um outro parágrafo, que foi censurado pelo jornal, e que continuava o parágrafo acima dizendo o seguinte:

"Dias atrás, ele (Carlos Rochelle Junior) participou de um grande jantar em que o homenageado foi aplaudido de pé por dez minutos ao afirmar: 'Se a baderna continuar, estamos prontos para restabelecer a ordem'. O homenageado era o general Licinio Nunes de Miranda Filho, Comandante Militar do Sudeste."

Não me perguntem por que diabos o Estadão censurou esse parágrafo - que era importante porque mostra que a situação pode mesmo se complicar no Brasil, e que não haverá apenas uma facção lutando. Provavelmente, o jornal não quis dar a impressão de que apoiaria uma reação militar. Mas é óbvio que o parágrafo não apóia essa reação, apenas informa os leitores de que ela poderá ocorrer.

Mas tratar desse assunto virou tabu na imprensa e, enquanto nos meios militares a questão parece ser discutida abertamente, o público em geral está sendo mantido na ignorância.

E aí, seu Alberto Dines, o senhor terá peito para tratar do tema?

Ainda no tópico MST, alguém aí leu a matéria do Jornal do Brasil com o Stédile? Se não leram, leiam - é um exemplo de como não se faz jornalismo.

Os entrevistadores eram todos figurinhas carimbadas no JB - Cristina Konder (diretora de conteúdo do site, que é péssimo, como todos que já o acessaram sabem), Maurício Dias (editor chefe), Fritz Utzeri (diretor de redação), e Paulo Vasconcelos (editor de política).

Mesmo assim, esses "talentos" reuinidos não conseguiram fazer uma única pergunta interessante, e deixaram a cara de pau do Stédile rolar solta.

Ora, entrevista que não contesta, que não instiga o entrevistado, não tem graça nenhuma. Vira propaganda, vira auto-promoção. E todas as perguntas feitas a Stédile parece que tiveram justamente esse propósito: permitir o showzinho particular do líder comunista. O tempo todo, os entrevistadores levantaram a bola para Stédile cortar.

Vou dar o exemplo mais lindo. A primeira pergunta de Fritz Utzeri: "Vocês, por exemplo, estão fazendo hoje assentamentos. Em um certo sentido, eu vejo que o MST favorece a expansão da pequena e média propriedade rural, no sentido de deixar no campo milhões de pessoas, que sem isso acabarão inchando mais as cidades. Qual o modelo rural e agrícola que prevalece no Brasil e em que medida isso nos favorece ou nos leva para um impasse ainda maior?"

Preciso dizer que isso foi a senha perfeita para Stédile atacar o governo e repetir o blá-blá-blá da alta concentração de terras?

Dou outro exemplo. A primeira pergunta de Paulo Vasconcelos: "O governo recrudesceu a pressão sobre o MST. O presidente tem cansado de repetir "basta à baderna". Qual o verdadeiro poder de fogo do MST de se tornar o que tentam vender por aí de que o MST pode se tornar uma guerrilha rural?"

A pergunta já dirige a resposta, já deixa subentendido que todas as denúncias de radicalização do MST são absurdas.

Ao longo de toda a matéria, parece que Stédile é um sábio intocável, e que a função dos jornalistas é insuflá-lo e permitir que ele repita seu discurso de sempre.

 

NA REDE

Se você ainda não tem Real Player, já passa da hora de ter. O download é rápido e indolor, ninguém precisa mesmo da versão "plus", basta pegar a versão gratuita, e fazendo-o você passa a poder ver e ouvir os recursos multimídia de diversos sites, inclusive o relatório diário de notícias da EWTN, da ABC, da CNN, da NPR, e até da brasileira CBN. Você vai poder até ouvir ao vivo o polêmico talk show de Rush Limbaugh, e, neste site, ouvir as vozes de Ortega y Gasset e Julián Marias.

Mas nada disso, claro, se compara a poder ouvir as vozes de "O Indivíduo", que, a partir desta semana, com minha participação, passa a contar com comentários orais.

Eu sempre quis incluir esse tipo de comentários neste site, porque eles permitem uma expressividade maior e porque eles atingem o público que não tem paciência para ler artigos compridos. É claro que meus comentários orais serão independentes do conteúdo da coluna, até porque não teria graça nenhuma falar o que já escrevi.

Serão comentários breves (entre 2 e 5 minutos), feitos naturalmente, sem nenhum texto preparado (portanto, sem o mesmo rigor dos artigos), e provavelmente em periodicidade maior que a semanal - já que, afinal, são mais fáceis de fazer.

Comecei, esta semana, com um comentário intitulado "Palpiteiros do 'Globo'", sobre Mauro Rasi e Arnaldo Jabor.

Portanto, se você ainda não o tem, não deixe de baixar o Real Player, seja na versão 7.0 final, seja na 8.0 beta (que não testei). E depois venha ouvir "O Indivíduo".

Engraçadíssimo o artigo de Rip Rense no WorldNetDaily relatando seus "Than Satisfying Encounters With Humanity", encontros menos do que satisfatórios com a humanidade. Todos nós já passamos por situações absurdas como as que ele descreve, em que ficamos à mercê da burrice alheia.

Mais um motivo para gostar de Clint Eastwood (como se seus filmes já não bastassem): o ator foi ao Congresso americano depor contra o "American with Desabilities Act".

Essa lei, feita com a intenção de proteger os deficientes físicos, virou a maior fonte de renda de advogados inescrupulosos nos Estados Unidos.

Como ela protege os deficientes contra discriminações, deduziu-se daí que eles eram intocáveis - e surgiram coisas como um motorista de caminhão processando a empresa que não quis contratá-lo porque ele era cego de um olho.

Lew Rockwell tinha comentado a lei numa coluna de algum tempo atrás, e Debbie Schlussel contou a história de Clint Eastwood no "Jewish World Review".

Fidel Castro, ao que parece, tem um grande amigo na ONU: o sr. Maurice Strong, que com alguma freqüência vem ao Brasil dar palpite em tudo, se auto-proclama socialista e é um devoto de Gaia, a Mãe Terra.

Strong é conselheiro especial para o secretário-geral da ONU (um dos homens mais poderosos do mundo), e está cotado para assumir o cargo. Conheça mais sobre este senhor nesta matéria do WND.

 

OS IDIOTAS

"Atrás do trio elétrico também vai quem já morreu." - Frase de capa de uma revista espírita, com uma foto de Caetano Veloso. Grotesco.

"Governos neoliberais, talvez sem se darem conta, vêm implantando um novo modelo de democracia que está privilegiando as classes mais favorecidas em detrimento das menos favorecidas." - João P. S. Costa. Brilhante, caro João; você é mesmo uma mente muito original.

"Esta vai ser uma eleição interessante, eu acho. Vai ser uma eleição na qual democratas tenderão a votar nos democratas, republicanos tenderão a votar nos republicanos e eu acho que agora ainda é realmente muito cedo para dizer o que esses independentes vão fazer." - Bob Schieffer, analista político da CBS, um homem de QI altíssimo, como se pode ver. E que ninguém se surpreenda: Newton Carlos fez uma longa carreira (coroada com a sua presença no Correio da Cidadania!) como analista internacional na imprensa brasileira fazendo "análises" desse mesmo tipo.

"A retórica da Marcha do Milhão de Mães desfere um golpe no plexo solar psicológico do movimento pró-armas, a aliança entre os sentimentos pró-armas e anti-aborto. Controle reprodutivo e falta de controle de armas são metades inseparáveis do que as feministas já chamaram de 'rede de proteção masculina': Se as mulheres não têm controle sobre seus úteros, então elas são indefesas e dependentes da proteção dos homens. Mas se as mulheres podem fazer suas próprias escolhas, elas também não precisam mais da guarda paterna. É por isso que a defesa da posse de armas e a campanha anti-abortista vão sempre juntas: uma requer a outra." - Susan Faludi, uma das principais líderes feministas norte-americanas. Com essa lógica tão peculiar, essa moça deve ter dificuldades em somar dois mais dois.

 

ARTIGO DA SEMANA

É difícil criticar a pornografia sem parecer um moralista insuportável, sem recorrer a argumentos tirados da tradição puritana. Justamente por isso, os críticos da pornografia podem ser ridicularizados por seus praticantes e defensores.

Mas o último artigo de Roger Scruton no Daily Telegraph é uma brilhante exceção a essa regra.

Scruton está discutindo um assunto que para nós, brasileiros, parece meio absurdo, mas é preciso descontar as peculiaridades britânicas do caso e aproveitar os argumentos usados por ele.

O caso é que a High Court britânica acaba de permitir a venda de vídeos contendo cenas de sexo explícito. Essa decisão, diz Scruton, "sugere que os últimos vestígios de decência estão finalmente sendo expulsos da lei."

Como o Brasil nunca teve vestígio nenhum, esse é o tipo de problema que nunca é discutido por aqui, exceto quando algum político toma alguma medida que causa estranheza, como aquela tomada por César Maia quando prefeito do Rio, exigindo que os vídeos pornográficos nas locadoras ou fossem expostos em local à parte ou tivessem suas capas cobertas, e que as revistas pornográficas nas bancas fossem cobertas com tarjas pretas pelos jornaleiros. A medida, é claro, é boa, mas só é cumprida por poucas locadoras e pouquíssimas bancas de jornais.

O principal argumento usado na Inglaterra pelos oponentes da decisão da High Court é que a pornografia corrompe quem a vê. Esse argumento, diz Scruton, está equivocado:

"Este teste só procura obscenidade nos efeitos de uma coisa, e não na coisa em si mesma. (...)

"O fato é que o desejo de assistir a cenas explícitas de luxúria carnal é depravado em si mesmo. Não é que vídeos explícitos tenham uma tendência a corromper: eles são corruptos. Na esfera sexual, é nisto que a corrupção consiste - na exibição de apetite sexual divorciado das relações pessoais que o redimem. Justificar a pornografia com base no fato de que ela não torna as pessoas piores do que já são é como justificar o combate de gladiadores porque ele não torna quem lhe assiste assassino. O que havia de errado com o circo romano era precisamente que ele excitava as pessoas a assistir a ele. A mesma coisa é verdadeira a respeito da pornografia."

E ele continua, tentando distinguir a arte erótica da simples pornografia, distinção, que, diz ele, como toda distinção intuitivamente óbvia, é difícil de explicar. Nessa explicação, ele chega ao ponto crucial de sua crítica à pornografia:

"Uma obra de arte erótica como a Maya Desnuda, de Goya, não é obscena. O modelo de Goya não é mostrado como um corpo feminino oferecendo seus favores num estado de desejo impessoal. Ela é mostrada como uma pessoa incarnada, que poderia oferecer seus favores, mas que deve ser abordada com o devido respeito. Imaginar seus abraços é também imaginar seu amor. Não há nada doente nisso, assim como não há nada doente em imaginar o amor entre Romeu e Julieta.

"O propósito da arte erótica não é despertar luxúria impessoal, mas levar-nos a simpatizar com uma paixão sexual que é dirigida de uma pessoa a outra, e redimida pela relação entre elas. Claro, se você pensa que não há nada em jogo nas nossas relações sexuais além do prazer, e que tudo que acontece entre adultos é moralmente aceitável, então você não verá nada de errado com a pornografia.

"Mas se você pensa dessa maneira, terá dificuldades em entender o enorme valor que as pessoas depositaram no amor sexual, o papel central que ele desempenhou em suas vidas, ou o temor e alarme com que elas contemplam sua dessacralização. Você não conseguirá entender os tormentos do ciúme, a alegria do amor correspondido, ou os sacrifícios feitos em nome da fidelidade. Você terá dificuldades em explicar por que o estupro é um crime mais sério do que o furto, por que a pedofilia é má, por que o assédio sexual é mais que apenas um incômodo, e por que a prostituição é degradante. Você não terá percebido o fato crucial sobre o sexo, que é que ele não é apenas uma função animal, mas uma escolha existencial, uma escolha que envolve a liberdade, a personalidade e os ideais morais de quem embarca nela.

"Nós queremos que as crianças se mantenham distantes da obscenidade e da luxúria dos adultos porque acreditamos que elas não estão prontas para o sexo - ainda que elas sejam perfeitamente capazes de praticá-lo. Esse conceito de 'preparo' mostra que nós não aceitamos a visão que a indústria pornográfica deseja nos impor, a visão de que sexo não é nada mais sério que cócegas. Ao contrário, sabemos que é a coisa mais séria que fazemos, aquela que exige mais de nossas emoções. Sexo prematuro é sexo imaturo; e sexo imaturo é o que a pornografia oferece - sexo sem a restrição do amor adulto. E depois que as pessoas se habituam ao sexo imaturo, elas permanecem imaturas. A capacidade para o amor é morta nelas, e com ela a esperança de um consolo verdadeiro e duradouro.

"Quando o sexo é desmoralizado - como é desmoralizado pela pornografia - ele deixa de ser a força impessoal em torno da qual nossas forças vitais se congregam. Pessoas que praticam o sexo dessa maneira ficam, portanto, entrando e saindo de relacionamentos, enquanto permanecem num estado de solidão interior. Você pode fazê-lo, é claro, apenas se você for sexualmente atraente. Para a maioria dos viciados em pornografia, as cenas nas quais eles se deleitam lhes fornecem o substituto para a aventura sexual, e fazem que eles vivam numa condição de fantasia onanística, com sua fonte mais importante de sentimentos generosos voltada para si mesma e atrofiada."

Ele continua citando o exemplo americano, em que as relações entre homens e mulheres passaram a ser distantes e dominadas pelo medo, depois que a sexualidade foi transformada em produto de consumo.

Essa seriedade do sexo - seriedade que é destruída pela pornografia, ao mostrar o sexo descontextualizado de uma relação amorosa específica - esse esforço emocional que ele exige, dentro de uma relação, é também o tema principal do último filme de Stanley Kubrick, Eyes Wide Shut, certamente um dos melhores filmes da década.