ALVARO VELLOSO DE CARVALHO

No. 12 - 02/06/00

Na mitologia midiática e, conseqüentemente, na imaginação contemporânea, a Igreja Católica e seus membros ocupam um lugar destacado na categoria dos "opressores". A Igreja, diz o consenso geral, é detentora de grande poder, influencia dos governos do mundo todo e cria repressões de todos os tipos para os cidadãos, numa postura anacrônica e ultrapassada, já que a década de 60 deveria ter libertado a todos de qualquer tipo de opressão.

Esse mito, como praticamente todos os mitos midiáticos, é mentiroso. Aliás, não só é mentiroso, como perverso. Infelizmente, ao pedir desculpas por erros que não cometeu, o Papa João Paulo II nada mais faz do que reforçá-lo e dar mais munição aos inimigos da Igreja que estão interessados em propagá-lo.

A verdade é que não só a Igreja não tem influência praticamente nenhuma nos rumos do mundo contemporâneo, como foi a instituição mais atacada e perseguida nos últimos duzentos anos.

Nenhum outro grupo étnico ou religioso sofreu tantos martírios quanto os católicos, ou como os cristãos de modo geral, no último século. Esse é o "holocausto cristão", nunca contabilizado, nunca notado, nunca lamentado - enquanto, pelo holocausto judeu, chaga-se ao ponto de culpar a humanidade inteira.

Estão errados os judeus em culpar a humanidade inteira pelo Holocausto? Claro que sim, porque isso atenta contra a regra elementar da responsabilidade individual. Mas estão errados em chorar seus mortos, em lembrar seus sofrimentos, em insistir em que não esqueçamos as atrocidades que sofreram? Claro que não.

Pelo contrário: estão errados, sim, os cristãos, que também acreditam na mentira de que fazem parte do poder, e nunca choram seus mártires, nunca lembram as perseguições que seus irmãos de fé sofreram. Não são os judeus que têm de parar de lembrar o seu holocausto: são os cristãos que têm de começar a lembrar que também sofreram um holocausto, e de proporções ainda maiores do que o holocausto judeu.

Os mártires são muitos, e em diversos países: Rússia, Ucrânia, Espanha, Alemanha, Polônia, Romênia, Cuba, México, Vietnã...

Muitos passaram por torturas terríveis e muitos foram forçados a blasfemar, antes de ser assassinados.

É verdade que João Paulo II tem feito esforços para lembrar esses mártires. Várias foram as canonizações - sempre ignoradas pela mídia, ou disfarçadas, através de técnicas sujas como as utilizadas pelo UOL e noticiadas na minha coluna passada.

E não poderia ser diferente, já que esse papa é tão devoto de Fátima. Afinal, o trecho do terceiro segredo que o Vaticano revelou enfatiza justamente as perseguições e martírios que a Igreja sofreria no século XX (atenção: este é o ponto central do trecho do segredo que foi revelado, e não o atentado contra o papa, como quem quer que tenha lido o discurso do cardeal Sodano notou).

Outro passo importante para lembrar esses heróis da fé é a publicação do livro de Robert Royal, Catholic Martyrs of the Twentieth Century, noticiada por Joseph Sobran em coluna recente. Também os livros do pastor Richard Wurmbrand (Marx and Satan, Tortured for Christ) servem para avivar essa memória, mas o mainstream católico permanece ensurdecedoramente silencioso, incapaz de chamar a atenção para o fato, aliás já avisado pelo Cristo, de que a Igreja e o mundo continuam inimigos mortais.

 

SÉTIMA ARTE

O que vai no mais fundo do coração humano? Qual é o seu desejo mais profundo, aquilo que você realmente quer?

Essas perguntas podem parecer assustadoras. Preferimos fugir delas, mascarar nossos desejos e nossas intenções para nós mesmos. Preferimos mentir e nos enganar, preferimos achar que somos lindos e maravilhosos a dar a essas perguntas respostas francas.

Fugimos da constatação do mal existente em nossos corações, da nossa própria podridão moral, da nossa própria fragilidade - e, quanto mais denunciamos os outros, quanto mais buscamos defeitos alheios para criticar, mais esquecemos de olhar para dentro e confrontamos nossa própria imperfeição.

Ignoramos, em geral, que o princípio do bem, o princípio do aperfeiçoamento, é reconhecermos o mal que existe em nós e tentarmos transmutá-lo em bem. É tentarmos transmutar o vício em virtude.

Poucas vezes o cinema mostrou esses temas de forma tão sublime quanto em Stalker, um dos grandes filmes do cineasta russo Andrei Tarkovski.

Nesse filme, um sujeito - um stalker - guia duas pessoas, um escritor e um cientista, no caminho para uma máquina mágica que realizaria imediatamente o desejo de quem entrasse na sala onde ela estava. Vale a pena ler o que diz a respeito o próprio Tarkovski, no seu belo livro Esculpindo o tempo (editado em português pela Martins Fontes):

"Permitam-me lembrar ao leitor que quando os personagens do filme empreendem sua viagem rumo à Zona, seu destino é uma determinada sala na qual, segundo dizem, o destino mais íntimo de cada um será realizado. E enquanto o Escritor e o Cineasta, conduzidos pelo Stalker, estão fazendo seu perigoso percurso pelo estranho território da Zona, seu guia conta-lhes em determinado ponto uma história verdadeira, ou talvez uma lenda, de um outro Stalker, apelidado Diko-óbraz. Ele havia se dirigido ao lugar secreto para pedir que o irmão, assassinado por sua culpa, voltasse à vida. Contudo, quando Diko-óbraz voltou para casa, descobriu que havia se tornado imensamente rico. A Zona tinha atendido o que era, na verdade, seu mais profundo desejo, não o desejo que ele queria pensar que lhe era o mais precioso. E Diko-óbraz enforcou-se.

"Desse modo, os dois homens atingiram seu objetivo. Haviam passado por muita coisa, refletindo sobre si mesmos, reavaliando a si mesmos [ao longo de todo o filme, enquanto tentam chegar à Zona, os personagens se colocam sérias questões morais e reavaliam suas vidas - A.V. de C.]; e não têm a coragem de ultrapassar a soleira da sala que lutaram para alcançar com o risco da própria vida. Eles se dão conta de que são imperfeitos no mais profundo e trágico nível de consciência. Conseguiram força para olhar para dentro de si mesmos - e ficaram horrorizados; mas, no final, falta-lhes a força espiritual para acreditar em si mesmos."

Eu diria um pouco mais: não lhes falta a força espiritual apenas para acreditar em si mesmos, mas para acreditar que o vazio moral pode ser preenchido pelas virtudes, para acreditar que é possível mudar, que é possível melhorar a conduta e é possível vencer o mal do próprio coração.

Com a confusão da vida moderna, com a devassidão moral imperante, tornamo-nos cínicos e céticos ao extremo; passamos a duvidar da santidade, da virtude, da força do Espírito. Qualquer exemplo, por mais singelo, de fortaleza espiritual nos parece estratosférico, quase inconcebível - exatamente por isso, nos deixamos enganar por pseudo-santos, tipo Gandhi ou Betinho, ao mesmo tempo que procuramos reduzir os santos ao nível de nossa própria mediocridade, como com as explicações pseudo-científicas da vida de Santa Joana D'Arc e as baboseiras psicológicas que tentam explicar a mística de Santa Teresa D'Ávila e São João da Cruz (para ficar apenas nos exemplos mais óbvios).

Tarkovski não deixa seus personagens imunes ao contato com a virtude. Como ele mesmo diz:

"A chegada da mulher do Stalker no bar em que descansam coloca o Escritor e o Cientista diante de um fenômeno enigmático e incompreensível para eles. Eles têm diante de si uma mulher que passou por sofrimentos inimagináveis por causa do marido, com o qual teve um filho doente; entretanto, ela continua a amá-lo com a mesma devoção desprendida e irracional da sua juventude. Seu amor e sua devoção representam aquele milagre final que pode ser contraposto à descrença, ao cinismo e ao vazio moral que envenenam o mundo moderno, do qual tanto o Escritor quanto o Cientista são vítimas."

O ato de devoção, a permanência apesar da dor - eis a contrapartida que o cineasta apresenta para o cinismo de seus personagens. Este é um dos raros momentos em que o cinema é posto, com maestria técnica, a serviço do bem e da virtude, em que a beleza de um filme não é vão apelo sentimental para fazer moçoilas bobinhas chorar, mas visa a produzir na alma o reconhecimento de que o bem é possível e desejável.

 

POLITICAGENS

Não é incrível a cara de pau com que a esquerda vem, agora, fazer ares de pobre coitada, e denunciar a "operação Condor"?

Por mais que discordemos de certos métodos utilizados, creio ser dever dos brasileiros agradecer aos militares por terem impedido que os comunistas chegassem ao poder aqui. A mesmíssima coisa vale para o povo chileno, o povo paraguaio, o povo argentino. Mas nós, brasileiros, tivemos muito mais sorte, porque tivemos um regime muito mais brando que os demais, e tivemos uma transição tranqüila para uma democracia razoavelmente estável (apesar do risco representado pelo MST).

Muito pior teria sido, se deixassem, aqui no Brasil, que acontecesse o conflito entre comunistas e as milícias fascistas, ambos armados até os dentes nas vésperas de 64. Muito pior teria sido, no Chile, se Pinochet não tivesse intervindo e se Allende tivesse continuado no seu desejo de transformar o Chile em Cuba.

Os militares latino-americanos, reunidos ou não, com operação Condor ou não, tinham uma tarefa nas mãos, e a executaram, alguns bem, outros mal - os militares brasileiros, bem, com certeza.

Pode ser, repito, que, hoje, discordemos de seus métodos. Mas é fácil discordar quando tanto tempo se passou e quando mal conseguimos imaginar o peso da ameaça comunista da época.

É muito fácil esquecer os crimes do comunismo, esquecer que o comunismo foi a coisa mais mortífera que já aconteceu à humanidade, e condenar aqueles que lutaram contra sua disseminação. Mas essa condenação esquece que, se tivessem chegado ao poder, os militantes comunistas fariam muito pior (ponto lembrado por Janer Cristaldo em excelente artigo). E esquecem que os militares contaram, à época, com maciço apoio popular. E, no caso do Chile, com o apoio inclusive dos políticos socialistas moderados (leia este artigo de Charles Morse).

 

NA REDE

Pouca coisa interessante na rede esta semana, ao menos nos sites que costumo freqüentar. A semana foi parca em assuntos, pouco movimentada, e os colunistas não pareceram muito inspirados.

A grande notícia, na verdade, é o lançamento do extraordinário site do Millôr no UOL. Imperdível.

Mesmo assim, destaco, como curiosidade, o artigo de Timothy Noah, na Slate Magazine, embarcando numa teoria da conspiração a respeito do filme Mission Impossible 2.

Bom também o artigo de Walter Williams elogiando a Suprema Corte americana por decisões que negaram uma possível redução do federalismo, em dois casos em que uma regra genérica enunciada na Constituição poderia dar margem a interpretações absurdas. Aliás, observem bem a questão que tanto perturbou as feministas (também tratada por Wendy McElroy) e verão como é incrível que a decisão tenha sido por apertados 5 a 4.

Vale a pena ler também o artigo de David Horowitz com as dez razões pelas quais a idéia de que os brancos deveriam pagar uma reparação pela escravidão é absurda e racista. Mas a melhor coisa que eu li a respeito foi o que disse o Lew Rockwell: se, ao receber a reparação, eles ao menos parassem de reclamar e todos pudessem seguir suas vidas, sem affirmative action e sem policiamento politicamente correto, até que valeria a pena pagar a reparação.

 

DESINFORMATZIA

Eu, que estou sempre reclamando da imprensa brasileira, até que agora encontrei motivos para elogiar O Globo. Num quadro de colunistas infestado de figuras ou patéticas, como Leandro Konder, Luiz Paulo Horta e Hildegard Angel, ou nulas, como Veríssimo, Mauro Rasi e Artur Dapieve, ou muito chatas, como Afonso Romano Sant'ana e Zuenir Ventura, a inclusão de Olavo de Carvalho é como um oásis no meio do deserto. Aliás, O Globo passa a ter, agora, os dois melhores colunistas da imprensa brasileira: o Olavo e o Agamenon Mendes Pedreira. Saudações a quem quer que tenha tomado essa corajosa decisão editorial.

Na internet, os artigos poderão ser lidos ou na própria página do Olavo, ou na página do Globo (que é de baixa qualidade e exige cadastro - mas este é gratuito).

Mas a coisa mais impressionante que saiu no Globo essa semana foi o artigo de Elio Gaspari intitulado "Precisa-se de uma direita positiva". Impressionante porque isso é o que vem dizendo, há muito, o próprio prof. Olavo de Carvalho (e tem sido execrado por isso), e é o que tenho eu também ecoado por aqui: que não é possível que a democracia sobreviva sem que exista algum grupo oposto à esquerda, sem que exista uma direita verdadeira, com valores de uma direita verdadeira, já que os tucanos estão apenas fazendo papel de direita, mas todos sabem que são de esquerda.

Gaspari não chega a ser tão claro. Ele chama a direita dos tucanos e do PFL de "direita negativa", e pede que exista uma "direita positiva". Mas ele diz com todas as letras: "É preciso que apareça uma forma de pensamento conservador nacional. Ou ele aparece, ou a balança política brasileira perderá o equilíbrio". E caracteriza a "direita positiva" assim: "Direita positiva é aquela que está estabelecida há muito tempo. Nunca foi de esquerda e não gosta de convertidos. Ganha dinheiro produzindo alguma coisa que possa ser embrulhada e desconfia dos lucros de papel. É nacionalista e tem algum tipo de compromisso social. Talvez nem isso tenha, mas pelo menos não diz a desempregado que ele não consegue trabalho porque é cretino. Não tem apartamento em Nova Iorque, porque não o teve na moda anterior, em Paris. Quer andar na rua, como antigamente."

Essa descrição tem algo de nonsense e muito de caricatural, mas ao menos sinaliza na direção do conservadorismo nacionalista (no sentido cultural), que poderia vir associado, por que não?, a um liberalismo econômico, exatamente como vários setores da direita americana. É esse tipo de peso que falta para equilibrar a balança política brasileira.

Gaspari termina o artigo dizendo que a direita positiva teria duas virtudes: "A primeira seria seu afastamento desse sorvete derretido que é hoje a aliança tucano-pefelê. A segunda seria o restabelecimento do intresse nacional como um ponto de referência no debate político."

A primeira "virtude" não chega a ser virtude: essa tal aliança não é uma direita verdadeira, mas é uma direita apenas do ponto de vista econômico (mesmo assim, não muito), e com aspectos altamente intervencionistas e esquerdistas.

Mas alguém que restabeleça o interesse nacional como ponto de referência no debate político, cada vez mais dominado por picuinhas irrelevantes, é uma necessidade urgente do país.

 

FÓTONS

"Creio que tenho o dever de estimular a reflexão sobre o que é fundamentalmente humano e eterno em cada alma individual, e que, no mais das vezes, é ignorado pelas pessoas, embora elas tenham o destino em suas mãos. Elas estão sempre muito ocupadas, correndo atrás de fantasmas e reverenciando seus ídolos. No final das contas, tudo pode ser reduzido a um único e simples elemento, que é tudo com que alguém pode contar durante a sua existência: a capacidade de amar. Esse elemento pode germinar e crescer no interior da alma, até tornar-se o fator supremo que determina o significado da vida de uma pessoa. Minha função é fazer com que todos os que vêem meus filmes tenham consciência da sua necessidade de amar e de oferecer seu amor, e que tenham consciência de que a beleza os está convocando." - Andrei Tarkovski

"A absurdidade de mães de vítimas de crimes exigindo que os meios de auto-defesa sejam retirados dos cidadãos, assim criando mais vítimas de crime em potencial, é bizarra, e seria risível se não fosse tão perigosa." - Charles Morse

"Um conjunto de iniciativas em andamento em Brasília indica que existe uma conspiração contra a liberdade de anunciar. Esstão em tramitação mais de duas centenas de projetos de lei contra a publicidade em geral. Está faltando ao Estado a noção de respeito às liberdades públicas, entre as quais a de expressão. Está faltando ao Ministério da Saúde a demonstração de respeito por um laborioso e respeitável contingente de profissionais e empresas que exercem com ética o exercício de comunicar." - Gilberto Leifert, em artigo intitulado Propaganda não faz mal à saúde, atacando, de forma até branda demais, a proposta maluca e totalitária do ministro José Serra de proibir a propaganda de cigarros

"Diz a primeira página do 'Globo': 'Os Estados Unidos consideraram ontem ilegítimo o segundo turno das eleições presidenciais peruanas. Está criado portanto o STET, Supremo Tribunal Eleitoral da Terra." - Luiz Kardec Vianna, leitor do Globo. Seu sobrenome não é muito bom, mas o fato é que veio desse leitor o único protesto que vi sobre essa absurda ação de Madeleine Halfbright (a quem George Szamuely chamou de 'a pessoa mais idiota a ocupar um posto num governo em qualquer lugar do mundo').

" Há os que/ não sabem/ antropologia// E os que ignoram/ trigonometria// Mas de mim/ ninguém pode/ falar nada// Minha ignorância// Não é /especializada." - Millôr Fernandes

 

OS IDIOTAS

"O Dia Mundial sem tabaco é mais uma oportunidade que temos para discutir a presença maléfica do fumo em nossa sociedade. O ideal seria poder levar o assunto a todos os ambientes de trabalho, às escolas e universidades, às assembléias e câmaras políticas, às unidades de saúde e às igrejas. É necessário reconhecer o poder destrutivo da nicotina." - Alexandre Milagres. Necessário é reconhecer o poder destrutivo de gente insuportável que adora dar palpite na saúde alheia, e que está por toda parte, cumprindo o "ideal" do sr. Milagres.

"Encarregado do projeto de segurança pública encomendado pelo presidente, o ministro da justiça sabe o quanto é indispensável uma lei rigorosa contra as armas pessoais." - Editorial do O Globo. Indispensável, claro, para que a criminalidade aumente - tanto a cometida por bandidos isolados quanto a cometida por bandidos investidos de cargos públicos.

"Todas as estatísticas mostram que há relação direta entre o poder de fogo da sociedade e as explosões de violência." - Do mesmo editorial do Globo. Essa frase é um primor de nonsense: primeiro, que estatísticas são essas? Segundo, o que quer dizer "poder de fogo da sociedade"? Se quer dizer armas de fogo registradas, o editorialista só pode estar brincando. Se quer dizer armas de foto em geral, o editorialista não pode ser burro a ponto de imaginar que a proibição de que cidadãos ordeiros usem armas terá algum efeito sobre os bandidos. Pensando bem, pode sim: os editorialistas do Globo (sejam lá quem forem) são burros a esse ponto, sim.

"Digamos que no mundo há indivíduos práticos e indivíduos sábios. Os práticos só se propõem problemas que podem resolver. Os sábios, em sua luminosa estupidez, acabam por repetir ao fim de um périplo de indagações: são insolúveis, são insolúveis todas as questões que preciso resolver." - Affonso Romano de Sant'anna. Em suma, para o colunista, só são sábios os idiotas perfeitos, que ou propõem problemas absurdos ou são incapazes de conhecer o que quer que seja. Não é à toa que ele usa uma expressão tão estapafúrdia quanto "luminosa estupidez".

"Pressão da sociedade faz Governo recuar em ofensiva contra MST." - Manchete do "Correio da Cidadania". Que pressão? De que sociedade? Só se for da ONU, do governo inglês, dessas entidades globalistas. A sociedade brasileira já perdeu há muito a paciência com o MST.

"A força que avassala recebe, de pronto, o rechaço da consciência cidadã. A experiência histórica recente, a luta contra a ditadura militar, está cravada na memória coletiva. O espaço das ruas começa a ser reocupado pela energia cívica dos movimentos sociais. O MST, o movimento negro, os índios deram a partida em Porto Seguro. As manifestações de milhares [realmente, uma quantidade muito representativa!!] de servidores públicos no Rio, São Paulo e Brasília deram continuidade. A nossa tarefa - do PT e da CUT – é convergir para o leito comum de uma agenda de lutas que está sendo construída nas ruas. Wall Street quer sangue, mas o povo brasileiro quer outra coisa [e o PT, quer o quê? Tem certeza de que não quer sangue também?]. Quer se livrar deste governo de ocupação [!!!]. Quer soberania nacional e a retomada do desenvolvimento econômico, com democracia e justiça social." - Milton Temer. Confesso que não tenho forças para comentar esse emaranhado de mentiras, petições de princípio, absurdidades e retórica golpista. Aliás, nem precisa.

 

ARTIGO DA SEMANA

"Desculpas a serviço do ecumenismo" - eis o título, sem rodeios, sem meios termos, do artigo de John Vennari, publicado no Catholic Family News e republicado no LewRockwell.com (sempre fonte de artigos extraordinários).

Diz Vennari: "Temos um papa que prefere desculpas (apologies, no original) a apologética (apologetics)."

"Pedir desculpas tem sido o leitmotiv do papado de João Paulo II. Até 1998, o papa tinha falado publicamente de alegados 'equívocos' e pecados dos cristãos em conexão com, entre outras coisas, as cruzadas, a inquisição, a perseguição de judeus etc. pelo menos 94 vezes."

Desculpas a quem?, pergunta o articulista.

"De acordo com declarações oficiais do Vaticano, o último mea culpa é uma desculpa a Deus pelos pecados de católicos mortos há muito.

"Esta explicação não só é risível, como violenta o ensino e a prática tradicionais católicos. Num sentido, um indivíduo só pode pedir desculpas por si mesmo. Eu não posso me confessar por outra pessoa e ninguém pode se confessar por mim. Ademais, eu não posso 'me desculpar' a Deus pelos pecados de meus ancestrais (...).

"Por contraste, o ensino católico nos encoraja a fazer reparações pelos pecados dos que vivem hoje, mas isto é para suavizar a ira de Deus e pela salvação das almas. Nossa Senhora disse, em Fátima: "Muitas almas vão para o inferno porque não há ninguém para rezar e fazer sacrifícios por elas." Católicos também podem rezar pelo alívio de almas sofrendo no purgatório. Isto também está dentro dos quadros da mensagem de Fátima. Infelizmente, orações pela reparação dos pecadores hoje vivos, ou pelas almas no purgatório, não foram encontradas em lugar nenhum na 'desculpa' de 12 de Março. Além disso, a categoria de 'pecados' enunciados parecia desenhada para acomodar os assuntos da moda: 'marginalização das mulheres', 'intolerância', 'anti-semitismo' etc.

"Assim, parece que a verdadeira audiência a que as desculpas se dirigiam era o mundo, não Deus. Como, então, reagiu o mundo? Prevaleceram alguns tipos de respostas.

"O primeiro tipo é a resposta dos não-católicos que dizem: 'nós sempre soubemos que vocês católicos eram um lixo hipócrita, e já passava da hora de vocês admitirem isso.'

"O segundo tipo vem principalmente de rabinos que reclamam de as desculpas não terem sido suficientes. O rabino-chefe de Israel disse que estava profundamente frustrado porque o papa não mencionou o Holocausto (...). A reação oficial da Liga Anti-Difamação foi semelhante: 'o Papa João Paulo II perdeu uma oportunidade histórica para trazer à tona a responsabilidade cristã por pecados específicos contra o povo judeu ao longo dos últimos 2000 anos.' Como era previsível, não há relatos de rabinos oferecendo desculpas recíprocas pelos ensinamentos contidos no Talmud descrevendo Jesus Cristo como um tolo, um sedutor, um idólatra e um mago.

"O terceiro grupo compreende aqueles que estão rindo e ironizando o evento inteiro. Por exemplo, eu conheço um editor-chefe de um grande jornal que disse que João Paulo II lhe tinha dado uma excelente idéia. Ele disse que planejava escrever num pedaço de papel todos os seus pecados, pôr o papel num envelope selado e deixá-lo para que seus descendentes possam desculpar-se por seus pecados daqui a 150 anos (...).

"Assim, se o alvo do grande pedido de desculpas era o mundo, o pedido falhou. O mundo ou zomba ou reclama de que 'não é o suficiente'. Mas essa é uma reação previsível sempre que clérigos católicos se curvam ao mundo. Talvez seja por isso que Nosso Senhor nunca mandou que Pedro pedisse desculpas por Judas."

O artigo segue mencionando que o pedido de desculpas do Papa criou uma reação em cadeia, com todos os bispos americanos inventando coisas pelas quais pedir desculpas (um deles chegou a pedir desculpas aos homossexuais). Vimos o mesmo fenômeno por aqui, com as ridículas desculpas da CNBB pela catequese de negros e índios. (Considerações semelhantes a essas podem ser encontradas no excelente artido de Joseph Sobran, "Imperfect Contrition")

No meio desses pedidos de desculpas, é claro que há equívocos históricos. Vennari menciona um artigo de Romano Amerio em que este atacava os pedidos de desculpas pela 'marginalização de mulheres', mostrando que a Igreja, ao contrário, elevou as mulheres a uma dignidade que ainda não tinham em sociedade nenhuma. Mas o que interessa mesmo, diz Vennari, são os motivos para esses pedidos de desculpas.

Esses motivos são encontrados num livro do jornalista italiano Luigi Accattoli, Quando um papa pede perdão, onde ele, achando isso lindo e maravilhoso, mostra a influência do teólogo Hans Urs von Balthasar (considerado tão heterodoxo, conta Vennari, que os bispos suíços proibiram sua presença como consultor no Vaticano II) nos pedidos de desculpas do Papa.

"Em 1965, logo depois do fechamento do Vaticano II, von Balthasar, que Accattoli admite ser um 'teólogo radical', conclamou a uma 'confissão plena dos pecados.' Von Balthasar disse: 'Coisas que não apenas eram permitidas, mas até mesmo recomendadas aos papas medievais, parecem, tanto da perspectiva das palavras do Cristo quanto do estado atual do nosso conhecimento, absolutamente inaceitáveis e até gravemente pecaminosas.' Von Balthasar conclui que 'a reação honesta é não apenas um reconhecimento imediato da responsabilidade pecaminosa, mas um reconhecimento completo, que enfatize a dura realidade do passado.'

"O Papa João Paulo II seguiu com exatidão o plano desse 'teólogo radical'.

"Accatolli explica que os mea culpas exercem uma função chave nos 'dois elementos do próximo desenvolvimento do movimento ecumênico, que ele descreve como sendo: 1) 'A purificação da memória histórica, facilitada por cada mea culpa, vai levar a um encontro entre adversários antigos'; 2)'A adoção do método de 'confissão dos pecados', como usado nas Igrejas da Reforma (Protestante).

"Assim, os pedidos de desculpa de hoje são baseados num modelo protestante para promoção de colaboração inter-religiosa. Accatolli observa que 'a maior parte dos pedidos de desculpa do papa são no campo do ecumenismo."

E qual é o problema nisso?, pode perguntar o leitor. O próprio Vennari responde:

"Os papas anteriores a João XXIII se recusaram a jogar o jogo. Em 20 de dezembro de 1949, Pio XII advertiu os católicos contra a 'confissão de pecados' por divisões religiosas: 'Não virem a história contra os católicos exagerando suas culpas, nem em favor dos protestantes ocultando suas faltas. Todas as coisas consideradas, o que constitui a verdadeira essência dos eventos [da Reforma] é o abandono da fé católica.' (...)

"O ecumenismo, tal como praticado hoje, é condenado tanto pelas Escrituras quanto pela Tradição, porque põe a única Igreja verdadeira de Jesus Cristo no mesmo plano de credos falsos. O Papa Bento XV reafirmou o ensinamento tradicional em 1919: quando convidado a tomar parte no movimento ecumênico, ele se recusou, dziendo que a Igreja de Cristo, a Igreja Católica, já era uma, e não poderia dar a impressão de estar buscando uma unidade que já possuía."

E então, Vennari enfoca um dos problemas centrais desses pedidos de desculpas:

"Os pedidos de desculpas de hoje estabelecem uma disputa entre os papas do presente e os papas do passado. Quer tenha pretendido ou não, João Paulo II minou sua própria integridade, ao se pôr em conflito com seus antecessores, forçando os católicos a aderir a um lado ou a outro (...).

"Ironicamente, a instituição sobre a qual João Paulo II preside é uma Igreja em ruínas. Teólogos modernistas destroem impunemente a fé de milhões, uma educação sexual perversa polui inúmeras escolas católicas, os bispos não são mais dignos de confiança, o homossexualismo está amplamente disseminado no clero, muitos bons padres são perseguidos, abunda a anarquia litúrgica, moral e doutrinal, a influência católica sobre a sociedade e sobre as instituições sociais é inexistente, milhares de pais católicos são obrigados a educar seus filhos em casa por causa dos currículos envenenados das escolas paroquiais. Isso deixa muitos católicos perguntando por que o Papa perde seu tempo pedindo desculpas pelos 'pecados' de seus antecessores, quando ele não consegue manter ordem na sua própria casa."

E o mais irônico é que essa adesão ao modernismo e ao ecumenismo está em frontal contradição com a mensagem que o Papa tanto procura prezar:

"Os mea culpas são uma fuga radical do plano desenhado por Nossa Senhora de Fátima. Em Fátima, Nossa Senhora nunca pediu ao Papa que pedisse desculpas por alegados 'pecados de intolerância', 'pecados contra mulheres' ou 'pecados de anti-semitismo' - desculpas que desgraçam católicos, curvam-se a mentiras históricas e confortam os inimigos da Igreja. Não, Nossa Senhora mandou que o Papa 'consagrasse a Rússia ao Imaculado Coração de Maria', para que almas fossem convertidas para a única e verdadeira Igreja Católica de Seu Divino Filho - um mandamento direto dos céus a que João Paulo II ainda não obedeceu.

" Diferentemente do programa do Vaticano II, a mensagem de Fátima não é um experimento modernista e ecumênico, mas uma solução inequivocamente católica. Enquanto esperamos, entre lágrimas, pelo seu cumprimento, há um pedido de Fátima que temos de obedecer com zelo crescente: o pedido profético de Jacinta para 'Rezar, rezar muito pelo Santo Padre."