ALVARO VELLOSO DE CARVALHO

No. 13 - 09/06/00

Liguei a TV outro dia e vi que estava rolando, no GNT, um debate sobre ensino universitário no Brasil, envolvendo vários luminares acadêmicos e o nosso caro ministro Paulo Renato.

Não escutei nem quarenta segundos do debate, porque já sabia de antemão quais seriam os tópicos do debate, e quais seriam os argumentos apresentados.

O ministro diria que cobrar mensalidades nas universidades não é privatizá-las, os demais participantes diriam que sim. O ministro diria que o provão serve para avaliar também as universidades particulares, os demais participantes diriam que esse é o caminho para privatizá-las.

Desafio qualquer um que tenha assistido ao debate a me dizer que os temas centrais foram outros. Os temas são sempre os mesmos, onde quer que se debata ensino universitário: privatização e verbas.

Agora, pensemos bem, não é simplesmente surreal que todo debate sobre as universidades se concentre nisso?

Temos um dos piores ensinos do mundo, os estudantes universitários não conseguem completar um silogismo e ler qualquer coisa mais profunda do que jornais e revistas, os professores são, em sua maioria, desonestos, pouco cultos e repetidores de chavões aprendidos há muito tempo, mas ninguém parece achar que nada disso é importante. Não: o importante é dar mais dinheiro para esses professores charlatães e mais dinheiro para os alunos semi-analfabetos. Como diria o Agamenon Mendes Pedreira, "no princípio, era a verba".

Isso ainda se camufla sob o nome bonito de "autonomia universitária". Essa é a principal bandeira das universidades públicas brasileiras. Esse nome bonito significa que as universidades poderão gerir os recursos que recebem do Governo da maneira que quiserem, sem prestar contas a ninguém - como crianças irresponsáveis. Só mesmo com um nome bonito, que traz consigo uma referência vaga ao ideal esquecido de liberdade acadêmica, é que uma patifaria dessas pode ter tanta aceitação.

Estou devaneando, e fugindo dos dois temas do debate. Na verdade, não estou devaneando, apenas dizendo que esses dois temas são secundários demais para ocupar o centro de qualquer debate sobre a universidade. Mesmo assim, vamos a eles.

É óbvio que cobrar mensalidade não significa privatizar a universidade, e é óbvio que não existe nenhum plano oculto maligno do Governo FHC para privatizar as universidades públicas. Mas também é óbvio que é imoral o Estado cobrar mensalidade de quem estudar em suas universidades. Se o Estado tem uma universidade, custeada com impostos dos cidadãos, por que diabos esses mesmos cidadãos teriam de pagar duplamente para estudar nela? Só quem tem uma concepção torpe de "justiça social" pode defender uma coisa dessas: que os ricos, só por serem ricos, podem ser extorquidos pelo Estado, tendo de pagar duas vezes para estudar em universidades públicas.

E o Provão? É mesmo um instrumento para prejudicar as universidades públicas? Prestem atenção, idiotas: é evidente que é justamente o contrário. O Provão é instrumento para acabar com qualquer possibilidade de ensino universitário independente, custeado com recursos próprios, particulares.

Isso é tão óbvio, que me sinto envergonhado por ver que, primeiro, ninguém o diz e, segundo, logo eu tenho de explicar por que é óbvio.

Vamos lá: se o Ministério da Educação inventa uma prova, feita por "entendidos" do próprio ministério, em geral, professores da USP e da UNICAMP, que, em vários campos, como economia e filosofia, são as duas piores uinversidades do país, a ponto de um economista já ter dito que "ou o Brasil acaba com a UNICAMP ou a UNICAMP acaba com o país" (e o fato de o Ministro da Eduação ser ex-reitor de lá mostra quem está ganhando esta parada), e aplica essa prova a todas as universidades brasileiras. Aquelas que não seguirem o padrão, que se adequarem à moldura estabelecida pelos "notáveis" do MEC, terão um prazo para se adequar e, se continuarem sem fazê-lo,serão fechadas. Claro que isso não se aplica às públicas: o Estado não vai fechar suas próprias universidades, só as dos outros.

É incrível como nenhum dono de universidade privada tem coragem de reclamar disso, de dizer que se dane o MEC, que o MEC não tem o direito de determinar o que será ensinado na sua universidade. Para o consenso geral, não só o MEC tem esse direito, como o exerce a torto e a direito. E não só nas universidades, como em todos os outros níveis de ensino.

Isso causa repugnância a quem quer que acredite que as universidades deveriam ser lugar de liberdade acadêmica, e que o Estado não deve interferir na educação dos cidadãos. Isso causa repugnância a quem quer que defenda o pensamento livre e a livre troca de idéias - e não a imposição de algumas e condenação de outras por uma entidade estatal.

E se alguém aí disser que os critérios do Provão são exclusivamente técnicos, respondo que o coelhinho da Páscoa acaba de dar lembranças e peço que tome cuidado com as andanças da mula-sem-cabeça.

 

SÉTIMA ARTE

A produtora de Snow Falling on Cedars disse, em uma entrevista, que cada cena do filme é um deleite para os olhos. É verdade, mas se o filme dependesse apenas disso, seria péssimo. Os aspectos técnicos do filme são absolutamente impecáveis - cenário, fotografia, edição - e a técnica usada pelo diretor para contar a história é envolvente e brilhante.

Mas tanta técnica não serviria para nada se o filme não tivesse para contar uma história de alto valor moral, pedagógico e político. Talvez justamente por isso, quando saiu nos cinemas, o filme foi praticamente ignorado pela crítica e pela parte mais grosseira do público.

A resenha do Globo, na época, disse tratar-se de um filme sobre preconceito. Não é verdade. Trata-se de um filme sobre uma escolha moral, na qual o preconceito entra como elemento adicional.

A história se passa nos anos 50, numa pequena cidade americana fictícia, cuja economia é baseada na pesca e na agricultura. Um dos pescadores da cidade morre, de madrugada, em seu barco, e um outro pescador, descendente de japoneses, é acusado.

O jornalista da cidade, interpretado pelo talentoso Ethan Hawke (do horrível Dead Poets Society e do excelente, para quem gosta de filmes com muitos diálogos, Before sunrise), descobre, num arquivo, evidências que podem salvá-lo da cadeia. Mas ele não sabe se revelará a evidência, porque a esposa do acusado é o seu grande amor de infância, que o largou durante a guerra por pressões da família.

Claro que a história é previsível, e é aí que entra a técnica apuradíssima do diretor Scott Hicks, que vai preenchendo e adensando a história com flashbacks, sonhos, delírios e lembranças difusas, fazendo o histórico psicológico de cada um dos três personagens principais (o jornalista, o pescador acusado e a mulher). As lembranças dos personagens se concentram na Segunda Guerra, em como ela definiu suas vidas, a partir da divisão que ela criou na harmonia racial da cidade, com o confinamento dos japoneses em campos de concentração (fato que envergonha a memória nacional americana e mancha a reputação do darling dos esquerdistas, o então presidente Roosevelt), com a paranóia que o governo instilou nos americanos contra seus concidadãos de descendência japonesa.

O personagem de Hawke sente um misto de ciúme e raiva, por ter perdido sua amada para o outro, e porque essa separação se deveu principalmente à cisão entre japoneses e americanos. Ele sabe que não entregar a evidência é vingar-se não só da mulher que o deixou, mas de toda a comunidade japonesa que a pressionou para que o deixasse. Notem a sutil caracterização psicológica: é evidente que a culpa não é da comunidade japonesa, e sim das pressões que ela sofreu por parte do governo americano durante a guerra, mas essa distinção some, no raciocínio alucinado da mente obcecada.

A chave para a compreensão desse dilema central, e do tema principal do filme, está numa das últimas frases do advogado de defesa (que prazer é assistir a Max Von Sydow!), quando ele fala da dificuldade de se livrar de "qualquer obsessão irracional, seja ela o ódio, o preconceito ou o amor".

Nesta altura do filme, o persongem acaba de ter decidido entregar a evidência, com dor no coração - a dor de dobrar as inclinações perversas aos valores morais superiores. Ele acalenta o desejo de tomar aquela mulher de volta, ele acalenta o desejo de vingança, ele acalenta a raiva por ela tê-lo deixado, mas ele sabe que existe um apelo superior a que tudo isso deve se curvar. A mulher não é mais dele, e uma pessoa pode ir presa se ele não aceitar essa imperatividade do real e continuar vivendo em seus delírios.

O grande mérito de Snow falling over cedars é mostrar a dificuldade dessa opção pela verdade e ao mesmo tempo mostrar o valor que tem o esforço do indivíduo para submeter suas próprias paixões e seus próprios desejos a algo que os transcende. Por mostrar isso com técnica tão exuberante e rara, trata-se de um grande filme, daqueles cada vez mais raros.

Um detalhe político: raríssimos são os filmes americanos em que a boa relação entre as raças não se dá por intermédio do Estado. Em quase todos eles, para que elas convivam bem, é preciso apelar para essa intervenção estatal. Em Snow falling on cedars, essa relação se estabelece entre indivíduos de boa vontade, e sempre que o Estado intervém, é para destruir tudo. Notar isso vem muito a calhar nestes tempos em que, no Brasil, o Estado se mete cada vez mais nessa questão.

 

ORTODOXIA

O estoque de pedido de desculpas do Vaticano parece interminável. Qualquer coisa, por mais mínima, que na opinião das víboras políticas do Vaticano possa desagradar a um abstrato establishment modernista, e assim comprometer os esforços dessas víboras para tornar o mundo e a Igreja indistinguíveis, torna-se imediatamente motivo para um pedido de desculpas.

O Vaticano cumpriu, essa semana, o papelão de pedir desculpas à imprensa "pelas relações nem sempre transparentes entre o Vaticano e a imprensa" - querendo dizer que nem sempre o Vaticano divulgou para os abutres da imprensa mundial tudo o que eles desejariam saber.

Um padre/jornalista chegou a dar o exemplo do Vaticano II, em que, segundo ele, as discussões das diversas sessões não podiam ser divulgadas integralmente pelos participantes para a imprensa, e garantiu que esse tipo de coisa jamais voltará a acontecer.

Será que estão todos ficando loucos? Essa agenda liberal/modernista/ecumênica não estará fazendo com que todos no Vaticano percam de vez o senso do ridículo? Que absurdo é esse?

Pensem bem: por que diabos o Vaticano teria de revelar todos os seus segredos, todos os seus movimentos, todas as suas táticas, para a imprensa?! O trabalho do jornalista é descobrir os fatos, claro, mas isso não quer dizer que todos estão obrigados a revelar a eles todos os fatos que eles querem saber! Muito menos o Vaticano, que sofre ataques de todos os lados, inclusive da imprensa mundial!

Pelo menos dessa vez o papa não parece ter compactuado com essa demonstração de servilismo, e até dirigiu palavras duras e interessantes aos jornalistas.

Enquanto o Vaticano pede desculpas, o historiador judeu Martin Gilbert, ao lançar seu livro Never Again: A History of the Holocaust fez duras críticas àqueles que reclamam de uma possível participação católica no Holocausto. Gilbert disse que esses críticos se esquecem, primeiro, de que também os católicos foram perseguidos e mortos pelo governo nazista e teriam sido muito mais, caso o papa lançasse o tal documento com a condenação expressa do nazismo, segundo, de que o nazismo era um sistema de governo não só profundamente anti-judaico, mas também anti-cristão, sendo que Hitler nunca escondeu seu ódio à Igreja, mesmo quando tentou usá-la para fins políticos, terceiro, de que, mesmo não tendo lançado o documento, o papa nunca parou de ajudar, nos bastidores, os dissidentes e opositores do nazismo na Alemanha.

Que os membros da máfia anti-cristã abandonem por um tempo seus antolhos ideológicos e parem para ouvir o que Gilbert tem a dizer, inclusive as seguintes palavras: "se o atual papa tem do que se desculpar, talvez alguém também pudesse agradecer a ele. E o meu livro realmente agradece a ele pelo que o Vaticano fez para salvar vidas judaicas".

 

DESINFORMATZIA

Por que diabos ninguém notou que, dos três seriados indicados pelo canal Sony ao prêmio de melhor seriado do ano, dois (Will and Grace e Frasier) são de propaganda gay? E do outro nada digo porque nunca o vi, mas tenho certeza de que ele não defende valores familiares...

A reportagem da revista Veja sobre a violência nas grandes cidades me lembrou um artigo publicado por Olavo de Carvalho no Jornal da Tarde uns dois anos atrás. A reportagem repete os mesmos clichês sem fazer nenhuma das perguntas a respeito das causas da violência apontadas pelo filósofo em seu artigo. Para quem quiser pensar a respeito, o artigo está disponível na rede.

 

NA REDE

De forma meio tímida, o embaixador Antonio Amaral de Sampaio, em seu artigo quinzenal no Jornal da Tarde, acabou defendendo a soberania do povo peruano, nesse absurdo caso em que os Estados Unidos queriam mudar o resultado de uma eleição feita de acordo com os padrões legais.

Muito mais interessante foi a matéria do WorldNetDaily mostrando quem era o chefe da missão da OEA para "fiscalizar" as eleições peruanas: nada menos que um guerrilheiro que lutou pelo lado da esquerda na guerra civil da Nicarágua. Foi ele que causou todo esse furor.

O curioso é que esse sujeito foi treinado em escolas de jesuítas e num seminário na América Latina. É sabido que essas escolas e esses seminários foram, junto com o serviço de treinamento cubano, as principais fontes de guerrilheiros para as diversas tentativas de implementação de um totalitarismo à cubana nos diversos países latino-americanos.

Outro dia mesmo uma pessoa (e não foi a primeira!) me contou como eram os encontros da juventude "engajada" dos diversos colégios jesuítas brasileiros, como havia clara doutrinação comunista e como eram ensinadas técnicas de guerrilha.

Essa conexão da Teologia da Libertação com os guerrilheiros (muitos deles assassinos saguinários) é ainda pouco estudada e pouco divulgada. É um campo aberto - e interessantíssimo - para pesquisas.

Um bom começo é o livro, que sempre recomendo, The Jesuits: The Society of Jesus and the Betrayal of the Roman Catholic Church, do ex-jesuíta Malachi Martin, contando como os membros dessa ordem, traindo os propósitos com que ela foi estabelecida, tornaram-se oponentes ferrenhos do papado e estiveram na vanguarda de tudo de ruim que aconteceu na Igreja nas últimas décadas. O livro chegou a ser editado no Brasil há alguns anos pela Record, mas essa edição é muito difícil de encontrar.

Agora que Keeping the faith está prestes a ser lançado nos cinemas brasileiros, vale a pena ler a resenha que Michael Medved escreveu para o "Jewish World Review".

Ao que parece, o filme consegue ser ofensivo ao mesmo tempo ao judaísmo e ao catolicismo, embora não siga o padrão hollywoodiano de retratar padres ou como idiotas completos ou como corruptos irreparáveis.

Segundo Medved, a principal idéia do filme é que o primeiro mandamento do membro do clero contemporâneo deve ser: "Serás um cara legal (e bonito) e nunca, nunca tentarás julgar a si mesmo ou aos outros. E, quanto às normas tradicionais de moralidade - particularmente aqueles problemáticos preconceitos sobre moral sexual - bem, todas as pessoas verdadeiramente espirituais deveriam 'crescer' para além disso tudo, não deveriam?"

Não pretendo ver o filme, mas já no trailer há uma cena que ultrapassa todos os limites entre o cômico e o blasfemo, e é mais ofensiva que o filme Dogma inteiro: o padre interpretado por Edward Norton (também diretor do filme) queima sua vestimenta com uma das velas da igreja e corre até a pia batismal para apagar o fogo - com a água benta.

Falando em noções tradicionais de moral, imperdível o artigo da Dra. Judith Reisman sobre os dados - nunca mencionados - dos crimes sexuais cometidos por gays nos Estados Unidos.

"Homens gays realmente têm uma quantidade proporcional de indivíduos violentos em seus meios, que agridem outros gays (homens e garotos) em números incrivelmente altos", cita a dra. Reisman de um livro escrito por autores homossexuais.

Além disso, o crescimento na prostituição de garotos para satisfazer os desejos de gays americanos poderosos é outro fato raramente mencionado na mídia. A dra. Reisman cita do livro For Money or Love, Boy Prostitution in America: "Há organizações muito bem administradas que funcionam para fornecer pornografia e garotos a clientes ricos. Seus garotos vão entreter estrelas de cinema, atletas proeminentes, políticos e, em alguns casos, chefes de Estado."

O aumento na aceitação do homossexualismo, e também na sua prática, é atribuído, em parte, pela Dra. Reisman às aulas de "educação sexual", que fazem propaganda de experiências sexuais gays, visando a instigar os alunos a "experimentar".

São aulas como a relatada por Samuel Blumenfeld, nas quais até a repugnante prática do fist fucking é recomendada. Cito um trecho do artigo de Blumenfeld, a respeito dessa prática:

"Neste ponto, uma criança com mais ou menos 16 anos perguntou por que alguém desejaria fazer isso, e disse que, se a mão for retirada rápido demais, a coisa toda não lhe parecia muito atraente. Margot Abels [que estava na escola pública administrando a palestra sobre educação sexual] não hesitou em responder que embora fisting 'freqüentemente tenha uma má reputação', normalmente não se trata de dor, 'não que estejamos desprezando isso' [quer dizer, não estamos discriminando a dor no ato sexual]. Margot Abels informou ao aluno e à turma que fisting era 'uma experiência de deixar entrar em seu corpo alguém de quem você quer estar tão próximo e íntimo.' "

Bizarro, eu sei. Mas lembrem-se de que o MEC, em seus "Parâmetros curriculares" para o ensino médio, criticou duramente qualquer tipo de distinção entre "opções sexuais" e "recomendou" que as escolas, em suas aulas de educação sexual, evitem essa discriminação horrível. Não chegamos ainda aos padrões americanos de depravação sob o patrocínio do Estado, mas estamos no rumo certo. (Depois dessa, vamos até nos poupar, esta semana, da seção Os Idiotas. Eles já apareceram por aqui o suficiente.)

 

FÓTONS

"O que me intriga é: como um homem de personalidade normal pode ser transformado de tal maneira que seu senso moral se torne idêntico ao de um sociopata de nascença? Como se pode inocular artificialmente a perversidade moral? Pois é óbvio que, se não existisse essa possibilidade, determinados movimentos sociais e políticos só poderiam recrutar seus adeptos nos hospitais psiquiátricos e jamais passariam de clubes de excêntricos. Quando vemos hoje hordas de intelectuais ativistas lutando para que o aborto se torne um direito inviolável, para que manifestações de antipatia a qualquer perversão sexual sejam punidas como delitos, para que a interferência dos pais na educação sexual dos jovens se limite à instrução quanto ao uso de camisinhas, para que a Igreja abençoe a prática da sodomia e castigue quem fala contra, é forçoso admitir que algo, agindo sobre essas pessoas, destruiu nelas a intuição moral elementar; que, diria Lorenz, alguma interferência externa apagou de seus cérebros os registros acumulados da experiência moral adquirida ao longo da evolução biológica." - Olavo de Carvalho (em O Jardim das Aflições)

"A propriedade privada cria para o indivíduo uma esfera na qual ele é livre do Estado. Ela estabelece limites à operação da vontade totalitária. Ela permite que outras forças surjam ao lado e em oposição ao poder político. Assim, ela se torna a base de todas aquelas atividades que são livres da interferência violenta por parte do Estado. Ela é o solo do qual as sementes da liberdade se nutrem e no qual a autonomia do indivíduo e, em última análise, todo progresso material e intelectual têm suas raízes." - Ludwig von Mises

 

ARTIGO DA SEMANA

Na verdade, são três artigos que pretendo destacar, porque eles estão intimamente ligados.

Avisa Henry Lamb, vice-presidente executivo da Sovereign International, em Global warming hype heats up, artigo que publicou esta semana no site Enter stage right:

"Preparem-se para uma nova leva de falação sobre aquecimento global. A ONU estará promovendo novo encontro em Bonn, Alemanha, em junho, para determinar os preparativos finais para a imposição do Protocolo de Kyoto em um encontro marcado para novembro na Haia.

"O Painel Intergovernamental sobre Mudança Climática apresentará seu 'Terceiro Relatório de Avaliação', que, espera-se, suprirá todo combustível necessário para a implementação do Protocolo, que exigirá a redução do uso de combustível fóssil nos EUA em 30% e dará à ONU autoridade efetiva para regular o uso de energia em 34 países desenvolvidos.

"Um sumário do 'Segundo Relatório de Avaliação', divulgado em 1996, dizia que a evidência científica 'sugere' uma influência discernível da atividade humana na mudança climática. O sumério do terceiro relatório deverá remover a palavra 'sugere' e dizer diretamente que há uma influência humana no clima global."

Parece um consenso, mas não é. Continua Lamb:

"Dois pontos muito importantes: (1) nenhum dos 'Relatórios de Avaliação', que são preparados por cientistas, jamais produziu evidências da influência humana na mudança climática. Essas afirmativas aparecem apenas nos sumários dos relatórios, que são produzidos por criadores de políticas; (2) em nenhum lugar os relatórios ou os sumários sugerem a extensão ou as conseqüências da alegada 'influência humana'."

Pior ainda:

"Uma coisa que parece ser consensual na comunidade científica é que o Protocolo de Kyoto, se inteiramente implementado, não causará nenhuma diferença apreciável na quantidade de dióxido de carbono na atmosfera. A redução das emissões de carbono de 34 países desenvolvidos será mais que superada pelo aumento na emissão das 150 nações subdesenvolvidas que não são afetadas pelo Protocolo."

Por que, então, se ele nada tem a ver com a proteção da natureza, tanta balbúrdia para implantar esse protocolo?

Lamb aventa a hipótese de tudo isso ter muito mais a ver com a redistribuição da riqueza: se os países desenvolvidos são controlados pela ONU, as empresas preferirão instalar-se em países subdesenvolvidos que não sofram as conseqüências do protocolo, e cujas legislações ambientais sejam menos rígidas.

Não sei o que pensar dessa hipótese, mas é bom darmos uma olhada no perfil de Maurice Strong traçado no National Post por Peter Foster.

"Para aqueles 'direitistas paranóicos' que afirmam que Maurice Strong está no centro de um plano para tomar o mundo, sua autobiografia, 'Where on Earth are we going?', contém tanto uma boa quanto uma má notícias. A má notícia: no fim das contas, vocês não eram mesmo paranóicos. A boa notícia: o plano do sr. Strong para 'gerenciar o mundo sem um governo mundial', embora estrategicamente bem bolado, é tão irrealizável quanto transparente."

O artigo de Foster, então, analisa partes desse tal plano. Strong, como lembrava uma matéria que já citei em coluna anterior, é um dos homens mais poderosos da ONU, e tem grandes chances de ser o próximo secretário-geral. Suas idéias são a mistura típica da Nova Ordem Mundial: uma mistura de paganismo ecológico, marxismo, intervencionismo e anti-capitalismo.

Vejamos os trechos do artigo que dizem respeito diretamente à distância entre países ricos e países pobres, uma das obsessões do pessoal da Nova Ordem:

"Naturalmente, o sr. Strong reclama da 'distância' entre ricos e pobres, como se a riqueza criasse a probreza - o antigo mito marxista. No entanto, ele atinge novas alturas de nonsense quando reclama da enorme proporção de patentes 'controladas' pelos países desenvolvidos, particularmente os Estados Unidos. Então, o que ele quer? Lobotomias frontas nos pesquisadores ocidentais?

"(...) A solução do sr. Strong para os 'problemas' do Terceiro mundo é o mesmo velho e cansado redistribucionismo socialista. Na orgulhosa tradição orwelliana de manipulação semântica, o fracasso da ajuda estrangeira será solucionado chamando a ajuda estrangeira por outro nome. Agora é 'um investimento seguro e necessário no futuro do planeta."

Interessante: um dos principais agentes da ONU é a favor da redistribuição da riqueza dos países ricos para os países pobres. E quem mais pode coordenar essa distribuição? E que melhor pretexto para esa coordenação e essa distribuição do que as supostas catástrofes ambientais?

"Repetidamente, o sr. Strong refere-se de forma oblíqua a como - por causa da ameaça de apocalipse ambiental - terão de ocorrer mudanças de comportamento e os trangressores terão de ser punidos. 'A maior fraqueza do regime legal internacional existente é sua quase total incapacidade de sanção.' Para corrigir isso, ele quer que a ONU possa ter fundos próprios, através da taxação dos 'bens globais' ou a 'taxa Tobin' sobre transações financeiras internacionais. A próxima parada seria, inevitavelmente, uma força policial ou um exército internacionais permanentes."

Claro que o projeto é monstruoso, é de um totalitarismo nunca antes sonhado pela espécie humana. Pode ser que, como diz Foster, seja um sonho impossível. Mas as tentativas de realizá-lo estão bem debaixo de nossos narizes.

"Para Maurice Strong, as ONGs podem bem ser o que os sovietes foram para Lenin, um passo na conquista do poder. Mas é tudo, claro, um sonho impossível. Ao menos esta é a nossa esperança.

"Maurice Strong convida à psicologia amadora. Ele admite que é governado por 'uma preocupação urgente, incontrolável, com o futuro do planeta.' Como poderíamos evitar encontrar aí referências à criança tímida, que imaginava se as outras crianças 'precisavam tanto quanto eu precisava do sentimento de ordem e propósito na vida que parecia tão faltante na vida adulta.' Dentro de Maurice Strong talvez viva a criança interior machucada mais proeminente do mundo, que projetou no globo inteiro sua necessidade de segurança, mas para por cuja visão torturada o mundo teria de pagar um preço terrível."

Nesse contexto terrível, o artigo de Justin Raimondo sobre o renascimento do nacionalismo japonês e sua confrontação com os artífices da Nova Ordem é um alento e uma esperança e, por isso mesmo, é leitura indispensável. Ao menos o Japão sabe que deve dizer não à destruição de sua cultura e às imposições da nova ordem global, por mais que isso irrite as elites ocidentais.