ALVARO VELLOSO DE CARVALHO

 

No. 14 - 16/06/00

O que há de mais chocante nas cenas do ataque ao ônibus no Jardim Botânico segunda feira é que a mesma situação poderia ser vivida por qualquer habitante do Rio (e de São Paulo também, que essa história de que o Rio é mais violento que São Paulo é uma das maiores mentiras midiáticas). Não foi a primeira vez que um maluco drogado entrou num ônibus armado e assustando os passageiros.

Mas foi a primeira vez que a cena foi capturada pela televisão e que, depois, apareceu a polícia militar carioca e fez uma intervenção desastrada.

O sentimento de terror, de insegurança, é comum a todos os que andam de ônibus no Rio, e eu poderia desfilar um rosário de histórias horríveis ocorridas em ônibus. Uma amiga já presenciou um bandido entrar armado num ônibus e ser abatido a tiros por um dos passageiros. Minha irmã já foi assaltada por um bandido armado e bêbado numa linha que circula apenas na Zona Sul. Eu mesmo já ouvi estampidos num ônibus e, quando olhei para os demais passageiros, vi que estavam todos no chão se escondendo ds balas que eram atiradas por um carro que passava ao lado do ônibus. E assim por diante: são cenas do bangue-bangue carioca.

O que mais espanta, em situações desse tipo, é a insolência dos bandidos. Eles parecem saber que têm a mídia e os intelectuais de sempre a seu favor. Eles parecem estar imbuídos de uma missão profética - missão que lhes foi atribuída por décadas de pregação esquerdista sobre temas como o "banditismo social" - e parecem saber que sairão ilesos ao fim, protegidos pela retórica dos "direitos humanos" (que, no Brasil, nunca se aplicam às vítimas).

Em todo o debate público brasileiro sobre violência, os "entendidos" parecem debilóides programados para dar sempre as mesmas respostas às situações mais diversas, como se fossem reflexos condicionados. É muito difícil para eles elevar-se acima disso. E, repetindo seus chavões, eles vão alimentando ódios sociais e criando condições inibidoras para qualquer tipo de ação policial mais enérgica.

Por isso, quase não acreditei quando vi que, na primeira página tanto do Jornal do Brasil quanto do Globo havia reclamações de que a polícia não tivesse atirado no bandido enquanto ele ainda estava no ônibus. Depois de demonizar até mesmo o policial que, dois anos atrás, matou, em legítima defesa, um bandido em Ipanema, e repetir a dose em inúmeros casos do mesmo tipo, agora a imprensa carioca criticava a polícia por não ter atirado de longe num bandido que invadiu um ônibus.

Mas imaginem se a polícia tivesse mesmo feito isso! Quantas manchetes criticando a "violência policial" não veríamos no dia seguinte? Quem duvida de que os policiais que o fizessem seriam punidos, e o chefe da operação demitido?

Parem de hipocrisia: foi a imprensa, aliada aos próceres esquerdistas que se dizem especialistas em segurança, que criou um clima em que os policiais são sempre mais culpados do que os bandidos, um clima em que qualquer resposta da polícia à ação armada dos bandidos é imediatamente condenada.

Mas deveriam mesmo atirar os policiais?

Como diabos eu vou saber? Mas não sou só eu: como diabos vão entender do assunto a ponto de opinar a respeito com tanta certeza e tanta autoridade repóteres, poetas, sociólogos e não sei mais quantos que, se se vissem diante de um bandido armado, o mínimo que fariam é molhar as calças?

Mas agora, são todos especialistas em segurança e todos condenam a "falta de comando" da operação, sem nunca lhes ocorrer que o policial que interviu desastradamente no final provavelmente não o fez mandado por ninguém, e que não havia, no momento, como outro policial evitar sua intervenção. Foi uma ação isolada - e errada. Mas ela não pode ser motivo para uma crítica geral à polícia carioca.

Sintomática, sim, foi a covardia dos policiais, ao matar por asfixia o bandido, depois que este já estava desarmado e abatido numa maca.

Mas o que me irritou na cobertura dada pelo O Globo aos eventos não foi nem mesmo esse conjunto de absurdos. É absurdo, mas é o feijão-com-arroz da incompetência política carioca, só, desta vez, com resultados trágicos.

O que me irritou foi o fato de o jornal ter procurado "celebridades" para opinar sobre o assunto. Caramba, quem quer saber a opinião de Waly Salomão sobre o tiroteio no Jardim Botânico?! Que interesse tem essa porcaria?

Para a editoria do Globo, muito interesse. E aí, lá estava toda a hipocrisia das nossas elites intelectuais exemplificada de forma trágica. E confesso que, nesse momento, minha vontade era fuzilar um por um dos palhaços chamados pela mídia a dar seu grotesco show particular.

Um deles dizia que isso tudo aconteceu devido à fome e a miséria, o que é um insulto não só à inteligência de quem leu o jornal, mas a todos os pobres do país: a pobreza não vem necessariamente associada à degradação e à violência, e não pode ser, em hipótese alguma, condição suficiente para um ato como o do sujeito que invadiu o ônibus.

Outro, um senador, dizia que isso mostra a necessidade de leis mais rígidas para proibir o "porte de armas" no Brasil (ouça meu comentário a respeito). E quem é burro o suficiente para imaginar que o bandido tinha porte de armas, que adquiriu legalmente sua arma?

E, o pior de todos, o Rubem César Fernandes aparecia, com sua proverbial cara de pau, para dizer que isso mostra que é hora de um novo "Reage Rio". Não, seu Rubem César, é hora, sim, de pararmos de dar ouvidos ao senhor. Um sujeito que, diante de uma morte trágica, só consegue pensar em recriar um movimento político (que será liderado, claro, por ele próprio) só pode estar próximo da psicopatia.

E não é de nos espantarmos: Rubem César é o campeão da campanha de controle de armas, é o campeão das campanhas contra qualquer ação policial contra bandidos, e é um conhecido testa de ferro de ONGs internacionais com sabemos lá quais interesses no Brasil. Esse é o mesmo Rubem César que foi o primeiro a condenar o soldado que matou o bandido em auto-defesa, no caso que já mencionei.

Nem tudo foram horrores nas opiniões sobre a tragédia. Eis aqui duas cartas de extrema sensatez publicadas pelo O Globo:

"Não advogamos de forma alguma as arbitrariedades e incompetências da polícia. Mas esses críticos e experts com pose de sabichões analisam os fatos depois de ocorridos, tranqüilamente instalados nos seus escritórios e tribunas de debates, longe portanto do estresse e do clima de angústia impostos aos seqüestrados e à própria polícia, deitando falação sobre como deveria ser conduzida a operação. Mas se estivessem no teatro de operações estariam tremendo de medo até agora." - Georg Maier

"Acabei de ler uma declaração da sra. Yvone Bezerra de Mello, [dizendo] que esteve com o bandido há dois meses, e que ele estava magro, com fome, pedindo emprego e ela prometeu ajudar. Em outro trecho da mesma reportagem, fico sabendo que o bandido era foragido da cadeia, já julgado por roubo a mão armada com pena a cumprir. Qual deveria ter sido a conduta? Avisar as autoridades que tinha encontrado um fugitivo. Talvez tivesse evitado a morte da moça inocente. Ela conta que assistiu a tudo pela televisão. Por que não se ofereceu para conversar com seu protegido?" - Cely Canetti

Ah, sim: nenhuma das muitas cartas publicadas pelo Globo era cretina a ponto de pedir controle de armas por causa do incidente. Isso mostra, mais uma vez, o enorme abismo que existe entre a população, que corre risco nas ruas, e as elites, que seguras em seus gabinetes e cercadas de seguranças armados, decidem políticas esdrúxulas que acabam pondo em risco a mesma população que prometem proteger.

 

ORTODOXIA

Não sei onde eu estava com a cabeça, que não recomendei antes a última "carta aos fiéis" de Dom Lourenço Fleichman, sobre a vida mística de Francisco e Jacinta de Fátima, recentemente beatificados pelo Papa João Paulo II.

Quem quiser começar a saber o que é mística, o que é amar a Deus, essas coisas do catolicismo "antigo", antes que a discussão católica se tornasse demente a ponto de se polarizar entre Marcelo Rossi e "frei" Betto, não pode deixar de ler esse texto.

E aproveitem a visita ao site para ler o extraordinário artigo A Descoberta da Outra, no qual Gustavo Corção fala da Igreja pós-Vaticano II.

Ah, sim, antes que me entendam mal: o resto do site também é muito bom, só estou destacando precisamente esses textos por terem aparecido mais recentemente.

 

DESINFORMATZIA

Quando me perguntaram, em janeiro deste ano, o que eu achava do século XX e das promessas para o século XXI, pedindo uma resposta breve, respondi o seguinte:

"Amputada a dimensão espiritual do homem, seus problemas verdadeiramente universais saem da linha de preocupação, e são substituídos por contingências absolutizadas, males que, para serem resolvidos, admitem a produção de quaisquer outros males; aliada a essa amputação, vem a crença em que o chefe de Estado ou o líder revolucionário encarna o próprio espírito da história e é capaz de resolver os males (sejam a fome, a falta de espaço físico, a miséria, a desigualdade, a impunidade, ou qualquer outro), podendo, para isso, fazer o que for preciso. A amputação se chama humanismo; a crença se chama progressismo. O século XX, em cujo último ano entramos, nada mais foi do que o imenso desenrolar das conseqüências da união desses dois monstros, e as conseqüências foram genocídio atrás de genocídio, opressão atrás de opressão. Não há progresso tecnológico e científico no mundo que possa redimir um século cujas vítimas chegam a mais de duzentos milhões, assim como não há embelezamento retórico que possa eximir o progressismo e o humanismo, seus dois mitos fundadores, da responsabilidade por essas vítimas. Que o prestígio desses mitos permaneça até hoje inteiramente inabalado, e que até a Igreja Católica tenha se curvado a eles, eis aí motivos suficientes para que nenhuma pessoa sensata deposite qualquer tipo de esperança no século XXI." (03/01/00)

Se lesse essas palavras, o jornalista Fernando Pedreira diria que eu sofro do pior vício da inteligência do nosso tempo: "a visão curta, estreita, negativa e pessimista".

Mas eu não precisaria nem me preocupar em responder à crítica, porque o artigo inteiro de Fernando Pedreira, domingo passado (11/06) no Globo foi uma excelente confirmação de que eu tinha razão ao dizer o que disse.

Para o jornalista, que tem a inglória tarefa (e certamente não está à altura dela) de substituir Roberto Campos na página dominical de opinião do jornal carioca, incorrem no perigo de visão estreita aqueles que não olham mais à frente, e não vêem como a utopia renasce na história.

A utopia que morreu, segundo nos dá a entender o primeiro parágrafo de seu texto, foi a utopia comunista, "mãe-madrasta de males e guerras e horrores vários". Por que diabos gostaríamos que coisa parecida renascesse é coisa que ele não explica, preferindo deixar subentendido que o simples fato de haver esse renascimento é algo a se comemorar.

A utopia de Pedreira renasce não na pele de um neo-comunismo, mas na pele de nada menos que o governo global. Esse governo é anunciado em tom triunfal:

"Menos inexato (mais verdadeiro e fecundo) talvez fosse dizer que vivemos os estertores finais de uma vasta pré-história; a véspera, a antemanhã de um tempo novo cujas perspectivas parecem mais livres, generosas e surpreendentes do que tudo o que podíamos supor, ainda alguns anos atrás."

H.G. Wells e todos aqueles entusistas progressistas do início do século não diriam melhor. Aliás, o mesmo texto poderia muito bem ter sido escrito por um entusiasta bolchevique às vésperas da revolução, ou por um membro do Partido Nazista sonhando com um mundo sem judeus, ou pelo dr. Emir Sader anunciando o triunfo próximo da revolução do MST, ou, ou... - bom, vocês entenderam a mensagem.

E é justamente por isso que progressistas costumam ser tão perigosos. Eles estão imbuídos da certeza de que caminham junto com a história, de que tudo no mundo concorre para o seu triunfo, de que qualquer casualidade no meio do caminho é mero acidente na marcha triunfal para o "mundo melhor". Que estejamos ouvindo isso de novo, agora com cores novas, é sinal de que nada aprendemos com as experiências macabras de comunismo, nazismo e congêneres.

Pedreira afirma que estamos "passando do reino da escassez para o da abundância e da plenitude; do reino da guerra para o do entendimento e da competição pacífica; do reino da autocracia e do autoritarismo (e do totalitarismo) para o da democracia e da liberdade - e isto pelos caminhos e descaminhos de um processo desigual, heterogêneo, tumultuado, além de extremamente rápido (em escala histórica), o que o torna especialmente difícil de ser entendido e absorvido pela inteligência contemporânea."

E nada que os gerenciadores desse processo maravilhoso façam durante esse "caminho tumultuado" pode ser errado, porque esse caminho nos levará irremediavelmente para o admirável mundo do governo mundial.

Esse modelo, continua o articulista, "se vem formando e desenhando há cinco ou seis décadas, desde a guerra, mas que ganhou impulso e clareza de linhas apenas há dez anos, com a queda do império soviético, e é portanto muito novo ainda para ter marcado profundamente a imaginação popular. Para vê-lo, entretanto, o essencial é tomar a realidade em movimento, no seu fluxo, no seu devir natural e inexorável; abandonar a visão estática e detalhista, aquela que vê a árvore, mas é incapaz de conceber a floresta."

Não importa, pois, que milhares de kosovares tenham sido assassinados numa guerra que foi mentirosa do começo ao fim; não importa que os EUA se prontifiquem a bombardear o Iraque sempre que a ONU pedir; não importa que o maior "darling" dos artífices da Nova Ordem seja o regime chinês e seus assassinatos diários de crianças.

Não importa, também, que os governos nacionais tenham se tornado reféns de instituições globais que determinam como eles gerenciarão sua economia e que leis eles aprovarão.

Não importa que essas leis invariavelmente vão no sentido de restringir as liberdades individuais - proibindo o porte de armas, inventando cotas raciais, criando restrições à liberdade de expressão para defender minorias "perseguidas", demonizando os fumantes, e assim por diante.

Não importa que essas leis permitam o aborto em massa, ao mesmo tempo que protegem direitos dos animais e das plantas de forma irrestrita, invertendo a valoração para dignificar a vida de vegetais e animais ao mesmo tempo que despreza a vida humana.

Nada disso importa, porque quem faz tudo isso tem a História a seu favor, exatamente como os proletários poderiam cometer as atrocidades que quisessem durante a "ditadura do proletariado", porque a fase seguinte do processo histórico seria necessariamente a paradisíaca sociedade sem classes. E Lênin, que disse, a respeito da revolução, que não se faz uma omelete sem quebrar alguns ovos, assinaria embaixo do argumento de Pedreira:

"Uma visão dinâmica, não estática, contudo, nos mostrará qual é a tendência profunda e vitoriosa do tempo; mostrará em que sentido avançamos e como se resolvem (se têm resolvido) as dificuldades e tropeços que encontramos no caminho; mostrará ainda que essa tendência [a tendência para a democracia mundial] se tem afirmado cada vez mais, em vez de enfraquecer-se."

E diz mais:

"Bem feitas as contas, pode-se dizer que duas tendências básicas marcam o universo contemporâneo: 1. conquista material da opulência e da plenitude, graças aos rápidos avanços da tecnologia e da ciência; 2. conquista ideológica (política) da liberdade, graças à crescente afirmação democrática e à recusa deliberada e determinada do racismo. O vigor desses dois impulsos profundos (hoje conduzidos pelo exemplo e pela influência dos mais fortes, os países do G-7) está levando à construção gradual, ainda que embrionária, das instituições de um governo global - espécie de utopia que curiosamente coincide com o advento do terceiro milênio."

O que é que racismo tem a ver com liberdade e democracia, eu não faço a menor idéia, mas ele parece achar que, de forma mágica, basta as pessoas deixarem de ser racistas para que se tornem democráticas. A confusão de planos aí é evidente demais para que eu precise explicá-la, e lembro apenas que o único dos totalitarismos do século XX que se caracterizou pelo racismo foi o nazismo, sendo que acusações de racismo nunca pesaram sobre Lênin, ou Pol Pot, ou mesmo Fidel Castro.

Mas não é isso o mais absurdo da argumentação do jornalista. O mais absurdo é achar que a formação de instituições de um governo global servirá para fortalecer a liberdade e a democracia. Democracia não pressupõe descentralização do poder? Liberdade não pressupõe existência de diversos poderes que se contrabalancem uns aos outros, para que nenhum deles impere soberano?

Essas obviedades escapam ao Pedreira. Ele parece sinceramente achar que o poder centralizado de forma nunca antes vista ou imaginada por nenhuma civilização terrestre será a suprema conquista democrática e não o seu contrário.

Não é preciso ir muito longe para ver o erro nesse raciocínio. Não é preciso, nem mesmo, analisar mais profundamente a noção de liberdade e as condições que a garantem num regime político. Basta ler o noticiário internacional, e ver o peso da mão dessas "instituições globais" sobre diversos povos e países no mundo, ver as culturas (inclusive a brasileira) estilhaçadas, os governos nacionais humilhados, as perseguições absurdas a bodes expiatórios (como Pinochet e Milosevic) para compreendermos que não é a alvorada de um tempo de liberdade a que estamos assistindo. Ainda algumas semanas atrás, eu chamava a atenção para um artigo de Anthony LoBaido que descrevia o peso da mão desses organismos sobre a UNITA. Coisas desse tipo tenderão a se repetir e, aliás, se repetem debaixo de nossos olhos.

Não é com satisfação que um jovem observa a incapacidade dos intelectuais em aprender com os erros do século XX. Mas não é para parecer otimista que vou ser enfeitiçado por mais uma promessa de "mundo melhor", nem me deixar levar pela ilusão humanista da esperança na história. Já era hora de sabermos muito bem a que levam essas coisas.

 

LENDO O LEITOR

Dessa vez, quem merecia o estar sob o título "desinformatzia" era eu. Lendo um único artigo, de um colunista em quem normalmente confio, sobre o Japão, achei que podia opinar sobre o caso (embora de forma muito breve), e me dei mal. Existem muito mais coisas no "nacionalismo japonês" do que aparecem à primeira vista, e foi isso que me fez ver um e-mail que recebi de um leitor amigo que mora no Japão, sr. Alexandre Kawatami.

Quer chamar atenção, especialmente, para o trecho do e-mail onde ele ressalta a dissolução dos hábitos culturais locais japoneses a partir da Restauração Meiji. Eis a mensagem na íntegra:

Caro Alvaro,

creio que, depois de seu último comentário sobre o nacionalismo japones, um mail de minha parte não é algo inesperado. Acredito que sua interpretação do artigo do senhor Raimondo peca por falta de algumas informações que me parecem importantes para a correta avaliação das declarações do Primeiro Ministro japonês.

Sem dúvida, a reação da imprensa japonesa e internacional perante tais declarações são, certamente, fartas do intervencionismo planetário que ameaça a sobrevivência da liberdade em todos os cantos; especialmente no que tange à liberdade dos povos de manterem suas religiões como expressões dos mais íntimos credos e mais profundas heranças que uma cultura há de legar a seus membros.

Entretanto, tais declarações também devem ser observadas tendo-se em mente a ameaça que representam à mesma liberdade que nos propomos a defender. Neste sentido, é necessario iluminar um pouco as grandes omissões que o artigo, de certa forma ingenuamente, comete.

A impressão que se tem, após a leitura do texto, é de que o senhor Mori é um líder legitimamente eleito pelo eleitorado japonês, cujas idéias refletem os credos de grande parte dos cidadãos deste pais. Sua posição de defensor de uma cultura japonesa homogênea, baseada numa única religião que se centra na figura do Imperador estaria sob o ataque dos internacionalistas de plantão, cuja mentalidade liberal (no sentido norte-americano do termo) é incompativel com convicções religiosas e patrióticas.

Não é bem assim. O senhor Mori sucedeu ao senhor Obuchi quando da internação e posterior falecimento deste. Até hoje, ninguém sabe as razões da internação do ex-primeiro-ministro: o que se diz é que, por cansaço e stress, este teria sido submetido a uma série de testes e, sob ordens médicas, imediatamente internado para repouso. No dia seguinte, foi noticiado que o primeiro-ministro estava em coma. Nas duas ou três semanas seguintes, não houve sequer um noticiário, um artigo de jornal na imprensa japonesa tratando do fato. Nenhum médico se pronunciou a respeito. Ninguém sabia dizer onde o primeiro-ministro estava, qual era seu estado, quais as razões do coma, e quais as perspecivas de cura. Neste vácuo institucional, o senhor Aoki, líder do partido na Câmara, emerge dizendo que, momentos antes do coma, o primeiro-ministro lhe teria dito para tomar conta das coisas no caso de uma eventualidade, sinal evidente, ou pelo menos forte de que o primeiro-ministro estaria lhe indicando como sucessor. No dia seguinte, depois de uma reunião com os chefes do Partido Liberal-Democrata, o senhor Mori aparece como sucessor oficial, sendo aceito pela maioria da Câmara. O senhor Aoki se corrige, dizendo que o ex-primeiro-ministro teria lhe recomendado que tomasse conta de outros arranjos, não significando sua nomeação como sucessor.

Ninguém aqui no Japão conhece o senhor Mori. Ninguém sabe do seu passado, ninguém sabe de suas idéias. Todos o reconhecem porque seu corpo é muito grande para os padrões japoneses, e é apenas isso que os japoneses poderão lhe responder se perguntados. Este é o tipo de líder com o qual nós, ocidentais, estamos acostumados? Imagine Tony Blair desaparecendo do dia para noite, internado num hospital a que ninguém tem acesso porque ninguém conhece, sem qualquer notícia sobre sua condição médica. Imagine que, em seu lugar, um perfeito desconhecido assuma a cadeira e comece a dizer que a Inglaterra é, não um país divino (a tradução dada pelo senhor Raimondo é, para dizer em inglês, misleading), mas o país de Deus, centrado na figura de seu descendente, a Rainha. Eu acharia estranho, como eu acho estranho o que está acontecendo aqui.

O fato é que não existe apenas um Xintoísmo, existem vários, assim como a cultura japonesa não é uma só, mas um amontoado de elementos autóctones e locais misturados a uma série de “importações”, cuja dinâmica tem sido suprimida desde os tempos da revolução Meiji. É importante notar que a unificação militar do Japao só aconteceu na segunda metade do século XV. Esta unificação militar não significou sequer uma unificação política, muito menos uma unificação cultural, pois o sistema de “feudos”, ou “han”, garantia aos “senhores feudais” e sua extensa burocracia um grau de liberdade no âmbito de seus dominios de certa forma incompatível com um governo centralizado. É assim que surgiu um país que poderia ser budista aqui, xintoísta ali, até mesmo católico em cantos escondidos, mas existentes (aliás, vale notar que existe uma escola da historiografia japonesa que defende a tese de que uma das importantes e difundidas escolas da cerimônia do chá teve como objetivo, em sua criação, preservar o rito da Eucaristia, tendo o Cristianismo sido banido do Japão por Tokugawa). A idéia de uma nação homogênea só surgiu, ou melhor, só foi propagada com a Restauração Meiji, e com ela a série de mitos que foram deliberadamente construídos ao redor do Japão, entre os quais gostaria de notar, a existência de um Código Moral, o Bushido, que teria marcado a cultura da classe guerreira, os samurais. Quem sabe disso há de dar boas risadas do novo filme de Jim Jarmusch, algo a ver com cachorros.

Numa das conversas que tive com Paulo Francis, o saudoso repórter me disse que o Japão era um caso interessantíssimo de se estudar, porque sua formação econômica era a forma mais próxima do “capitalismo avançado”, ou “capitalismo de monopólios” marxista. Eu só vim a entender a profundidade da afirmação depois de vir para cá. E o fato é que, talvez, o Japao não seja um “capitalismo de monopólios”, mas sim, como meu orientador afirma, um “comunismo chefiado pela burocracia”. Em verdade, não há assunto onde a administração (e não o governo) não meta o nariz, a ponto de qualquer teoria de conspiração relativa ao Japão soar como tendo um fundo de verdade. Por exemplo, o Ministério da Educação Japonês tem controle total sobre tudo o que se ensina em qualquer escola ou universidade japonesas, a ponto de nenhum livro didático de história mencionar, nem a colonização da Coréia, nem o massacre de Nanquim. Se perguntados, a imensa maioria dos japoneses não sabe que estes fatos aconteceram. Considerando-se que tais ações são reflexo de uma cultura militarística e socialista, artificialmente implantada na mente desse povo, e observando-se que a existência gritante e óbvia desses acontecimentos históricos é censurada das salas de aula pelo mesmo Estado, fica fácil entender porque é que tudo aqui neste país é controlado pela burocracia.

Assim, quando o senhor Mori, que ninguém escolheu como primeiro-ministro, utilizando-se dessa mesma figura, na convenção da Associação de Templos Xintoístas do Japão, vem dizer coisas de uma religião que ninguem pratica ou entende (mesmo porque em muitos casos não passa de farsa), e depois se desculpa pelos “mal-entendidos que provocou”, creio que a não-concordância é tão inevitável quanto correta. Ainda mais, considerando-se que este pedido de desculpas foi tão hipócrita quanto a declaração. Ele só ocorreu porque um dos partidos da coalizão que sustenta o governo, o “Partido da Clareza Publica” (Komeito), que nada mais é do que uma fachada para a maior organização budista do mundo, a Sokka Gakkai, ameaçou retirar seu apoio se não houvesse uma retratação.

Mas para nós, estrangeiros que vivemos no Japão, a coisa é ainda mais complicada. Uma semana antes da declaração do senhor Mori, o senhor Ishihara (citado no artigo do senhor Raimondo), na frente das Forças de Defesa Japonesas, afirmou que era função destas mesmas Forcas “defender o país do numero crescente de crimes cometidos por estrangeiros.” Estrangeiro, entretanto, é uma tradução incompleta. A palavra, em japonês, é “sankokujin”, literalmente, “pessoas de terceiros países”: “san” siginifica três, “koku” significa país, “jin” significa pessoa. Mas o contexto é este: na época da Ocupação, o termo “ikkokujin”, ou “pessoas de primeiros países”, significava os Americanos, Ingleses, Australianos e outros cidadãos dos paises ocupantes, a quem se poderia dirigir para implorar por comida, cigarros ou chocolates; “nikokujin”, “pessoas do segundo país”, referia-se aos próprios japoneses; “sankokujin” aponta, na verdade, para os chineses e coreanos que foram trazidos à força para o Japão, e cuja vida não tinha valor algum. Muitos deles foram assassinados em massa na luta por alimentos que se seguiu ao fim da guerra. Quando perguntado se ele se dirigia aos coreanos e chineses imigrantes que vivem no Japão atualmente, o senhor Ishihara respondeu: “Não apenas os chineses e os coreanos, mas também vários outros, como os paquistaneses que vendem drogas em Shinjuku (bairro japonês)”. Considerando-se que os brasileiros têm presença substancial nas gangues de mafiosos que agem por aqui, importando escravas brancas, armas e drogas, eu me pergunto quando é que eu vou ser atacado por um militar enfurecido pelo simples fato de portar um passaporte verde.

O fato é que, enquanto alguns americanos consideram seu sistema (democracia, direitos das minorias, etc.) universal a ponto de dever ser imposto a todos (o que deve certamente ser rechaçado com firmeza), alguns japoneses acreditam que seu sistema é, não apenas único, mas perfeito; que esta perfeição se concentra no fato de que Deus é japonês, e que seus descendentes estão presentes na figura do Imperador, que os ensinou a ser superiores ao resto da Ásia e ao resto do mundo; e que por serem superiores e divinos, os japoneses devem, não apenas se isolar do mundo, mas preparar-se para controlá-lo. Este tipo de japonês, caro Alvaro, é representativo nas figuras do senhor Mori e do senhor Ishihara, e nenhum liberal que se repute como tal pode defendê-los [observação: nunca clamei ser liberal; tenho algumas idéias liberais, mas não me apresento assim. Isso não invalida o que diz o Alexandre, mas achei que devia explicar isso]: nós podemos criticar os parâmetros com que a imprensa esquerdista os repele, mas nunca defendê-los.

As questões complexas são muitas; portanto, peço perdão por estar sendo prolixo e até mesmo confuso. Mas creio serem todas elas importantes para uma compreensão correta da situação deste país.

Um abraco grande,

Alexandre Cesar Kawakami.

E, já que estamos no assunto, vale citar o que diz Jude Wanniski, num ensaio sobre Karl Marx escrito em 1994 (o valor da tese desse ensaio é coisa que podemos discutir em outra ocasião). As observações são um pouco antigas, mas, de certa forma, reforçam o que já disse o Alexandre César:

"Esses intelectuais ocidentais por anos haviam celebrado as górias do Japão moderno, onde os 'melhores e mais brilhantes' ignoravam os interesses dos japoneses comuns e planejavam um tipo de capitalismo de elite que logo engoliria o mundo. De repente, o Japão parece não só mortal, mas também exala pânico, à medida que os 'melhores e mais brilhantes' perdem controle de seu mecanismo de fazer dinheiro. Olhando para os japoneses, Marx provavelmente observaria que seus mecanismos políticos são deficientes e que a classe dominante é incapaz de entender que seu problema é congestão de classe."

 

ARTIGO DA SEMANA

Serei breve, porque esta coluna já se alongou demais (por isso também a ausência de algumas seções semanais) e porque tenho de voltar a dar os últimos retoques no meu texto para o I Congresso do Instituto Brasileiro de Humanidades (prometo detalhes na coluna da semana que vem).

O artigo da semana é o brilhante texto de Rip Rense no WND sobre a "geração Y", nome ridículo atribuído por parte da imprensa americana à atual geração de adolescentes desse país.

Rense desmonta alguns clichês sobre essa geração (e que são os mesmos clichês que vemos em qualquer matéria do tipo), como por exemplo:

"Digo, essas [as características da geração Y apontadas por uma matéria a que Rense faz referência] não são convicções, são preconceitos. Nada mais, provavelmente, que o resultado de macaquear coisas vistas e ouvidas na MTV. Considerem, por exemplo, a parte que diz serem eles 'menos racistas'. Parece-me que a maior parte dos jovens consideraria racista qualquer pessoa que trace qualquer distinção de qualquer tipo entre as raças. Se você mencionar, por exemplo, que a maior parte da NBA é afro-americana, você receberá um olhar de suspeita."

O artigo continua, e chega à conclusão seguinte:

"Em suma, o artigo de [David] Plotz [na Slate, é o bom artigo que serviu de ponto de partida para Rense] afirmava que a Geração Y está apenas indefesa contra o ataque coletivo de ilusão de alta tecnologia, sexo e violência. Que a Geraçãu Y é, de fato, o mais amplo, indiscriminado e desfortunado rebanho de ovelhas já levados ao matadouro mercadológico - um lugar onde demógrafos salivantes planejam produtos para hipnotizar o trêmulo sistema nervoso de qualquer um velho o suficiente para dizer 'cool' ['maneiro']."

Pois é, como diz o próprio Rense ao amigo que diz chorar pelo futuro: "Por que esperar? Chore pelo presente!"