ALVARO VELLOSO DE CARVALHO

No. 15 - 23/06/00

Seria uma pretensão desmesurada minha resumir de forma adequada o que aconteceu no I Congresso do Instituto Brasileiro de Humanidades, ocorrido em Vassouras no último fim de semana. Acredito que maiores detalhes deverão ser disponibilizados nos próximos dias, inclusive as fitas das palestras e talvez até suas transcrições. Quero, pois, apenas dar uma idéia geral do que foi o congresso.

E, antes de mais nada, é preciso dizer que ele superou todas as minhas expectativas, tanto pela organização (considerando-se que foi o primeiro), quanto pelo altíssimo nível das palestras.

A idéia do Congresso era dar um panorama geral da obra do prof. Olavo de Carvalho, uma obra vastíssima, que se estende por praticamente todos os domínios do conhecimento humano, e, para tanto, o próprio professor escolheu oito temas centrais, apesar de deixar de lado outros temas igualmente importantes, como seus trabalhos sobre o simbolismo e sobre religiões comparadas.

Nenhum outro tema poderia abrir os estudos senão a pedagogia desenvolvida por Olavo, por sua vez decorrente de sua concepção da inteligência como "capacidade para apreender a verdade". O tema foi muito bem apresentado por Ronaldo Castro de Lima Jr., apesar de ele ter sido chamado uma semana antes do Congresso para substituir a pessoa que inicialmente faria a palestra. Para os interessados no tema, um belo resumo das idéias pedagógicas do Olavo encontra-se no texto "Inteligência e verdade", definido pelo próprio Ronaldo, em sua apresentação, como "preâmbulo iniciático" da filosofia do Olavo..

Estabelecido o conceito de inteligência, resta saber ainda como ela se desenvolve, isto é, estudar a psicologia humana. Os estudos do Olavo sobre assunto foram apresentados em duas palestras. Lúcia de Fátima Junqueira, em apresentação absolutamente brilhante, tratou do tema "A definição da psique e a astrocaracterologia", mostrando como o Olavo foi buscar o conceito de psique subentendido em toda a diversidade de coisas que os psicólogos modernos dizem a respeito, e como, daí, ele partiu para o estudo do desenvolvimento do caráter no ser humano e, posteriormente, para uma tentativa de correcioná-lo com a figura do céu (daí o nome "astrocaracterologia"). Essa parte da obra é pouco conhecida por quem entrou em contato com o Olavo há pouco tempo, e não há nada publicado a respeito além do livreto O Caráter como forma pura da personalidade. Existem quilos de papel com transcrições de cursos sobre o assunto, e imagino que alguém deverá reuni-los e divulgá-los um dia.

A outra parte da palestra, com aplicações formidáveis em pedagogia, tratou do "Trauma da emergência da razão", apresentado por Henriette Fonseca. A palestra foi uma grande novidade para mim, e parece que não há nem mesmo transcrições de aulas sobre o assunto, o que é lamentável.

O dito "trauma" é o momento no desenvolvimento cognitivo individual em que a intuição, que é a porta de entrada dos dados, encontra uma barreira onde não consegue penetrar; olha para algo e o encara não mais como substância, mas como pergunta. É aí que o sujeito busca elaborar uma síntese parcial temporária, a partir de sua experiência acumulada.

É evidente a importância do estudo dessa espécie de "ponto de partida" da racionalidade individual, inclusive porque os traumas cognitivos são muito mais importantes para o desenvolvimento do indivíduo do que os traumas afetivos, estes exaustivamente abordados pela psicologia moderna.

Depois da pedagogia e da psicologia, o que mais poderia vir senão a gnosiologia?

E, na palestra mais aguardada do Congresso, Fernando Manso apresentou com coerência e poder de síntese admiráveis as respostas do prof. Olavo às questões mais espinhosas da filosofia, como o fundamento da objetividade do conhecimento e as relações entre sujeito e objeto.

Essa gnosiologia, que é mais propriamente chamada uma "ontognosiologia", será o tema do muito aguardado livro O Olho do Sol, ainda em fase de preparação, mas algumas de suas idéias centrais já podem ser encontradas na página do prof. Olavo, em textos como "Da contemplação amorosa", "Kant e o primado do problema crítico", "Descartes e a psicologia da dúvida", "Ser e conhecer", "A unidade de sujeito e objeto", "Conhecimento e presença", "Kant e a mediação entre tempo e espaço", "Notas sobre simbolismo e realidade" e "Identidade e Univocidade".

Uma observação: pela quantidade de textos que citei, já é possível perceber o valor do trabalho do Fernando, ao unificá-los e expor conceitos anteriormente expostos de forma esparsa sob uma perspectiva única.

A última palestra do primeiro dia foi proferida pelo próprio prof. Olavo de Carvalho, intitulou-se Da Anamnese ao Anagnorismos e versou sobre o "método anamnético" usado pelo prof. Olavo e que me perdoem mas não vou me aventurar a resumir aqui. Digo apenas que este método toma como modelo básico da certeza aquilo que apenas o indivíduo que os conhece testemunhou (os "atos sem testemunha" da frase que abre o site do Olavo) e, aumentando a consciência do indivíduo sobre a própria vida, os próprios atos exteriores e, principalmente, interiores, vai aumentando a sua confiança na própria inteligência para tratar de questões cada vez mais amplas, desde que ele as perceba como objetivamente importantes.

Claro que, a intuição sendo incapaz de ser expressa diretamente, mas apenas por seu reflexo discursivo, era necessário que, complementando a ontognosiologia e o método filosófico, o prof. Olavo desenvolvesse uma teoria do discurso. Ele não a desenvolveu propriamente, mas a descobriu implícita em Aristóteles, estabelecendo uma nova chave interpretativa para o sistema aristotélico.

A excelente palestra do nosso caríssimo amigo e freqüente colaborador Alexandre Bastos teve, justamente, como tema a "Teoria dos Quatro Discursos".

Essa eu posso me aventurar a resumir da seguinte maneira: o discurso humano é uma potência única, que se atualiza de quatro maneiras diversas (i.e., segundo um determinado esquema de possibilidades), a poética, a retórica, a dialética e a analítica, que se distinguem entre si por seus níveis de credibilidade, que são, respectivamente, possível, verossímil, provável e certo.

O básico da teoria foi expresso no livro Aristóteles em nova perspectiva, lançado pelo prof. Olavo há uns três anos (um de seus capítulos está disponível em português e em francês). Mas Alexandre fez mais que repetir as explicações desse livro. Ele mergulhou nas centenas de páginas de transcrições de aulas do Olavo sobre o assunto, e daí extraiu uma maneira original de expor a importância da teoria e a demonstração de sua veracidade. De quebra, atacou as pretensões totalizantes da "nova escola de retórica" de Chaim Perelman e do formalismo lógico de Wittgenstein.

Ainda dentro da teoria do discurso, Pedro Sette Câmara, que dispensa apresentações, foi o responsável pela exposição dos "Fundamentos metafísicos dos gêneros literários", teoria dos gêneros literários apresentada no livreto Os fundamentos metafísicos dos gêneros literários e definida pelo próprio Pedro, em sua palestra, como a única além da de Northrop Frye (à qual não se opõe, apenas enfoca o assunto de outra maneira) a propor seriamente uma resposta a respeito do que são realmente os gêneros literários.

O modo de existência dos gêneros literários é definido por Olavo como sendo esquemas de possibilidades que balizam as elocuções, da mesma maneira que as direções do espaço balizam a caminhada. São os modos de elocução.

Pertencendo ao mundo humano, são delimitados pelas mesmas condições que delimitam este: tempo, espaço e quantidade. Dessas determinações, e seus sucessivos entrecruzamentos, são deduzidos os diversos gêneros, sendo, por exemplo, o gênero narrativo decorrente do tempo, o gênero expositivo do espaço e o gênero lírico do número.

A palestra a seguir iniciou o tema geral da "filosofia da ação", começando do começo: a filosofia da ética, apresentada por este que vos escreve.

Meu trabalho foi, essencialmente, o de coerenciar e reunir demonstrações que tinham sido dadas pelo prof. Olavo em textos e aulas esparsas, sendo que o núcleo do tema se concentrava no "curso de ética" pronunciado no Rio de Janeiro em 1994.

Se eu tivesse escrito um texto para a palestra, com certeza o disponibilizaria aqui, mas fiz apenas apontamentos e um conjunto de citações, que acabariam servindo mais para confundir que para esclarecer.

Dividi a palestra em quatro partes, cada uma delas, por sua vez, dividida em seções:

I- O objeto da filosofia ética, i.e., do que trata a filosofia moral ou ética? O mais importante, neste ponto, era distinguir a filosofia moral das diversas morais sociais, e identificar onde se manisfesta o problema ético.

II- A autoconsciência como fundamento da moral. Neste ponto, mediante rigorosa análise do cogito cartesiano, mostrei, seguindo o Olavo, a absoluta necessidade do princípio de autoria e de que forma ele fundamenta a moral.

III- Resposta às objeções kantianas à objetividade do conhecimento moral.

IV- A materialidade da moral baseada no princípio de autoria, que, embora pareça ser puramente formal, como diria Kant, na verdade, aponta (e fundamenta objetivamente este apontamento) para um valor moral muito claro: a unidade do sujeito.

Tenho certeza de que algum dia o "curso de ética" será revisado e publicado. Mas os princípios básicos dessa exposição estão na terceira parte do texto "Da contemplação amorosa", bem como no capítulo do Jardim das Aflições sobre a "ética de Epicuro".

A filosofia da ação continua na investigação sobre "natureza e formas do poder", definido como tema nuclear das ciências sociais. Esta parte da filosofia política do Olavo foi bem apresentada por Luciano Saldanha Coelho, que seguiu a linha de demonstração dos textos do próprio Olavo sobre o assunto.

Essa linha é basicamente a seguinte: poder é possibilidade concreta de ação; ação é transformação deliberada de um estado de coisas; ação no sentido político é determinar voluntariamente as ações de outrem. Agir, no sentido estrito, é produzir obediência. Os tipos de poder decorrem, então, das motivações objetivas da obediência, que são três: a força física, o dinheiro e o carisma, sendo mais efetivo o poder quanto menos ele estiver "no" indivíduo.

Daí decorrem os modos do poder e suas divisões, com a teoria reformada das castas, que aplica os conceitos hindus de castas à sociologia, definindo as castas como o esquema geral dos modos de atuação dos indivíduos.

Dito assim, é difícil entender a importância dessas observações e a extensão de suas aplicações; isso só ficará claro para quem leia os textos inteiros. Mas algumas dessas aplicações podem ser encontradas no próprio Jardim das Aflições e nos artigos de jornal em que o prof. Olavo analisa a situação política do Brasil e do mundo. Eu mesmo, dentro das minhas muitas limitações, tenho tentado aplicar esses princípios à análise política.

A palestra que encerrou o Congresso foi cercada de suspense, porque não sabíamos se o Marcelo De Polli (webmaster da página do Olavo e expositor com enormes recursos didáticos, que não teve condições de usar), encarregado dela, teria condições físicas de apresentá-la, por ter sido tomado por uma forte febre dois dias antes da apresentação. Na hora, Marcelo acabou aparecendo e, com muitas dificuldades para falar, apresentou a palestra sobre a filosofia da História do Olavo, que parte da pergunta "quem é o sujeito da História?".

Ora, estão sempre contando a história, mas nunca se definiu claramente a história de quem. Para ser sujeito de qualquer ação, é preciso que o ente preencha as seguintes condições: unidade substancial, unidade autoral e unidade subjetiva. Basta observar isso para notar que a história não pode ser história das classes sociais, porque estas não têm unidade autoral, nem das raças, nem das nações, pelo mesmo motivo.

De quem, então, é a história? Disse Marcelo, resumindo o Olavo: "o sujeito da ação histórica deve, ao mesmo tempo, transcender a duração da vida individual e ter unidade substancial, autoral e subjetiva."

Não vou continuar a demonstração do Olavo, exposta pelo Marcelo, porque isso requereria que eu entrasse em inúmeras questões sobre ação histórica, mas vou dizer apenas que é possível ver o método decorrente dessa filosofia em ação no Jardim das Aflições, que usa a idéia do "império" como chave explicativa para a história da cultura nos últimos dois milênios, e desenvolve essa idéia mostrando a ação dos diversos sujeitos históricos.

O Congresso terminou aí, e foi um grande sucesso. Tanto que o próximo já está sendo organizado.

 

NA REDE

Esta seção normalmente recomenda sites. Mas desta vez vou fazer justamente o contrário. Eis aqui dois sites que o internauta que procura coisas inteligentes para ler deve evitar. Já quem gosta de besteira vai ter aí um prato cheio.

O que dizer de uma página que reúne Tutty Vasques, Arthur Dapieve, Ancelmo Góis, Marcos Sá Correia e João Moreira Salles - isto é, tudo o que existe de mais "mauricinho", mais politicamente correto e mais fútil no jornalismo brasileiro?

Pois este é o NO ("notícia e opinião"), hospedado no iG (o que significa que seus participantes estão provavelmente faturando alto). A nata do esquerdismo light, o esquerdismo que não ousa dizer seu nome, escreve nesse site, emitindo opiniões sobre praticamente tudo, do último jogo de futebol ao último desfile de modas, da última lista de parlamentares mais influentes à pena de morte, sempre com o misto de pseudo-erudição caipira e ausência total de justificação racional para as próprias opiniões que caracterizam esses colunistas.

Não é de espantar, aliás, que eles traduzam matérias da "Salon", que é o site do esquerdismo light americano. Só que "Salon" também tem um colunista de "direita": o quase sempre excelente David Horowitz, editor da Front Page magazine. Mas o NO não vai ter nenhum equivalente do Horowitz, nem vai traduzir seus artigos. Vai traduzir, sim, os da Camille Paglia...

Mas o pior do NO não é o esquerdismo light: é que tudo o que seus colunistas escrevem parece colunismo social. Tudo tem cara de Ricardo Boechat ou Joyce Pascowitch. Quando essas colunas têm alguma informação, tudo bem, mas quando se perdem em coisinhas sem importância, o resultado é irremediavelmente chato.

Vejam, por exemplo, a coluna do Arthur Dapieve datada de 21 de junho: ele diz que tem um caso de pena de morte sendo julgado nos EUA, diz que fulano de tal escreveu um artigo contra o NAPSTER no NY Times, diz que todo mundo no Burundi ouve determinada estação de rádio, diz alguma coisa sobre a bicha-mor Andrew Sullivan, e alguma coisa sobre o rejuvenescimento vaginal a laser, algo que prefiro não saber o que é. De tudo isso, só o caso do sujeito acusado no Texas é interessante; o resto é baboseira para encher espaço e lingüiça.

A mesma constantação pode ser feita nas demais colunas. Tudo chato demais.

Não satisfeito em ocupar uma página inteira aos domingos e um terço de página às quartas-feiras no Globo e na Folha de São Paulo, Elio Gaspari agora criou seu próprio site, com comentários de notícias atualizados diariamente.

Por que é que o Gaspari tem tanto cartaz? Não sei ao certo, mas acho que é porque ele tem um pouquinho mais de informação do que seus colegas da imprensa. É a velha história: em terra de cego...

De vez em quando, é verdade, Gaspari se sai com alguma coisa interessante, mas freqüentemente isso vem junto com alguma bobagem. Por exemplo, domingo passado, sua coluna tinha um comentário muito válido sobre a nova nota de dez reais: essa nota abrevia inexplicavelmente o nome de Pedro Álvares Cabral (aparece "Pedro A. Cabral", que nunca foi usado por ninguém), e mostra índios da época do descobrimento trabalhando com instrumentos que não existiam na época. Mas, além de dizer isso, Gaspari reclamou de que, na parte de trás da cédula, a criança loura aparece em cima da criança negra, e enxergou racismo aí, o que é a paranóia anti-racista levada às últimas e mais loucas conseqüências.

Uma dessas bobagens inacreditáveis bateu ponto logo no dia de estréia do site. Comentando uma notícia do NY Times (parêntese: é hilário que, quando buscam informações na internet, nossos colunistas procurem logo a big media, tipo NY Times, que é praticamente um órgão do governo americano) que relatava que um prêmio tinha sido concedido pelo governo alemão a um historiador que elaborou algumas justificativas racionais para o nazismo, Gaspari diz o seguinte: "Discutindo-se as idéias de Nolte, discute-se o pensamento da verdadeira direita. Ele acaba de condenar aqueles que buscam "uma irrefreável transição na busca de uma civilização mundial"."

Essa frase tem distorções e desinformações em doses cavalares. Em primeiro lugar, dizer que o nazismo é "de direita" é forçar demais a barra, porque o nazismo era uma teoria anti-religiosa baseada em noções darwinistas, e propunha mudanças sociais radicais; segundo, é mais absurdo ainda pretender uma relação entre os que se opõem à Nova Ordem Mundial e o nazismo. O fator central, para o nazismo, era a raça. Na Nova Ordem Mundial, os únicos obcecados por raça são os membros do movimento negro, que Gaspari tanto adoar. Aqueles que se opõem ao governo global, em geral, o fazem ou em nome da nação ou em nome, simplesmente, da liberdade, a qual, para ser garantida, precisa da descentralização do poder e, na esfera mundial, essa descentralização só pode ser garantida pela existência das nações com unidades culturais fortes.

É absolutamente ridículo afirmar uma correlação entre essa oposição ao governo mundial (ou, como diz Gaspari eufemisticamente, à "civilização global") e o ódio aos judeus. Mas esse absurdo é possível na discussão política brasileira, porque, nessa discussão, após anos de manipulação do vocabulário, "direita" virou sinônimo de "nazismo". Eis por que Gaspari pode identificar um sujeito tão repugnante quanto este Ernst Nolte, que pretende justificar racionalmente a matança dos judeus, com alguma fantasmagórica "verdadeira direita", que se opõe ao reinado mundial da ONU.

 

DESINFORMATZIA

Opinar sobre um assunto a partir apenas de impressões vagas, sem conhecê-lo em profundidade, eis uma das práticas mais difundidas nas páginas de opinião dos jornais. Quando quem incorre nela é diretor de jornalismo da maior rede de televisão do país, é sinal de que a coisa virou patologia gravenete já bem patológico país.

Mas foi exatamente isso o que fez o sr. Evandro Carlos de Andrade, em seu artigo no Globo no dia 21/06.

Evandro reclama de que, na escola, ele aprendeu história antiga demais e história contemporânea de menos, e acha que esse é um dos motivos pelos quais as pessoas não entendem o país em que vivem e sofrem de "debilidade de cidadania" (sempre esta palavra fatal).

O pressuposto não declarado é que o ensino nas escolas hoje em dia continua idêntico ao de, sei lá, cinqüenta anos atrás, quando ele próprio estudo nelas. Mas é preciso ser um ignorante total do que acontece no ensino de História no Brasil de hoje para acreditar nesse pressuposto.

Não sabe o sr. Evandro, mal adaptado ao papel de palpiteiro, que a inversão que ele propõe, de ensinar mais história contemporânea e deixar o resto para depois, já é seguida a risca pelas escolas, a tal ponto que nenhum estudante, hoje, saberia dizer o que foi a guerra de Cartago, quem foi Carlos Magno, ou qualquer outra coisa anterior à Revolução Francesa.

A História, para os vestibulares e, conseqüentemente, para os professores de história do ensino médio, começa na Revolução Francesa, ou, na melhor das hipóteses, na Reforma protestante.

E, exatamente ao contrário do que supõe Evandro, é justamente porque só conhecem (e mesmo assim muito mal, porque sempre pelas lentes marxistas) história contemporânea que os "cidadãos" brasileiros não são capazes de se situar no panorama histórico, não são capazes de olhar para si mesmos como participantes do drama cultural e civilizacional humano, que não começou ontem, nem anteontem, mas se estende a tempos imemoriais.

Essa concentração excessiva na história moderna ou contemporânea fecha as portas a inúmeras possibilidades de compreensão e empobrece consideravelmente a vida intelectual dos jovens. Propor um aumento dessa concentração não é reforçar a "identidade nacional": é abrir caminho para uma redução ainda maior do nível intelectual nacional. Como se ele já não estivesse baixo o suficiente.

Um dos traços que identificam o sujeito que só tem besteira a dizer é o fato de ele acusar seus críticos de não serem moderados o suficiente, de não proferir afirmações "ponderadas".

Outro traço inconfundível é o uso do argumento de autoridade: eu possuou diplomas tal e tal, e meu oponente não possui diploma nenhum, e não tem "familiariadade" com a temática, isto é, não pertence ao grêmio.

Jarbas Passarinho usa os dois recursos, em sua tentativa de defender o indefensável: sua atuação frente ao Ministério da Educação.

Ninguém que observe o assunto com o cuidado necessário deixará de perceber que foi com a proliferação de universidades, com a difusão da idéia de que todo mundo tem de entrar na universidade, que o ensino universitário no Brasil começou a descida rumo ao fundo do poço, onde se encontra hoje. Usar esse tipo de argumento para defender uma atuação desse tipo é, no mesmo ato, confessar inconscientemente a própria incompetência e a própria sucessão de enganos.

E, como se isso já não fosse ruim o suficiente, o ex-ministro ainda cita como fonte importante de seu pensamento ninguém menos que o padre Ávila, o comuna que ele encarregou (numa das decisões públicas mais nefastas da história deste país) de escrever as cartilhas de "educação moral e cívica" que foram distribuídas nas escolas brasileiras durante o regime militar.

 

LENDO O LEITOR

O Japão continua dando margem a discussões. Publiquei, semana passada, uma mensagem de Alexandre Kawakami (a quem, aliás, erronemente chamei de "Kawatami") contestando elogios de um artigo de Justin Raimondo que eu tinha recomendado ao novo primeiro ministro japonês e seu nacionalismo.

Recebi duas mensagens muito interessantes sobre o tema esta semana, ambas criticando o Alexandre e defendendo alguns pontos do artigo do Raimondo e do nacionalismo japonês. Publico ambas abaixo. Tendo a concordar mais com o César que com o Alexandre na questão da imigração, mas, no caso da unidade cultural, discutida pelo Hiranclair, não tenho elementos suficientes para julgar o caso, e ao menos informo o leitor dos dois pontos de vista.

From: "kayanoki cesar souza"
To: <cartas@oindividuo.com>
Subject: O Japao dos japoneses, e o que querem inventar.
Date: Sun, 18 Jun 2000 07:46:54 +0900

Caro Alvaro,

o assunto Japao já deve ter enchido o saco, mas assim mesmo acho que existem certos pontos que o sr.Alexandre em sua mensagem ignorou.

O governador Shintaro Ishikawa, que foi duramente criticado pela mídia burra, no seu pronunciamento diante das forças armadas, não disse a palavra certa, "sangoku-jin", mas pelo menos demonstrou alguma preocupação quanto ao aumento da criminalidade por aqui [havia, anexa ao e-mail, uma matéria sobre o aumento em mais de 50% dos crimes cometidos por estrangeiros no Japão - AVC].

Além dessa matéria, existem outras e muitas outras mais, onde quase sempre temos a presença de estrangeiros em crimes. Na grande maioria dos crimes, existe a mão forte de um yakuza (mafioso) japonês.Aqui existem até cartazes em espanhol e em várias outras línguas que são avisos que visam repreender as prostitutas,travestis,mafiosos, malandros e traficantes, que tornam as ruas que há alguns anos eram tranquilas em locais de risco de vida.

Outro exemplo de degradação e problemas causados pelos estrangeiros foi o parque de Ueno, onde todos os anos os japoneses celebram o matsuri ( um tipo de festa ) e que de um ano para outro não pôde ser realizado porque mais de 3000 iranianos (na maioria sem visto) resolveu usar o parque pra vender cartões telefônicos turbinados, produtos roubados, maconha, cocaína, heroína e fitas pornográficas sem mosaico (um recurso eletrônico que distorce a genitália nos filmes pornôs daqui). Além de estupros, extorsões, brigas com objetos cortantes, alguns homicídios,etc.

Há mais ou menos cinco anos, o governo daqui, muito diferente do governo Garotinho ou Covas, resolveu encarar a situação não só nesse parque, mas tambem em várias outras localidades onde estrangeiros resolveram fazer deste país uma propriedade particular. A polícia cercou as ruas com tropas de choque, com escudos, cassetete, e pôs de forma exemplar muitos desses gaijins (estrangeiros) para fora daqui, e outros estão até hoje cumprindo pena, em penitenciárias onde a grande maioria é de estrangeiros (chineses no geral).

Não acho que o nacionalismo aqui é tão ruim, a cultura desse povo vem sofrendo ataques dos mais diversos tipos. O apego às causas politicamente corretas, como sr.Alexandre disse, é somente um dentre outros vários, como a estupidez dos jovens (eu vejo você irritado com a falta de Q.I dos estudantes do Brasil e automaticamente imagino o "treco" que voce ia ter com o nível da molecada aqui), e a própria baixa estima que o povo vem desenvolvendo com a crise econômica, que significa a quebra daquilo que até então era a "razão de viver"daqui: a irrestrita dedicação a uma empresa .

A diferença que vejo comparando aqui com o Brasil é que o Brasil é de qualquer um, menos dos brasileiros. E o povo japonês, diferente do cidadão manso brasileiro, começa a perceber que nem tudo que é bom para o mundo (ou que se apresenta como bom) serve para um país minúsculo como o deles, que não tem recursos naturais, e que vive sob o espectro de "criminosos de guerra" e outras coisas a mais que o "mundo" resolveu desenterrar, assim como no Brasil se acha lindo fazer cafuné nos índios .

Os jornalistas aqui ficam todos enfezadinhos porque não têm muito o que escrever (no Brasil mesmo, o pouco que se tem noticia daqui são no geral besteiras, tipo robozinho que late, peixinho-robô, e nem a família real daqui serve pra ilustrar uma capinha de revista que seja, porque são meio "estranhos" para nossos padrões ), a esquerda fica chateada porque sendo esse um país de primeiro mundo, não podem enfiar goela abaixo tantas ONGs como em outros lugares como Filipinas ou qualquer outro lugar miserável desse continente.

Quanto ao Mori, duvido que aquilo que foi dito fosse alguma coisa de tão terrível por que é só uma provocação. Mori quer também se identificar como nacionalista, quer se separar dos partidos e candidatos que lembrem ou tenham vínculos com uma espécie de new age política: um amontoado de candidatos que são tão sérios quanto o Enéas daí!. Ele faz isso é para convocar em geral os gupos das pessoas mais velhas que são maioria nesse país. E que pensam como velhos, e que vão votar nele.

Daí, como o Alexandre pôs na sua mensagem, que eles (o Mori e o Ishihara) se acham filho ou descendente disso ou daquilo é ingenuidade, não correponde ao bom senso que sabe distinguir uma declaração eleitoreira de uma política menos esquerdista.

Um grande abraço pra você! Vida longa ao " O indivíduo"!

Date: Sun, 18 Jun 2000 11:09:47 -0300
From: Hiranclair Rosa Gonçalves
To: cartas@oindividuo.com
Subject: Sobre o Japão.

Prezado Álvaro,

Desejo aqui comentar a carta recebida por você de seu amigo Alexandre Kawakami. Acho que você mudou sua opinião muito rápido, dando mais razão a ele que a Justin Raimondo, autor de um artigo que você havia recomendado anteriormente, e vou explicar por quê. Sou sociólogo e faço pesquisas relacionadas a cultura japonesa, especialmente no aspecto religioso.

Primeiramente, Alexandre tenta desqualificar a pessoa de Mori, porque ele tomou o poder em circunstâncias estranhas, não foi um líder legitimamente eleito, que os japoneses não o conhecem. Eu retruco isso da seguinte forma, é incorreto criticar sua legitimidade, porque ele foi escolhido indiretamente pelo parlamento, o qual por sua vez foi eleito pelo povo, e o fato de ele ser pouco conhecido pelo povo não o desqualifica, os parlamentares em quem o povo confiou seus votos certamente o conhecem e devem ter suas razões para escolhê-lo. Que seu amigo considere estranho, e os ocidentais também, isso é normal, mas não é argumento para desqualificar Mori. Examinemos os outros.

Primeiramente ele desqualifica o Xintoísmo, dizendo que não existe um Xintoísmo, mas sim vários. Isso é o mesmo que desqualificar o Protestantismo como elemento importante da identidade americana dizendo que não há um Protestantismo mas vários protestantismos. A afirmação dele de que a cultura japonesa não é uma só, mas sim um amontoado de elementos autóctones e locais misturados a elementos importados cuja dinâmica tem sido suprimida desde os tempos da Revolução Meiji, é falha a meu ver. Pra começar, vejamos o início da oração: o fato de a cultura japonesa ser um amontoado de elementos autóctones e importados implica em que ela não tenha unidade? Para ter unidade uma cultura precisa ser formada só por elementos autóctones? Estudando a história do Japão, se observa que o Japão incorporou na antiguidade elementos culturais da Coréia e da China, mas sem perder sua especifidade. E quando ele afirma que a dinâmica desse amontoado de elementos autóctones e locais vem sendo suprimida desde da Restauração Meiji, isso não mostra que implicitamente ele reconhece esse amontoado como uma unidade cultural? E o que ocorreu após a Restauração Meiji foi que o Japão buscou incorporar tudo que ele considerava que havia de bom no Ocidente, assim como anteriormente ele havia incorporado cultura da China e da Coréia, mas é muito claro na política japonesa desse período que ela buscava crescer com contribuições estrangeiras sem desprezar nem negar suas raízes e sem perder sua identidade.

Depois ele vem dizendo que a unificação militar do país só aconteceu na segunda metade do século XV e que isso não significou unidade política nem cultural, porque era um país que podia ser budista aqui, xintoísta ali, e mesmo católico em alguns cantos. Essa não é uma maneira correta de descrever a religiosidade dos japoneses, porque caso ele não saiba, o budismo e o xintoísmo não são duas religiões que se excluem mutuamente. Isso significa que desde o seu início o budismo se difundiu sem se opor ao xintoísmo, de modo que as pessoas aderiam ao budismo sem deixar de ser ao mesmo tempo xintoístas. E isso é assim até hoje, a maioria da população japonesa se define como adepta tanto do budismo quanto do xintoísmo. Desse modo não é correto dizer que o Japão era budista aqui, xintoísta ali e cristão em alguns cantos, no período posterior ao século XV, o Japão era budista e xintoísta em toda parte, à exceção de algumas pequenas localidades onde houve missões católicas no século XVI, mas isso foi pouco significativo para o Japão. Tanto que hoje o cristianismo corresponde apenas a cerca de 0,5% da população japonesa.

Qualificar a idéia do Japão ser nação homogênea, como mito, que significa na acepção comum algo simplesmente falso,a meu ver também não é adequado. Não é correto dizer que o Japão é 100% homogêneo, aliás nenhum país do mundo é 100% homogêneo, mas o Japão é certamente um dos países que mais se aproximam disso, as minorias étnicas e religiosas do Japão, correspondem a uma parte muito pequena da população, a quase totalidade da população japonesa comparilha de muitos valores e crenças comuns, e isso dá uma identidade cultural forte ao Japão, fato esse que preocupa os globalistas de plantão, que ficam tentando deslegitimar o direito de defesa das identidades nacionais. Vamos refletir, se o Japão não pode ter nacionalismo porque não é 100% homogêneo, qual país pode? O Brasil, então nem se fala, nessa linha de raciocínio, o Brasil não pode nem sonhar em elaborar um discurso nacionalista, a nossa diversidade é muito maior, e nossa unidade mais precária. Nem Israel pode continuar com o seu nacionalismo, seguindo essa linha de pensamento, porque também existem minorias dentro de Israel, nem todos os Judeus praticam o Judaísmo, etc.

O nacionalismo japonês é válido sim, porque reflete os interesses da maioria do povo japonês, assim como outros nacionalismos representam a maior parte das populações de seus países. É muito claro atualmente a luta contra a afirmação de qualquer poder nacional e cultura nacional por parte dos globalistas, e o nacionalismo japonês tem os seus méritos por ir contra isso. O texto de Justin Raimondo, para mim é muito bom em apontar isso.

Não pretendo negar que haja aspectos ruins no nacionalismo japonês que tudo são flores. Considero importantes e muito válidas as críticas de Alexandre ao Ministério da Educação do Japão, devido ao fato de ele se meter em tudo, não mencionar nos livros didáticos a guerra da Coréia, e outros fatos assim. Mas a meu ver isso não é motivo para desqualificar todo o nacionalismo japonês. Deve -se criticar o nacionalismo japonês para que ele abandone esses aspectos ruins, mas deve-se preservá-lo para o bem do povo e da cultura japonesa tradicional, e também por que isso ajuda a atrapalhar os planos de implantação de um governo mundial. Um país importante como o Japão resistindo ao governo mundial, é uma baita pedra no caminho desse pessoal globalista.

A afirmação dele de que o xintoísmo é uma religião que ninguém entende e pratica não é correta. A maioria da população japonesa continua praticando o xintoísmo sim, e não vejo razões para acreditar que ninguém no Japão entenda o xintoísmo que pratica. Talvez isso seja verdade com relação a jovens americanizados, que não se interessam muito pelas suas tradicões, mas dizer isso de todos os japoneses, eu considero muito exagerado. Que haja alguma farsa no xintoísmo, como ele diz não desqualifica todo esse sistema religioso que é milenar e é um dos principais pilares da identidade japonesa, talvez o principal.

No fim ele critica Ishihara e Mori, dizendo que eles representam o japonês que se considera superior ao resto do mundo, e no direito de dominá-lo. Será mesmo? Não conheço a fundo a vida e as atitudes desses políticos e não ponho minha mão no fogo por ninguém, acho que Ishihara pode ter tido atitudes ruins, mas até onde eu conheço, não vejo motivos para associar esses dois no estereótipo de nacionalista de extrema direita que a mídia tenta pintá-los. Será que esse rótulo de extrema direita não é injusto? Não é assim que a imprensa mundial tenta pintar qualquer discurso nacionalista, como sendo de extrema direita, racista, nostálgico do nazismo. Não é assim que acontece aos que tentam desqualificar os conservadores americanos e franceses por exemplo? Será que não está ocorrendo o mesmo com o Japão, agora que está se manifestando um discurso nacionalista no Japão, todos tratam logo de associá-lo à extrema direita, ao imperialismo do tempo da guerra? Eu penso também que ainda é cedo para avaliar o Sr. Mori, pode ser que o nacionalismo japonês tome um rumo ruim, mas acredito que pode tomar um rumo bom e eu torço por isso.

Sem mais, Hiranclair.

 

ARTIGO DA SEMANA

Rapidinho, para não ocupar espaço demais (que já estou ocupando): minha escolha de artigo desta semana vai para o artigo de Tom Spurgeon (escrevendo sob o pseudônimo de 40th Street Black) no Suck.com, "Bring out yer dead".

Com a irreverência e a originalidade que caracterizam os textos publicados nesse site, Spurgeon reclama da qualidade dos obituários nos últimos anos: no jornalismo atual, todo mundo só quer saber se cumprimentos e elogios mútuos, e ninguém mais tem coragem de escrever obituários críticos. Agora, morre alguém, por pior que fosse, e tudo o que consta no obituário é um resumo de sua vida.

Pois é, coisas destes tempos em que ninguém quer criticar ninguém. Spurgeon ainda cita um obituário engraçadíssimo escrito por H.L. Mencken espinafrando um de seus inimigos que acabara de morrer. Na verdade, Mencken estava completamente errado na discussão (que envolvia darwinismo), mas é impossível não admirar seu estilo jornalístico.

E, já que estamos falando de elogios e cumprimentos em público, vale a pena ler o artigo de Melik Kaylan (é o último desta página; mas os outros são bons também) sobre um recém-lançado livro chamado You're too kind: a brief history of flattery.

Kaylan menciona o pior tipo de elogios dos tempos atuais: aqueles que buscam não ferir as "sensibilidades" de minorias super-protegidas e super-suscetíveis.