ALVARO VELLOSO DE CARVALHO

No. 16 - 30/06/00

Antes de mais nada eu queria fazer um pedido de desculpas. É que andei relendo a coluna da semana passada (eu quase nunca releio o que escrevo), e encontrei pelo menos dois erros de digitação imperdoáveis e duas frases incrivelmente mal escritas. Culpa inteiramente minha, por ter escrito com a cabeça cheia de café e sem revisar depois. Hemingway dizia que, nos textos de Faulkner, ele sempre conseguia saber a partir de que parágrafo Faulkner tinha tomado seu primeiro trago; nas minhas colunas, um leitor atento vai identificar que partes foram escritas ao longo da semana, com antecedência, e que partes foram escritas sob o efeito de café...

Feito o pedido de desculpas, pergunto o seguinte: sou só eu, ou qualquer pessoa com mais de dois neurônios, ao ler jornais ou ver um pouco de televisão, se sente um gênio assombroso? Às vezes eu tenho essa sensação, mas é só analisar um pouquinho o caso para perceber imediatamente que não, não me tornei de repente um gênio assombroso; continuo a mesma besta quadrada. É o nível geral de quem escreve em jornal ou fala em televisão que caiu de maneira assombrosa. A média é que caiu, não eu que subi.

Vejam por exemplo: nos Estados Unidos, a Suprema Corte se diz incapaz de proibir a circulação de uma revista que tem fotos de meninas sendo estupradas por seus tios e irmãos transando com irmãs, porque a Primeira Emenda garante a "liberdade de expressão". Mas a mesma Suprema Corte se julga no direito de considerar inconstitucional uma lei de um estado americano (aprovada por 95% da população) que permitia aos times de futebol americano rezar em grupo antes dos jogos. A lei, dizem os meretríssimos da Suprema Corte, viola a "separação entre Igreja e Estado".

Se esse caso não é suficiente, vamos a outro exemplo, ainda na vida legal americana. Um estado daquele nefando país resolveu proibir o "aborto de parto parcial". Já falei do assunto aqui, e apenas lembro ao leitor que se trata do aborto em que o corpo do bebê é retirado até o pescoço e este, então, é quebrado para que, depois, a cabeça seja retirada. Até aí tudo bem. Mas a grande discussão que a lei está provocando é que é muito difícil distinguir este caso, que a lei considera infanticídio, de um outro tipo de aborto, no qual a criança também é retirada até o pescoço e sua cabeça, então, é sugada e esmagada por um aparelho. Mais ainda: há casos em que o médico tem apenas a doce intenção de sugar a cabeça da criança, mas surgem complicações e ele é obrigado a quebrar o pescoço dela. E aí, nesses casos, como será aplicada a lei?

E eu respondo perguntando: dá para acreditar que esse tipo de coisa está sendo discutida a sério?

Mas não é só isso. O NY Times acaba de publicar um editorial fortíssimo contra a pena de morte (falo mais do assunto abaixo). Mas nãoera o Times o maior defensor dos bombardeios americanos em Kosovo e no Iraque? Quer dizer: pena de morte para criminosos americanos, não; para crianças e mulheres do Kosovo e do Iraque, sim!

E ainda tem essa história de "Gay pride". "Pride" de quê?! Ah, olha, eu permito que coisas estranhas sejam feitas com meu rabo e me orgulho disso! - Dá para alguém falar isso a sério?

Ora, se os gays querem encher a paciência alheia com essas passeatas e desfiles ridículos, tudo bem, azar deles e de quem estiver perto. Mas pelo menos deveriam arrumar um slogan que fizesse algum sentido.

Acham que estou brincando, querem que eu analise a questão mais a sério? Tudo bem, vamos lá.

1) O que é ser "homossexual"? O próprio termo já diz: é manter relações sexuais com alguém do mesmo sexo.

2) Sim, e por que alguém faria isso? A resposta também é óbvia: ou por opção, isto é, porque gosta, ou por determinação biológica, isto é, porque não pode evitar.

2.1) Se é por prazer, então como é que isso pode ser motivo de orgulho? Alguém se orgulha de chupar um Chica-bon? Alguém se orgulha de ir à praia aos domingos? É claro que não!

2.2) Se é por determinação biológica, a coisa fica pior ainda: como é que você pode se orgulhar de uma coisa pela qual você não é reponsável, sobre a qual você não tem controle, e que, no final das contas, seria assim mesmo que você não quisesse? Volto aos exemplos: no ouvimos ninguém dizer "eu tenho orgulho do tamanho do meu pé" ou "eu tenho orgulho da cor do meu cabelo". Isso é um nonsense.

E, se meu testemunho não vale, já que eu sou um homofóbico direitista católico medieval inquisidor torturador machista americanófilo neoliberal ultraconservador contrário à preservação do boto rosa, podem conferir a opinião de um sujeito pró-gay no New York Press, jornal que, para sua desgraça, teve a edição da semana passada dedicada a Gay Pride (parêntese: eu acho que o autor das linhas abaixo está errado; não há nada que prove que um sujeito já nasce gay):

"Indivíduos gays podem ser orgulhosos ou não, mas como um slogan político, 'Gay Pride' é o mais ilógico e conceptualmente estéril possível. Isto porque ele vai contra a idéia de homossexualismo que é quase universalmente aceita neste país. A maioria das pessoas e virtualmente todos os gays já rejeitaram a idéia antiga de que alguma experiência na vida 'torna' as pessoas gays. A visão corrente é que o homossexualismo é 'inerente', 'natural', até mesmo 'genético'. E como você pode se orgulhar da matéria prima com a qual você nasceu? Você tem orgulho de conquistas. (...) Orgulho gay é como 'orgulho macho' ou 'orgulho ariano' [notem a associação desonesta que ele faz entre masculinidade e nazismo], e as leis que são passadas em seu nome em geral são da natureza de direitos especiais."

 

ORTODOXIA

Talvez o problema mais grave que afeta o catolicismo atual seja a decadência intelectual de seus membros. Isso vem, claro, de alguns séculos, séculos de progressivo enrijecimento e conseqüente emburrecimento da intelectualidade católica.

Chegou a haver uma breve "renascença" (com o perdão da má palavra) dessa intelectualidade no princípio deste século, mas o Vaticano II acabou cortando-a pela raiz.

Depois do Concílio, a intelectualidade dividiu-se em dois ramos: um, o mais abobalhado, que achou tudo lindo-maravilhoso e aderiu ao progressismo; o outro, o lado verdadeiramente católico, refugiou-se numa posição defensiva, que ou apenas insistia nos ataques ao Vaticano II e clamava pela volta de Trento, ou apenas expressava o estado catatônico em que suas almas ficaram depois de ver o que os progressistas fizeram com a Igreja. (Há também uma "terceira via", que continua dizendo até hoje que "nada mudou", mas estes são aqueles que o Apocalipse diz não serem nem quentes nem frios - e quem leu o Apocalipse sabe o que pensar deles).

É claro que o lado da posição defensiva está coberto de razão, mas também eles mostram-se incapazes de assumir uma posição de superioridade intelectual.

Estou dizendo isso porque, esta semana, o Vaticano finalmente resolveu revelar o texto do Terceiro Segredo de Fátima.

Ora, há mais de trinta anos os setores conservadores pedem que ele seja revelado, e há mais de trinta anos fazem inúmeras especulações a respeito de seu conteúdo. Agora, ele foi revelado, e o que dizem os conservadores? O que têm a dizer? Passem pelos sites conservadores católicos (são inúimeros): é como se o Vaticano não tivesse relevado nada.

Nem mesmo a coragem de dizer que a explicação dada pelo Papa é absurda eles têm. Mas coragem não falta a esses homens, nunca faltou. O que falta é estofo intelectual para interpretar um símbolo.

Ora, eu não sou teólogo e nem tenho autoridade para interpretar o significado do texto do Segredo. Mas qualquer pessoa capaz de somar dois e dois percebe que um bispo vestido de branco subindo uma colina e soldados atirando nele não tem nada a ver com um atentado ao Papa. Isso é tão óbvio que altas autoridades do Vaticano eram contra a revelação do texto completo do segredo, por perceberem que essa revelação evidenciaria a dissociação entre o texto original e a interpretação de João Paulo II.

Pior ainda é o que disse o cardeal Ratzinger, em seu texto teológico "explicativo": segundo ele, a montanha e a cidade que aparecem no texto simbolizam a História, a Histórica como "uma árdua ascensão para o topo". Quer dizer, o Segredo seria um endosso definitivo do progressismo...

Até aí, é tudo muito óbvio. Mas, qual, então, o sentido das fortíssimas imagens do Segredo? Eu tenho algumas idéias, mas não tenho condições de garantir sua veracidade e, como disse, não tenho conhecimentos suficientes para falar do assunto. Existem muitas pessoas que têm tais conhecimentos, que passaram a vida estudando teologia, estudando simbolismo religioso e assuntos afins: onde estão elas? Por que não falam nada?

E, enquanto elas não falam, até a demente Hildegard Angel se julga em condições de fazer interpretações e escreveu, na sua coluna no Globo, que o segredo fala "da ameaça que Moscou representa para o catolicismo".

Mas há uma coisa verdadeira na coluna de Hildegard: ela diz que os segredos anteriores só foram plenamente compreendidos (ao menos no que se referem a eventos históricos, acrescento eu, porque existe também uma dimensão de pedagogia espiritual nos três segredos e esta não depende de sua relação com fatos históricos; aliás, no caso do terceiro segredo, o comentário do cardeal Ratzinger sobre essa dimensão é excelente) depois de terem acontecido os fatos que previram.

Mas Hildegard imagina que isso quer dizer que alguma coisa ainda vai acontecer e está prevista pelo terceiro segredo. Ela está errada, por um fato simples: lembrem-se de que esse segredo deveria ser revelado na década de 60, e não no ano 2000. Quer dizer, aquilo a que ele se refere já aconteceu.

 

DESINFORMATZIA

Curiosa discussão entre um leitor e um jornalista no Jornal do Brasil.

Aconteceu o seguinte: o JB publicou, na capa, a foto do Presidente Fernando Henrique com um membro da equipe olímpica de natação, destacando que ele era o primeiro atleta negro a ir às Olimpíadas representando o Brasil nessa modalidade.

O leitor achou essa matéria racista: para que, dizia ele, enfocar a raça do nadador? Que diferença faz se ele é branco, amarelo, negro, ou verde?

O jornalista responsável por responder a esse tipo de reclamação disse que a matéria não era racista, mas, pelo contrário, mostrava uma grava contradição da sociedade brasileira, na qual negros não têm acesso a "esportes de luxo, como golfe, natação, tênis e hipismo".

Não me parece que a reportagem fosse racista, porque ela não preconizava a superioridade da raça negra, nem dizia que os nadadores negros são superiores aos brancos. Mas a resposta do jornalista ao leitor é, para dizer o mínimo, falsa.

O fato de negros não se destacarem em esportes como natação e golfe não é exclusividade brasileira. Dêem uma olhada nas equipes olímpicas de natação, ou assistam a um jogo de golfe, e constatarão isso. É claro que surgem exceções, por isso mesmo notáveis, como Tiger Woods, o maior golfista do mundo - mas são exceções.

Daí deduzimos que ou há uma conspiração racista planetária para tirar os negros da natação e dos demais "esportes de luxo" (aliás, de onde o JB tirou a noção maluca de que natação é esporte de luxo, do mesmo tipo que golfe e hipismo?!), ou há algo na constituição fisiológica dos negros que os torna menos aptos a determinados esportes, como a natação, e mais aptos a outros, como o velocismo e o basquete.

Parece-me que a segunda opção é mais razoável, e, por acaso, ela é defendida por um autor de um livro recente, o sr. Jon Entine (negro; ressalto isso para que ninguém pense tratar-se de algum tipo de teórico da supremacia branca), que deu uma ótima entrevista a Geoff Metcalf, do WorldNetDaily, domingo passado. E uma das perguntas foi exatamente sobre natação:

"Pergunta: Por que tão poucos negros praticam natação?

"Resposta: Eu acho que há fatores sociais, mas também há dois fatores biológicos fascinantes. Um é que negros têm os músculos e o esqueleto mais densos. A gordura corporal menor é uma qualidade em muitos esportes, mas não na natação; ela faz com que eles afundem. Ademais, pessoas descendentes de africanos do oeste têm em torno de 15% a menos de capacidade pulmonar; isso faz deles péssimos corredores de longa distância e virtualmente todas as provas de natação, a partir dos 100 m, são esportes aeróbicos, então essas pessoas não são muito boas nelas. Eu acho que isso acaba sendo uma barreira biológica."

O livro de Entine, Taboo: Why Black Athletes Dominate Sports and Why We're Afraid to Talk About It, acaba de ser lançado nos EUA e a discussão a respeito dele está no auge. Se o JB estivesse interessado em informar, e não em repetir slogans com intuitos políticos, teria a obrigação de falar a respeito dele para o leitor que se mostrou tão indignado com a matéria sobre a natação brasileira.

 

POLITICAGENS

Falei há algumas semanas da lei carioca que pretende punir qualquer tipo de "discriminação" contra gays no Rio. Agora, um tal "Movimento pela sexualidade sadia", que imagino ser de inspiração protestante, provavelmente evangélica, enviou ao governador, que também se diz evangélico, uma série de perguntas a respeito da lei, algumas das quais acredito valer a pena reproduzir aqui (notem especialmente as perguntas 3, 4 e 7 - aliás, pretendo falar, no futuro próximo, deste problema abordado pela pergunta 7), agradecendo à leitora que teve a gentileza de enviar uma cópia das perguntas para O Indivíduo:

"1 - Por discriminação pode-se entender qualquer tipo de restrição ao comportamento gay em público? Por exemplo, beijo na boca, namoro etc.

"2 - Se assim for, um estabelecimento evangélico ou sob direção evangélica é obrigado a tolerar este tipo de comportamento em suas dependências? Porque, de acordo com a Lei, o estabelecimento que coagir ou constranger o homossexual pode ter seu funcionamento suspenso temporariamente ou ser interditado definitivamente.

"3 - Em se tratando de uma escola (inclusive evangélica), se dois alunos do mesmo sexo decidirem namorar - como usualmente acontece entre os adolescentes heterossexuais -, a direção poderá proibir ou exercer autoridade para corrigir essa atitude sem ser acusada de discriminação ou coação por qualquer pessoa, já que a Lei, no artigo 6, diz que "Todos os cidadãos podem comunicar às autoridades as infrações à presente Lei"? Quais os prejuízos para a comunidade se essa escola for suspensa ou interditada os itens 3 e 4 do artigo 5º ?

"4 - Essa Lei prevê penalidades para o crime de coação. Pode-se entender por coação a simples exigência de uma igreja quanto à pureza sexual de um de seus membros para o exercício do ministério?

"5 - Quando a Lei prevê penalidades para o que ela chama de constrangimento, pode-se concluir que o simples ato de entregar folhetos durante um evento público dos GLS (Marcha do Orgulho Gay, imediações de boates, pontos de prostituição etc.) de maneira ordeira e discreta, constitui-se constrangimento passível de denúncia por parte do homossexual abordado?

"6 - A Psicologia afirma que o meio exerce influência sobre o desenvolvimento da psicossexualidade da criança. Quais serão as conseqüências da exposição constante de crianças a cenas de gays e lésbicas namorando em público?

"7 - É possível que essa Lei agrave o impasse causado pela resolução do Conselho Federal de Psicologia (23 de março/99) que proíbe psicólogos de se envolverem em eventos ou prestarem declarações públicas de que homossexuais podem mudar? Será que essa Lei transfere a discussão do campo profissional para o campo jurídico agravando as penalidades a serem aplicadas?

"8 - Como conciliar o fato de um Governador ser evangélico com a sanção de uma Lei que vai de encontro aos princípios bíblicos sobre a família e a sexualidade humana? Por que nenhum outro Governador, mesmo não evangélico, jamais assinou Lei semelhante, apesar da luta antiga dos militantes gays nesse sentido?

"9 - Qual deve ser a postura de grupos evangélicos que atuam na área de aconselhamento e evangelismo de homossexuais frente à nova Lei, já que a acusação mais recorrente contra esses grupos é a de homofobia, apesar do amor, da preocupação com a salvação e bem-estar dos homossexuais demonstrados por estes grupos?

"10 - Qual deve ser a postura da igreja evangélica diante do homossexualismo e dos homossexuais, já que muitos tratam um homossexual que se converte com desprezo, sem nenhuma compaixão e mais preocupados com a mudança exterior que a interior?"

 

SÉTIMA ARTE

Uma nota breve para lamentar a morte de um dos maiores comediantes da história do cinema, o italiano Vittorio Gassman.

Seu filme mais conhecido no Brasil é, certamente, O Incrível Exército Brancaleone, a inesquecível comédia de Mario Monicelli.

Aliás, em termos de comédia, acho que ninguém nunca conseguiu nem conseguirá superar as que o cinema italiano fez nas décadas de 60 e 70, em geral dirigidas por Monicelli ou por Ettore Scola e estreladas por Gassman, Ugo Tognazzi, Marcelo Mastroianni, Totò e muitos outros.

Eram, em geral, filmes com tendências esquerdistas e anti-clericais, mas acabavam atirando para todos os lados e a ideologia acabava não tendo importância.

Importante é o fato de que são filmes engraçadíssimos, daqueles de doer a barriga.

 

NA REDE

Vale a pena destacar a primeira parte da reportagem do American Investigator, publicada na internet pelo WorldNetDaily, sobre a Amazônia.

Essa primeira parte traz o depoimento de cientistas e ecologistas mostrando que não há verdadeiro risco de que a Amazônia seja devastada, nem de que milhões de espécies animais e vegetais entrem em extinção (até porque entrar em extinção é coisa perfeitamente normal na vida das espécies):

"A evidência científica desenha um quadro muito mais positivo do deflorestamento na Amazônia. Pelas imagens do satélite Landsat, da NASA, sobre a taxa de deflorestamento na Amazônia, em torno de 12,5% foi devastado. De metade a um terço desses 12,5% pode ser replantado, ou está em processo de regeneração, o que quer dizer que em torno de 94% da floresta amazônica está em estado natural. Até mesmo a Environmental Defense Fund e a Rainforest Foundation de Sting admitem, em seus panfletos, que a floresta está 90% intacta."

Outro mito que a reportagem mostra ser falso é aquele que diz que a terra da Amazônia é de tal maneira que, se for desmatada, não poderá haver replantio. Eu mesmo ouvi essa besteira da boca de inúmeros ecologistas e outros tantos biólogos. Há, na reportagem, o depoimento do General Taumaturgo Sotero Vaz, que passou 18 anos na Amazônia trabalhando para o Exército brasileiro. Ele diz, sobre o assunto: "Isso é muito engraçado. Eles não conhecem a Amazônia. Porque todas essas terras no norte, a oeste, elas são quase intocáveis por causa da grande capacidade de regeneração."

Também se fala da mentira do "pulmão do mundo", mas, francamento, quem chegou a acreditar nessa acredita até em Papai Noel e no Dr. Emir Sader.

Quanto à segunda parte da reportagem, que pretende falar do custo humano das mentiras em torno da Amazônia, ela tem alguns trechos interessantes, mas é decepcionante, por ser excessivamente superficial.

Um problema grave, que algum repórter corajoso (e, se ele estivesse fora do Brasil, seria melhor para ele) deveria cobrir, é a perda da soberania brasileira em vários setores da Amazônia, para atender a interesses globalistas, os quais, em geral, usam para se auto-justificar mentiras do tipo dessas de que trata a reportagem mencionada.

Houve a maior gritaria da big media americana contra a execução de Gary Graham, no Texas. Os editoriais dos jornais brasileiros repetiram o leitmotiv dos jornais americanos, até porque o máximo de imprensa internacional que um editorialista brasileiro lê é o NY Times.

Esse leitmotiv é: Graham é inocente porque só uma testemunha o identificou.

Isso não leva em conta que essa testemunha o identificou imediatamente e, um dia após o crime, o reconheceu numa fila com várias pessoas, nem leva em conta que Graham cometeu e confessou outros assassinatos e que o juri que o condenou primeiro nem sequer sabia disso.

Também não leva em conta que nada menos que trinta e três juízes estaduais e federais analisaram o caso, e todos mantiveram a condenação e a pena. (Os detalhes do caso podem ser encontrados tanto nesta coluna de John Leo quanto no relatório da "Justice for all", citado por John Dogget)

Os jornais americanos inventaram um monte de mentiras sobre o caso de Graham para tentar fazer dele um passo a mais na sua luta contra a pena de morte. Mas a coisa mais interessante escrita a respeito do caso foi o artigo de George Szamuely, Death of innocents, publicado no New York Press. Diz Szamuely, após mostrar que, primeiro os argumentos da mídia no caso Graham eram falsos e, segundo, os argumentos de que centenas de inocentes são executados por ano nos EUA são baseados em falseamentos de estatísticas:

"O argumento contra a pena de morte tem de ser baseado em outra coisa. Sim, é possível que pessoas inocentes tenham sido erroneamente executadas. Mas isso não é um argumento pela abolição da pena de morte. Alguém poderia também sugerir a abolição de todo o sistema judiciário com base em que pessoas são postas na cadeia equivocadamente o tempo todo. Com certeza, enquanto há vida há esperança. Mas isso dificilmente é confortador para alguém cumprindo pena de prisão perpétua por um crime que não cometeu. Ademais, há algo verdadeiramente repulsivo no fato de o New York Times exigir legislação de hate crimes num instante (o que só serve para o propósito de tornar a pena ultra-severa) e no instante seguinte choramingar por erros no sistema."

Em suma: se é para discutir se a pena de morte é verdadeira ou falsa, a base de discussão não pode ser "um inocente é executado de vez em quando"; é preciso, no mínimo, encontrar argumentos mais consistentes.

Um artigo interessante: Joseph Farah, quase dois anos depois de mim, descobriu como South Park é horrível. No seu artigo "X-Rated Cartoons", ele mostra seu justo espanto ao constatar a que nível desceu a cultura de entretenimento americana.

Não vou voltar à discussão sobre o Japão, mas Jude Wanniski escreveu um excelente "memo" sobre as recentes eleições, disponível no seu site.

O problema todo, em termos econômicos, é que, se a economia já é estrangulada pelas restrições que o atual governo (reeleito) impõe, a oposição não propõe acabar com elas: propõe criar mais ainda! Assim, realmente, a oposição não vai ganhar eleição nunca.

 

ARTIGO DA SEMANA

O artigo desta semana foi publicado (já há algum tempo, mas só descobri agora) no The Hindustan Times, um jornal indiano, por Rizwan Salim, e intitula-se "The Hollywood contamination". Mas o que o torna extremamente interessante não é seu exotismo, mas a maneira franca como o autor fala do efeito desumanizador dos filmes hollywoodianos.

"Os roteiristas e diretores, produtores e financiadores de Hollywood têm um gênio para disseminar o mal, desumanizar os homens e as mulheres.

"Sua habilidade superior é mais aparente nas suas tentativas de modular o instinto humano para violência e tornar um monte de machos em matadores selvagens. Todo crítico conservador de Hollywood já notou isso tantas vezes que se tornou um clichê da sociedade americana: as produções de Hollywood são violentas demais. Sim, elas são. Hollywood é patologicamente obcecada com a violência. As pessoas criativas de Hollywood enchem os filmes com tantas mortes, tantos assassinatos lucrativos e tantos assassinatos por prazer que um americano típico 'vê' mais assassinatos cometidos na TV em um dia do que os que acontecem no moralmente disciplinado Japão em 30 anos. Chequem as estatísticas. Os três principais canais de televisão americanos mostram de 400 a 700 assassinatos e mortes em uma semana.

"Caras violentos nos filmes hollywoodianos assassinam casualmente, com um sorriso em seus rostos, um comentário irônico nos seus lábios. Os filmes e programas de TV hollywoodianos nunca transmitem a idéia de que o impulso à violência (que não seja em auto-defesa) deve ser resistido com todo o poder de vontade que você possui, que a violência não é um 'esporte' divertido. Os roteiristas e diretores imorais fazem o ato de matar outro ser humano parecer tão intensamente excitante para o assassino, que se divertem com a agonia da vítima, que tiram todo o horror do acontecimento."

Tudo bem, mas há algum problema nisso, alguém poderia perguntar. Você só não vê nenhum problema se tem uma percepção pobre do que é a psicologia humana, do papel dos filmes e da televisão na formação do imaginário e do papel do imaginário na percepção que o ser humano tem do mundo.

Salim continua:

"Imagens violentas de que os filmes e programas de TV de Hollywood estão cheios apagam, com o tempo, as inibições internas que a maioria dos indivíduos normais tem contra matar outro ser humano. Os programas de Hollywood tornam fácil para muitos homens matar só por diversão, ou para auferir vantagens financeiras, ou como uma conclusão impulsiva para um conflito menor. Hollywood encheu [no texto original está killed, mas só pode ser ato falho; é claro que o termo é filled] a consciência coletiva americana com tantas imagens de crueldade e de assassinatos cruéis que o povo americano, preto ou branco, se tornou extremamente agressivo e inacreditavelmente brutal.

"Imagens de morte e mutilação enchendo as mentes de espectadores passivos também apagam, com o tempo, a sensibilidade para apreciar o belo e o sublime. O pensamento dos fãs de filmes violentos torna-se mórbido; seu interesse se torna macabro. As imagens de sangue e carnificina são o instrumento mais eficiente nas mãos dos niilistas esquerdistas de Hollywood para desumanizar os indivíduos."

É interessante notar que não se trata, ao menos no que me diz respeito, já que não posso responder pelo autor do artigo, de condenar a violência no cinema em si, mas a sua banalização. O problema não é mostrar um assassinato: é mostrá-lo como se fosse coisa corriqueira, normal, sem conseqüências. É, como disse Rizwan Salim, deixar de lado o aspecto trágico do que está acontecendo (quem viu Unforgiven, a obra-prima de Clint Eastwood, sabe o que é um filme dar a um assassinato o peso que ele tem na vida real).

Nesta mesma semana, Arnaldo Jabor escreveu um artigo um pouco confuso mas bastante interessante sobre a banalização do valor da vida humana no filme Mission Impossible 2 (ao qual ainda não assisti). E ele usava, vejam só que ironia curiosa, o mesmo termo que o autor hindu: "desumanização". Desumanizar é, justamente, tirar da vida humana aspectos essenciais, a ponto de robotizá-la, de mecanizá-la. É exatamente isso que se vê no cinema violento atual.

Mas Jabor acaba pondo a culpa no mercado: os filmes são assim para ganhar dinheiro, são assim porque é o que as pessoas querem.

Justamente por perceber a falácia desse raciocínio o artigo de Salim é digno de nota. Após dizer que a "música" divulgada pela MTV segue os mesmos padrões fétidos dos filmes hollywoodianos, ele continua:

"Como os cínicos esquerdistas de Hollywood destróem a humanidade dos indivíduos?

"Valores negativos são divulgados com estilo e verve - freqüentemente com grande elegância para disfarçar a característica odiosa da lição sendo ensinada. Homens e mulheres comuns, por causa de sua ignorância da alta cultura e das artes, das humanidades e dos valores humanísticos admiráveis, são hipnotizados pela maneira sofisticada com a qual as visões de devassidão e destruição são apresentadas.

"Para divulgar suas patologias mentais como valores de todo mundo, os dementes produtores de Hollywood não apenas glorificam suas mensagens mais discutíveis, mas repetem sem parar seus tutoriais visuais sobre o mal.

"Torna-se difícil, depois de um tempo, para um espectador regular de programas de TV e filmes de Hollywood, 'enxergar' além dos temas e mensagens imorais. O espectador começa a ver os 'valores' hollywoodianos como reais e desejáveis. O processo é inefável, subliminar, o espectador não percebe que está sendo mudado por Hollywood. Rapidamente, suas preferências e gostos, valores e atitudes mudam para pior - especialmente no caso dos jovens. (...)

"Se os produtores e financiadores de Hollywood fossem apenas empresários pragmáticos dando ao público o que este quer, eles não ficariam tão histéricos sempre que moralistas conservadores tentam advertir o público americano do propósito oculto hollywoodiana de tornar a sociedade mais patológica moralmente. Se a maioria dos monopolistas do show-business americano estivessem sendo forçados a fazer filmes propagando o mal para satisfazer ao mau gosto do público, eles achariam bem-vinda uma melhora no gosto público(...). Mas eles não acham. Cheque por trás da conduta educada e alegre de um americano, e você descobrirá a maior parte dos valores de Hollywood, em todo o seu esplendor repulsivo."