No. 17 - 07/07/00
Caros amigos, devo começar a coluna desta semana dizendo que acabo de concluir que levei tempo demais afastado do "Correio da cidadania". Há quase um mês que eu não visitava o glorioso sítio, e já tinha me esquecido da diversão que essas visitas proporcionam.
Ora, como os amigos que acompanham este jornal há mais tempo sabem, eu costumava assinar aqui uma coluna intitulada "idiotice da semana", na qual eu me propunha a, toda semana, vasculhar as profundezas da idiotice nacional. E era uma festa: toda semana, lá ia eu ao "Mais!", à página de opinião da "Folha", ao "Idéias", à página de opinião do "Globo", e similares. Eu me divertia horrores, mas, com o tempo, a coisa foi perdendo a graça.
Por querer diversificar a pauta, mudei o título e o estilo da coluna. E, se antes eu era um apaixonado pela burrice, um fascinado pelo poder da idiotice nacional, passei, com a mudança de ares, a ser apenas um namorador distante. Olho a burrice de rabo de olho, às vezes a chamo para dançar, às vezes deixo-a no canto dela e vou cuidar de outras coisas. Acabei cancelando a assinatura da "Folha", passei a ler, no site do JB, apenas a sessão de esportes, e até me afastei do "Correio da cidadania".
Mas a descrição do conteúdo do site no e-mail que eles me mandaram era tão surreal, que me vi forçado a conferir a coisa in loco. E, realmente, lá está: os caras estão convocando os militantes para um "plebiscito sobre a dívida externa"! E, para tratar de questão tão grave, o site ressuscitou ninguém menos que o velho e esquecido comuna Pedro Casaldáliga, aquele que ajudava guerrilheiro na época do regime militar.
Agora, vamos lá, puxemos pela memória: há quanto tempo não ouvíamos ninguém falar de dívida externa? Acho que há uns oito anos, no mínimo. Esse discurso é velho e exaustivamente demonstrado falso. Como é que a esquerda pode estar tão desesperada a ponto de recorrer de novo a ele?
Pois é, assim é. Voltamos a ouvir falar de dívida externa, de "pagamento urgente da dívida externa", de "dependência econômica", e vai haver até plebiscito a respeito.
Mas não acreditem só em mim: vejam com seus próprios olhos. O site é http://www.correiocidadania.com.br, e além do maravilhoso Casaldáliga, tem ainda as sumidades em economia Osiris Lopes Filho e Jurandyr Negrão.
Vale a pena também ler o exercício de cara de pau que é o artigo de um tal Fábio Luís (e isso lá é nome com que se assine coluna! Qual é o seu sobrenome, meu filho?), atacando o que ele chama de "batalha neoliberal no campo cultural".
Essa "batalha neoliberal" consiste numa matéria da Veja atacando o Yêmen. No final do artigo, Fábio Luís diz o seguinte: "O projeto de globocolonização detesta o que é diferente e odeia o que é tradicional."
Ora, vamos deixar uma coisa bem clara: eu também acho que a Veja não tem nada que atacar o Yêmen, e também acho que o projeto eufemisticamente chamado de "civilização global" (na verdade, governo mundial) tem ódio a tudo o que é diferente e tradicional. Mas é o supra-sumo da cara de pau um sujeito vir, em nome da esquerda, defender uma cultura tradicional e conservadora!
Na verdade, o ódio de Fábio Luís vem do fato de que o processo de globalização é composto pela mistura de comunismo e capitalismo que se convencionou chamar "neoliberalismo". Se o mesmíssimo processo estivesse sendo liderado pela China ou se a União Soviética tivesse ganho a guerra fria, e estivéssemos no meio da expansão mundial do comunismo, as culturas tradicionais seriam igualmente destruídas, e o Fábio Luís não estaria chorando por elas.
Então, confesse, Fábio: não é que você goste do Yêmen. É que você não gosta dos Estados Unidos.
SÉTIMA ARTE
Senhores, o cinema está ficando mais triste. Uma semana depois de Vittorio Gassman (aliás, eu citei alguns diretores italianos semana passada e desgraçadamente não falei em Dino Risi), morre Walter Matthau.
Não me lembro da primeira vez que vi Matthau. A minha impressão é que, desde que comecei a ver filmes, sempre tinha algum filme com ele. E eram sempre as mesmas características: um repertório inesgotável de expressões faciais e um sotaque engraçadíssimo devido, como mais tarde descobri, ao fato de seus pais serem russos.
Aliás, um dos obituários que li contava uma história engraçadíssima: Matthau gostava de inventar coisas para responder às perguntas que achava idiotas e, quando um repórter lhe perguntou sobre seu avô, ele respondeu que seu avô tinha sido um padre excomungado pela Igreja Ortodoxa russa por pregar o dogma da infalibilidade papal. O inusitado dessa história é uma das marcas do melhor humor.
Nos últimos quatro ou cinco anos, talvez percebendo que estava próximo à morte, Matthau reatou, em vários filmes, a parceria com Jack Lemmon. Os dois tinham feito a versão cinematográfia de "The odd couple", e se reuniram para fazer "The odd couple 2". Acabaram fazendo, na mesma leva, os dois "Grumpy old men" e um filme no mar, cujo nome me foge agora.
É interessante comparar os dois "odd couple" e notar que, embora a história do segundo não seja tão boa quanto a do primeiro, a dupla segura o filme o tempo todo, e é quase impossível não rir. A mesma coisa nos outros filmes, em que os roteiros parecem apenas pretextos para reunir Matthau e Lemmon. Ainda bem que tiveram essa idéia.
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Vi o trailer do badalado filme "Eu tu eles". Deve ser o pior filme de todos os tempos.
Vê se dá para agüentar: Regina Casé com três maridos. Essa é a história. A idéia de Regina Casé sozinha já me causa repulsa; com um marido, causa náuseas... agora, três!
Esse eu só vejo por um milhão de dólares.
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Enquanto perdemos Walter Matthau e Vittorio Gassman e Regina Casé vira estrela em Cannes, pelo menos Woody Allen continua firme e forte, fazendo um filme por ano.
O penúltimo, Sweet and lowdown (o mais recente é Small time crooks, que acaba de sair nos EUA), é um Woody Allen atípico.
Não me lembro de nenhum outro filme de Allen com entrevistas com pessoas reais. A estrutura de pseudo-documentário já foi usada em "Take the money and run" e no maravilhoso "Zelig", mas em ambos as pessoas que faziam as vezes de "especialistas" na vida dos personagens retratados eram fictícias.
Em Sweet and lowdown, para descrever a vida do fictício guitarrista Emmett Ray, que teria vivido nos anos 30, Allen usou entrevistas com críticos de jazz de verdade, como Nat Hentoff. O pseudo-documentário é feito de forma tão realista que os desavisados acharão que Ray realmente existiu.
Mas o que realmente diferencia este filme é o fato de ele ser o menos cínico de Allen nos últimos anos, talvez o menos cínico de toda a sua carreira.
Emmett Ray, o guitarrista, passa o filme inteiro se gabando da sua arte (embora admita que é o segundo melhor guitarrista do mundo, atrás de Django Reinhardt) e mostra todo o seu orgulho em se preocupar apenas consigo próprio e com sua arte, e não tem o menor pudor em largar a mulher que mais o amou, a muda Hettie. É um dos personagens mais egocêntricos de todos os tempos - e, por isso mesmo, muito engraçado.
Mas, no final, e isso eu nunca tinha visto em filmes de Allen, Ray cede: ele admite que errou e sofre com o próprio erro. Ele passa por uma transformação moral e faz um mea culpa. Ele tem um choque ao perceber que o mundo não girava em torno dele, ao perceber que perdera, por cegueira moral, um bem precioso.
Em suma: Sweet and lowdown é um Woody Allen romântico, mais ainda que Everyone says I love you. Neste, as relações enfocadas eram relações casuais e a relação central era entre dois ex-cônjuges (Allen e Goldie Hawn) que se reencontravam periodicamente. Em Sweet and lowdown, o casal central tem uma relação muito mais séria, aquele tipo de amor que pode mudar as pessoas para melhor. E isso é raro.
Ainda a destacar no filme as interpretações de Sean Penn e Samantha Morton. Penn parece uma escolha estranha, mas depois de ver o filme é impossível imaginar qualquer outro ator em seu lugar. E a desconhecida Samantha Morton (só tinha feito, antes um obscuro filme inglês) é um achado de Woody Allen, uma atriz esplêndida, que dá vida a sua personagem de forma impressionante.
ORTODOXIA
Volto ao Terceiro Segredo, que é um dos temas mais importantes do século e, exatamente por isso, já foi esquecido pela mídia.
A única matéria foi a de Jon Dougherty, no WorldNetDaily. Mas esta matéria é incompleta e desonesta. O repórter reduziu a discussão sobre Fátima a dois lados: um lado, o do padre Gommar De Pauw, chefe de um tal "Movimento tradicionalista católico", o outro, um tal Michael Brown, que desanda a falar sobre Fátima mesmo dizendo que não é especialista e não estudou de perto o assunto (por que diabos Dougherty escolheu alguém que não estudou o assunto de perto para posar de especialista, é coisa que só o repórter pode responder e, quando lhe fiz esta pergunta por e-mail, obtive um silêncio ensurdecedor como resposta).
O padre De Pauw diz que teve acesso a "outro texto" do Segredo, o "verdadeiro". Mas logo depois diz que não tem certeza de que esse é mesmo o texto verdadeiro - ao menos não "inteiramente". E, ao mesmo tempo, desafia o Vaticano a provar que o "segredo" cuja cópia ele tem (e não revela!) é falso!
Aí, logo depois disso, vem Mr. Brown dizer que os grupos tradicionalistas "estão cheios de teorias da conspiração malucas". Como o único exemplo de "tradicionalista" dado pelo repórter é o padre De Pauw, não é muito difícil, para o leitor, concordar com o juízo de Brown. E pronto, consciências tranqüilas: os únicos a duvidar do Vaticano são malucos paranóicos e não se fala mais nisso.
Ora, eu também não acredito na hipótese de o texto revelado ser falso. Primeiro, porque as imagens são muito fortes, muito impactantes, e ninguém no Vaticano seria capaz de criar uma coisa dessas. Segundo, porque uma mentira desse nível seria muito, muito grave - quem quer que a fizesse teria de ser satanista de carteirinha, e isso nem o Papa nem o Cardeal Ratzinger são.
O problema é que a interpretação dada pelo Vaticano contém inconsistências e incoerências graves.
Dom Lourenço Fleichman levantou, em sua página, algumas dessas questões, e mostrou os absurdos nos textos de Ratzinger e do Cardeal Bertone. Dom Lourenço também acredita que o texto revelado, no mínimo, está incompleto e truncado.
Também achei por bem publicar aqui a interpretação do padre Gerardus Rusak, uma interpretação bem mais condizente com o texto divulgado, embora meio forçada no trecho que trata do espelho (tema, aliás, abordado por Dom Lourenço), e que tem o grande mérito de mostrar que a crise da Igreja está, sim, presente no Terceiro Segredo, embora os progressistas insistam em afirmar que não está.
Por fim, publico uma carta que recebi de Joel Nunes dos Santos, de São Paulo. Só observo que a prática prescrita em Fátima não é nova, e sim a velha prática da penitência e a velha oração do rosário; Nossa Senhora apenas fez novas promessas de eficácia e algumas recomendações.
1/7/00
Álvaro,
quanto a "um bispo vestido de branco subindo uma colina e soldados atirando nele não tem nada a ver com um atentado ao Papa", acho que você está certo. Antes de eu ter tido acesso ao texto do terceiro segredo, estava convicto de que tal "bispo vestido de branco" referia-se à questão da autoridade espiritual (não apenas no sentido do clero da Igreja). Tal autoridade sucumbe pela mesma razão que as demais pessoas: baleadas.
Achei, como você, o cúmulo do absurdo muitos do alto clero dizer que se tratava do Papa - afinal de contas, os papas vão e vêm e a Igreja continua, impávida, colossa. Caso não fosse alusão à descredibilidade mundial da autoridade espiritual (da casta cuja função é esclarecer as demais quanto ao "quid est" de cada coisa), por que a solução apresentada ao problema foi a instituição de um novo culto e nova prática?
Ora, esta solução é possível à maioria dos homens, quer sejam ou não católicos. E pelo fato de a solução para o terrível problema (cujo fato das revelações é indício seguro de que a solução não seria propriamente humana e, sim, milagrosa), fundar-se no afeto e na conduta (e não na razão teorética), é porque a razão teorética seria ineficaz (não quanto a dar a conhecer a problemática - tanto é assim que no Jardim das Aflições o Olavo "cantou toda a bola" - mas no sentido de eficiência imediata).
A impermeabilidade da mente da classe letrada às verdades mais óbvias é um fato (como os que você cita no seu artigo: permissão de infanticídio - aborto - e proibição de rezar) - e não era isto mesmo o que lá, naquela imagem, estava predito? Acredito ser possível admitir que a atitude do alto clero católico em dizer "senta que o leão é manso!" tem fundamento na cegueira e no medo de enxergar de frente a verdade (pois não ocorreu do Papa...ao ler tal segredo, desmaiar? Ele entendeu perfeitamente o de que se tratava, não obstante não ter feito, ao que parece, o que lhe fora pedido pela própria Nossa Senhora!).
Parece, sim, que o que lá se predisse, de fato já aconteceu - a perda da autoridade intelectual por parte de quem deveria ser autoridade espiritual, coisa esta que transcende em muito a fé católica.
Joel Nunes dos Santos
NA REDE
No debate midiático brasileiro, sempre que se fala em "nova ordem mundial", isso é logo entendido como a dominação americana sobre o mundo. Os debatedores parecem imaginar que existe uma perversa direita americana que quer expandir seu capitalismo de laissez-faire e seu puritanismo moral ao mundo todo, destruindo, no caminho, todas as culturas dos demais países.
Esse quadro não só é caricatural, como é profundamente equivocado. Primeiro, porque o capitalismo americano já não é tão liberal há muito tempo, e muito menos liberal será o capitalismo comandado pelo Banco Mundial, o FMI, a OMC e demais entidades do poder global.
Segundo, porque a maior oposição ao processo globalizante vem justamente do que resta da direita nacionalista americana. É essa oposição que é fundamental entender: a oposição entre o império e a nação.
Quem sai lucrando com o poder global não é, de forma alguma, a nação americana, e sim o império americano. Para entender o conceito de império americano, e sua oposição à nação, remeto aos capítulos finais do Jardim das Aflições.
Mas alguns excelentes exemplos desse conflito podem ser encontrados em dois artigos extraordinários publicados esta semana.
Tratando do livro mais recente de Norman Podhoretz, George Szamuely aponta as contradições nas críticas que Podhoretz dirige ao que ele chama de anti-americanismo de alguns setores da direita. Na verdade, diz Szamuely, amar sua nação não quer dizer amar o governo dela, não quer dizer amar o Estado, e muito menos apoiar a expansão das instituições nacionais para todos os países do mundo.
"Um patriotismo genuíno respeita o patriotismo dos outros. Ele é claramente incompatível com a invasão de outros países e com a subordinação destes a necessidades geopolíticas alheias. Um patriota americano ama seu país, aprecia seu sistema de governo, mas aceita que ele funciona muito bem apenas aqui. Ele não é de exportação, como não o são a teocracia islâmica ou a Igreja Ortodoxa Oriental. É isto que diferencia o patriota do imperialista. O construtor de impérios tem certeza de que seu país atingiu o auge da civilização e está, portanto, obrigado a impô-la ao resto do mundo."
E não é só isso: à medida que se expande o império americano, quem sai perdendo é a própria nação americana, que está vendo suas liberdades mais caras se perderem dia após dia.
Já o que incomodou Lew Rockwell no seu artigo de 06/07 no WND foram as críticas que está sofrendo Vanuatu. A página editorial do Washington Post, ecoando críticas da administração Clinton, teve como título recente, conta Rockwell: "A ameaça de Vanuatu".
"'Quem dá a mínima para Vanuatu?', você pode perguntar, indicando assim sua ignorância do fato de que este ainda é um mundo perigoso. Vanuatu, conhecida antes da sua independência em 1980 como New Hebrides, consiste de 83 ilhotas no sudoeste do Oceano Pacífico, nordeste da Austrália e ligeiramente a leste de Fiji. Sua população total é de 200.000 pessoas, a maioria cristãos, resultado da atividade missionária do século XIX, com os nativos trabalhando, em sua maioria, em agricultura de subsistência."
OK, mas ainda fica a dúvida: qual é o problema? O que irrita os imperialistas em Vanuatu?
"A ameaça vem das leis de Vanuatu sobre impostos (você não tem de pagar nenhum) e sobre bancos (o direito de contratar entre o cliente e o banco é protegido). Por isso, Vanuatu atraiu alguns bancos muito grandes e fornece um serviço que os bancos no mundo desenvolvido estão proibidos de oferecer: sigilo de consumidores e segurança para a propriedade privada."
Como essas liberdades capitalistas estão proibidas na "nova ordem", o resultado foi o seguinte: "o cartel de governos chamado OECD está ameaçando sanções comerciais contra este pobre país, a menos que ele mude suas leis sobre impostos e bancos. E não só Vanuatu: um total de 35 países estão na mira da OECD."
"Mas a tal soberania nacional não existe mais? A resposta é não, segundo o Washington Post: 'A soberania não pode ser uma defesa absoluta para o comportamento prejudicial que se propaga para além das fronteiras.' Mas, neste caso, o 'comportamento prejudicial' é uma brecha no outrora imperpassável sistema de pilhagens dos governos ocidentais."
Rockwell continua mostrando o prejuízo desse tipo de imposição na economia dos países pobres. E eu não preciso nem dizer quem é que vai sair ganhando no final, né?
Notem, de passagem, uma coisa: a diferença de consistência entre este artigo do Rockwell e o artigo do nosso Fábio Luís que citei acima. De qualquer maneira, mandei esse artigo pro Fábio. Vamos ver se obtenho alguma resposta.
Ainda no assunto nação contra império, vale a pena falar de Jesse Helms, que continua firme e forte no Senado americano.
Helms é uma figura meio excêntrica; à primeira vista, parece um primitivo, um caipira no meio de seus sofisticados pares no Senado.
Mas a verdade é que Helms é um representante, talvez um dos únicos no Senado, do cidadão americano comum, o cidadão que detesta os governos tirânicos de Cuba e China, que não quer nem ouvir falar em submeter os EUA à jurisdição de um tribunal internacional, que acha que a ONU é uma invasora em solo americano.
Não concordo com tudo o que Helms faz ou fala, mas gostaria muito de ter um nacionalista autêntico como ele no Senado brasileiro, um sujeito plenamente consciente da oposição entre nação e império e que não tem nenhuma dúvida sobre a que se alinha.
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Elio Gaspari faz referência, em sua página, a um artigo choroso do NY Times exigindo a vacina para AIDS. O autor do artigo chega a ter a cara de pau de dizer que o problema foi que não houve investimentos na busca da vacina - o que é uma brincadeira, porque mais de um bilhão de dólares são gastos por ano em pesquisas do tipo - e põe a culpa toda na velha busca por lucros.
Para o autor, o único jeito de conter a epidemia de AIDS na África é a produção da vacina.
Antes de mais nada, quero lembrar que tenho algumas dúvidas quanto a essa "epidemia de AIDS africana" e até mesmo sobre a "hipótese HIV", e também que detesto fazer papel de moralista. Por isso me sinto um pouco desconfortável em dizer isso, mas a verdade é que quanto mais perversão moral, quanto mais devassidão, mais epidemias de doenças venéreas surgirão (e a AIDS, se é mesmo uma doença venérea, é a pior delas).
Vejam, por exemplo, a matéria publicada esta semana por um jornal que pode ser acusado de tudo menos de simpatias direitistas, o inglês Observer: Nova onda de HIV assombra a capital gay.
Pois é, em San Francisco, a quantidade de pessoas contaminadas com o vírus quase triplicou de 1997 para 1999: foi de 1,3% para 3,7% da população. E não foi só isso: as taxas de gonorréia subiram 26% nos homens e 30% nas mulheres, no mesmo período.
Agora, não há retórica populista no mundo que possa negar que a viadagem e as demais perversões e libertinagens não têm nada a ver com isso. E, convenhamos, uma doença letal que afeta 3,7% da população de uma cidade não é pouca porcaria.
ARTIGO DA SEMANA
A escolha, esta semana, não pode ser outra senão a reportagem em três partes de Anthony LoBaido sobre a África do Sul, publicada no WND (e esta coluna é provavelmente o único lugar da imprensa brasileira onde se falará do assunto).
É fácil argumentar que a primeira parte foi a mais interessante: os crimes da esquerdista ANC, em sua briga contra o apartheid, são muito pouco conhecidos e, além disso, a matéria traz um retrato da África do Sul hoje, sob o comando de Mandela e seus comparsas.
É difícil criticar a ANC, porque o sistema contra o qual eles estavam lutando era claramente injusto. Mas não há amor à justiça quando, em nome de uma causa, os militantes se julgam no direito de cometer quantas injustiças acharem necessárias. E as atrocidades da ANC, que vão da formação de campos de concentração em Angola a atentados visando diretamente à morte de civis, mostram como os que dizem lutar pela justiça podem acabar sendo indignos da própria causa.
Mais impressionante ainda é o estado calamitoso em que, segundo LoBaido, a administração da ANC deixou a África do Sul.
"Há um estupro a cada 26 segundos, e só um em cada 35 é relatado. Em 1998, a taxa oficial de estupros na África do Sul era de 104,1 estupros para cada 100.000 pessoas; nos EUA, era de 34,4. Os negros da 'geração do estupro', entre 20 e 29 anos, têm em torno de 40% de infecção por HIV."
E mais:
"'O problema dos estupros tem três fatores', disse Narina van der Merve, uma porta-voz da polícia Afrikaner, em entrevista ao WorldNetDaily. 'Primeiro, Mandela dizendo aos jovens que queimassem suas escolas e não aprendessem Afrikaans. Segundo, Mandela abrindo as cadeias e soltando todos os estupradores e assassinos - esta é uma ferramenta clássica dos governos comunistas mundiais para infligir terror na população. Terceiro, os programas de affirmative action exigidos pela ANC.' 'A maioria dos policiais designados por affirmative action não sabe ler nem escrever', disse van der Merve. 'Então eles não sabem nem mesmo fazer um relatório de estupro. É uma maldita piada. Nós concluímos que uma em cada três mulheres na África do Sul será raptada ao longo de sua vida. Mas eu te prometo, haverá uma guerra neste país. Os brancos e os negros decentes - Zulus, Colorados e Índios - estão de saco cheio da ANC e de suas mentiras marxistas. Nós já estamos numa guerra, só que são os negros comunistas que estão matando e estuprando. Mas eles acordaram o tigre dentro do Afrikaner, e haverá uma grande retribuição para eles.'"
Em suma: o país está em polvorosa, à beira de uma guerra civil. E, segundo LoBaido, quase um terço dos brancos já deixou o país.
Uma consideração de menor importância: lendo esse tipo de coisa, eu sinto um certo alívio de que a África do Sul tenha sido preterida na escolha para a sede da Copa do Mundo de 2006. Imaginem só, se a Copa fosse lá, a quantidade de propaganda em favor de Mandela que teríamos de agüentar! Sem Copa, o cara já é tratado como um semi-deus, imaginem numa eventual Copa...
A segunda parte da reportagem não tem nenhuma grande novidade: o governo branco da África do Sul empregou técnicas anti-terroristas e procurou dizimar a oposição a seu regime racista. Nesse processo de defesa de um status quo injusto, cometeu crimes e violou direitos humanos, chegando a matar vários terroristas. LoBaido não parece dispor de uma cifra geral, mas ele informa que, só no começo da década de 90, mais de 363 pessoas foram assassinadas enquanto estavam em custódia policial.
Acho que nunca ocorreu a ninguém que De Klerk e companhia fossem gente de bem e evitassem cometer violências. Mas noto que eles não eram dados a assassinar civis escolhidos a esmo.
A terceira parte fica mais no pitoresco. Não dá para levar muito a sério o tal médico malvado da direita que queria "inocular câncer" no Mandela enquanto este estava preso, e que mandava seus comparsas encher alguns prisioneiros de "geléia tóxica" para ver se eles morreriam.
Entendam bem: claro que não estou procurando banalizar o caso. O tal médico parece ser mesmo um psicopata; mas certamente é mais perigoso na própria imaginação do que na vida real. É essa distinção simples que LoBaido não faz.
Também parecem lágrimas de crocodilo as que chora uma entrevistada, ao dizer que pessoas como esse médico destruíram a reputação dos cristãos brancos da África do Sul.
Não, minha senhora: quem destruiu a reputação dos cristãos brancos da África do Sul foram os próprios cristãos brancos. Não há nada de cristão no apartheid, e se vocês precisaram ceder o poder a um canalha como Mandela para que essa prática acabasse, isso já mostra sua incapacidade para governar. Pobre África do Sul.