ALVARO VELLOSO DE CARVALHO

No. 18 - 14/07/00

Em artigo recente, que será comentado abaixo, o grande filósofo espanhol Julián Marías falava do poder curativo da razão, quando usada corretamente. Não há acerto humano, não há grande invenção ou grande solução que não sejam derivado do uso correto e rigoroso da razão, da faculdade racional humana. Da mesma maneira, quantos erros, quantos equívocos, quantas tragédias decorreram de seu uso errado ou do simples abandono de seu uso, do esquecimento de sua importância!

O que causa consternação no cenário brasileiro é a recusa radical da razão. Ninguém se propõe a pensar e discutir racionalmente os problemas nacionais; ninguém propõe uma pausa para reflexão (que o Julían Marías, em outro artigo, chama de "no hacer nada").

Os brasileiros preferem se render a soluções fáceis, perfeitamente irracionais, mas carregadas de conotações sentimentais, melodramáticas e ideológicas.

Não há melhor exemplo desse irracionalismo dominante do que a abordagem do problema da violência.

A primeira solução em que o governo pensou, e que o público logo aplaudiu, foi a proibição das armas. Há, aí, o erro lógico primário de confundir a causa instrumental com a causa eficiente e esta com a causa material, e, mesmo tendo sido esse erro freqüentemente apontado, ninguém parece se incomodar.

Há, também, o erro grotesco de imaginar que aqueles que, por definição, estão fora da lei e portanto não precisam de autorização legal para fazer o que quer que seja vão ser atingidos pela cassação dessa autorização. Mas isso também não é o suficiente para convencer ninguém.

Chegamos ao ponto ridículo de um sujeito usar as páginas da imprensa para fazer a seguinte proposta, dizendo-se um defensor da inteligência (!):

"A recente ação dos policiais em São Gonçalo mostrou como pode ser oportuno o uso da inteligência para vencer as armas da violência. Sugiro que seja inserida em todas as mensagens publicitárias, em todos os expedientes de rotina dos órgãos públicos municipais, estaduais e federal (sic), em forma de selo ou chancela na correspondência postal e em todos os espaços onde possa chegar ao cidadão, a mensagem 'Desarme-se!'. Muitas vidas serão salvas."

Como é possível uma consciência baixar-se ao nível quase animalesco de confundir a persuasão racional com a propaganda subliminar - e isso para defender uma causa por si só já totalmente irracional?

Claro que anos de ataques intelectuais à razão e à inteligência têm grandes parcelas de responsabilidade nisso, e a redução da vida intelectual a um fantoche da política também.

Mas, como se já não bastasse a campanha contra as armas, semana passada ainda tivemos de aturar as ridículas manifestações pela "paz". O sentimentalismo imbecil chegou ao seu ápice: centenas de pessoas vestidas de branco, cantores de miolo mole fazendo shows, peças de "teatro popular" contra a violência, passeatas, e não sei mais quantas coisas. Para quê? Que diferença faz, para os bandidos, se a população está revoltada contra eles? Se a população estivesse contente com eles, aí, sim, teríamos uma situação anômala...

Apesar disso, tivemos toda aquela palhaçada, nas maiores cidades do país (ainda bem que, pelo menos, a campanha para apagar as luzes não deu certo - imaginem a quantidade de roubos, estupros etc. aconteceriam se tivesse dado!). Claro que, no dia seguinte, os participantes perceberam que nada mudou. O bizarro, o irracional, é que eles imaginavam que talvez mudasse.

Volto a dizer: os brasileiros se acostumaram a seguir soluções simbólicas, quase mágicas, para problemas reais, que exigem soluções reais. Estamos vivendo num país de fantasia, no qual o som das palavras importa mais que seu sentido.

E, enquanto isso, aqueles que percebem as implicações reais das campanhas anti-armas e das manifestações populares sem sentido ficam nos bastidores, diabolicamente sorrindo. Para os orquestradores dessas pseudo-soluções, o quadro geral é bastante claro: o controle de armas aumentará o poder dos bandidos e o do Estado e as manifestações sem sentido, junto com um bombardeio de informações contraditórias, são importantes instrumentos de controle psicológico da população. No fim, eles sabem que a bandidagem continuará a mesma, mas que eles sairão ganhando.

Ora, para quem quer controlar psicologicamente uma população, para quem é adepto da manipulação subliminar, não interessa o exame racional. Muito pelo contrário: quanto mais irracional, quanto mais sentimental, mais estúpido o povo, mais facilmente ele será manipulado e comandado, e mais desenvolvido nele estará o espírito de rebanho.

 

DESINFORMATZIA

Não compro a revista Bravo!, porque acho imoral ter de pagar oito reais para ler o tipo de bobagem que costuma sair na revista. Em geral, folheio-a na banca, leio ali mesmo, em pé, o que me interessa e a ponho de volta no lugar.

Mas o site da revista tem algumas amostras do que sai nela e, passeando por ele, confirmo mais ainda minha opinião de que ela não vale o que custa.

Na edição deste mês, por exemplo, há um ensaio de Sérgio Augusto sobre filosofia. Não, o célebre jornalista de coisas fúteis não está desenvolvendo grandes teses filosóficas, mas está relatando que um jornalista inglês escalou um "time filosófico", uma seleção de futebol formada pelos maiores filósofos do mundo na sua modesta opinião.

E bota modesta nisso. O tal time é pior que o Rosita Sofia, pior que o Íbis. Não tem vaga nem na terceira divisão de futebol do Haiti. É uma coleção de pernas-de-pau filosóficos: Albert Camus, Simone de Beauvouir, Jean Baudrillard (!), Nietzsche, Wittgenstein, Oscar Wilde, Sun Tzu (que pode ser bom o quanto for, mas não é filósofo), Umberto Eco, Antonio Gramsci (!!) e Bob Marley (!!!).

E se vocês notarem que só citei dez na escalação, é porque deixei de fora a única escalação razoavelmente justa do tal jornalista: William Shakespeare. "Razoavelmente" porque Shakespeare, embora talvez o maior escritor de todos os tempos, não era filósofo, e sim dramaturgo - a diferença é bem grande, mas, realmente, esperar que um admirador de Wittgenstein, Gramsci e Baudrillard a entenda é querer demais.

Mas há algo mais, algo que torna Bravo! um indicador claríssimo do estado de putrefação cultural brasileiro: sendo uma revista dedicada à cultura, é mesmo de se esperar que ela contenha os elementos mais degradados de nosso cenário cultural.

Vejam, por exemplo, o caso das resenhas cinematográficas. É perfeitamente compreensível que as resenhas dos jornais sejam tão ruins como realmente são: o espaço é pouco e elas são publicadas nos cadernos de sextas-feiras, o que quer dizer que o crítico está escrevendo para pessoas que vão usar sua resenha para decidir que programa farão no fim de semana. Isso dá um aspecto quase publicitário às críticas publicadas em jornais, e pouquíssimas são as que escapam disso.

Mas uma revista não tem compromisso com o imediatismo. O próprio nome "revista", aliás, diz isso. Imagina-se, portanto, que ela dará espaço para resenhas mais detalhadas, mais bem elaboradas, já que seus autores terão tempo para pensar sobre o filme que estão criticando. E, no entanto, leiam a crítica do filme Gladiador publicada na edição do mês passado, escrita por Helio Ponciano.

O artigo se divide em três partes: no primeiro parágrafo, Ponciano faz uma observação geral sobre o diretor Ridley Scott, dizendo generalidades ocas do tipo "seu novo filme tem a marca do diretor, mas não causa impressão forte".

A partir daí, ele conta a história do filme, e ocupa três parágrafos fazendo isso. Sua opinião sobre o filme só virá no final do penúltimo parágrafo e no último (parece redação escolar: cinco parágrafos, com um para a introdução, três para o desenvolvimento e um para a conclusão). Mas o autor, quebrando um pouco o esquema escolar, dá dicas de sua opinião já no segundo parágrafo.

Segundo ele, o problema do Gladiador é o seguinte: "o novo filme jamais terá uma “versão do diretor” porque foi idealizado, projetado e escrito por produtores. Estes, em geral, querem que muitos vejam seu produto, e não que poucos o leiam, o analisem." É mais ou menos essa opinião que ele repetirá na conclusão, ao dizer que o filme não passa de espetáculo para agradar às massas.

Pois bem: é esse tipo de baboseira pseudo-sociológica que passa por resenha cinematográfica nas páginas de Bravo!. Não há nenhuma análise profunda da trama, Ponciano não conseguiu enxergar nenhuma originalidade no filme, não conseguiu nem mesmo analisar a estrutura dramática: só achou no filme um pretexto para repetir a lenga-lenga anti-hollywoodiana, as velhas críticas aos filmes voltados para o mercado.

Isso, claro, não é crítica de cinema: é o velho clamor esquerdista contra o imperialismo econômico americano, tingido de admiração bovina por um cinema europeu idealizado, que seria a antítese do comercialismo hollywoodiano. É, também, a repetição de velhos chavões pró-"cinema autoral" do Cahiers du cinema: segundo a aplicação mecânica desses chavões, um filme só presta se o diretor faz tudo nele; se o produtor interfere, o filme não é "artístico". Dizer que isso é babaquice é pouco.

Mas é por automatismos mentais desse tipo que Ponciano não conseguiu enxergar a originalidade brutal do Gladiador: vocês nunca verão, no atual cinemão hollywoodiano, um personagem agir motivado não por desejo de glória ou coisas do tipo, mas por preocupação com seu destino post mortem. É esse detalhe que faz que o filme, embora tenha muitos defeitos, esteja a anos-luz dos demais blockbusters americanos deste ano. Mas esse tipo de nuance escapa aos críticos de cinema brasileiros, sempre obcecados ou com os "aspectos sociais" ou com a "interferência dos produtores".

Para que percebam o tamanho da ignorância necessária para aceitarmos coisas assim como resenhas de cinema, proponho que os leitores façam um exercício: depois de ler a crítica de Ponciano, leiam o que escreveram sobre Gladiador o crítico do New York Press, Godfrey Cheshire, o editor do WorldNetDaily, Joseph Farah, e o colunista Richard Grenier.

Cheshire e Grenier não gostaram do filme, Farah gostou, mas não é esse o ponto: o que importa é a maneira como os três analisaram o filme. Isso é uma análise de filme. Ninguém aí repete bobagens contra o mercado, ou a favor do cinema autoral, porque isso é inteiramente fora de propósito. Os três analisam o filme, inclusive suas implicações sociais (o que Ponciano pretendia fazer). Essa comparação basta para mostrar o tamanho da pobreza da resenha publicada na Bravo! - essa e todas as outras.

E, já que estamos falando de resenhas de cinema, não posso deixar de recomendar o ensaio de Leandro Catapam sobre O Anjo Exterminador, que publicamos esta semana em O Indivíduo. Este é só o primeiro de outros ensaios de Leandro que pretendemos publicar. Leiam esse ensaio, e vejam o que é analisar um filme.

Um tipo de argumento de autoridade muito usado por argumentadores desonestos é aquele que consiste em afirmar que algo foi comprovado, sem dizer como nem por quem.

Funciona assim: o sujeito escreve que tal coisa "já foi comprovada", e segue escrevendo, como se isso fosse uma verdade auto-evidente e como se todos conhecessem a prova. O leitor que não a conhece fica se sentindo um ignorante e não ousa questionar, porque o estilo em que o argumento foi escrito leva a crer que todas as pessoas "esclarecidas" conhecem a tal prova e não a questionam. Assim, aquilo que muitas vezes nunca foi provado ou que é objeto de extensas discussões e ainda está em aberto passa por consenso universal dos sábios.

Esse expediente sujo é usado o tempo todo na imprensa brasileira, e o último a usá-lo foi o dr. Emir Sader (quem mais?), na página de opinião do Globo.

Escrevendo sobre o controle de armas, Sader disse que "já foi extensivamente comprovado que, se alguém usa uma arma para se defender num assalto, terá muito maior probabilidade de sair ferido do que se não usar a arma."

Ele não diz comprovado por quem, nem como. E nem poderia dizer, porque ninguém nunca comprovou tal coisa.

Vejam o seguinte: mesmo que existissem estatísticas a respeito do assunto, essas estatísticas estariam viciadas pelo fato, muito simples, de que a maior parte das pessoas que fazem relatórios à polícia são aquelas que não conseguiram se defender de forma eficaz. Acompanhem: se alguém invade a sua casa, você aponta uma arma, ou dá dois tiros, e o sujeito vai embora, você não vai ligar para a polícia. Ninguém nunca vai ficar sabendo e, portanto, seu caso não será incluído nas estatísticas oficiais. Se, porém, o ladrão conseguir roubar sua arma, ou se ele atirar de volta, aí é bem provável que você chame a polícia e relate o que aconteceu - e, nesse caso, você vai figurar nas estatísticas nacionais. Eis por que não é confiável nenhuma estatística que, baseando-se em relatórios policiais, proclame que quem se defende com armas sai ferido na maior parte dos casos.

Existem, sim, estatísticas que comprovam o contrário: que, quanto mais estritas as legislações anti-armas, maior o número de crimes, e vice-versa, isto é, quanto mais fácil o acesso da população às armas, menor o número de crimes. Quem as reuniu foi o pesquisador da Universidade de Chicago, agora em Yale, John R. Lott, Jr., e seu livro Mais armas, menos crime já foi até publicado em português, sem que ninguém se tenha dado o trabalho de notar (um PDF da pesquisa está aqui, e lei também uma entrevista dele na Reason magazine, que tem excelentes artigos sobre controle de armas).

Mas, claro, esse tipo de estatísticas o dr. Emir Sader prefere esconder do leitor. E nisso ele não está sozinho: toda a nossa imprensa faz o mesmo.

Em artigo recente, Richard Grenier lembra que, quando caiu o Muro de Berlim, o velho cantor e ator comunista Yves Montand foi à TV francesa dizer, em público, que estava equivocado. Explicando como tinha acreditado em toda a propaganda soviética, Montand foi sintético: "nós éramos uns imbecis".

Estou contando essa história por causa do mais recente artigo de Affonso Romano de Sant'anna no Globo. Quase nunca leio o Affonso Romano, mas li a coluna desta semana com alguma empolgação, porque ele estava descrevendo o estado de terror em que a atuação das FARCs deixou a Colômbia: elas conseguiram espionar os dados do Governo sobre a renda dos cidadãos, e estão ameaçando os mais ricos para que estes "contribuam" com elas, de tal forma que os ricos, hoje, na Colômbia, estão tendo de pagar impostos a dois Governos: o oficial e o paralelo.

Lendo isso, cá estava eu pensando: eis aí realizado o sonho da nossa esquerda. Se alguém, aqui, levantasse a idéia de que, além das centenas de impostos diferentes que todos os brasileiros de classe média para cima pagam ao Governo, eles deveriam pagar também um imposto ao MST, pouquíssimos fariam qualquer objeção.

Mas Romano, ao chegar ao meio do artigo, muda de assunto e diz que ligou para Moacir Werneck de Castro. E aí sai-se com esta pérola:

"Moacir foi comunista. Um doce comunista. Digo a ele que não sei por que o comunismo não deu certo se tinha pessoas assim doces como ele. A prática política e econômica não é exatamente o terreno para os mansos de espírito."

Vejam só vocês: mansos de espírito! Os comunistas, mansos de espírito! Aqueles que passaram a vida inteira pregando a revolução armada, o derramamento de sangue da burguesia, aqueles que diziam que o mundo só terá paz quando o último aristocrata for estrangulado com as tripas do último padre, aqueles que mataram mais de cem milhões de pessoas em menos de oitenta anos são os mansos de espírito! São os doces pobres coitados, que foram surpreendidos pelo trem da História, quando seu sonho acabou e "não deu certo". Coitadinhos - o sonho não deu certo.

O "sonho" que matou mais gente que todas as pestes, todas as doenças e todas as outras guerras somadas.

Como é possível que um sujeito escreva um negócio desses e se mantenha sério? É o supra-sumo da cara de pau!

Mas é assim que tratamos do comunismo no Brasil. Os comunistas foram "grandes idealistas", foram "doces sonhadores", foram "mansos de espírito", inadequados para a vida prática. Que sensibilidade, que doçura!

Infelizmente, a realidade é outra: os dirigentes comunistas foram assassinos cruéis, e os inúmeros intelectuais que os seguiram e continuam a lhes obedecer até hoje são aquilo que disse o Yves Montand: uns imbecis.

 

POLITICAGENS

Diz Olavo de Carvalho, em excelente artigo na revista Leader: "Tão logo o Brasil, na década de 90, se deixou sensibilizar pelas questões "éticas", a primeira idéia de justiça que lhe ocorreu pôr em prática foi justamente essa: a justiça consiste em enviar os inimigos para a cadeia ao som do Hino Nacional, com a mão no coração e lágrimas de emoção cívica nos olhos."

E, com efeito, a idéia de ética que temos no Brasil são as denúncias que inundam a imprensa dia após dia: quanto mais denunciarmos e quanto mais devotarmos ódio aos "corruptos", mais éticos seremos. Na visão brasileira, a ética é, portanto, o sacrifício de bodes expiatórios no altar da opinião pública.

As vítimas desse denuncismo crescem a cada dia, mas não há vítima maior que a própria idéia de justiça. Esta se baseia no julgamento isento de um réu considerado inocente até que se prove substancialmente o contrário.

Mas a mídia não precisa de provas substanciais: para ela, bastam as "denúncias". A credibilidade dos documentos, a lisura na sua obtenção, a confiabilidade dos testemunhos: nada disso importa para os defensores da "ética da denúncia e da indignação".

E, junto com a mídia, vem o clamor popular: o ódio aos "corruptos" é tanto que fico tentando imaginar em quanto tempo veremos enforcamentos deles em praças públicas.

Os tribunais, no entanto, não podem seguir apenas o clamor popular ou o descontentamento midiático. Eles têm de se pautar por um rigor muito maior, porque suas sanções são muito mais pesadas e porque o seu papel é o de evitar cometer injustiças.

Acontece, porém, que, quando os tribunais acabam inocentando um "corrupto" odiado pela mídia, esta não tem a dignidade de bater no peito e dizer que errou, nem divulga os detalhes do processo. Apenas, recorre a outro slogan incitador de ódio: "impunidade!". É isso aí: no Brasil, não temos mais inocentes considerados como tais pelos tribunais. Todos são culpados, desde que considerados como tais pela mídia, e não se admitem provas em contrário. Se os tribunais tiverem a ousadia de discordar, eles é que passarão a ter sua credibilidade atacada, e serão considerados culpados de deixar os "corruptos" impunes. O único tribunal considerado justo pela opinião pública é a mídia, que já deixou de ser o "quarto poder" para ser o único poder.

Exemplos recentes são as reclamações contra o habeas corpus concedido ao Luiz Estêvão e as denúncias contra Eduardo Jorge. Sobre o primeiro caso, diz o desembargador Sergio Bermudes, em artigo recente (no NO, que eu desrecomendei há algumas semanas; não leio esse site mas um amigo deste jornal enviou o artigo por e-mail):

"Diante da presunção constitucional de inocência, não cabe a prisão preventiva, imposta como medida de punição ao acusado. A finalidade dessa providência cautelar, terrível como dirá quem já passou pelo cárcere, não é antecipar uma pena, que só o fim do processo penal, com o debate, a colheita das provas, os recursos, que constituem a garantia fundamental do ser humano, dirá cabível, e estabelecerá o modo da sua aplicação. Por isso, os juízes devem pôr toda a cautela na decretação dessa medida. O próprio Ministério Público do Brasil que, bravamente, abnegadamente, tem buscado, em muitos casos, defender a nação contra os piores inimigos dela, deve abster-se de requerer a prisão preventiva como antecipação da pena porque esse descritério terminará por comprometer a sua atuação.

Não se concebe a prisão preventiva de quem, respondendo a um processo penal por alegação de fraudes num consórcio de carros, não consta que estivesse pondo em risco a sociedade ou impedindo a aplicação da lei, nos termos em que os tribunais e os autores definem tais riscos. A prisão preventiva transmudou-se de medida protetora da sociedade e da ordem pública em pena antecipada de quem se encontra protegido pela presunção constitucional de inocência. O requerimento e o decreto da prisão preventiva fora dos casos em que a lei o permite punem o acusado, mas também enfraquecem a garantia constitucional."

Quanto ao Eduardo Jorge, não acompanhei o caso, mas fiquei impressionado com a segurança que ele demonstrou e com seu justo ataque à imprensa, conforme noticia a coluna "Coisas da política", do Jornal do Brasil:

"Ele está absolutamente convencido de que sairá ileso, tanto no interrogatório do Congresso quanto no processo judicial. As informações são de um parente do ex-secretário, que desafia: 'Podem abrir o processo que quiserem, podem quebrar o sigilo bancário dele onde quiserem. Pago para ver. Pago e dobro a aposta de que não vão achar nada.'

"O ex-secretário decidiu não dar mais entrevista à imprensa porque se acha vítima de 'execração pública', em que nada do que fala é levado na devida conta e muito do que diz é publicado de forma deturpada."

 

ORTODOXIA

A Associated Press noticia:

"Uma associação holandesa de homossexuais abriu hoje um processo contra o papa João Paulo II, em um tribunal de Amsterdã, acusando-o de discriminação. Uma fundação de leitores da revista holandesa "Gay Krant" abriu o processo por causa das declarações de João Paulo II, feitas publicamente no domingo passado. O Papa também disse que o evento 'World Gay Pride', realizado em Roma no último fim de semana, durante a celebração do Jubileu 2000 da Igreja Católica, era 'ofensivo e insultuoso' aos valores cristãos. O movimento gay disse que essas palavras constituem uma incitação ao ódio e à discriminação em relação aos gays."

Antes de mais nada, que ninguém se excite com a notícia: o processo não vai dar em nada porque o sistema legal holandês não pode julgar processos por difamação por coisas que foram ditas fora da Holanda. Essa informação, aliás, consta, como vocês podem ver no link que pus acima, da notícia original da AP, mas estranhamente está ausente das traduções que circularam nos sites de notícias brasileiros (até nisso a mídia brasileira é ruim).

Mas isso por enquanto. Quando o sonho dos progressistas for realizado, e tivermos um tribunal mundial, pronto para aplicar uma legislação mundial, estaremos prontos para assistir ao espetáculo da prisão de um papa por reclamação dos desviados e degenerados.

Afinal, no admirável mundo novo que está se construindo à nossa volta, é proibido insultar ou criticar qualquer opção sexual, por mais errada, por mais grotesca, por mais perversa que seja ela. Temos, então, ao lado do tão falante grupo da pederastia, o grupo da pedofilia, o grupo da coprófilia, o grupo do bestialismo, e muitos, muitos outros. Todos são "minorias", todos têm um estilo de vida sacrossanto que ninguém pode ousar criticar ou rejeitar, e, em breve, eles não estarão mais sob a guarda frágil de apenas seus estados nacionais. Em breve, estarão sob a proteção do governo mundial, esse realizador de todos os desejos e todas as fantasias mais totalitárias.

Sim, porque, enquanto o mundo ainda está dividido em estados nacionais, se o papa, na Itália, "ofende" os gays, os gays holandeses, que foram os que mais se ofenderam, não podem pô-lo na cadeia. Ora, então seus "direitos" não estão sendo respeitados! Não se preocupem: a situação será remediada em breve.

E, então, os desejos macabros que se formam a sociedade moderna serão plenamente realizados, e a inversão dos valores estará plenamente realizada: o líder espiritual de um bilhão de pessoas, representante da religião que deu origem à civilização ocidental e que já dura 2000 anos, não poderá repetir o que dizem os próprios livros sacros dessa mesma religião, sob pena de ir para a cadeia por ofender as sensibilidades dos membros de uma minoria que se caracteriza pelo tesão anal.

Quem quer que não perceba o absurdo dessa situação é, sob todos os aspectos, um aleijão moral, é uma pessoa sem a percepção moral mínima.

Aliás, num mundo em que o senso moral dos indivíduos se degenerou de forma tão brutal, não é de se espantar que ninguém mais consiga entender a diferença entre o homem e o macaco, ou entre o homem e as hienas.

 

NA REDE

Lendas urbanas permeiam a internet. Em geral, são e-mails anônimos, que vão circulando naquelas insuportáveis "correntes", porque todo mundo que recebe retransmite para toda a sua lista de endereços. Quem, por exemplo, já não recebeu um e-mail com a história da mulher que embebedou um sujeito, levou-o para o motel e, no dia seguinte, ele acordou numa banheira de gelo e descobriu que ela tinha roubado seus rins? Ou o aviso de algum novo vírus que vai destruir seu HD inteiro? Ou aquelas mensagens do ICQ dizendo que, se não forem transmitidas, cada envio de mensagem no ICQ custará um dólar?

São tantas lendas, que surgiram até alguns sites dedicados a desmenti-las (veja, por exemplo, Urban Legends.com e Snopes.com). É verdade que, às vezes, as lendas são verídicas e o site é que pisa na bola, como no e-mail que relata o envolvimento da Hillary Clinton com os Panteras Negras, grupo terrorista que era idolatrado pela esquerda americana na década de 70 e cuja folha de crimes é longa. O site afirmou que o e-mail era falso, e que Hillary tinha apenas marchado no meio de outras centenas de estudantes a favor dos Panteras, mas, pesquisando o assunto, a Insight Magazine mostrou que Hillary fez mais que isso.

Não foi o caso, porém, do e-mail anônimo sobre o destino dos Fouding Fathers. Esse e-mail exagerava as provações passadas por eles, depois da declaração de independência dos EUA (o desmentido, porém, sofre do mesmo mal e exagera as coisas para o lado contrário). Acontece que quatro colunistas da imprensa americana usaram o e-mail como base para seus artigos de 4 de julho.

Timothy Sloan, um analista da imprensa que escreve na Slate detectou o uso, e deu notas em "honestidade" e em "veracidade" aos quatro artigos.

Um dos colunistas era Jeff Jacoby, que escreve há seis anos no Boston Globe. Noah deu nota C-menos para Jacoby em honestidade, porque ele não declarou, na coluna, que tinha usado a estrutura do e-mail como base para seu artigo, e deu A em veracidade, porque, notem bem, Jacoby se deu o trabalho de corrigir cada erro do e-mail e fez um relato sem grandes erros históricos.

Acontece o seguinte: depois da repercussão negativa da coluna, por ter sido inspirada no tal e-mail anônimo, o corpo editorial do Boston Globe suspendeu Jacoby, sem pagamento, por quatro meses e, de forma sutil, deu a entender que não o quer de volta, ao dizer que, se ele resolvesse voltar, sua coluta teria de ser "repensada".

Acho que posso opinar sem acusações de parcialidade porque não sou fã de Jacoby, acho suas colunas excessivamente sentimentais e não me agrada seu apoio incondicional a tudo que Israel faz, e inclusive já tive uma violenta discussão por e-mail com ele.

Há dois detalhes que devem ser notados no caso: o primeiro, que o Boston Globe é um jornal subserviente ao politicamente correto, e Jacoby era o único articulista conservador do jornal, algo como, mal comparando, Olavo de Carvalho no Globo; segundo, que sua coluna não é um plágio do e-mail anônimo, apenas tem semelhanças estruturais, mas o conteúdo é bem diferente.

Esses detalhes bastam para caracterizar a virtual demissão de Jacoby como uma caça às bruxas típica do modus operandi esquerdista (não deixe de ler a explicação do próprio Jacoby para o caso). Não tenho a menor dúvida de que, há tempos, o corpo editorial estava doido por um pretexto para demitir Jacoby e agora, finalmente, esse pretexto foi encontrado. Um pretexto pouco convincente, mas que serve à causa.

Foi exatamente como caça às bruxas que David Horowitz, que entende como ninguém de esquerda americana, caracterizou o caso, e a mesma opinião foi expressa por David Limbaugh. É ridícula a explicação da editora do jornal, que disse que a política nada teve a ver com o caso, porque o "crime" é pequeno demais para uma punição tão grande. A explicação é mais absurda ainda quando vemos quem é essa editora, uma esquerdista radical que advoga aulas de sexualidade gay para crianças.

Mas eu gostei especialmente da sugestão de Joseph Farah: para ele, Jacoby deveria processar o Boston Globe por calúnia e difamação. Eles procuraram manchar a reputação do colunista sem um motivo suficiente para isso. Não sei a quantas anda a politização da justiça em Boston, mas, num tribunal isento, acho que Jacoby ganharia fácil.

75 anos do "monkey trial", talvez o julgamento mais famoso do século, graças à pena de H.L. Mencken, que fez um retrato mordaz do andamento do caso.

Esse julgamento foi o seguinte: Em 1925, o legislativo do Tennesee passou uma lei proibindo que se ensinasse nas escolas que o homem veio de formas inferiores de vida. Quer dizer, não proibia que se ensinasse a teoria da evolução, mas este aspecto da teoria. Um professor que nunca tinha ensinado teoria da evolução, e que nem sequer era professor de biologia, foi acusado de ter violado essa lei, e aí seguiu-se o julgamento, que contrapôs dois dos maiores oradores do século: o evolucionista e agnóstico Clarence Darrow e o protestante William Jennings Bryan.

O pior é que o mito tornou-se maior que a realidade, por causa do filme com Spencer Tracy no papel de Darrow, que vive passando nesses canais de doutrinação que se dizem "educacionais". Quase tudo no filme é distorcido e deturpado, como bem lembrou James Perloff, autor de um livro sobre o caso, em entrevista ao WND.

Mas o mais interessante é ver como hoje, 75 anos depois, as situações se inverteram completamente. Se, então, defender que o homem veio do antropóide era crime, hoje em dia, crime é dizer que não veio. Se há 75 anos um estado americano proibiu seus professores de ensinar esse aspecto da teoria darwinista, hoje todos, não só nos EUA como nos demais países, estão proibidos de questionar a religião darwinista, em qualquer um de seus aspectos. E isso numa época em que mais e mais vêm à tona as falhas dessa teoria, e seus defensores têm cada vez menos provas para sustentá-la. No fim, acabam usando o argumento utilitário: como não há nenhuma outra com a mesma "abrangência" e esta é a mais "fecunda", temos de defendê-la.

E ai da escola que tentar ensinar diferente.

 

ARTIGO DA SEMANA

Serei breve, para não abusar da paciência de ninguém: o artigo da semana é o já mencionado no início "El pensamiento como curación", publicado por Julián Marías em sua coluna semanal no ABC de Madrid. Aliás, no mesmo site, há o arquivo de todos os artigos de Marías nesse periódico desde 1996.

Marías defende o valor do pensamento humano, chegando a dizer: "não posso evitar a convicção de que dele [do pensamento] depende o estado do mundo e de suas partes, e sobretudo seu futuro", e segue mostrando os traços de irracionalismo no discurso político globalista contemporâneo:

"Fala-se incessantemente dos problemas que afetam o mundo inteiro ou a suas diversas partes. Quase sempre, desde posições definidas pela ignorância, por atitudes partidárias, por percepções vagas e interessadas, por simples idéias súbitas, sem reflexão, sem análise de situações complexas, sem um exame - e isto é decisivo - das possibilidades reais, do que efetivamente é possível ou o seria se antes se houvessem feito coisas que não se fazem. As soluções propostas para as mais complexas e delicadas questões costumam ser, na melhor das hipóteses, de extremadas superficialidade e frivolidade. Apenas boas intenções - às vezes nada boas, apenas demagógicas."

E Marías, depois de citar exemplos dessas soluções absurdas, nota o que está por trás de boa parte dos absurdos das políticas contemporâneas (grifos meus):

"Há que perguntar-se, em cada caso, o que se busca, o que se persegue, o que interessa, que modelos se propõem e se elogiam. Não digamos se se entra no mais profundo e valioso do homem: sua conduta, sua condição pessoal. Trata-se de propor, mais ainda, de impor, com todos os recursos fabulosos da técnica e da organização, uma imagem do homem como coisa, como mero organismo, sem liberdade nem exigências internas, nem outro horizonte além de sua mera extinção física. Através do silêncio acerca de tudo o mais e de uma incansável repetição, está-se logrando uma vigência de uma humanidade despersonalizada, em que tudo se reduz à zoologia. Passa-se, como se fosse 'o mesmo', das bactérias, ou na melhor das hipóteses, dos ratos às pessoas, sem notar o mais evidente: que a pessoa é, como forma de realidade, algo absolutamente distinto de tudo o mais que existe, definido por condições radicalmente diferentes.

"Bastaria pensar que a pessoa humana é, entre todas as incontáveis realidades que encontramos, a única capaz de perguntar-se por elas, de tentar entendê-las e, em grande medida, consegui-lo; que somente por ela é compreendido o resto do que existe.

"Desconhecer este fato dos fatos, esta diferença absoluta, é fechar os olhos ante a realidade, negar-se a ver em que consistem seus variados ingredientes. É, simplesmente, a deliberada renúncia ao pensamento, que é, a uma só vez, a peculiaridade do homem e a condição de que este possa saber algo de tudo o mais. É, sem mais nem menos, a inversão da estrutura da realidade.

"O ponto de partida para tudo que o homem tente é precisamente pensar; por isso este é o primeiro e principal recurso para tentar a superação de suas dificuldades, o remédio de suas deficiências; e, certamente, a cura daqueles de seus males que admitem cura."