No. 19 - 21/07/00
Um dos traços da patologia brasileira que mais impressiona a todos os seus estudiosos é a estatolatria. A sociedade brasileira é uma das mais desorganizadas e desmobilizadas do mundo, e toda vez que se organiza não é para fazer algo por si, mas para reivindicar algo do Estado - vide as últimas manifestações "pela paz".
E, com efeito, ninguém aqui se sente responsável por nada e ninguém é capaz de imaginar que possa agir socialmente de qualquer maneira eficaz. Não: tudo cabe ao Estado, e o máximo que podemos fazer é cobrar dele mais ação.
Que tipo de ação? Todo tipo. Queremos que o Estado dê educação, que o Estado garanta a segurança, que o Estado assegura emprego total, que o Estado acabe com a pobreza, que o Estado limpe as ruas, que o Estado fiscalize as conzinhas dos restaurantes, que o Estado diga o que pode ser veiculado e o que não pode, e muito, muito mais.
Essas idéias foram recentemente repetidas, quase de forma literal, pelo sr. Reinaldo Azevedo, em péssimo artigo na cada vez pior revista República. Azevedo ainda gasta algumas linhas com um sociologismo barato tentando analisar as "origens intelectuais" do Presidente FHC.
A idéia central do artigo é que ninguém na sociedade tem culpa pela violência, muito menos pela pobreza. O único culpado é o Estado, com sua política econômica assassina. Se fosse um esquerdista, Azevedo diria "política neoliberal a serviço das grandes empresas e do capital apátrida", mas, como tenta ser um moderninho moderado, de acordo com a linha editorial da revista em que escreve, ele diz apenas "Plano Real".
Parece que não é uma repetição de clichês, mas seu artigo não passa disso. O governo cria desemprego, o desemprego causa a violência, logo, o Governo causa a violência (corolário 1), e o único jeito de acabar com a violência é acabar com a pobreza e, portanto, com o desemprego (corolário 2).
Ele nunca chega a questionar se é possível que uma política econômica erradique a pobreza, façanha que o mundo nunca presenciou, nem leva em conta o fato (lembrado recentemente por Olavo de Carvalho em artigo na "Época") de que ninguém tem uma receita pronta para produzir desenvolvimento, mas dá mostras de que parou por trinta segundos para pensar se era verdade mesmo que a pobreza causasse violência.
Considerou um único argumento no sentido contrário: o de que, se pobreza causasse violência, todos os pobres seriam violentos. Mas, para o sr. Azevedo, esse argumento é "pueril, do jardim de infância do pensamento político". Pronto: passaram-se os trinta segundos de cogitação dialética da hipótese contrária, e o sr. Azevedo já pode dizer, com ares de quem proclama uma verdade auto-evidente, que "a violência é função, em sentido matemático mesmo (sic), da miséria."
Pois bem, meu caro sr. Azevedo, não sei se já cheguei ao jardim de infância do pensamento político, mas é fato que, como condição de entrada no jardim de infância do pensamento político existe a graduação na lógica elementar. Tenho a impressão de que o nosso intrépido repórter, com a pressa costumeira dos meios acadêmicos brasileiros, pulou essa pré-condição.
Porque se ele entendesse alguma coisa de lógica perceberia alguns problemas óbvios no seu arrazoado.
Dizer que a violência é função, no sentido matemático, da miséria é uma frase ambígua, que só ignorantes em matemática escreveriam, porque existem funções de inúmeros tipos. Por exemplo, se alguém diz que, quanto mais existe miséria, menos violenta é a sociedade, ele está dizendo que a violência está em função da miséria; mais especificamente, que a violência é inversamente proporcional à miséria. Mas não pode ser isso que o sr. Azevedo está querendo dizer, a julgar pelo resto de seu artigo. Ele quer dizer exatamente o contrário: que, quanto mais miséria, mais violência existe na sociedade, isto é, que a violência é diretamente proporcional à miséria.
Isso quer dizer que a miséria causa a violência? Claro que não, porque uma proporcionalidade não equivale necessariamente a uma conexão causal. Mas, se o sr. Azevedo propõe que o Governo, para reduzir a violência, deve reduzir a pobreza, não está ele propondo uma relação causal entre miséria e violência? Certamente.
Então, ele não se expressou direito: não é apenas que a violência esteja em função da miséria; é que a miséria causa a violência. Mas temos aí o problema que o próprio sr. Azevedo levantou: nem todos os pobres são violentos ou criminosos.
Ele não discute esse problema; apenas manda os que querem discuti-lo para o jardim da infância da política. Como eu já disse, estamos, no entanto, num estágio ainda anterior, o da lógica elementar. E, pela lógica, percebemos que, se nem todos os pobres são violentos ou criminosos, a pobreza não pode, de maneira alguma, ser causa suficiente da violência. É preciso que exista outra causa concorrente, um algo a mais para explicar como surge a criminalidade. Esse "algo a mais" só pode ser de ordem psicológica ou moral, mas esse ponto nunca é discutido por Azevedo e seus coleguinhas da imprensa. E o motivo é simples: não dá para culpar o Governo pelos aspectos psicológicos e morais do crime, mas é inevitável que parte da culpa caia sobre os ombros da intelectualidade brasileira que, há mais de quarenta anos, tem concentrado seus esforços na destruição das bases morais da civilização brasileira, condenando todos os princípios morais, condenando as religiões, e endeusando criminosos e degredados.
Não, a intelligentzia prefere culpar o Governo e as injustiças sociais, porque nunca vai assumir seu próprio papel agente na sociedade, seu papel de manipulação do imaginário coletivo. Esses agentes da inteligência formam a casta mais inconsciente de si mesma, mais incapaz de auto-análise que existe.
E, para se livrar dessa carga de responsabilidade, não hesitam nem mesmo em ignorar fatos que contradigam suas teorias. Por exemplo, em todo seu vão esforço para afirmar ("afirmar" mesmo, porque ele nem esboça uma tentativa de prova) a relação causal entre miséria e violência, o sr. Azevedo se esquece de que a Índia é infinitamente mais pobre que o Brasil, mas não chega nem perto dos nossos índices de violência, e a mesma coisa vale para Cuba; não lembra que a Argentina passa pelas mesmas dificuldades econômicas brasileiras, mas não tem o mesmo problema de violência, enquanto as ricas cidades americanas de Washington e Los Angeles têm sérios problemas de criminalidade.
Enquanto Reinaldo Azevedo, seguindo o estilo "mauricinho" da República, dava a versão moderada desses velhos argumentos sobre as condições sociais da violência, o caderno Idéias, do Jornal do Brasil, dava a versão Partidão. Se me perguntarem qual das duas respeito mais, respondo com uma excelente frase de Michael Pierce, em artigo publicado essa semana: "Não consideraremos aqueles que se dizem centristas. Essa fantasia é representada por pessoas que não têm nenhuma crença profunda e apenas esperam que tudo vai ficar bem no final. (...) Seu papel parece ser o de reclamar, e ser usados pela esquerda (ou, na Alemanha nazista, a direita) para formar coalizões temporárias durante a construção de um movimento. Eles são dignos de nosso desprezo, mas não de muito mais."
De forma ainda menos educada: os mauricinhos moderados do "centro" são aqueles de que a esquerda se serve para ascender ao poder e, logo depois, mandar para o Gulag.
Voltando ao Idéias, uma de suas repórteres fez uma matéria sobre um livro que reúne os "principais teóricos" cariocas da violência, praticamente todos encastelados na UFRJ, e todos ligados aos setores radicais da esquerda.
A idéia central do livro é que existe uma "articulação entre violência e cultura", mas, pelos resumos apresentados na matéria, nenhum dos autores entende cultura no seu sentido normal, e, quando dizem cultura, querem dizer economia ou política, quando não as duas coisas ao mesmo tempo.
Assim, produzem pérolas como as seguintes:
"Luiz Eduardo [Soares] tira [da literatura dos anos 50 e 60 que idealizava romanticamente o bandido] exemplos para analisar a violência como fruto da exclusão em massa da cidadania, processo engendrado pela injustiça econômica que acabou por matar aquele malandro cantado em verso e prosa." (Luiz Eduardo, portanto, não só não enxerga nenhuma conexão entre a idealização do bandido e a violência, como consegue inverter as coisas a ponto de ver, na extinção daquela imagem, um efeito da violência!)
"Maria Alice Rezende de Carvalho propõe uma análise da violência diferente daquele que a pensa como fruto de desigualdade econômica. Para a socióloga, a questão central está na 'privação da liberdade que impediu os desiguais de lutarem por seus direitos e por sua incorporação à Cidade.' Aqui o bandido também não é romantizado, mas é compreendido como 'uma saída individual para a expectativa de mobilidade social que se encontra obstruída'." (se é assim, como é que essa análise é diferente da que vê a miséria como fruto da desigualdade econômica?!)
"Mais uma vez é o território em questão quando Suely de Souza Almeida lembra que 'a cidade é um espaço de lutas sociais' e destaca a ação das mulheres nas chacinas de Acari, Candelária e Vigário Geral." (aqui estamos no terreno da vulgata marxista mais barata, que vê o bandido como representante do proletariado, engajado na luta de classes)
POLITICAGENS
Toda vez que se fala em Cuba, algum imbecil vem logo dizendo: "podem dizer o que for, mas eles têm uma medicina mais avançada, têm uma medicina avançada, têm uma medicina avançada" - a coisa vai se repetindo como um mantra.
Pois tanto repetiram isso, que todo mundo acabou acreditando. E um dos efeitos dessa crença geral foi a compra, pelo governo brasileiro, de uma vacina cubana contra menigite B em crianças menores de 4 anos. Só que a vacina não serve para nada. A notícia saiu no "Diário das Américas", jornal de Miami, e, como ninguém vai ler nada a respeito na imprensa brasileira, traduzo parte dela abaixo:
"Um estudo do conceituado Centro de Vigilância Epidemiológica (CVE) do estado de São Paulo, Brasil, publicado recentemente, compila dados estatísticos demolidores acumulados durante os últimos anos que mostram a ineficácia da vacina cubana contra a meningite B em crianças menores de 4 anos, os mais vulneráveis a essa terrível enfermidade. Depois dar claras e minuciosas informações sobre testes efetuados em São Paulo, Rio de Janeiro, Santiago do Chile e Islândia, afirma: 'Os estudos realizados com a administração da vacina cubana nos menores de 4 anos de idade - freqüentemente o grupo de maior risco para contrair essa enfermidade - não apresentaram evidências significativas de proteção. Portanto, essa vacina não deve ser recomendada como medida profilática da enfermindade meningocócica do grupo B, para crianças menores de quatro anos.'
"No entanto, foi essa mesma vacina que o ministro cubano de Saúde Pública, Carlos Dotres, chegou a qualificar como 'a única eficaz no mundo' contra a esse mal; que o Dr. Carl Frasch, alto funcionário da Food and Drugs Administration (FDA) dos EUA considerou 'benéfica' para seu país; que diretores da empresa farmacêutica internacional SmithKline Beecham pretendem produzir em colaboração com o Instituto Finlay de Cuba; e que 110 congressistas norte-americanos, em carta à Secretária de Estado Madeleine Albright, qualificaram como de alto interesse humanitário para proteger as crianças norte-americanas. (...) Seria interessante saber em que se terão basedo essas pessoas, além da palavra do ministro comunista e a dos técnicos do Instituto Finlay, de Havana, para elogiar uma vacina que resultou sendo de ineficácia comprovada.
"O mito publicitário sobre a vacina cubana contra a meningite B tomou impulso internacional em novembro de 1988, em Atlanta, durante um congresso internacional de medicina. Nas sessões, causou impacto a apresentação de um estudo efetuado por investigadores da ilha sobre os aparentemente excelentes resultados preventivos da dita vacina, desenvolvida no Centro Nacional de Biopreparados de Cuba. Em Ciego de Avila, por exemplo, de um total de 133.600 crianças e jovens vacinados, segundo os pesquisadores cubanos, se havia alcançado uma eficácia imunológica de 100% nos menores de um ano, 99,9% nas crianças de 1 a 5 anos etc.
"Crendo de pés juntos nesses resultados alegados, a Secretaria de Saúde do estado de São Paulo, Brasil, e posteriormente o próprio Ministério da Saúde deste país encomendaram a Cuba durante 1989 e 1990 mais de 15 milhões de doses, em valores que somaram centenas de milhões de dólares.
"O negócio foi ótimo para a Cuba comunista. Para muitas crianças brasileiras, o resultado foi decepcionante. Uma década depois dessa malograda experiência do CVE de São Paulo publicou esse informe com resultados conclusivos. Antes tarde do que nunca.
"'O Brasil já gastou 300 milhões de dólares com uma vacina cubana que não apresentou resultados', lamentou o Dr. Isaías Raw, diretor do conhecido Instituto Butantã de São Paulo, especializado em biotecnologia."
Nota: Vicissitudes jornalísticas. Este trecho da coluna ia ser inserido na coluna da semana passada, mas deixei para a desta semana por uma questão de espaço. Resultado: estou dando notícia velha, já que o Olavo de Carvalho citou o mesmíssimo caso na sua coluna quinzenal do Jornal da Tarde. Vale, aliás, citar um trecho desse artigo, comentando por que tudo o que a imprensa brasileira disse a respeito foi um silêncio ensurdecedor:
"Observem e verão: sistematicamente, nos últimos dez anos, denúncias de corrupção, de crimes, de violências só são investigadas quando úteis para a destruição de líderes políticos que constituam um risco potencial para a estratégia da dominação esquerdista. As outras são ignoradas ou abafadas."
DESINFORMATZIA
Não há dúvidas de que o que houve de mais interessante na imprensa brasileira esta semana foi a série de reportagens sobre o Afeganistão da bela repórter Ana Paula Padrão para o Jornal Nacional e o Fantástico.
As matérias foram mais interessantes por suas imagens, e por um ou outro ponto alto (como a entrevista com a senhora que fugiu do Afeganistão) do que propriamente por seu texto e sua estrutura. Estes, na verdade, deixaram muito a desejar.
O tom usado pela repórter e pelos (péssimos) apresentadores do telejornal foi o de quem está, ao mesmo tempo, denunciando um absurdo e revelando um lugar exótico, um tom muito mais panfletário do que expositivo ou mesmo crítico (não vou criticar o estilo do texto, que tem pérolas como "quem for ao Afeganistão vai achar que voltou à Idade Média", porque essa carga de imbecilidade já está implícita em tudo o que a TV Globo faz).
Ora, não há crítica sem um anterior desejo de compreender. Não há nenhuma possibilidade de uma repórter entender a política de um lugar simplesmente chegando lá e observando. Ela precisava, no mínimo, ter contextualizado historicamente o Afeganistão, em vez de atribuir todos os problemas e absurdos do lugar a um barbarismo irracional. Como os talibans chegaram ao poder? Em que medida eles têm o apoio popular (já que o Ministro das Relações Exteriores apareceu dizendo que eles só governam porque o povo quer e, quando o povo não os quiser mais, eles sairão), e quais as razões para esse apoio, se é que existe? Essas perguntas nem sequer foram feitas.
Além disso, a repórter cometeu um erro primário de estudo sociológico: mediu o grau de autoritarismo do lugar por suas leis, e não pela efetividade delas. Por exemplo, ela mostrou todo seu horror pelo fato de existirem leis que punem o adultério com pena de morte, mas não foi capaz de localizar nenhum caso de aplicação dessas leis.
Também se mostrou escandalizada pelas proibições de fotos e imagens de seres vivos, mas, ao mesmo tempo, mostrou inúmeros casos de pessoas, inclusive funcionários do Governo, pedindo para ser fotografados e filmados. Ora, se o lugar é tão totalitário, e se essas leis são tão importantes quanto pretendia a repórter, como é possível que tantas violações ocorressem à luz do dia, no período em que ela estava lá, sem que nenhuma conseqüência adviesse disso?
Não estou tentando defender o Afeganistão, até porque nada sei do lugar, mas essas são perguntas que qualquer pessoa faria imediatamente.
Outro ponto altamente defeituoso foi a associação preconceituosa entre o Corão e a legislação rigorosa imposta pelos talibans. A repórter confiou apenas nos próprios preconceitos para tratar do assunto. Que tal se tivesse consultado especialistas, teólogos muçulmanos de outros países, para tentar entender até que ponto a associação entre Alcorão e repressão social é normal, do ponto de vista islâmico?
Por fim, mostrando a pobreza do país (que, aliás, sr. Reinaldo Azevedo, também não tem violência), a repórter do Jornal Nacional lembrou, de passagem, as sanções da ONU. Mas as críticas e denúncias voltaram a cair sobre o Governo, e não sobre a ONU. Imagino que, na cabeça dos ideólogos globalistas, seja mais imoral proibir as mulheres exibir seus rostos em público do que impedir o envio de alimentos para um país inteiro e contribuir, assim, para que essa população morra de fome. Equilíbrio ético perfeito.
Mesmo com todos esses problemas, foi ao menos interessante ver a TV Globo produzir reportagens internacionais de mais fôlego. Sugiro aos reponsáveis por elas que, já que estão procurando absurdos islâmicos para denunciar, dêem uma olhada na escravização e assassinato de cristãos no Sudão. Poderiam fazer lá uma série de reportagens bem melhor que essa.
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Por acaso, tive em minhas mãos esta semana o cardeno Idéias do JB. Ia dizer que ele estava especialmente idiota, mas não o leio toda semana e imagino que esse estado de idiotia possa ser o normal do caderno semanal.
Não bastasse o Emir Sader assinar a matéria principal, o meio do caderno ostentava uma matéria intitulada "Grandeza e miséria do politicamente correto", trecho de um livro do cientista político uspiano Renato Janine Ribeiro.
Não vou entrar nos detalhes do texto, cheio de frescuras uspianas, e que era só desculpa para defender cotas e affirmative action. O que eu quero ressaltar é o trecho do artigo em que Janine diz o seguinte:
" Como os Estados Unidos pulverizaram sua vida política em ações de lobbies, esses movimentos sociais, às vezes generosos, às vezes egoístas, se constituíram de uma forma que pouco tem de esquerdista: a esquerda sempre mantém algum compromisso com o socialismo (por vago que seja esse termo), e portanto sempre enuncia um projeto de sociedade, não de grupos."
Um cientista social deveria ter vergonha de escrever uma frase dessas, porque seu absurdo é patente.
Em primeiro lugar, Janine sabe muito bem que não se pode analisar um movimento político sem levar em conta o meio em que ele surgiu, e o politicamente correto não tem origem autônoma em relação à esquerda americana: ele nasceu diretamente do Partido Comunista americano, especialmente depois do choque causado pela revelação, por Kruschev, dos crimes de Stálin. Foi a desorientação que se seguiu a essa revelação que acabou dando ensejo ao surgimento da "New Left", que deu início a esse movimento nas universidades americanas. Aliás, o próprio termo "politicamente correto" decorre do Partido Comunista, dos processos internos para julgar a "ortodoxia" de um determinado membro, isto é, sua adequação à linha do partido. A popularização do termo "politicamente correto" é recente (tanto que só agora a ciência política brasileira se deu conta do assunto), mas as políticas do movimento datam pelo menos da década de 1960.
Em segundo lugar, Janine, ao dizer que "socialismo" quer dizer um "projeto social", tenta contrapor o verdadeiro socialismo ao "egoísmo" do politicamente correto. Mas o "projeto social" do socialismo não é um projeto de sociedade, entendida como independente do Estado, mas é um projeto de governo - mais especificamente, é o projeto de um governo que regule a vida social. Ora, é certo que essa pretensão totalitária, que Janine idolatra, é reduzida no caso do politicamente correto, mas ela não é abandonada. Os diversos lobbies podem não se manifestar ao mesmo tempo, mas o resultado de sua atuação em conjunto é uma coleção de legislações e imposições estatais à vida social, de tal forma que, no fim, esta já foi sufocada quase inteiramente pela ação estatal.
A diferença, pois, entre os dois casos é que, no socialismo sonhado por Janine, o Partido, certamente aconselhado pelo próprio Janine, já que ninguém quer fazer revolução para dar poder aos outros, determina sozinho todos os aspectos da vida social. No socialismo do politicamente correto, que foi o que a esquerda conseguiu fazer nos EUA, vários grupos de "minorias" atuam independentemente, cada um com seus propósitos reguladores, e o Estado atende a todos ao mesmo tempo.
No caso do socialismo de Janine, a única maneira de implantá-lo é por uma revolução sangrenta - mesmo que ela seja antecedida de revolução cultural gramsciana, que não pretende abolir a fase sangrenta, apenas facilitá-la. No caso do politicamente correto, a revolução pode levar décadas acontecendo, sem que muitos se dêem conta dela - mas, pelo menos, os mecanismos democráticos que restarem podem amenizar seu impacto, que é exatamente o que acontece nos EUA.
LENDO O LEITOR
Comentei, semana passada, a ridícula "seleção de filósofos" de um jornalista inglês, repetida pelo Sérgio Augusto na Bravo! deste mês. Era uma seleção só de pernas de pau.
O pior é que a idéia nem mesmo era original, e sim um plágio descarado de um quadro antigo do grupo de humor inglês Monty Python. Quem me lembrou disso foi meu amigo José Roberto Hall Brum, que me enviou a seguinte mensagem:
Date: Sat, 15 Jul 2000 18:29:53 -0700
From: "José Roberto Hall Brum de Barros"
To: cartas@oindividuo.com
Subject: Futebol e Filosofia
Caro Álvaro,
Incrível, uma idéia
digna do Monty Python, literalmente. Eles já fizeram isto há mais
de 20 anos num quadro que tem a final da Copa do Mundo de filósofos,
Alemanha X Grécia (a Grécia ganha). Só para mostrar que
eles têm mais bom senso que este inglês citado por Sérgio
Augusto, vou te mandar a escalação dos times.
Alemanha
1- Leibniz
2- Kant
3- Hegel
4- Schopenhauer
5- Schelling
6- Beckenbauer (o jogador)
7- Jaspers
8- Schlegel
9- Wittgenstein
10-Nietzsche
11-Heidegger
Grécia
1- Platão
2- Epikteto
3- Aristóteles
4- Sófocles
5- Empedocles
6- Plotino
7- Epicuro
8- Heráclito
9- Demócrito
10-Sócrates
11-Arquimedes
Juiz: Confúcio ; Bandeirinhas:
Santo Agostinho e São Tomás de Aquino
Técnico da Alemanha: Lutero.
E em caso de você estar se perguntando a respeito de Marx, até nisso eles tiveram bom senso; ele ficou na reserva...
Um abraço,
Zé Roberto.
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E, já que me perguntaram, vou escalar a minha seleção, restringindo-me ao mundo ocidental. O esquema é europeu, o 3-5-2, até porque não tem nenhum sul-americano no time (tem alguns que eu poderia escalar na reserva, mas vou citar só o time principal).
Vamos lá: no gol, já que a sua contribuição para a filosofia é tão ambígua quanto a posição do goleiro no futebol, Platão. De líbero, o capitão do time, Sócrates. E, seguindo a cabeça de alguns técnicos brasileiros, que gostam de escalar um beque de muita técnica e o outro botocudo, temos a dupla de zaga com os antípodas filosóficos Xavier Zubiri e Immanuel Kant, que é o Odvan do time.
Meio de campo: na ala esquerda, o ousado e original Duns Scot; na meia esquerda, dando firmeza e segurança à meia-canja, Edmund Husserl; na ala direita, o com sua facilidade para correr em profundidade, Schelling; na meia direita, o faz-tudo da meia-canja, um dos maiores gênios da Humanidade, Leibniz. E, de meia central, organizando o jogo e dando todos os passes, Aristóteles, o principal jogador do time.
A dupla de ataque e tem precisão de quase 100%: São Tomás de Aquino e Santo Agostinho, sendo que Agostinho se move mais dentro da área, pronto para estraçalhar as zagas arianas, maniqueístas ou até mesmo protestantes, e Tomás prefere armar jogadas e voltar para buscar jogo, em tabelinhas literalmente divinas com o meia central Aristóteles.
Nem tentem comparar minha seleção com a do jornalista inglês: não dá nem para a saída. Quanto aos times do Monty Python, são times fortes, tanto que formaram as bases para a minha seleção, mas nenhum dos dois é páreo, porque têm um excesso de pernas de pau: Wittgenstein, Nietzsche, Heidegger, Hegel, Demócrito, Epicuro, Heráclito. E o técnico da Alemanha é péssimo.
Se quiserem, podem também comparar meus onze com os dez apontados pela "especialista" ("especialista" em filosofia é igual a generalista em neurocirurgia) Olgário Matos no site "O Especialista" - vai dar vontade de chorar.
ARTIGO DA SEMANA
O site xodó dos esquerdistas internautas, o Salon.com, está em maus lençóis economicamente, e ao mesmo tempo acaba de perder toda a (pouca) credibilidade que tinha - embora isto não signifique muito para seus fãs, porque honestidade e credibilidade nunca foram virtudes esperadas de jornais e revistas esquerdistas.
Leiam o que saiu no Matt Drudge:
"A Casa Branca foi novamente acusada de vazar informações confidenciais sobre uma mulher que alegou ter sido bolinada pelo Presidente Clinton fora da Sala Oval. [Obs.: esse foi um padrão de conduta da administração Clinton, ao longo de tuda a duração do mandato: quem quer que denunciasse ou criticasse Clinton logo teria uma campanha de difamação contra si na imprensa nacional, e o veículo mais utilizado para essas campanhas foi, justamente o Salon. Nessas campanhas, documentos confidenciais a cargo do FBI ou da Receita Federal americana foram divulgados para a imprensa, a fim de sujar a imagem dos opositores de Clinton; isso ficou conhecido como Filegate.]
"A detalhada matéria do Salon.com sobre as finanças de Kathleen Wiley ('Novos documentos de falência fazem com que as finanças sombrias finanças da testemunha-chave de Ken Starr pareçam ainda mais ensombrecidas' - 12 de julho) levantou suspeitas, depois que o escritor Bruce Shapiro fez citações do 'formulário' em que Willey se ofereceu para uma posição de voluntária na Casa Branca.
"'Estamos testemunhando mais um episódio do Filegate?', Willey acusou sexta-feira de manhã. 'Não é nenhum segredo que a Salon magazine é a porta-voz da administração Clinton. A questão importante é: como Salon obteve documentos financeiros confidenciais e formulários FBI 302 que não são de domínio público?'
"Willey apontou para 'trechos de documentos secretos do FBI' que Salon cita - documentos que não fizeram parte de nenhum processo legal. 'Esta informação não está sujeita à liberdade de informação, não está disponível para o público, e foi divulgada para advogados do presidente', Willey contou ao Drudge Report.
"'Então, a minha pergunta é: como esta informação secreta chegou às mãos de Salon? Tudo isso foi calculado para danificar mais ainda minha reputação?'
"'O artigo também cita meu advogado, Daniel Gecker, em sua entrevista de 1998 no FBI, que só estava contida nesses documentos secretos e não-revelados.'
"'A história de Salon passeia por um território antigo que é profundamente doloroso para mim e para meus filhos. Meu marido cometeu erros financeiros e pagou por eles com sua vida. Eu esperaria que em deferência à sua memória e à dor que ele sentiu e levou a seu suicídio que a mídia não reabrisse feridas gratuitamente.'
"A Casa Branca recusou-se a comentar na sexta-feira de manhã. Anteriormente, neste ano, um juiz federal julgou que o Presidente Clinton cometeu uma violação criminosa do Ato de Privacidade federal por divulgar em público cartas amigáveis de Willey.
"Ironicamente, a intriga agora está começando a se intensificar a respeito do estado financeiro de Salon.com, que está prestes a sofrer uma possível exclusão do mercado de ações, depois que o valor de suas cotas caiu entrou em colapso (Nasdaq: SALN, matendo-se próximo a U$1, depois de uma alta de U$15).
"Dois membros da equipe de Salon se ofereceram para revelar como os pagamentos estão, agora, sendo atrasados."