No. 20 - 28/07/00
É impressionante a esquizofrenia do discurso político brasileiro, ou melhor, do discurso político da esquerda brasileira (que é praticamente a única que discursa).
Dia após dia somos bombardeados por lamentos do tipo "o Brasil está perdendo a cara de Brasil", "o Brasil está se vendendo aos Estados Unidos", "o Brasil vai acabar", "estamos deixando de ser brasileiros" etc. etc. - tenho certeza de que vocês sabem do que estou falando, caros leitores.
No entanto, o que é que essa esquerda que tanto lamenta o fim do Brasil e da brasilidade ama no Brasil e na brasilidade? Que razão eles dão para que a pátria brasileira seja preservada, quer dizer, qual o fundamento de seu discurso?
Não dão razão nenhuma, e o discurso não tem fundamento nenhum. Muito pelo contrário. Para eles, o Brasil foi fundado a partir de um "genocídio", e carrega crimes e mais crimes nas costas. Para eles, o Brasil é um país onde todos são imorais e preguiçosos, onde os pobres e os negros são odiados, um país, como diz um filme atualmente popular nas esquerdas, "cronicamente inviável".
Mais até do que isso: para a esquerda, o Brasil nem mesmo tem direito à existência, porque as terras brasileiras não são brasileiras, e sim dos índios, e deveriam ser devolvidas a eles, os líderes das "nações indígenas", as substitutas legítimas do Brasil.
Ah, sim, mas há uma coisa que os esquerdistas querem preservar: as estatais. Para eles, o que existe de mais autenticamente brasileiro, a única coisa louvável nesta terra desgraçada, são as empresas estatais - Petrobras, Eletrobrás, Vale do Rio Doce, CERJ, Telerj, e não sei mais quantas. Muitas delas já não existem mais e isso, para eles, corresponde ao fim do Brasil, à venda do Brasil para os Estados Unidos.
Ficamos, então, com esta pérola do pensamento político: a única coisa a ser preservada numa nação são as empresas que pertencem ao Estado. Como diabos isso pode ser chamado de patriotismo, ou nacionalismo?!
Isso é estatismo, ou, na melhor das hipóteses, corporativismo egoísta, tendo em vista que a folha de pagamento esquerdista tem origens nessas empresas que eles querem preservar.
Dá para perceber a tremenda hipocrisia, a tremenda incoerência de um nacionalismo que odeia a nação que diz amar, e cuja única bandeira política é a preservação do patrimônio do Estado?
Dá para perceber a perversidade intrínseca de um movimento que, dizendo querer preservar a nação e apoiando-se no sentimento patriótico popular, quer apenas manter empresas que, para funcionar, sugam o dinheiro popular, através de impostos cada vez mais escorchantes?
Não, meus caros, não se iludam: a esquerda brasileira não é nacionalista. Ela odeia o Brasil, ela é o anti-Brasil. Ela quer apenas manter os tentáculos do Estado-leviatã e, para isso, cria uma confusão semântica entre Estado e nação.
Amar a própria nação, sentir-se parte integrante de uma cultura, com seus traços característicos e sua história, é completamente diferente de amar o próprio Estado, de querer manter no cargo burocratas prepotentes e inúteis.
Orgulhar-se da tolerância racial e religiosa brasileira, da maneira como fomos capazes de desenvolver uma civilização sem conflitos religiosos e raciais significativos, é completamente diferente de orgulhar-se da Petrobras; assim como orgulhar-se de viver no país que produziu Machado de Assis é completamente diferente de orgulhar-se do país que produziu Leonel Brizola.
SÉTIMA ARTE
Falando em patriotismo, acaba de estrear The Patriot, de Roland Emmerich, com Mel Gibson no papel de um fazendeiro que tem suas terras devastadas e um de seus filhos morto por soldados britânicos, e vê-se forçado a lutar na Guerra da Independência americana.
As críticas da imprensa brasileira eram previsíveis: as reclamações de praxe contra o "cinema hollywoodiano" e a ridicularização do que há de patriotismo no filme. Aliás, o patriotismo é algo tão alheio à vida intelectual brasileira que, quando vemos amostras dele, ficamos sem entender nada - e depois vem a esquerda dizer-se nacionalista, e um bando de idiotas ainda acredita.
Mas, se quiserem ver essas amostras de patriotismo autêntico, bem como uma belíssima história de heroísmo, não percam The Patriot. Ouso dizer que se trata de um clássico americano, do nível de Gone with the wind, The best years of our lives, Ben hur etc., e um clássico que restaura o sentido do patriotismo americano, que também por lá anda se perdendo.
O problema deles é um pouco diferente do nosso: aqui, há apenas uma corrente que se diz nacionalista, sem sê-lo de maneira alguma, e alguns resquícios de patriotismo principalmente nos meios militares. Lá, o nacionalismo andou sendo confundido, pela turba neo-conservadora (aqui, chama-los-íamos de neoliberais, e o termo se adequa muito bem) do tipo William Buckley e Norman Podhoretz, com imperialismo. Assim, quem quer que se oponha ao expansionismo militar americano é considerado, por essa direita centrista, um anti-americanista raivoso - quer dizer, também há uma confusão entre nação e Estado, mas ela se manifesta de forma diferente.
Mas não pensem que a moda de reescrever a história para denegrir a imagem dos fundadores da nação é exclusividade brasileira, porque, na verdade, nossa esquerda a copiou da esquerda americana. A diferença é que esta não faz nenhum jogo de palavras, e não se diz nacionalista - diz-se "internacionalista" (e, nisso aproxima-se dos nossos neoliberais) e não se cansa de dizer que país odioso são os EUA.
Foi especialmente dessa gente que veio a oposição a The Patriot, com um apego ridículo a minúcias históricas totalmente descabidas num filme histórico romanceado. A outra frente de ataque é a dos britânicos, que dizem que o filme denigre sua imagem - e também recorrem a minúcias históricas.
Pelo menos uma das reclamações dos ingleses é justa: a cena em que o soldado inglês mata uma cidade inteira queimando uma igreja é não só historicamente inviável como desnecessária ao filme, acrescentando uma carga melodramática excessiva a uma história que já tinha força própria. Mas o Exército inglês em si nunca é mostrado de forma inteiramente negativa: as atrocidades são cometidas pelo comandante de um regimento específico, e ele é advertido por seu superior hierárquico.
De resto, os ingleses têm mais é que pôr o rabo entre as pernas e admitir que, nessa como em muitas outras situações históricas, eles estavam do lado errado.
Outro detalhe incômodo é a única concessão que o filme faz ao politicamente correto: os trabalhadores negros da fazenda de Gibson não eram escravos, e sim servos contratados. Convenhamos, isso é altamente inverossímil, e desnecessário, até porque os escravos, em sua maioria, permaneceram fiéis aos seus senhores americanos e lutaram do lado deles.
Basta esse detalhe para esclarecer que a crítica de Spike Lee ao filme é inteiramente absurda: o filme não só não é racista, como trata do drama da escravidão, e ainda traz como um dos personagens mais heróicos um escravo, que depois é libertado.
Dito isso, o que faz do filme o clássico que eu disse que ele é? Vamos por itens:
1) Logo no início, há uma cena espetacular: a assembléia do estado está reunida para decidir se vai ou não começar o alistamento para lutar contra os ingleses. Um dos cidadãos faz um discurso eloqüente contra a tirania do rei George. Gibson, opondo-se ao alistamento, responde: "é melhor um tirano do outro lado do oceano do que centenas deles na vizinhança." Há uma lei imortal da sabedoria prática política nessa resposta, e o filme está repleto de insights semelhantes.
2) Em momento nenhum o filme faz a apologia da guerra. O personagem de Gibson só s resolve a participar dela quando não vê outra alternativa, e, ademais, em legítima defesa; ainda por cima, faz uma defesa eloqüente da moralidade no combate, por exemplo, proibindo seus comandados de matar prisioneiros.
3) Não dá para não gostar de um filme em que um pai dá uma arma a dois de seus filhos e vai com eles resgatar um terceiro filho, que tinha sido aprisionado por soldados britânicos que pretendiam enforcá-lo. A cena, é claro, causou escândalo nos manifestantes anti-armas, e essa é mais uma de suas qualidades.
Também causou escândalo o fato de um dos soldados da milícia comandada por Gibson ser um pastor, e para o caso vale o mesmo raciocínio: o fato de um dos personagens principais ser um pastor, que protagoniza várias cenas excelentes, é outro ponto importante a favor do filme.
4) É cada vez mais raro (Gladiador é o outro exemplo que vem à mente) um filme em que o herói é mesmo um herói, e o vilão é mesmo um vilão. O filme é uma apologia da liberdade, da família, dos direitos de propriedade e do direito de desobediência civil, quando a causa é justa; é difícil não se empolgar e não se emocionar.
5) Por fim e, dados os demais fatores acima, menos importante, a produção é extremamente bem cuidada, a história é contada de forma envolvente e ninguém percebe que passam mais de duas horas e meia, e as seqüências de batalha são espetaculares, sem nenhuma idealização e nenhum glamour.
Por tudo isso, acho que este é o melhor filme americano desde o subestimado Saving Private Ryan.
MUNDO ACADÊMICO
Um jornal da Bahia recentemente noticiava que, numa das escolas públicas baianas, o índice de aprovação nas séries do primeiro grau foi, segundo dados do MEC, de 110%. É isso aí, vocês leram direito: 110%. Como isso foi possível, eu, sinceramente, não sei, e a reportagem também não explicava.
Mas ela explicava que o MEC exige que as escolas públicas tenham taxas de aprovação altas. A justificativa oficial menciona o problema dos custos dos alunos, o que é uma piada, e a justificativa não-oficial fala da necessidade de preservar a "auto-estima" das crianças, evitando a reprovação.
Falar em custos é uma piada de mau gosto, porque, se o Estado resolveu gastar dinheiro dando educação para as crianças, tem de fazê-lo direito (embora o Estado fazer algo direito seja uma contradição de termos). Se é para proibir reprovações e para fingir que todos aprenderam o que não aprenderam, transformando todo o processo educacional numa palhaçada, para não gastar dinheiro, é melhor poupar direito o dinheiro do contribuinte e evitar que vidas sejam estragadas nessa paródia ridícula, acabando logo com a educação estatal.
Já a outra justificativa é típica do psicologismo de botequim que domina parte das discussões pedagógicas contemporâneas. A criança não está na escola para desenvolver sua auto-estima, e não é função essencial da escola fazê-lo. A criança está na escola para aprender a ler, a escrever, a fazer contas, para conhecer a história de seu país e do mundo, e assim por diante. Essas são as funções essenciais, e quando a avaliação do aprendizado dessas coisas essenciais tem seus padrões diminuídos (ou até extintos) em nome de considerações secundárias, é óbvio que o próprio aprendizado está comprometido, e que a escola não está levando a sério seu papel.
Ademais, essa história de "auto-estima" é altamente duvidosa, porque ninguém aprende nada na vida julgando-se melhor do que é, nem criando falsas ilusões de potência a respeito de si próprio. Pelo contrário: o conhecimento das próprias possibilidades reais, das próprias limitações, é condição essencial para o amadurecimento do ego e, conseqüentemente, é parte importantíssima da educação. Como dizia Chesterton, ninguém acredita mais em si mesmo do que o louco.
Mas, falando em educação pública, dois filmes recentes, ambos baseados em histórias reais, fizeram um retrato de escolas primárias estatais e suas dificuldades.
Ça commence aujourd'hui (tentei de todas as formas lembrar que título deram em português, mas foi inútil), do comuna Bertrand Tavernier, retrata do dia-a-dia de Daniel Lefèbvre, diretor de uma escola numa decadente cidadezinha na semi-comunista França.
O filme é uma apologia da intrusão estatal, sob pretextos "solidários", e um retrato duro da pobreza, que o filme atribui às medidas de abertura econômica do governo francês.
Todos os seus preconceitos contra o cinema francês são confirmados por esse filme: é longo demais, as pessoas falam demais, e a história toda faz muito barulho por quase nada. As únicas cenas interessantes são as que, como já mencionei, retratam a pobreza no interior da França, mas a explicação do filme para o fenômeno é inteiramente absurda, principalmente porque a flexibilização da economia francesa é muito pequena, e as restrições protecionistas e intervencionistas é que continuam a sufocar o desenvolvimento do país.
De resto, os grandes heróis do filme são o diretor que se mete na vida de todas as crianças e as assistentes sociais que tiram a custódia dos filhos de várias famílias, deixando mães desesperadas sem seus filhos. Não há problema que, na visão do filme, não pudesse ser resolvido pela maior intervenção estatal: o desemprego, o alcoolismo, o baixo rendimento dos alunos (ao menos não há aprovações forçadas!), a evasão escolar, os desentendimentos entre pais e filhos.
Isso, claro, é típica mentalidade francesa pós-revolução: só o Estado salva. Não deixa de ser interessante comparar essa perspectiva coletivista com o individualismo de filmes americanos que tratam de temáticas semelhantes, como To Sir With Love, com Sidney Poitier.
O outro filme recente que retrata uma escola pública é Nenhum a menos (o título original? Sei lá!), do chinês Zhang Yimou.
Com Yimou, estamos em outro patamar: ele é um dos maiores diretores de cinema vivos, autor de filmes extraordinários como A história de Qiu Ju e Lanternas Vermelhas, filmes que escavavam fundo as duras lembranças dos tempos mais negros de Mao Tsé-Tung. Mas, depois de 1994, o governo chinês passou a controlar de perto o conteúdo dos filmes produzidos na China comunista, e as críticas ao regime e ao passado do regime foram abrandadas. Só isso, lembra o crítico do NY Press Godfrey Cheshire, explica este Nenhum a menos, que, como diz o próprio Cheshire, parece uma versão light de Qiu Ju.
Trata-se da história de uma jovem de 13 anos que é encarregada de tomar conta de uma turma de alunos num vilarejo, para substituir um veterano professor que terá de se ausentar por um mês. Antes de viajar, o professor lhe fala sobre o problema da evasão escolar, e lhe pede que, na sua volta, a turma não tenha nenhum aluno a menos (daí o título).
A primeira parte do filme se concentra nos esforços da menina para realizar uma tarefa para a qual ela não estava minimamente preparada: continuar a educação da turma. Em um determinado momento, porém, o aluno mais relapso e mais bagunceiro foge do vilarejo, e vai para a cidade tentar arrumar dinheiro. A menina não se conforma, e move mundos e fundos para ir atrás dele e achá-lo lá.
A parte central do filme é o período em que ela vagueia pela cidade, tentando achar o menino. É também a parte mais interessante. O vilarejo é um lugar devastado, muito pobre, mas ainda assim submisso à burocracia do Partido: as crianças cantam hinos em tributo a Mao e hasteiam a bandeira chinesa todos os dias; pessoas vêm da cidade buscar alunos que se destacaram nos esportes. A cidade é um lugar sujo, inóspito e também cheio de pobreza. Mas a menina encontra o garoto fugitivo, através de um anúncio na televisão: ela foi parar na televisão contando com a caridosa assistência de um burocrata, o diretor da "emissora do povo".
Este é o redentor, no filme: o burocrata. Mas o pior, para mim, é a própria premissa do filme. Por que diabos a professora tinha de ir à cidade buscar o garoto?
Ora, ele era inteiramente desinteressado das aulas (por piores que elas fossem) e não mostrava nenhuma aptidão para os estudos, mas tinha grande jogo de cintura. Será que ele não aprenderia mais, não seria um ser humano melhor, se permanecesse na cidade e tentasse arrumar um emprego, em vez de voltar aos bancos escolares? Fiquei me perguntando isso o filme todo, e acho que essa pergunta é perfeitamente natural. Mas basta fazê-la para que o filme não funcione mais.
Uma das cenas mais significativas é a entrevista da menina/professora no programa de televisão. A repórter lhe pergunta por que o garoto deve voltar para a escola. Ela fica sem resposta, e mantém um olhar patético em direção à câmera.
E aí é que está: não há resposta. Ficar ali naquela escola não fará a menor diferença para o garoto. É disso que o movimento contra o "trabalho infantil" se esquece. É este ponto que é ignorado pelos movimentos de escolaridade estatal compulsória.
Tanto Nenhum a menos quanto Ça commence aujourd'hui são o que o mesmo crítico já citado chama de "filmes da UNESCO". Vemos professores bonzinhos lutando contra dificuldades, e os finais são sempre cor-de-rosa, com uma mensagem de otimismo, de "pensamento positivo": no filme francês, as crianças fazem um mutirão para pintar a escola, e tudo termina numa grande festa; no filme chinês, o menino volta para o vilarejo e centenas de moradores da cidade, tomados de compaixão pelo caso, mandam donativos e fazem contribuições para a escola, permitindo que ela seja reformada.
Podemos imaginar ambas as histórias naqueles anúncios de prêmios culturais da UNESCO, e em ambas podemos ver a agenda globalista de educação compulsória e pelo fim do "trabalho infantil".
O que à primeira vista é surpreendente é o fato de o filme francês ser muito mais estatólatra do que o chinês; afinal, neste, embora tudo seja proporcionado por um burocrata estatal, quem se move para fazer doações é a população, enquanto naquele são as assistentes sociais e o prefeito da cidade que proporcionam o final feliz. Isso, no entanto, não é surpreendente para quem conhece Zhang Yimou, e só podemos lamentar que sua liberdade seja tolhida pelo governo, a ponto de ele realizar um filme insípido como este Nenhum a menos. Ao menos as imagens são tão impressionantes quanto as de seus outros filmes, e a mensagem que fica nas entrelinhas da história da menina camponesa tentando encontrar o aluno fujão é que, voltando a citar a resenha de Cheshire, "quando os tempos são duros, a melhor coisa a fazer é perserverar e sobreviver."
POLITICAGENS
A reação dos leitores à recente matéria de capa da revista Veja sobre a vida dos ricos foi a seguinte, segundo noticiou a própria revista:
"Alguns brasileiros notaram a falta de certas categorias profissionais na relação da Receita que mostra os contribuintes que ganham acima de 500.000 reais por ano. 'Devemos acreditar que os cantores sertanejos, Adriane Galisteu, Carla Perez, Faustão e outros ganham menos que isso?', perguntou Erley dos Santos. O leitor Cristiano Martins envia um e-mail em que relaciona os artistas e esportistas que, segundo ele, ganham o dobro disso (1 milhão de reais) não por ano, mas por mês (...)[seguia-se uma extensa lista de nomes de gente famosa]. Exageros à parte, as transferências milionárias de craques do futebol e as vendas astronômicas de discos de pagode, axé e breganejo dão no que pensar. Com a palavra a Receita Federal, que não perdoa os assalariados."
Outra maneira de descrever essa reação dos leitores e da própria revista seria dizer que eles assumiram com prazer a função de comissários do povo, e foram correndo pedir a papai-Estado que deixasse um bando de gente de castigo.
Não bastasse a estatolatria brasileira, incensada por esses movimentos contra a "impunidade" (isto é, a favor de maior atuação estatal), o assunto ainda toca com outra de nossas patologias: o ódio à riqueza. No Brasil, o simples fato de ser rico torna o sujeito um inimigo público.
O raciocínio é imediato: se fulano é rico, ou roubou, ou se aproveitou de alguém, ou fez alguma falcatrua, ou qualquer coisa do tipo. E mais: pelo simples fato de ser rico, está explorando os pobres.
Os próprios ricos, na matéria da Veja, se diziam envergonhados de ter dinheiro num país "com tanta miséria".
Ninguém parece se lembrar de que, primeiro, a riqueza de uma sociedade não é um bolo que possa ser repartido entre os cidadãos, porque não é limitada; segundo, a riqueza de um não significa a pobreza do outro, a não ser para quem ainda acredita em mais-valia; terceiro, e mais importante, o dinheiro que um sujeito tem expressa a valorização social da tarefa que ele desempenha. Os cantores sertanejos vendem muitos discos e ganham muito dinheiro porque oferecem à população um produto do qual muitos gostam e pelo qual muitos estão dispostos a pagar. O mesmo raciocínio vale para o dinheiro que tem o padeiro da esquina, ou o dinheiro que tem o Bill Gates.
Pagamos mais ou menos de acordo com o valor que atribuímos ao produto vendido. Para citar algo que fiz hoje como exemplo: eu pago noventa centavos para ir do meu apartamento à PUC de ônibus; se fizer o mesmo trajeto de táxi, pagarei cinco ou seis reais (dependendo do trânsito na Visconde de Albuquerque...). Ora, ninguém me obriga a entrar no ônibus, nem a entrar no táxi; eu poderia fazer o mesmo trajeto a pé, e não pagaria nada por isso.
Claro, no entanto, que essa diferença entre a valoração social dos diversos trabalhos cria ressentimentos e invejas. Aí, vêm os leitores e os editores da Veja pedir ao Governo que tire um pedaço do que ganham os ricos brasileiros - e, sem dúvidas, são movidos por inveja e ressentimento.
O pior é que essa atitude invejosa e rancorosa em relação à riqueza é predominante nos brasileiros; essa mentalidade anti-capitalista, que vê na riqueza um sinal de pecado grave, foi amplamente disseminada entre nós por novelas, telejornais e intelectuais gramscianos.
Aliás, o anti-capitalismo está tão disseminado que, esta semana, vimos uma briga ridícula entre dois candidatos a prefeito no Rio para ver quem é mais de esquerda: o Conde, do PFL, disse que é o verdadeiro homem de esquerda, porque o César Maia, seu oponente direto, "se aliou à direita" (leia-se PMDB), e o Maia revidou a "acusação". Quer dizer, fomos sujeitos a essa discussão absurda entre os dois candidatos da direita para ver quem não era da direita, e sim da esquerda! Como se ser da esquerda fosse sinônimo de ser "do bem".
O que nenhum dos dois percebeu é que eles estão em primeiro e segundo lugar nas pesquisas, com larga vantagem sobre os próceres esquerdistas Brizola e Bené, porque ninguém quer um prefeito ideólogo, que vai inventar legislações malucas para infernizar a vida do cidadão. O cargo de prefeito é um cargo essencialmente administrativo, e quanto mais discreto seu ocupante, melhor. E o povo, por que mais que tenha sido submetido à doutrinação esquerdista, é inteligente o suficiente para perceber isso.
NA REDE
Andando num supermercado outro dia, fui procurar a seção de goiabadas. Que decepção: tinha umas duas ou três marcas, todas com uma cara péssima, aquela cara de goiabada industrializada, que tem gosto de tudo menos de goiaba. Acabei comprando uma Nolasco, de Campos, que é o mais próximo de goiabada caseira que dá para encontrar (aliás, uma das minhas divergências mais sérias com o sr. Pedro Sette Câmara é o fato de ele preferir a goiabada mineira à goiabada campista; herege!). Estou dizendo isso não para fazer propaganda de goiabada (alô, produtores de goiabada: se alguém quiser patrocinar O Indivíduo, pode deixar que eu faço propaganda de vocês!), mas para comentar um artigo recente do Greg Cosby, colunista do Jewish World Review, no qual ele se mostrava espantado com a abundância de porcaria nas prateleiras do supermercado que freqüenta, e notava especialmente a quantidade absurda de marcas de sucrilhos disponíveis.
Pois é, são coisas da vida econômica: lá, terra do capitalismo (por mais combalido que ele esteja hoje), excesso de bobagens; aqui, terra anti-capitalista, escassez de supérfluos. Mas vamos vivendo, e não nos preocupemos muito.
Até porque, essa ânsia capitalista de fazer dinheiro tem suas desvantagens, como disse Bob Greene, no mesmo site de Cosby. Greene está espantado, porque, durante a Guerra Fria, diziam que, se os soviéticos ganhassem, eles fariam os americanos trabalhar como escravos. No entanto, olhando a obsessão por trabalho de seus compatriotas, que vivem descobrindo maneiras de levar consigo o trabalho até nas horas que supostamente seriam dedicadas ao lazer, ele concluiu que, apesar de os russos não terem transformado os americanos em escravos, eles mesmos o fizeram. E trabalham 24 horas por dia.
Acho que não é exagero. A verdade é que a tecnologia, em vez de, como os utopistas prometeram, diminuir a carga de trabalho, apenas mudou o tipo de trabalho e, no fim das contas, acabou aumentando a carga. Isso porque cada invenção tecnológica, ao mesmo tempo que resolve problemas, cria outros tantos e permite que se trablhe em cima de outros tantos ainda, além do fato de que várias das novas invenções têm como efeito permitir que o sujeito fique plugado no trabalho o dia inteiro, o que anteriormente era impossível.
É muito bonito ouvir sociólogos falar [nota aos filisteus: é assim que se escreve, em língua portuguesa: ouvir sociólogos falar] que o tempo de lazer vai aumentar, que o ser humano vai poder trabalhar menos para se dedicar a outras atividades, mas o que tem acontecido é justamente o contrário, e o avanço capitalista, com todos os seus benefícios, tem essa terrível contrapartida.
Enquanto isso, Charley Reese lançou um protesto anti-tecnológico em uma de suas colunas recentes. O que ele diz é bastante simples: quem quiser fugir da decadência cultural precisa arrumar uma vida fora da cultura comercializada.
Agora, entendam bem por que estou ressaltando esse artigo. Eu não sou um opositor da tecnologia. Pelo contrário, eu acho a internet uma invenção fantástica, e adoro computadores. Mas isso não precisa tomar todo o nosso tempo e, realmente, como diz Reese, informação e comunicação são super-valorizadas: acabamos vendo mais coisas do que precisamos ver na internet e na televisão, e o tempo vai se esvaindo aí - tempo não só para fazer coisas sérias, como também para lazer.
O protesto de Reese ecoa no mais recente artigo de Taki (é o terceiro na página linkada), que diz já no título: "Turn it off", i.e., desligue-a. "It" é a televisão. "Se não voltarmos aos livros", diz ele, "e por livros eu quero dizer livros de homens brancos mortos - a cultura ocidental está acabada, finis, kaput, pano rápido."
Ele chegou a essa conclusão porque, num cruzeiro nas ilhas gregas, ele esteve em contato com um dos marinheiros mais brilhantes que já conheceu, que conversava sobre qualquer assunto, e este lhe disse:
"Nós crescemos muito pobres, e o nosso único prazer era ler à noite, depois do trabalho. Minha infância, como resultado, foi muito feliz. Eu nunca vi um filme até que deixei Tashkent [onde nasceu], e nunca consegui gostar de filmes. Como resultado, ler abriu minha imaginação."
Em comparação, na hora do jantar, ele viu que as jovens filhas de seus amigos não sabiam coisas banais e não conheciam nada da história americana, mas, ao mesmo tempo, sabiam tudo de "porcarias como Friends e Sex and the city." E concluiu que Hollywood e a televisão estão arruinando a inteligência americana.
Ora, todos sabem que eu adoro filmes, mas é inevitável concordar que o nível intelectual dos filmes está cada vez mais baixo, e ainda pior é o caso da televisão. A TV brasileira é tão imbecil quanto a americana: lá, eles têm Oprah, aqui, temos a Sílvia Popovic; lá, eles têm os sitcoms (que, vale notar, nem são todos ruins), aqui, temos as novelas, e assim por diante. Sem falar que a postura do telespectador diante da televisão é de quase inércia total: a televisão induz à preguiça. Ainda não sei por que nem como, mas induz.
Então, quero engrossar o coro: vamos desligar a televisão. Muitos me perguntam onde eu arrumo tempo para ler, escrever etc. Se pensarmos que tem gente que assiste a três, quatro horas de TV por dia, veremos que a resposta é fácil. "Turn it off."
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E o Napster, que vai fechar hoje (28/07), por ordem judicial? Confesso o seguinte: nunca entrei nessa rede de troca de músicas, e não tenho opinião formada sobre o caso.
Mas a BBC News fez umas previsões que me parecem perfeitamente plausíveis: como as pesquisas mais recentes mostram que o Napster, não é ruim para a indústria fonográfica, porque seus participantes compram muito mais discos do que os outros, deverão surgir acordos judiciais entre a indústria e o Napster, e este deverá adotar um formato mais seguro.
Por outro lado, é interessante o comentário de G. Beato, que assina St. Huck, no Suck.com, dizendo que, nos sites de leilões tipo eBay, são vendidos inúmeros CDs gravados em casa - e isso aí, em termos de pirataria e prejuízo para as gravadoras, é muito pior do que qualquer Napster.
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Senhores, o melhor site de música de toda a internet entrou no ar esta semana. Trata-se de BachDigital.org, criado para celebrar os 250 anos do maior compositor de todos os tempos. O site é uma biblioteca digital, com os manuscritos de Bach disponíveis para quem quer que queira pesquisar, inclusive com trechos das peças. Para amantes da música, é imperdível.
E um detalhe: Bach Digital é um de uma série de projetos ambiciosos de digitalização de documentos valiosos. Centenas de milhares de documentos históricos foram arquivados digitalmente nos últimos anos, em projetos de parceria com a IBM, incluindo as Bibliotecas do Vaticano, o Archivo General de Indas, em Sevilha, a Biblioteca do Congresso em Washington, o Hermitage, em São Petesburgo, e o Luterhalle, em Wittenberg.
No caso do Vaticano, o site oficial já começa a divulgar algumas coisas, mas, infelizmente, creio que o processo de divulgação será feito com a lentidão e morosidade que caracterizam o Vaticano atual.
ARTIGO DA SEMANA
Jeremy Lott, editor da WorldNet Magazine, escreveu, no WorldNetDaily.com, "Against Libertopia", uma refutação brilhante de um artigo utópico que Richard Dale Fitzgerald escrevera no LewRockwell.com.
Fitzgerald dizia, com ar triunfalista, que os amantes da liberdade haviam ganho a batalha: graças à tecnologia, estaríamos livres para sempre do Big Brother.
Claro que a afirmação é absurda, até porque, no último século, o que cresceu não foi, de forma alguma, a liberdade, e sim o poder estatal.
As tecnicalidades nem vêm ao caso. O melhor da resposta de Lott são os últimos parágrafos, dos quais eu assino embaixo:
"Para citar Dale novamente, 'A liberdade, diz Ayn Rand, é o requisito fundamental da menta humana. Se essa afirmação é verdadeira, então toda a humanidade está lutando, de alguma maneira, para aumentar a liberdade.'
"Eu gostaria que isso fosse verdade, mas não é. Há toda uma gama de impulsos - ganância, ressentimento, uma necessidade patológica de ordem, arrogância, inconseqüencia - que gira para o outro lado.
"Quando Wittaker Chambers deixou de ser um espião russo e tornou-se um informate corajoso e crítico do comunismo, ele escreveu, em sua biografia, 'Witness' ['Testemunha'], que ele estava mudando do lado vencedor da História para o lado perdedor. Ele não estava - graças a Deus - mas isso não era um dado. É isto que separa realistas de utopistas: Os caras maus poderiam ter ganho."
Eu diria mais: a briga não acabou, e os EUA estão longe de ser os bonzinhos nesta história, especialmente pelos sucessivos ataques à liberdade que sua marcha imperialista tem provocado. O próprio Lott, aliás, reconhece o fato de que não dá para cantar vitória, em um ponto anterior do artigo:
"O ponto aqui não é estragar a festa de Dale, mas declarar que não há nenhuma garantia de que os mocinhos vão eventualmente ganhar.
"Ele e todos que declararam estar no 'lado correto da história' precisam aprender que a justiça neste mundo é um bem escasso. Sua luta por um mundo mais livre, com governos menores e menos invasivos é apenas isso: uma luta constante e amarga contra a estupidez, interesses enraizados e a própria natureza humana."
Moral da história, digo eu: não há nenhuma marcha irreversível para a liberdade, nem há lado perdedor e lado ganhador. O ganhador de hoje pode muito bem ser o perdedor de amanhã. Gostaria que os neoliberais que gostam de assumir um ar triunfal e dizer que "o marxismo acabou" ou que a "História" provou que eles tinham razão prestassem atenção nisso.