ALVARO VELLOSO DE CARVALHO

No. 21 - 04/08/00

Quem quer que esteja minimamente envolvido em debates culturais no Brasil acaba forçado a admitir uma verdade triste e incômoda: o brasileiro não sabe ler - e, muito menos, sabe escrever.

Não me lembro quem dizia que tinha um orgasmo toda vez que encontrava um brasileiro capaz de completar um silogismo. Hoje, esse nosso amigo teria de dizer que tem um orgasmo sempre que encontra um brasileiro capaz de ler um texto.

Ora, ler um texto não é simplesmente juntar as sílabas e reconhecer o som das palavras - é verdade que esse é o primeiro passo, mas o problema é que a maior parte das pessoas que se acham no direito de sair dando opiniões sobre tudo e todos nunca deu nenhum passo além. Essas pessoas não costumam ser capazes nem mesmo de dar o passo seguinte, que é o de reconhecer a estrutura gramatical das frases.

Mas mesmo os que são capazes de reconhecer a estrutura gramatical, de distinguir sujeito de predicado, adjunto adverbial de objeto direto, freqüentemente não são capazes de estabelecer a intimidade com o texto que é necessária para quem deseja compreender o que lê.

Diz Bernard Lonergan, com muita propriedade, que toda leitura depende da habilidade do leitor de "mover-se de suas experiências para a reconstrução imaginativa da situação [descrita pelo texto] no passado, de seu entendimento para um relato hipotético do entendimento por trás dos signos, de seu conhecimento das possibilidades do julgamento humano e das possibilidades que surgem do polimorfismo do sujeito humano para o tipo de julgamentos e o tipo de decisões e motivos por trás dos signos [do texto]."

Quer dizer, para ser capaz de compreender o que lê, o leitor deve partilhar, mesmo que hipoteticamente, as experiências mentais descritas pelo autor do texto. Ora, todo texto é um signo indicador de experiências, percepções e intuições de seu autor, e o objetivo do signo é apontar para essas experiências, para que o leitor possa reproduzi-las e, supostamente, chegar às mesmas conclusões. O que interessa, pois, é o que está por trás do signo: Lede além da letra, dizia Jorge de Lima.

É precisamente essa a dificuldade do leitor brasileiro. Quase nunca encontramos alguém capaz de tentar refazer o percurso mental descrito pelo texto que lê, e o resultado é que o leitor não lê o que o autor escreveu, mas aquilo que ele, leitor, imagina que o autor escreveu. O leitor, mesmo nos já raros casos em que é capaz de entender a estrutura gramatical do que lê, não busca as experiências interiores do autor, mas se fia nas suas próprias e, agarrado a seus preconceitos e estereótipos, imagina ser capaz de julgar o que "leu" usando o lugar-comum mais à mão, ou ainda imaginando intenções ocultas por trás de um texto que não foi capaz de entender.

É raríssimo ver alguém ser criticado, nas discussões culturais brasileiras, por algo que realmente escreveu, e não por intenções que algum semi-analfabeto julgou encontrar no escrito. Justamente por isso, os debates culturais brasileiros costumam ser exemplos da mais perfeita perda de tempo.

Exemplos do que estou dizendo não faltam.

Quando, alguns anos atrás, lançamos "O Indivíduo", o reitor da PUC divulgou para todos os membros da universidade uma carta repudiando o jornal, por ele ser expressão do "egoísmo contemporâneo", quando tudo o que dizíamos no primeiro editorial era que o jornal não teria artigos escritos de forma impessoal e não seria dirigido a coletividades abstratas, mas a indivíduos concretos!

Algumas semanas atrás, comentando as passeatas gays em São Paulo, escrevi, literalmente: "Ora, se os gays querem encher a paciência alheia com essas passeatas e desfiles ridículos, tudo bem, azar deles e de quem estiver perto. Mas pelo menos deveriam arrumar um slogan que fizesse algum sentido", e continuei explicando detalhadamente por que o slogan "Gay pride" não fazia sentido algum. Por causa disso, um "leitor" me escreveu dizendo que eu não devia querer cercear a liberdade de expressão dos gays! Não respondi à carta na época, porque é óbvio que se o sujeito não foi capaz de entender o que escrevi na coluna, não haveria nenhum jeito de ele entender minhas explicações em correspondência pessoal.

E, para não ficar só em exemplos pessoais, vejam que primor de carta foi publicada pelo jornal O Globo recentemente:

"Em seu artigo 'O que é o fascismo?', Olavo de Carvalho diz textualmente: 'É lindo imaginar aqueles banqueiros judeus de Berlim, reunidos em comissão médica em torno do leito do regime moribundo, até que a um deles ocorre a solução genial: 'É moleza turma. A gente inventa a extrema-direita, ela nos manda para o campo de concentração, e pronto: está salvo o capitalismo.' ' Ora, não será com ironia que o autor filósofo explicará aos leitores com mais de 85 anos de idade, e que viveram na República de Weimar - por ele sutilmente chamada de regime moribundo - que os banqueiros de Berlim eram todos, ou em sua maioria, judeus, e teriam sido eles que inventaram a extrema-direita, ou a tivessem, quem sabe, culpado [sic]. Protesto, pois, contra as insinuações do autor. Mas omitindo que Mussolini antecedeu a Hitler (e este sequer é citado nominalmente), além de ter sido socialista, antes de ter se tornado fascista, o artigo comprova que História com 'H' não é coisa para se resumir em poucas linhas, extraídas de livros, ou adquiridas nas bancas acadêmicas."

A interpretação do leitor é tão maluca e sua carta é tão absurda, que eu poderia gastar o espaço inteiro da coluna explicando os detalhes da carta. O essencial, no entanto, é o seguinte: a frase citada na carta foi descontextualizada e o leitor deduziu dela exatamente o contrário do que ela queria dizer.

No contexto do artigo do Olavo, essa frase é parte de uma redução ao absurdo da tese stalinista segundo a qual o nazismo foi financiado pela burguesia capitalista alemã. Olavo lembra o fato arqui-conhecido (e que nada tem de depreciativo aos judeus, como parece implicar o "leitor" - levando-nos, aliás, de volta a um dos temas da semana passada, o anti-capitalismo irracional brasileiro) de que os principais capitalistas alemães eram judeus e deduz daí que seria absurdo que eles tivessem financiado Hitler - e emprega a ironia citada pelo "leitor".

Como diabos o sujeito foi capaz de ler ao contrário a ponto de reclamar de que o Olavo estaria insinuando que os judeus eram culpados pelo nazismo?! Não sei - eis aí o insondável mistério da burrice humana.

Noto, ainda, outro detalhe da carta: o sujeito diz que o Olavo teria "insinuado" que a República de Weimar estava moribunda. Acho que ele não tem a menor idéia do que quer dizer moribunda: só nesse caso poderia reclamar da "insinuação" - que, aliás, não é insinuação coisa nenhuma, é uma afirmação direta. Isto porque quem quer que conheça algo do período sabe perfeitamente bem que o regime de Weimar estava mesmo moribundo, graças a uma gravíssima crise econômica (mas não só a isso).

Esses três exemplos são casos típicos do analfabetismo funcional dos leitores brasileiros, de sua incapacidade de entender o que o que lêem. Qual a causa disso? Não sei, e deixo o problema aos pesquisadores interessados. Mas tenho alguns palpites.

É preciso lembrar, primeiro, que a maior parte da nossa intelectualidade se educou lendo Marx e Gramsci, e que para esses autores, especilamente para este último, não existe vida intelectual independente e, portanto, quem escreve não reflete as próprias opiniões, mas as opiniões da classe a que pertence - ora, daí deduz-se que quem lê não deve tentar entender o que diz o autor, mas tentar desvendar a que interesses de classe ele está servindo.

Mas não é só Marx e Gramsci. Outra referência cultural importante para os intelectuais brasileiros é o desconstrucionismo, segundo o qual o texto só se refere a outros textos ou a si mesmo, nunca a coisas concretas - daí, deduz-se que nenhum texto tem um sentido fixo, e que cabe ao leitor inventar um significado para ele. A mesma idéia é repetida pela "teoria da recepção": a intenção do autor não tem importância; quem vai determinar o sentido do texto é o leitor.

Ora, não é possível que quem seja educado a ler as coisas assim, adivinhando intenções e inventando significados, seja capaz de entender o que lê. A difusão dessas teorias tem óbvios efeitos deletérios para as classes letradas.

Não é possível ler algo sem admitir, antes de ler, que suas opiniões poderão ser mudadas pelo que você vai ler. Procurar entender o que diz o autor e procurar refazer seu raciocínio são condições indispensáveis para discutir o texto honestamente. Sem isso, não é possível nenhum debate cultural sério, e a vida intelectual se transforma numa imensa palhaçada.

 

POLITICAGENS

Um dos argumentos mais usados a favor do aborto - e um dos mais imbecis - é o de que se o aborto é proibido ocorrem mais abortos do que se ele for permitido.

Esse argumento, que certamente será ouvido com freqüência nas eleições municipais que se aproximam, não resiste nem à análise lógica, nem ao confronto com os fatos.

Logicamente, se uma coisa é proibida e deixa de sê-lo, a tendência não é que a sua prática diminua: ou ela permanecerá no mesmo patamar, ou aumentará. E os motivos são simples: (1) o número de cidadãos que prefere obedecer à lei é sempre maior que o número dos que preferem desobedecer, ou não haveria mais sociedade; (2) legalizar é, também, facilitar a prática do aborto e torná-lo mais acessível, e isso tem como conseqüência óbvia o aumento da prática do aborto.

Mas, como nem sempre os fatos se comportam de maneira lógica, os argumentos acima não bastariam. Basta, no entanto, comparar o número de abortos em países onde ele é ilegal - como o Brasil - com os absurdos números americanos para ver que, quanto mais liberal a legislação, maior o número de abortos praticados.

Outro argumento maluco da trupe pró-abortista, e um que a Benedita da Silva e a Marta Suplicy gostam de repetir, é o de que, sendo proibido, as condições pelas quais as pessoas passam para fazer abortos são muito ruins, especialmente as pessoas pobres. Sinto muito, mas o aborto é proibido por ferir o direito à vida, e quem o faz está cometendo um crime, e não há motivo nenhum para que o Estado venha a melhorar as condições nas quais um crime é cometido.

É absolutamente ridículo que venham com sentimentalismo sobre as pobres mamãezinhas que enfrentam horríveis clínicas de aborto para o nobre fim de... matar seus filhos!

Noto que, falando do aborto, fiz referência às eleições municipais e que, realmente, esse é um dos assuntos mais debatidos nessas eleições. Mas o aborto não tem nada a ver com elas. Nenhum prefeito e nenhum vereador terá poder para fazer qualquer coisa a respeito do aborto, e suas posições a respeito desse assunto não têm importância alguma.

Mas chegamos a um tal nível de ignorância política que o tema é discutido apaixonadamente nas eleições municipais.

Falando nelas, alguém ouviu alguma proposta concreta de algum candidato a prefeito, ao menos aqui no Rio? Até agora, só vi a Bené dizer que vai ajudar os negros e o Brizola dizer que vai fazer oposição ao governo federal (novamente, dois temas sem a menor importância numa eleição para prefeito), enquanto o César Maia e o Conde ficam brigando para ver quem é mais de esquerda e, assim, terá a honra dúbia de ter o apoio da Bené e do Brizola no segundo turno.

Em São Paulo não sei como as coisas estão, mas a minha impressão é que nenhum dos candidatos tem o menor interesse em ser prefeito de São Paulo, e sim em usar o cargo como trampolim para postos maiores, como o Senado e o Governo do Estado. De qualquer maneira, não creio que os paulistas sejam burros o suficiente para permitir que o segundo turno acabe sendo disputado por Martha Suplicy e Luíza Erundina. Alguma terceira opção vai ter de aparecer - ao menos, espero que apareça.

Ainda volto, nos meses a seguir, a este assunto, trazendo mais informações, já que, em breve, só estaremos ouvindo falar em eleições mesmo. Pelo menos é mais divertido do que ver a execração pública de corruptos e pseudo-corruptos.

Enquanto isso, os republicanos acabam de fazer sua convenção. Assisti a dois ou três minutos, pela CNN, e é impressionante: tudo foi feito para criar um bom programa de televisão, e o resultado é um péssimo programa de televisão.

Não sei quem foi que disse, mas o disse bem, que, antes, quando as convenções tinham divergências e não eram feitas pensando na televisão, acabavam sendo bons programas de televisão!

Mas isso tudo são futilidades. O que interessa é que essa convenção traz más notícias, porque mostrou um partido republicano fazendo muita força para se mover em direção ao centro e ficar muito parecido com o partido democrata. Para os americanos, o grande problema é que não haverá corte de impostos nem redução da intrusão estatal na vida social e econômica; para o resto do mundo, e é isto que nos diz respeito, o problema é que, num eventual Governo Bush, há grande possibilidade de que haja mais guerras, porque ele está longe de adotar o isolacionismo das correntes mais à direita do Partido, e parece acreditar no papel de xerife interventor que os EUA assumiram nos últimos anos, e que chegou ao ápice com os bombardeios de Clinton ao Iraque e ao Kosovo. Em suma: Al Gore e sua maluquice New Age talvez tudo seria a primeira opção para eles, mas os artífices da Nova Ordem Mundial não lamentarão a cada vez mais provável eleição de George W. Bush.

Para quem quiser ler detalhes sobre a convenção, um pequeno guia:

Lew Rockwell escreveu uma excelente análise da convenção, enfatizando a busca desesperada dos republicanos de adotar um discurso semelhante aos democratas, e diz, com razão, que é pouco provável que eles percam a eleição, mas, se perdessem, seria merecido, por mais horrível que seja imaginar Al Gore presidente. Rockwell também lembrou em outro artigo que, no que diz respeito ao crescimento do Estado, os dois partidos são bem parecidos. E foi no site dele que William Anderson publicou um artigo explicando por que não assistiu à convenção, reclamando de que o principal problema (justamente o crescimento excessivo do Estado) não seria discutido nela.

Imperdíveis são os três engraçadíssimos artigos do sensacional Mark Steyn, que estava na convenção, reclamando da falta de graça e do alijamento dos conservadores no envento: "Where are the Pats of yesteryear?", sobre a ausência de Pat Buchanan e Pat Robertson, "Republicans lap up self-inflicted abuse", revelando que a única crítica dura que se ouviu na convenção foi aos próprios republicanos, e "Militia nuts, abortion zealots, sodomite cadres", descrevendo o discurso do próprio Bush.

Para ouvir o outro lado, isto é, o lado favorável aos republicanos, é só acessar a cobertura feita pelo Town Hall e seus conservadores "moderados".

Uma cobertura um pouco mais convencional pode ser encontrada no site Capitol Hill Blue, que tem as reportagens, nem sempre confiáveis, da Associated Press.

Por fim, recomendo o artigo de Declan McCullagh na Wired, dizendo que a plataforma dos republicanos é preocupante mas pelo menos não vai taxar a internet, e o de Philip Weiss no New York Observer, que nota que os republicanos estão evitando o termo "conservador" e tentando mostrar sua "compaixão".

 

DESINFORMATZIA

Eu conheço poucas idéias tão monstruosas quanto a do programa Survivor, que deu origem ao No Limite, produzido pela Rede Globo (que gastou uma fortuna com isso): dois grupos de pessoas são isolados numa ilha com ração limitada de comida por dia e tendo de realizar determinadas tarefas; o grupo que perde elimina um de seus componentes, até que só sobre uma pessoa na ilha.

Acho escandaloso que ninguém na esquerda brasileira, que tanto gosta de reclamar do "egoísmo capitalista", tenha reclamado do impiedoso darwinismo social incentivado pelo programa.

Pois bem: no programa americano, a maior parte das escolhas de quem ia deixar a ilha foi feita com base em critérios politicamente corretos, conforme noticiou Debby Schlussel no Jewish World Review: saiu o sujeito que levou a Bíblia, o outro que era contra gays, o outro que era "machista" porque era forte demais.

O Brasil ainda não foi contaminado a esse ponto pelo PC, e o resultado é que, para escândalo geral, esse não foi o critério usado para a expulsão dos sujeitos por aqui. Pior ainda: um dos primeiros a ser expulsos foi um líder comunitário na Rocinha, um negro, e um dos rapazes que ficaram na ilha cometeu o imperdoável pecado de chamá-lo de "crioulo"!

Resultado: o mundo desabou sobre o rapaz. Uma associação negra do Rio de Janeiro já anunciou que vai processá-lo por crime de racismo, o sujeito que foi expulso se disse ofendidíssimo e até o Hélio de La Peña foi para os jornais dizer que ser racista é feio.

Eis aí mais um caso típico das sensibilidades à flor da pele do movimento anti-racismo. Eu não vi o programa, mas imagino que o rapaz disse isso no meio de alguma situação tensa, uma vez que toda a situação na ilha já é tensa por si mesma. Sob tensão, um sujeito irritado diz que um negro é "crioulo". Foi um ato bonito? De forma alguma. Devemos aplaudi-lo? Claro que não. Mas isso é uma ofensa grave o suficiente para que se mobilize todo o aparato repressivo do Estado para cima do sujeito? Não dá para perceber aí uma falta de proporcionalidade entre o delito e a pena?

O simples fato de que o sujeito tenha chamado o outro de "crioulo" não quer dizer que ele seja um racista, muito menos que ele não tenha "consciência social", ou que ele seja um perigo para a raça negra. Quer dizer apenas que ele estava irritado e num momento infeliz. Qualquer negro que precise de proteção do Estado para não ser chamado de "crioulo", qualquer negro que se sinta realmente ofendido com isso, mostra uma falta de auto-estima fenomenal. O próprio movimento negro deveria considerar uma indignidade perseguir alguém por coisa tão pequena e mesquinha.

Por outro lado, se querem saber o que é racismo mesmo, dêem uma olhada na reportagem assinada por Peter Noel no jornal esquerdista Village Voice. Noel usa três exemplos para demonstrar as relações hostis entre as raças nos EUA.

Os exemplos não funcionam bem, especialmente o terceiro (que trata da governadora de um Estado americano que, supostamente, teria cometido um ato racista ao revistar um negro durante uma blitz policial), mas a discussão em torno dos três descrita por Noel mostra a atmosfera de suspeita mútua, de acusações infundadas de parte a parte, que predomina nos EUA entre brancos, negros, latinos, judeus, árabes etc.

É interessante notar que, com os movimentos por "direitos", as hostilidades não diminuíram, mas se acirraram ainda mais, e pensar se é isso mesmo que queremos para as relações raciais no Brasil.

Uma nota: o Elio Gaspari, na sua página, também notou o paralelo entre os dois casos e citou a mesma reportagem do Village Voice, mas foi incapaz de extrair da comparação a conclusão óbvia de que, sob o pretexto de combater o racismo, estamos criando artificialmente hostilidades à americana no Brasil. Vale notar, inclusive, que o sujeito que foi eliminado do programa pôs a culpa por sua eliminação num "complô racista" armado pelos outros participantes.

Já estou acostumado a estatísticas malucas e sensacionalistas sobre o tabaco, mas essa bateu recordes: pesquisadores britânicos anunciaram, com toda a pompa e circunstância, que o "fumo matará 1 bilhão de pessoas no século XXI"!

É isso aí: ao longo de todo o século XXI. Esse é o tipo de estatística absurda feita para enganar trouxa e dar manchete de jornal (que, afinal, são feitos por trouxas e para trouxas).

É absolutamente impossível que um estudo, em 2000, preveja quantas pessoas morrerão por causa de uma determinada substância, ao longo de todo um século. E não estou nem discutindo o conceito altamente duvidoso de "mortes causadas por fumo", conceito que não tem nenhuma credibilidade científica desde que a OMS permitiu que os médicos escrevessem no obituário de qualquer fumante que a causa mortis era o cigarro, sem levar em conta qualquer outro fator.

Os problemas com o estudo são mais simples do que esse. Primeiro, ninguém sabe quais serão as taxas de crescimento populacional em todo o século XXI. Qualquer previsão é apenas um chute, sem nenhuma garantia de acerto. Segundo, ninguém sabe quais serão os possíveis avanços da medicina no próximo século, e tudo indica que serão muitos. Terceiro, ninguém sabe se os cigarros continuarão os mesmos.

O estudo, portanto, baseia-se numa série de hipóteses arbitrárias e duvidosas, e faz suposições em cima de suposições, simplesmente para chegar a uma cifra que vai assustar as pessoas e ajudar os oportunistas a tirar mais uma graninha das indústrias de tabaco.

Falando nisso, brilhante a sátira do The Onion à última (e incrível) extorsão inflingida por um tribunal americano às empresas de tabaco. Com o estilo de reportagens absurdas escritas no mais sério estilo jornalístico que caracteriza o site, a reportagem dizia o seguinte: "Hershey's condenada a pagar U$ 135 bilhões a americanos obesos."

" 'Que este veredicto mande uma mensagem clara às Grandes Empresas de Chocolate', disse o Procurador Geral da Pensilvânia Andrew Garsten, dirigindo-se aos repórteres depois do histórico julgamento. 'Se você conscientemente vende produtos que causam obesidade, você vai pagar.'

" 'Esta é uma grande vitória para mim e para todas as vítimas do chocolate', disse Earl Hoffer, residente de Beaumont, TX, segurando uma foto de sua esposa Emily, que em 1998 sucumbiu à obesidade após quase 40 anos de chocolismo. 'Esta decisão não trará Emily de volta, mas eu tenho algum consolo em saber que sua morte trágica e desnecessária não ficará impune.' (...)

" 'Consumidores adultos conhecem os riscos envolvidos no uso de nossos produtos', disse o Marvin Black, advogado da Hershey's. 'Eles sabem que se não forem usados de maneira responsável, pode haver algumas conseqüências negativas. Mas isso é assim para qualquer coisa na vida. Ademais, a decisão de usar nossos produtos sempre foi deixada a cargo do indivíduo. A Hershey Corporation nunca forçou ninguém a usar seus produtos, nem adicionou substâncias em seus doces para intencionalmente causar dependência. Se os consumidores ficaram viciados, é apenas por causa da extraordinariamente deliciosa excelência dos ditos doces.'

"Qualquer que seja o resultado do apelo da Hershey's, a indústria do chocolate foi mudada irrevogavelmente com o veredicto de segunda-feira.

" 'Por mais de um século Hershey's sobreviveu da gordura do país', disse Pamela Schiff, requerente de Erie, PA. 'Agora, é hora de nos compensar por isso.' "

Piada? Por enquanto...

 

NA REDE

Chamo a atenção para dos artigos do Suck.com: Greg Knauss argumenta que é hora de reconhecer que o Mozilla morreu, ou deveria estar, e mostra todos os absurdos, os excessos e as frescuras que fizeram com que o projeto do primeiro browser com fonte aberto fosse um fracasso que se arrasta há mais de dois anos e até hoje não viu a luz do dia; David Cassel, com o pseudônimo Destiny, assina um artigo engraçadíssimo sobre como a onda de programas imbecis sobre a vida das pessoas (tipo Survivor e Big Brother) terá a concorrência imbatível da internet, e conta histórias incríveis de histórias falsas e sites malucos que povoam a rede.

Eu falava de como o leitor brasileiro não lê o que está escrito, e um caso que poderia ter citado é o da crítica de Moacir Werneck de Castro na Bundas ao mesmo artigo do Olavo de Carvalho que desagradou ao leitor do "Globo". Mas, no caso de Werneck, acho que é mais malícia do que burrice. Um jornalista com tantos anos de estrada não pode ler tão mal quanto Moacir leria se realmente achasse que sua descrição do artigo do Olavo é fiel.

De qualquer maneira, a primeira parte da resposta do Olavo ao Moacir é um dos grandes momentos da sátira no nosso século, no nível de Léon Bloy, Chesterton, Shaw, Mencken e outros mestres. Aliás, quem a leu provavelmente entendeu melhor por que uma das seções desta coluna é chamada "desinformatzia".

Eis um trecho impagável (entre outros do mesmo texto):

"Descobri-o, senhores, não por mérito meu, e sim por iniciativa dele próprio. Não fui procurá-lo. Foi ele que veio a mim. Quando leu um artigo meu em O Globo de 8 de julho, uma chispa de entusiasmo bélico incendiou todas as teias de aranha do seu cérebro, e a múmia, senhores, se ergueu da tumba para o sagrado combate. Abriu o baú, paramentou-se lenta e solenemente de suas velhas armas – o escudo da ignorância, o elmo da burrice, a malha de ferro da mentira, o bacamarte da calúnia – e recitando ritualmente verbetes do Dicionário de Novilíngua que é o livro revelado da sua confraria, veio à liça.

"A arena literária que ele escolheu para o nosso enfrentamento não poderia ser mais adequada ao feitio do seu espírito: Bundas, a única revista, no mundo, que tem por nome a designação do órgão pensante de seus colaboradores.

(...)

"Sim, senhores, falo-vos do último dos desinformatas: Moacir Werneck de Castro.

"Ora, direis, é apenas um velho safado. E eu vos direi, no entanto: É mesmo."

Do ótimo artigo de Joseph Stromberg sobre Étienne de La Boétie, achei válido destacar dois trechos, um sobre os tipos de tiranos, outro sobre uma das armas dos tiranos:

"La Boétie nota que os tiranos podem ser de três tipos - aqueles escolhidos por eleição, conquistadores militares e regentes hereditários. Eu sublinhei a primeira categoria por causa de sua possível relevância contemporânea. Ele não vê nenhuma razão para preferir um tipo sobre outro: 'o método de governo é praticamente o mesmo; aqueles que são eleitos agem como se estivessem cuidando de seu gado; aqueles que são conquistadores fazem do povo sua presa; aqueles que são herdeiros os tratam como se fossem seus escravos naturais' (Étienne de la Boétie, The Politics of Obedience: The Discourse of Voluntary Servitude, New York: Free Life Editions, 1975, com introdução de Murray N. Rothbard, p. 59)."

"Quando a liberdade perece, a virtude também desaparece. Aqui La Boétie ecoa a teoria republicana, mas o argumento parece inteligente o suficiente, com ou sem Polybius, Maquiavel e o resto. Tiranos podem também conseguir pela corrupção o que hesitariam em conseguir pela força. La Boétie escreve sobre como Ciro II, o grande, pacificou a cidade rebelde lidiana cidade de Sardis: 'Ele construiu lá bordéis, tavernas e jogos públicos, e editou a proclamação de que os habitantes deveriam se aproveitar deles. Ele descobriu que esse tipo de guarnição foi tão eficiente que ele nunca mais teve de levantar a espada contra os lidianos.'(p. 69)

"Haverá um breve intervalo enquanto os libertários esquerdistas tentam assimilar a conexão entre corrupção cultural, política estatal e tirania..."

 

ARTIGO DA SEMANA

Pat Buchanan disse uma vez que Joseph Sobran é um "tesouro nacional americano". E não é para menos: Sobran é, talvez, o mais brilhante dos colunistas americanos. Irônico, muito culto e sempre anti-estatista, o católico Sobran quase nunca escreve um artigo menos que excelente.

"Teach your children well", "Ensinem bem a suas crianças", é um artigo clássico dele, um libelo contra o Estado moderno publicado pelo Instituto Von Mises e acho que vale o destaque, mesmo tendo sido escrito um ano atrás.

"Porque eu escrevo sobre política, as pessoas estão sempre me perguntando qual a melhor maneira de ensinar a crianças como nosso sistema de governo funciona. Eu lhes digo imediatamente que eles podem dar a seus próprios filhos um curso cívico básico em suas casas mesmo.

"Na minha experiência como pai, eu descobri vários artifícios que podem ilustrar para a mente de uma criança os princípios com os quais o Estado moderno lida com seus cidadãos. Vocês podem achá-los úteis também.

(...)

"Quando seu filho estiver um pouco mais velho, você pode ensiná-lo sobre o nosso sistema de impostos de uma maneira fácil de entender. Ofereça-lhe, digamos, $10 para cortar a grama. Depois que ele a cortar e cobrar o pagamento, retenha $5 e explique que isso é imposto de renda. Dê $1 a seu irmão mais novo e lhe diga que isso é 'justo'. Além disso, explique que você precisa de $4 para você mesmo, para cobrir os custos administrativos de dividir o dinheiro. Quando ele chorar, diga-lhe que ele está sendo 'egoísta' e 'ganancioso'. Mais tarde na vida ele lhe agradecerá.

"Faça tantas regras quanto possível. Deixe obscuras as razões para elas. Ponha-as em prática de forma arbitrária. Acuse seu filho de quebrar regras das quais você nunca lhe contou. Mantenha-o preocupado de que esteja violando mandamentos que você ainda não promulgou. Instile nele o sentimento de que regras são absolutamente irracionais. Isso vai prepará-lo para viver sob um governo democrático.

"Quando seu filho amadurecer o suficiente para entender como o sistema judicial funciona, estabeleça uma hora de dormir para ele e então mande-o para a cama uma hora mais cedo. Quando ele, choramingando, acusar você de violar as regras, explique que você fez as regras e você pode interpretá-las de qualquer maneira que seja apropriada para você, de acordo com condições cambiantes. Isso vai prapará-lo para o conceito da Suprema Corte de que a Constituição americana é um 'documento vivo'. [E, no Brasil, o conceito do "direito alternativo"]

"Prometa com freqüência levá-lo ao cinema ou ao zoológico e então, na hora marcada, recline-se numa cadeira de balanço com um jornal e diga a ele que você mudou seus planos. Quando ele gritar 'Mas você prometeu!", explique a ele que foi uma promessa de campanha.

"Volta e meia, sem aviso, dê um tapa no seu filho. Então, explique a ele que isso é defesa. Diga-lhe que você deve estar alerta o tempo todo, para parar qualquer inimigo potencial antes que ele se torne grande o suficiente para machucar você. Isso, também, seu filho vai apreciar, não naquele momento exato, mas, talvez, mais tarde na vida.

"Às vezes seu filho vai, naturalmente, expressar descontentamento com seus métodos. Ele talvez até dê voz a um petulante desejo de que ele vivesse com outra família. Para prevenir e minimizar essa reação, diga-lhe o quão sortudo ele é de estar com você, o pai mais amoroso e indulgente do mundo, e conte histórias pavorosas sobre a crueldade dos outros pais. Isto fará que ele seja leal a você e, mais tarde, receptivo a declarações de que a América do estado de bem estar social pós-moderno ainda é o melhor e mais livre país na Terra.

"Isso me leva à técnica mais importante de todas para educar crianças: mentir. Minta para seu filho constantemente. Ensine a ele que as palavras não significam nada - ou então que os significados das palavras estão constantemente 'evoluindo', e podem ser amanhã o oposto do que são hoje.

"Alguns leitores podem objetar que esta é uma péssima maneira de criar uma criança. Alguns podem até chamar isto de abuso de menores. Mas este é o ponto central: abuso de menores é a melhor preparação para a vida adulta sob a nossa forma de GOVERNO."