No. 23 - 18/08/00
O excelente jornalista britânico Auberon Waugh mantém há dez anos, nas páginas do Literary Review, um concurso de poesia: ganham uma soma em dinheiro os autores dos melhores poemas que tenham métrica, rimem e digam alguma coisa a respeito de um assunto determinado a cada mês.
O concurso é uma tentativa de encorajar a produção de poesia de qualidade, depois que a cena literária britânica foi invadida por poemas sem sentido e sem ritmo. A mesma coisa deveria ser feita aqui no Brasil, porque o nível da poesia produzida por nossos contemporâneos é o mais baixo possível.
Os poetas atualmente celebrados por aqui são tão bisonhos que o Pedro Sette Câmara escreveu satíricos "Poemas psicografados", fazendo imitações perfeitas de Manoel de Barros, Bianca Ramoneda e similares. E, francamente, o que são estes poetas? De onde eles tiraram essa capacidade de produzir porcarias que são incessantemente elogiadas pela mídia em coro?
Como o Pedro provou, qualquer um pode fazer poemas iguais aos deles, com sua mistura de nonsense, decuido formal e umbigocentrismo.
Nas mãos de poetas como esses, a nossa língua foi perdendo seu poder expressivo, foi se deprimindo, foi empobrecendo. Afinal, se os poetas, que são responsáveis por levar a língua a suas altitudes expressivas mais altas, tornaram-se incapazes de usá-la para dizer o que quer que seja, a decadência lingüística do restante da cultura é quase inevitável.
O mesmo Auberon Waugh, em artigo recente no Daily Telegraph, mostra como, na Inglaterra, ninguém mais quer ensinar nem aprender gramática, e só o que interessa é a "expressão criativa". Temos o mesmíssimo problema no Brasil, conforme diagnosticado com brilho neste site por Carlos Nougué, e o resultado é que o brasileiro médio não tem mais a mínima noção de como usar tempos verbais, como reger verbos, como coordenar frases, como empregar as proposições e as conjunções. E esse é mais um motivo para a perda de expressividade da nossa língua.
Diante de um cenário tão desolador, em que a língua está sendo atacada pelos dois lados mais importantes - o dos gramáticos e o dos poetas - chega a ser digna de risos a iniciativa do deputado Aldo Rebelo, de querer preservar o idioma proibindo o emprego público de expressões em inglês. Pelo projeto do deputado, nenhum site poderá referir-se a si mesmo como site; nenhuma empresa poderá vender hardwares nem softwares; e os restaurantes que promovem uma happy hour serão obrigados pela polícia a promover horas alegres.
É óbvio que isso aí não faz diferença alguma, diante da perda do poder expressivo do idioma e da perda das estruturas sintáticas. Claro que existe um abuso, em certos lugares, do emprego de termos ingleses, mas isso é uma conseqüência da decadência da língua, não sua causa - e o deputado, certamente imbuído das melhores intenções, está trocando as bolas.
Mas, no caso da informática, nem se pode chamar o que existe de abuso de anglicismos - o que há é apenas uma situação de falta de termos adequados. A regra é a seguinte: quem inventa a tecnologia, inventa junto a linguagem. Os outros seguem a linguagem, e vão incorporando os termos aos poucos, de nada adiantando tentativas ridículas de nacionalizar os termos à força - criando termos horríveis como "sítio" e "disco duro".
Não há nenhuma maneira de o Governo prevenir a decadência do idioma, e o projeto presunçoso e autoritário do deputado não vai fazer diferença alguma.
Quem tem de reerguer a língua e restaurar sua capacidade expressiva são aqueles responsáveis por preservá-la e desenvolver suas potencialidades: os literatos, poetas, escritores - esses mesmos que têm feito de tudo para acabar com ela.
SÉTIMA ARTE
É verão nos Estados Unidos e, portanto, é a época dos blockbusters, os filmes arrasa-quarteirões, feitos para render fortunas em bilheterias. É também a época em que quem não quer se irritar sábado à noite vai arrumar outro programa que não ir ao cinema.
É verdade que o começo da safra deste ano não foi ruim - pelo contrário, tivemos filmes muito superiores à média dos últimos anos, a saber Gladiator e The Patriot.
Mas, a esta altura, todo mundo já viu esses filmes e as opções disponíveis em cartaz são de chorar. Cito como exemplos os dos que vi mais recentemente.
Up at the villa, traduzir como Uma paixão em Florença, trata exatamente do que diz o título em português: uma paixão em Florença.
Adaptação de um conto de Sommerset Maughan, o filme de Philip Haas (diretor do estranhíssimo The Music of Chance) traz o par romântico mais absurdo que se pode imaginar: Kristin Scott-Thomas e Sean Penn!
Ela é a viúva pobretona de um aristocrata, que acaba de ser pedida em casamento por um ricaço inglês com enormes conexões nas colônias inglesas na África; ele, um americano mulherengo que vive um casamento de fachada, freqüenta a alta sociedade de Florença e se apaixona por ela.
Todo mundo já sabe como a história vai terminar, mas não há nada de necessariamente ruim nisso: é comum vermos críticos de cinema reclamar da previsibilidade dos filmes, mas uma história previsível nem sempre é uma história ruim; afinal, as possibilidades narrativas são limitadas mesmo. Tudo depende de como a narrativa é conduzida, isto é, qual é o enchimento do esquema narrativo geral.
O enchimento de Up at the Villa é quase nenhum. Kristin, impressionada com uma história pessoal que uma amiga lhe conta, resolve fazer a mesma coisa que a amiga, e transar com um sujeito pobre durante uma noite. Mas, ao contrário da história da amiga, o sujeito volta no dia seguinte e se mata na frente dela, ao descobrir que a relação não iria para a frente. Ela, desesperada, chama Penn para ajudá-la a encobrir o acontecido, que poderia ter conseqüências trágicas para a carreira de seu pretendente e arruinar sua chance de um casamento milionário.
A história vai se desenvolvendo e o dilema final é se ela deve casar-se com o tal milionário que ela não ama, mas que lhe garantirá uma vida estável, ou ficar com o imprevisível Sean Penn. A decisão que ela vai tomar nós já sabemos desde o começo do filme, mas o curioso é o motivo.
Ora, o dilema só faz algum sentido porque o inglês é rico e tem posição social elevada. Só que, ao saber do ocorrido entre sua pretendida esposa e o sujeito pobre, ele percebe que, se eles se casarem, seu prestígio será abalado e ele não conquistará o cargo a que almeja na África (o filme se passa durante a Segunda Guerra). Só que ele diz a ela que pretende abdicar desse prestígio, para ficar com ela. E aí - e só aí - ela resolve ficar com o Sean Penn! Quer dizer, o dilema não é resolvido - é dissolvido. Ela não tem de optar entre o prestígio e o amor, ela não precisa eleger prioridades. A escolha passa a ser apenas entre o amor de alguém que ela não ama e o amor de alguém que ela ama - e, aí, a solução é óbvia.
Em suma: o filme não tem a menor graça, não tem o menor interesse. Tem só umas cenas bonitas.
E o que dizer de Gone in 60 Seconds, a produção deste ano de Jerry Bruckheimer, com direção de Dominic Sena?
"Putz, foi assistir ao filme só por causa da mulher e ela aparece só uns 60 segundos...", foi o que me disse um amigo. Expliquei a ele que o problema foi que a Angelina Jolie ganhou o Oscar e passou a se achar no direito de fazer exigências. A mulher do roteiro original era só uma desmiolada gostosa que ia dar mais apelo ao filme; ela exigiu que a personagem tivesse dreadlocks no cabelo, mais isso, mais aquilo, e o resultado é que Bruckheimer e Sena aceitaram as exigências, mas cuidaram de cortar a maior parte de suas cenas.
OK, mas mesmo sem Angelina Jolie, como é que é o filme?
É o seguinte: tem um carpinteiro inglês mau como um pica-pau, que é contrabandista de carros e está disposto a matar o irmão de Nicholas Cage (não sei o nome do ator, mas é o sujeito que fazia o irmão debilóide da Lisa Kudrow em Friends), porque ele falhou num trabalho que prometera fazer. Então, Cage, o maior ladrão de carros do mundo, mas aposentado da nobre ocupação há vários anos, tem de entrar em ação e executar o tal trabalho, para evitar o assassinato do irmão: o trabalho é o de roubar 50 carros raros em três dias.
Há um diálogo primoroso, quando Cage se encontra com a própria mãe para contar o que está acontecendo.
A mãe está preocupada com o filho caçula: "Quão fundo ele está?"
- Fundo.
- Você é capaz de livrá-lo?
- Vou ter de fazer coisas que prometi não fazer mais.
- Faça.
E o leitor que ainda não viu o filme deve estar se perguntando: "quão ruim é este filme?"
Posso responder: ruim. Bem ruim.
E olha que Dominic Sena é um diretor com alguns méritos, porque o seu Ronin era um policial legalzinho, bem movimentado, com personagens interessantes, e os filmes de Bruckheimer costumam, ao menos, ser divertidos, vide The Rock e Con Air. Este ano mesmo, já tivemos um filme com muita movimentação descerebrada, mas bem divertido, o segundo episódio de Mission Impossible.
Mas não é o caso de Gone in sixty seconds. O filme não é só estúpido: é chato também. Só no final há algumas cenas velozes, mas elas são mal filmadas e não empolgam ninguém. Os personagens são mal desenvolvidos e a história é fraca.
Tão fraca que a tentativa de fazer suspense é com a presença de um policial que tem uma rixa antiga com Cage e que pretende prendê-lo desta vez. O policial acompanha todos os passos dos roubos, e diz que pretende pegar Cage no 50o. carro. (Atenção, que vou contar agora o final do filme; quem se importar com isso, pare de ler aqui). Acontece que, depois de longas perseguições (que, como já disse, não empolgam), Cage não consegue chegar com o carro no local combinado dentro do prazo. Resultado: tem contra ele, agora, tanto o inglês carpinteiro malvado quanto o policial.
Neste ponto, virei-me para a jovem que me acompanhava na platéia do filme, e disse:
- Aposto que o roteirista vai se sair dessa situação fazendo com que Cage salve a vida do policial matando o carpinteiro, e todos serão felizes para sempre.
Dito e feito: é nesse golpe de originalidade que o filme termina. Tem um prólogo ainda, mas não importa. Saí com a certeza de que tinha razão Mark Steyn, na resenha do filme que escreveu para a Spectator inglesa: "O título - Gone in 60 seconds - refere-se ao seu cérebro. Se você ainda está gostando desse filme depois de um minuto, cheque seus sinais vitais."
POLITICAGENS
E começa o horário político...
O pior é que eu vi o programa de quarta-feira (16/08). "Vi" é bem o termo, porque eu não ouvi, só vi.
O que me chamou atenção foi o grande número de partidos de extrema-esquerda, do tipo que prega luta armada, derrubada do governo, trotskismo, maoísmo etc. Vejam só: há o PSTU, o PSB, o PT do B e o PCO (Partido da Causa Operária!), todos com candidatos a prefeito.
Ninguém leva a sério esses partidos, claro, embora o PSTU tenha grande atuação nas universidades cariocas, atuando como censor de quase tudo o que se publica e se fala nos campi. Os candidatos dessas siglas nos parecem figuras folclóricas, dignas de riso. Há algumas semanas, a revista Época fez uma boa reportagem sobre esses remanescentes do comunismo, e o tom da reportagem era meio de chacota, um tom de quem está expondo peças de museu.
Levamos a extrema-esquerda no riso, mas jamais faríamos o mesmo com uma possível extrema-direita - mas não existe extrema-direita no Brasil. O mais próximo dela que existe é o partido do Enéas, o Prona, que até tem um candidato a prefeito no Rio, o Marcos Coimbra.
Mas vocês já leram os jornais publicados pelo Prona, ou já visitaram uma livraria ligada a esse partido? Se já o fizeram, terão notado que o autor mais citado, praticamente o guru do Prona, é o americano Lyndon LaRouche. Acontece que LaRouche é um membro do partido esquerdista do mainstream americano, o Partido Democrata. Inclusive, nas primárias deste ano, LaRouche concorreu com Al Gore, e chegou a ter mais de 20% dos votos no Arkansas. Mas ele é considerado à esquerda de Gore (além de meio biruta). Quer dizer: que raios de extrema-direita nacionalista é essa que tem como guru um esquerdista americano?!
Pois bem, não temos direita, mas temos um bando de gente na extrema-esquerda. E não vemos nada de mais nisso. Só que nunca é demais lembrar que o regime defendido por esses candidatos folclóricos é o regime mais tirânico e mais assassino da História da humanidade.
Todos ficamos apavorados quando aparece alguém mencionando Hitler. Por que não temos reações semelhantes quando alguém se diz seguidor de Lênin, Stálin ou Mao Tsé-Tung, todos eles tão facínoras quanto Hitler?
Jamais veríamos um partido neo-nazista ser tratado como peça de folclore no Brasil. Por que parece natural à imprensa tratar assim os partidos comunistas?
Não estou propondo uma nova histeria anti-comunista. Estou apenas propondo que as coisas sejam tratadas nas suas devidas proporções, e que a retórica dos esquerdistas "reformados" não nos obscureça para os horrores do comunismo, assim como ninguém esqueceu os horrores do nazismo.
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Reclamei há algumas semanas de que os candidatos à prefeitura não haviam apresentado nenhuma proposta concreta, mas elas, agora, começam a surgir. O Globo perguntou aos quatro principais candidatos quais são seus principais planos para o desemprego e a educação.
Conde respondeu que pretende continuar o Favela-Bairro (projeto de reurbanização das favelas iniciado pelo César Maia e continuado pelo Conde), e impôr horários integrais nas escolas municipais - esta uma proposta repulsiva.
César Maia bateu na mesmíssima tecla: a ampliação do Favela-Bairro. E a Bené também! A Bené também prometeu continuar o Favela-Bairro e outros projetos da prefeitura atual. Ora, depois ela fica se perguntando por que é que ninguém pretende votar nela: que raios de oposição é essa que promete fazer a mesma coisa que a situação? Para que votar no PT, se o PT está promentendo fazer o mesmo que o PFL? Desista, Bené: a prefeitura do Rio já é uma eleição perdida.
Já o Brizola não repetiu o mesmo discurso dos outros, mas repetiu o seu próprio discurso de pelo menos vinte anos: para a educação, pretende criar mais Cieps! Mais Cieps! É um ovo de colombo, como é que ninguém tinha pensado nisso?!
Mas foi a outra afirmativa de Brizola que me causou quase um choque cognitivo. Ele disse que pretende "buscar a colaboração estreita com o Governo federal". O quê? Dá pra repetir? Colaborar com o FHC? Mas toda a campanha do Brizola se baseia na oposição a FHC! O lema é "Mande um recado para FHC - Faz um 12" (número do Brizola). É contradição demais para um ser humano só.
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Enquanto isso, Fernando Rodrigues, um dos piores colunistas políticos do país, disse na sua página no UOL que a "centro-esquerda" vai aumentar seu número de prefeitos nas capitais brasileiras.
E quais eram os partidos a que ele se referia? O PT, o PSB, o PPS e o PDT!
Aí, realmente, já é manipulação semântica demais. O PT e o PDT não são a "centro-esquerda", eles são a esquerda, ponto. A centro-esquerda é o PSDB, o PMDB, esses partidos que defendem alguma - e muito tímida - desregulamentação econômica e favorecem o avanço estatal em tudo o mais. O PFL e o PPB podem ser chamados de centro-direita, porque seu apoio à liberalização econômica é um pouco menos tímido.
Agora, se você chama o PT de "centro-esquerda", o PSDB automaticamente vira "direita", o que só pode ser brincadeira. Como é que pode ser de direita um partido que vive de aumentar regulamentações para a vida privada dos cidadãos - na educação e na saúde especialmente - e que tem quase vergonha de apoiar as liberdades econômicas?
Como é que pode haver uma direita sem defesa dos valores familiares, sem defesa das liberdades individuais, sem limitação dos poderes do Estado? Notem o seguinte: não há nenhum partido brasileiro que corresponda a essa descrição. Todos são obcecados pelo crescimento do Estado, pela ampliação da interferência estatal na vida social. Estamos, portanto, num país sem direita, em que a esquerda vira centro-esquerda e a centro-esquerda vira direita.
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Enquanto isso, os esquerdistas americanos, do Partido Democrata, fazem sua convenção em Los Angeles - lugar muito apropriado, tendo em vista a opção política de Hollywood.
A mídia brasileira fala com admiração bovina de Al Gore e de sua esposa, e caiu na conversa mole do New York Times sobre o vice de Gore, o senador Joseph Lieberman.
Inventaram, primeiro, que a escolha de Lieberman era corajosa, porque poderia enfrentar resistências anti-semitas. Anti-semitas?! Ora, deixem de palhaçada: ninguém é anti-semita impunemente no mundo de hoje, e nenhum anti-semita expressa suas opiniões em público nos EUA (com exceção do reverendo Al Sharpton, mas este pode porque é negro e é um queridinho dos democratas). Não há nenhuma discriminação aos judeus nos EUA hoje, todo mundo sabe disso. Mas até O Globo publicou uma notinha de uma correspondente estrangeira dizendo, em tom alarmista, que escritores anti-semitas tinham enviado seus protestos contra a nomeação de Lieberman, via internet, para centenas de pessoas! Olhem quanta gente: centenas!, num país de centenas de milhões de habitantes. (Nota: essa história, difundida pelo New York Post, de que o Louis Farrakhan fez observações anti-semitas contra Lieberman é simplesmente falsa.)
Depois, disseram que Lieberman era um judeu ortodoxo que defendia os valores morais tradicionais. Mas não sei onde na Torah ele encontrou uma permissão para o aborto - inclusive do infanticídio conhecido como "aborto de parto parcial". Como disse a colunista Ann Coulter, ele é membro do menor grupo político do mundo: "judeus ortodoxos a favor do aborto de parto parcial".
Aliás, o rabino Daniel Lapin, editor do site Toward Tradition, mostrou-se preocupado com o fato de Lieberman aparecer na mídia como um representante do judaísmo ortodoxo, porque isso pode fazer parecer que o judaísmo permite o aborto e permite que seus praticantes falem uma coisa e façam outra.
Porque falar uma coisa e fazer outra é típico de Lieberman. Ele criticou Bill Clinton por ter tido relações sexuais com uma estagiária em plena Casa Branca, mas foi incapaz de votar a favor do impeachment ou de falar contra o que realmente interessava na história, que foi o perjúrio e a obstrução da justiça cometidos por Clinton.
Ademais, a impressão que se tenta causar de que ele é um esquerdista moderado é inteiramente falsa. Ele vota a favor de todas as legislações de controle de armas, contra qualquer abolição de impostos, a favor de qualquer intervenção americana em qualquer lugar do mundo.
O Almanaque da Política Americana de 2000 indica que ele votou de acordo com a ala esquerda de seu partigo em 74% dos assuntos em 1998; a associação de esquerda Americans for Democratic Action lhe deu nota 80, enquanto a direitista Americans for Tax Reform's Tax Ratings lhe deu 5 em 100. Em 144 votações, Lieberman foi a favor de aumentos nos gastos e contra cortes de impostos 92% das vezes. Em 1999, a National Taxpayers Union, que faz lobby para corte de impostos, lhe deu uma nota de 8%, uma avaliação pior do que conhecidos luminares da esquerda do Partido Democrata como Barbara Boxer, Robert Byrd e Paul Wellstone. Em 1999, a American Conservative Union deu ao currículo de votações no Senado de Lieberman nota zero, o que o põe à esquerda até mesmo de Ted Kennedy. De moderado, Lieberman não tem nada - a única coisa em que ele difere de forma significativa de seu partido é em sua oposição à violência e à exploração do erotismo na cultura pop americana (aliás, ele não gosta de Hollywood, mas estava em Star Wars!).
Para quem quiser saber mais sobre o assunto, algumas dicas abaixo:
- "Gore's October Surprise" - Alexander Cockburn analisa a geopolítica da escolha de Gore, mostrando como Lieberman e Gore estão intimamente ligados aos interesses do Estado de Israel.
- "Lieberman talks the talk, then takes a walk" - Don Feder mostra a dissociação entre o que Lieberman diz e o que ele faz.
- "Joe Lieberman and the gangsta state" - George Szamuely diz que Lieberman é contra o gangsta rap, mas a favor do gangsta state, e nunca achou uma intervenção militar americana de que não gostasse. Szamuely ainda escreveu outro artigo sobre Lieberman, mostrando a dissociação entre o que ele é e o que a imprensa diz dele: "The Good Lieberman".
- "Jewish gamble may cost votes" - O esquerdista Andrew Sullivan diz que, ao exacerbar a importância da origem étnica de Lieberman, Gore pode estar alienando os negros, e corre o risco de perder votos importantes.
- Não percam também os hilários artigos de Mark Steyn contando suas desventuras em plena convenção democrata: "Values campaign looking cheesy", "Telling Al Gore from the trees", "A star was born, now what?", "With friends like these...".
- "Metaphorical, alegorical Al Gore vs. a curious character" - Gordon Prather ridiculariza as opiniões aparentemente mui profundas do candidato democrata sobre a natureza e a ciência (o absurdo das opiniões de Gore é impressionante).
Para encerrar o assunto democratas: William Anderson publicou um artigo excelente no LewRockwell.com mostrando como eles se beneficiaram politicamente da revolução sexual, e agora dão essa demonstração de hipocrisia, ao desistir da festa de levantamento de fundos na mansão de Hugh Hefner, e ao proibir a deputada Loretta Sanchez, que tinha promovido a festa, de falar na convenção. Mas não é só a hipocrisia que me impressiona: é a inversão de tudo. Afinal, Gore achou que sua imagem ficaria manchada pela participação em uma festa do milionário da "Playboy", uma revista heterossexual, mas não hesitou nem por um segundo em dar seu entusiástico apoio à blasfema e ofensiva palhaçada dos gays em Roma!
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O trágico acidente do Concorde, semana passada, terá ao menos uma conseqüência positiva: os vôos desse avião serão cancelados.
O Concorde era um símbolo vivo do materialismo e da mesquinharia de nossa cultura moderna, e, como lembra Ved Mehta na Spectator, era anti-econômico desde seu nascimento: consumia mais combustível, fazia mais barulho e carregava menos passageiros do que qualquer outro avião, e custava de dez a vinte vezes o preço normal de uma passagem, só para que os ricos pudessem cruzar o oceano atlântico na metade do tempo dos passageiros comuns. E, apesar de anti-econômico, era mantido vivo com o dinheiro dos contribuintes ingleses e franceses, já que os governos desses dois países sustentavam o Concorde com seus subsídios.
Agora, com esse acidente, o primeiro na história do Concorde, pode ser que esse elefante branco seja enterrado em definitivo. Já vai tarde - e isto aqui não é anti-capitalismo: se o Concorde se sustentasse por conta própria, sem precisar de dinheiro de impostos, eu nada teria a declarar a respeito.
DESINFORMATZIA
Todo mundo sabe que eu não gosto do Elio Gaspari e acho que ele sempre interpreta tudo ao contrário na coluna dele, mas isso não me impede de reconhecer que, de vez em quando, ele acerta na mosca.
Na sua coluna de domingo passado, ele fez uma nota interessantíssima sobre o alto salário das aposentadorias da Unicamp, publicou uma entrevista relevante com um jurista e fez uma observação pertinente sobre uma perigosa tendência da equipe econômica, que pode ter conseqüências desastrosas.
Cito um trecho da entrevista:
"- O senhor acha que os procuradores regionais de Brasília estão exorbitando?
"- Acho. Em qualquer circunstância, o Ministério Público exorbita quando levanta suspeitas a partir da intuição, quando invade a vida privada das pessoas e quando atravessa a linha de seus direitos individuais. Em termos gerais, os pedidos de quebra genérica do sigilo bancário, por exemplo, são uma exorbitância. Para se quebrar esse sigilo é preciso que se esteja buscando a materialidade de um fato, que se saiba e que se diga o que se está investigando. A quebra do sigilo não é uma rede que se joga no mar e, com ela, o que vier é peixe. A lei manda que ela seja usada quando é imprescindível para um propósito determinado e só pode ser usada para esta necessidade específica. Além disso, o sigilo só pode ser quebrado para o conhecimento das partes. Quebrá-lo para tornar pública a vida bancária de uma pessoa é uma violação de seus direitos. O respeito às leis obriga os advogados, os procuradores e os juízes a trabalhar, e muito. É claro que sempre há alguém achando que é melhor meter o pé na porta. Confunde-se prisão rápida com justiça eficaz. O que vale uma prisão preventiva ilegal? Apenas a libertação do acusado. Se formos por esse caminho, vai para o brejo tudo o que conquistamos em termos de regime democrático. Quando você ofende o direito de um, ofende o direito de todos."
E a observação do Gaspari sobre a equipe econômica:
"O Planalto tomou gosto por medidas de controle de preços. Tem gente na ekipekonômica esquecendo o que escreveu. O doutor Cláudio Considera, secretário de Acompanhamento de Preços, conseguiu esquecer não só o que escreveu, mas também o que pensou"
ARTIGO DA SEMANA
Michael Arthur Leeden acaba de publicar um livro chamado Tocqueville on American Character, que, a julgar pelo resumo da tese que o próprio autor apresentou na Front Page Magazine, deve ser excelente.
O livro trata da relação, encontrada por Tocqueville, entre o caráter americano e o tipo de Governo que o país terá. Cito do artigo do próprio Leeden:
"Para Tocqueville, a busca de fortuna pessoal era o desafio fundamental ao nosso caráter absolutamente dinâmico, criativo e igualitário, porque, a não ser que ela seja moderada pela fé religiosa, e a não ser que nós fôssemos lembrados de dedicar uma quantidade significativa de nossa paixão e nossa energia à promoção do bem comum, a busca impulsiva por riquezas ameaçava a liberdade americana.
"Nossos governantes nos oferecem um acordo faustiano: eles garantirão nosso sucesso material, desde que os deixemos livres para administrar a sociedade. Deixem-nos cuidar de tudo, dizem eles, e nós os faremos ricos e felizes. A essência do acordo foi perfeitamente personificada na reação de Bill Clinton à emergência do excendente no orçamento no final dos anos 90. Quando alguém sugeriu que o dinheiro deveria ser devolvido aos contribuintes, ele rapidamente respondeu, num raro momento de sinceridade total: 'Eles não saberiam como gastar esse dinheiro. Nós o gastaremos melhor.' "
Daí se vê que o ponto que Tocqueville enfatiza, e Leenden merece aplausos por reenfatizá-lo, é a relação entre a moral de uma sociedade e a tirania do Governo. Quanto mais enfraquecidos moralmente, quanto mais desinteressados em governar os próprios destinos e preocupados apenas com o sucesso material forem os cidadãos, mais o poder do Estado crescerá, porque estarão sendo rompidas as barreiras sociais à expansão estatal. Volto a citar:
"A maioria de nós imagina a transformação de uma sociedade livre num Estado tirânico em termos hollywoodianos, num ato melodramático de violência, como um golpe militar ou uma insurreição armada. Não Tocqueville. Ele prevê uma morte lenta da liberdade. O poder do governo centralizado vai expandir-se gradualmente, intrometendo-se em todas as áreas de nossa vida até que, como uma lagosta numa panela em fogo brando, nós seramos cozinhados sem nem perceber o que aconteceu. Na verdade, o horror na visão de Tocqueville é que nós vamos receber essa expansão com prazer, e até nos convencer de que nós a controlamos."
Alguém aí duvida de que esse é exatamente o quadro na maior parte do mundo contemporâneo? E qual é o mecanismo? Diz Leeden:
"Não há um evento dramático único no cenário de Tocqueville; nenhuma tomada da Bastilha, nenhum ataque ao Palácio de Inverno, nenhuma Marcha sobre Roma, nenhuma Kristallnacht. Nós seremos imobilizados por uma miríade de regras e regulamentos, incômodas pequenas restrições que mais e mais nos amarrarão até que, eventualmente, ela nos paralisarão.
"A tirania que ele prevê para nós não tem muito em comum com as cruéis ditaduras dos tempos modernos. Ele se desculpa pela falta de termos próprios para defini-la. Ele hesita em chamá-la de tirania ou despotismo (embora, na falta de palavras melhores, ele use as antigas), porque ela não reina pelo terror ou pela opressão. Não há nenhuma polícia secreta, não há campos de concentração nem tortura. 'A natureza do poder despótico nos tempos democráticos não é cruel ou feroz, mas minuciosa e intrometida.' (...) Tocqueville descreve a nova tirania como 'um poder imenso e tutelar', e sua tarefa é nos supervisionar a todos, e regular cada aspecto de nossas vidas."
Não é a descrição perfeita de governos da "Terceira Via", como os de Clinton, Blair e... FHC? E ainda tem gente, no Brasil, que, não satisfeita com a tirania sutil, quer criar uma ditadura às antigas, ao estilo leninista - o que indica que as perspectivas para a liberdade por aqui não são nada boas...
Volto ao artigo:
"Nós não seremos forçados à submissão; nós seremos seduzidos [esse é um dos termos preferidos dos políticos modernos; quantas vezes vocês já não ouviram que o político deve seduzir os eleitores?]. Ele prevê o colapso da democracia americana como o resultado final de dois desenvolvimentos paralelos que, no fim das contas, nos tornam docilmente subservientes a um poder burocrático ampliado: a corrupção de nosso caráter e a emergência de um vasto Estado de bem-estar social que gerencia todos os detalhes de nossas vidas.
"Esse poder é absoluto, minucioso, regular, cauteloso e brando. Ele seria como a autoridade de um pai se, como esta autoridade, seu objetivo fosse preparar as pessoas para a vida adulta; mas ele busca, ao contrário, mantê-las numa infância perpétua: ele está muito contente em que as pessoas se divirtam, desde que elas não pensem em nada além de se divertir. Para a felicidade delas um tal governo trabalha, mas ele escolhe ser o único agente e o único árbitro dessa felicidade; ele provém sua segurança, prevê e supre suas necessidades, facilita seus prazeres, gerencia suas principais preocupações, dirige sua indústria, regula a origem da propriedade, e subdivide suas heranças: o que sobra, senão lhes poupar do trabalho de pensar e dos problemas de viver?
"Quando nós nos consolamos com o pensamento de que o governo está, no fim das contas, fazendo isso por uma boa razão e para atingir um objetivo válido, nós, sem perceber, aumentamos a temperatura na nossa panela de lagosta. A estrada para o acordo faustiano está pavimentada com as melhores intenções, mas a última parada é a ruína de nossa alma. Permitir que o governo central assuma nossas responsabilidades por nós não é meramente transferir o poder de nós para eles; é causar um grande dano ao nosso espírito. (...) Na elegante construção de Tocqueville, isso 'torna o exercício do livre-arbítrio humano menos útil e menos freqüente; circunscreve a vontade numa extensão menor e gradualmente rouba o homem de todos os usos de si próprio.' (...) Quando vamos até a beira do abismo buscando a riqueza material, nossas energias se esvaem, e nós nos tornamos fracos, aquiescentes e flácidos na defesa da liberdade."
O diagnóstico do autor é tão perfeito, que é uma pena que ele busque o remédio errado, ao fazer elogios, no restante do artigo, ao candidato à presidência George W. Bush. Não é através da política que se resolvem os riscos de um aumento da tirania sutil; ao contrário, é dando menos importância à política que se pode abrir um caminho para que a sociedade floresça à margem da interferência estatal abusiva.
É reforçando a necessidade de cada indivíduo gerenciar a própria vida, buscar o próprio sentido de vida, lutar por conta própria para levantar a cabeça e tentar enxergar um pouco além das trevas que o envolvem. Quem entendeu isso já percebeu, imediatamente, a importância da religião, especialmente do cristianismo (porque é a única religião não identificada com um modelo de Estado), para a resguarda da liberdade individual face ao avanço do Estado. Talvez aí encontremos a justificativa para a frase de Lord Acton, citada por Andrew Sandlin em artigo no LewRockwell.com, de que "a liberdade não subsistiu fora da Cristandade".