No. 25 - 01/09/00
Escrevi na edição 21 desta coluna que o brasileiro não sabe ler. É preciso complementar aquela observação com esta outra: o brasileiro também não sabe escrever. Aliás, nada mais natural que os fenômenos surjam ao mesmo tempo.
Ambos estão correlacionados, mas não têm as mesmas causas, nem a mesma sintomatologia. Como disse daquela vez, o brasileiro (e refiro-me aqui às classes letradas, não ao seu Manoel do boteco da esquina) não sabe ler porque foi submetido a anos de doutrina marxista, que o ensinou a ler não o que está escrito e sim a procurar os "interesses de classe" nos textos alheios, e à doutrina desconstrucionista, que o ensinou a desprezar a intenção do autor e a fazer "leituras construtivas".
O problema da escrita é um pouco diferente. Claro que, não sabendo entender a intenção do autor nos textos dos outros, o sujeito vai ter dificuldades de expor as próprias intenções nos seus próprios textos, mas isso é apenas parte do problema.
As outras partes são, primeiro, a decadência lingüística brasileira, que não se manifesta apenas nas lojas com nome em inglês ou nas pizzarias que prometem fazer "delivery", mas também na perda do valor das palavras. Não sabendo mais o que elas significam e, para piorar, desconhecendo a estrutura da língua, os "escritores" costumam usar as palavras a esmo, mais de acordo com sua sonoridade do que de acordo com seu significado, e formam construções confusas, ambíguas, quando não simplesmente bizarras.
Associem isso ao ouvido musical brasileiro, e terão uma combinação explosiva: o brasileiro que escreve está sempre visando mais a produzir um efeito musical em quem o lê do que em dizer alguma coisa e, para isso, lança mão das combinações de sons mais impressionistas que conseguir descobrir, mesmo que elas não signifiquem absolutamente nada.
Como disse certa vez o prof. Olavo de Carvalho, o que costuma acontecer nas nossas classes letradas é que o sujeito tem uma idéia, tenta dizê-la por escrito, mas, à medida que vai tentando fazer seu texto ficar bonito, acaba escrevendo o contrário do que pensou - e, como prefere dizer o contrário do que pensou a escrever um texto feio, acaba acreditando mais no que escreveu do que no que pensou.
Isso, claro, impossibilita a honestidade intelectual. Quem deseja ser sincero consigo mesmo, ser fiel às próprias percepções, tem sempre de fazer um esforço para conseguir transcrevê-las - mesmo ao preço de o texto sair feio. Antes um texto feio e verdadeiro que um texto bonito e falso.
O uso indiscriminado e inculto da linguagem é prática comum em todos os níveis da vida nacional, com destaque para as reportagens de jornais e revistas, as teses universitárias e as sentenças jurídicas. Exemplos disso são um dos meus assuntos preferidos, e quem acompanha esta coluna já deve ter deparado com vários. Só para ilustrar esta discussão, cito a carta que uma senhora enviou para O Globo há uma semana, defendendo o filme Kadosh, que, como mencionei semana passada, foi criticado com muita justiça pelo sr. Osias Wurman (grifos meus):
"Mas o compromisso do artista não é retratar cenas, mas sim o que vê, como vê e, principalmente, com que olhos vê. Pois o olhar de um filme é sempre o olhar do diretor e, na luta pelos direitos humanos de árabes e palestinos, Amos Gïtai sempre foi único e exceção no mundo da arte israelense, e portanto deve ser reverenciado por seus feitos, nunca blasfemado."
O compromisso do artista não é retratar cenas, mas o que vê e com que olhos vê - tudo bem, mas, no caso do cinema, como é que ele vai fazê-lo senão através de cenas?! Ela cria uma oposição entre coisas que não são opostas e, no fim das contas, o que está dizendo é que o compromisso do artista não é retratar cenas, mas sim... retratar cenas! Elas serão retratadas sob um olhar particular e característico, sim, mas alguma universalidade esse olhar deverá ter, porque, do contrário, as cenas simplesmente serão incompreensíveis - e, aliás, a obsessão com o próprio "olhar" é um dos horrores da arte moderna.
Mas estou divagando. Quero mesmo chamar a atenção para os termos que ela usa para se referia a um diretor de cinema. Inegavelmente, existe uma lógica interna nesses usos: se algo ou alguém deve ser "reverenciado", é certo que qualquer crítica a esse algo ou alguém é uma "blasfêmia", mas esses termos não são meio excessivos para referir-se a diretores de cinema?
Ora, a reverência costuma se dirigir a figuras sagradas, como em "os cristãos reverenciam a Virgem Maria", e atacar essas figuras constitui blasfêmia, aliás um pecado grave nas religiões monoteístas, mas não creio que o simples fato de um sujeito ter se pronunciado em favor dos palestinos seja motivo para reverenciá-lo. Sua postura pode ser louvável, notável, corajosa, um monte de coisas, mas... motivo de reverência?! E uma crítica a seu filme é uma blasfêmia?
O emprego descuidado dos termos, a paixão pelos excessos pompososo, no texto da leitora do Globo, é evidente. E o pior é que isso já é uma praga nacional.
POLITICAGENS
Marcos da Piedade é candidato a vereador do Rio de Janeiro pelo PT. O próprio estava distribuindo folhetos na porta da UERJ recentemente - e a escolha do lugar não poderia ser mais apropriada, talvez só se ele tivesse escolhido a PUC.
O que interessa, no entanto, é que eu estava lá e tive a oportunidade de receber um dos folhetos. Embaixo da foto do dito cujo, com o número em detaque entre duas estrelas do PT, vêm as propostas - ou os slogans, como preferirem.
"Fora a discriminação contra os negros. Viva Zumbi dos Palmares e João Cândido."
Até aí, tudo bem. Não sei qual é a relação entre isso e a campanha do nosso rapaz para vereador, e provavelmente ele também não sabe, mas um candidato negro que não fale contra a "discriminação" está cavando o próprio túmulo político. É sempre aquela esperança de que os negros um dia sigam o brilhante conselho de Pelé e votem apenas nos negros, aliada à terrível lembrança da campanha derrotada do ator Milton Gonçalves à prefeitura do Rio. Milton, como todos sabem, é contrário à affirmative action e às leis de preferências raciais. Entrou na lista... well, branca do movimento negro brasileiro e virou um negro não-negro.
"Brigar por uma educação e saúde pública (gratuito), eficiente e de qualidade."
E a gente falando que ninguém mais sabe escrever no Brasil...
Mas não foi só o "gratuito" que me intrigou. "Brigar"? Como assim, brigar? Os vereadores vão votar as leis, ou vão participar de espetáculos de gladiadores? E, se esta for a opção certa, não consigo entender bem como é que dessas brigas sairá "educação e saúde pública (gratuito)". Aliás, para quem não entendeu: o "gratuito" está entre parênteses porque, na peculiar ciência social do Marcos da Piedade, público é igual a gratuito. Acho que ele nunca pagou impostos na vida.
Estou levantando suspeitas de que ele não sabe ao certo o que vai fazer se for eleito vereador, mas o nosso amigo usou o próximo item do folheto para provar de uma vez por todas que sabe, sim:
"A função do vereador é fazer leis para o Município. E fiscalizar a prefeitura.."
Aí está: uma lição cívica para os eleitores, que provavelmente achavam que a função do vereador era fazer leis para o país, ou para o continente. Não, senhores: os paulistas, gaúchos, pernambucanos, os campistas, macaenses e demais brasileiros dos outros estados e municípios não serão, até segunda ordem, beneficiados pela Piedade do Marcos. Esse é um privilégio exclusivo dos cariocas.
E esse privilégio começa pela leitura edificante deste folheto eleitoral, depois da qual você nunca mais poderá dizer que "vereadores não servem para nada". Falando nisso, alguém aí lembra em quem votou na última eleição para vereador?
Nota: os dois pontos estavam no original. É um curioso sinal intermediário entre o ponto final e as reticências.
"Viva as mulheres no poder! Viva a igualdade entre homens e mulheres! E as mulheres têm que ter os mesmos direitos dos homens. A mulher tem o direito ao prazer sexual, a cidadania, a felicidade e também de poder escolher o seu próprio destino."
Eu fiquei simplesmente fascinado por esse último item. Não posso negar: é a coisa mais maravilhosa que já vi em qualquer campanha para vereador.
Imaginem, por exemplo, se fôssemos levar ao pé da letra a primeira exclamação, a que celebra as mulheres no poder. Ora, então não poderíamos votar no Marcos. Teríamos de sair à procura de uma mulher - negra, de preferência - para tomar o lugar do Marcos no nosso voto para vereador.
Mas não é isso o mais fascinante. O que é realmente espetacular é o "direito ao prazer sexual". Isso quer dizer, exatamente, o quê? Vou imaginar a lei do nosso vereador.
Esta lei regulamenta e implementa o direito feminino ao prazer sexual.
CAPÍTULO I
DISPOSIÇÕES PRELIMINARES
Art.1o. Todas as mulheres têm direito indisponível
ao prazer sexual.
§1o. Define-se o "prazer sexual" pelo número de
orgasmos que a mulher atinja.
§2o. Considera-se cumprido este direito quando este número
é superior ou igual a um orgasmo semanal.
CAPÍTULO II
DA REEDUCAÇÃO SEXUAL
Art. 2o. Para efeitos de educação social
a respeito do cumprimento deste direito, serão criados pela Prefeitura
do Município do Rio de Janeiro escolas de aprimoramento sexual.
Pár. único. Entre os livros-texto adotados por estas escolas
estarão obrigatoriamente os livros da Excelentíssima Prefeita
do Município de São Paulo, D. Marta Suplicy. As demais obras a
ser adotadas ficarão a cargo dos diretores das escolas.
Art. 3o. A freqüência às instituições
referidas no art. 2o. desta lei será obrigatória para todos os
cidadãos do sexo masculino habitantes do Município do Rio de Janeiro.
Pár. único. A pena para o não cumprimento desta
obrigação será a internação em campos de
treinamento sexual por 4 (quatro) a 8 (oito) meses.
CAPÍTULO III
DA FISCALIZAÇÃO DO PRAZER SEXUAL
Art. 4o. Seis meses depois da criação das escolas de aprimoramento sexual, será lançado edital com as regras para concurso público para a profissão de fiscal do direito ao prazer sexual.
Art. 5o. Um fiscal será responsável por cada
cinco casais, devendo estar presente ao ato sexual de cada um desses casais
ao menos uma vez por semana.
I- O fiscal medirá a quantidade e o volume dos gemidos da mulher durante
o ato sexual.
II- O fiscal deverá apresentar à mulher, após o ato sexual,
um questionário que lhe permita indicar o grau de prazer e o número
de orgasmos que teve durante o ato.
Pár. único. No caso de mais de 2 (duas) avaliações
negativas de sua atuação, o homem do casal ficará sujeito
à pena de internação em campos de treinamento sexual por
8 (oito) a 15 (quinze) meses.
Art. 6o. Na eventualidade de as vagas para os fiscais não
serem totalmente preenchidas, as mulheres deverão comparecer semanalmente
à Delegacia de Polícia de seu distrito, a fim de lá responderem
ao questionário referido no art. 5o., II.
Pár. único. As mulheres que descumprirem esta determinação
ficarão sujeitas à internação em escolas de reeducação
sexual por 30 (trinta) a 75 (setenta e cinco) dias.
CAPÍTULO IV
DA SUBSTITUIÇÃO SEXUAL TEMPORÁRIA
Art. 7o. Na mesma data que for lançado o edital referido, supra, no art. 4o., deverá ser lançado o edital para o preenchimento de vagas na carreira de substituto sexual temporário.
Art. 8o. Quando os parceiros sexuais das mulheres estiverem cumprindo as penas determinadas pelos arts. 3o ou 5o., a Prefeitura deverá designar substitutos temporários.
Art. 9o. A Prefeitura deverá designar para as mulheres
encalhadas substitutos temporários, responsáveis pelo cumprimento
das tarefas sexuais masculinas.
§1o. Os substitutos ficarão responsáveis pelo cumprimento
destas tarefas até que as mulheres referidas conquistem um parceiro sexual
estável.
§2o. O substituto que abandonar o posto antes do momento designado
no parágrafo acima ficará sujeito à pena de internação
por 8 (oito) a 15 (quinze) meses em escolas de reeducação sexual.
CAPÍTULO V
DA EXCEÇÃO
Art. 10. Ficam excluídas das obrigações
referidas nesta lei as mulheres cujas opções religiosas as obriguem
à abstinência sexual.
Artigo revogado pela Lei 1.350.985 de 3004, que institui o paganismo romano
como religião oficial do Estado brasileiro.
Rio de Janeiro, 32 de Fevereiro de 3001.
Vereador Marcos da Piedade
Acham que estou brincando? Mas é exatamente isso aí que o nosso vereador teria de fazer se quisesse garantir esse direito que parece prezar tanto, o direito ao prazer sexual feminino. O negócio é que nos tornamos uma sociedade tão obcecada com sexo e com "direitos", que quando um sujeito junta as duas coisas e diz uma barbaridade dessas, ninguém percebe as conseqüências.
Orwelliano? Não. Huxleyano. Acho que, entre os dois, as previsões pessimistas de Huxley se confirmaram muito mais, especialmente porque os governos totalitários duradouros não se impõem pelo medo, e sim pela exploração dos desejos mais baixos e mais egoístas dos seus súditos. A sociedade do Brave New World é dominada pelo prazer e pelos impulsos sexuais, enquanto o clima de 1984 é de pavor total. A primeira fórmula é muito mais eficiente, especialmente se vier acompanhada de um respaldo "científico".
SÉTIMA ARTE
Como relato de uma história real, The Perfect Storm não é confiável. Existem exageros óbvios na descrição dos personagens, que acabam parecendo caricaturas, e o autor do livro em que o filme se baseou, Sebastian Junger, não é um jornalista confiável (vá até o terceiro artigo no link).
Mas o valor do filme também não está apenas nos efeitos especiais deslumbrantes, nem na maneira brilhante como o quase sempre excelente Wolfgang Petersen conduz a narrativa.
O mais interessante de The Perfect Storm é que ele nos lembra, em cores vívidas, a fragilidade da condição humana. Por mais progressos tecnológicos que tenhamos feito, por mais que tenhamos conseguido dominar uma pequena parte da natureza e tornar a vida na Terra mais segura, uma simples mudança de ventos pode mudar tudo e derrubar todas as nossas pobres criações.
Recentemente presenciei um naufrágio, claro que de proporções muito menores do que o do filme: saíram dois navios da praia, eu num deles, e, quando o tempo começou a piorar e as ondas começaram a subir, o capitão do outro navio perdeu o controle, bateu numa rocha e o navio virou. Virou, nossa frente, em questão de segundos, numa cena impressionante (felizmente, não houve mortes: todos foram resgatados a tempo).
Criamos uma sociedade tão distanciada da natureza, que só com cenas como essas nos lembramos de como é duro sobreviver em meio à hostilidade da natureza, como a ação humana interefere pouco no curso dos eventos, como há fenômenos naturais que, simplesmente, não temos forças para reverter.
A presença humana no planeta modifica uma pequena porcentagem de sua massa total e, mesmo no que modifica, está sempre sujeita a uma reversão das expectativas. Que arrogância, que ambição desmesurada a desses malucos que pretendem "mudar o mundo", que pretendem governar todos os aspectos da sociedade, que pretendem regular todos os detalhes da vida humana, apostando numa segurança e numa estabilidade ilusórias, produtos de um delírio de onipotência.
Apenas por servir de oportunidade de lembrarmos e refletirmos sobre essas coisas, The Perfect Storm é um excelente filme. A cena final, na Igreja, ainda vai além, e lembra que, se somos, por nós mesmos, fracos e indignos, pela ação divina, pelo apoio da Providência e, principalmente, pela ação redentora do Sacrifício de N. S. Jesus Cristo, podemos nos tornar grandes e nos santificar. E a Glória não será nossa, mas de Deus.
DESINFORMATZIA
Um amigo me escreve, e não é o primeiro, reclamando de que a maior parte dos textos da newsletter são em inglês. O pior, digo eu, é que não são só os textos da newsletter: os recomendados na primeira página do site também são quase todos em inglês. A explicação passa mais ou menos pelo que eu disse a ele:
"Por mim, todos os textos enviados seriam em português. Não só traduções, mas originais em português também. Isso não é assim por dois motivos: primeiro, não tenho tempo para traduzir todos os textos (se tivesse, o faria com prazer) e, por isso, sou obrigado a mandá-los em inglês mesmo; segundo, simplesmente não há colunistas, articulistas ou repórteres interessantes que escrevam no Brasil - tudo o que sai na nossa imprensa são esquerdistas raivosos ou liberais obcecados por dinheiro."
Eu adoraria mesmo que tivéssemos um monte de textos de articulistas brasileiros - fora o prof. Olavo de Carvalho - para recomendar na primeira página e para enviar na newsletter. Mas raramente surge alguma coisa na nossa imprensa.
Vamos dizer as coisas com clareza: o meio cultural brasileiro - e, conseqüentemente, a imprensa brasileiro - é ruim, muito ruim. De vez em quando, um liberal cético materialista (ou randiano) escreve alguma crítica interessante da esquerda - mas comparem os nossos liberais com os liberais americanos. Dá vontade de chorar. E comparem os nossos colunistas - Elio Gaspari, Jânio de Freitas, Fernando Rodrigues, Veríssimo, Arnaldo Jabor etc. - com os americanos - Sobran, Lew Rockwell, Joseph Farah, Norman Solomon, Szamuely, Stromberg etc. A diferença é abissal.
É por isso, e não por algum americanismo ou alguma preferência pelo inglês, que a maior parte dos textos são em inglês. Não custa lembrar que a nossa intenção é divulgar notícias e opiniões que não costumam aparecer na imprensa brasileira, ou porque são censuradas, ou porque as pessoas que escrevem nela são ignorantes mesmo.
Por exemplo, tomem a última edição da Caros Amigos, a revista que dá uma coluna semanal para um dos maiores palhaços da intelectualidade brasileira, o sr. Gilberto Vasconcelos. A capa da edição é esse cretino James Cavallaro, um agente do governo mundial que fica aqui no Brasil fazendo pose de superior, encontrando o que ele chama de "violações dos direitos humanos". A revista que se diz opositora da globalização, que se diz nacionalista, que diz ser contra o "pensamento único", põe na capa um representante de uma ideologia que tem a seu serviço inúmeras ONGs, a ONU e a UNESCO, e continua fazendo pose de rebelde! Que palhaçada é essa?
Pois bem: é esse tipo de notícia ao contrário, esse tipo de mentira, de falsificação ideológica que constitui a maior parte da imprensa brasileira. Lamento muito, mas não dá para recomendar ou divulgar uma coisa dessas. Melhor esquecer - e aproveitar para ler o excelente artigo Caros Umbigos, no qual Olavo de Carvalho ridicularizou essa revistinha.
NA REDE
O que ocorreu esta semana seria mera coincidência se não fosse uma reincidência: pela enésima vez, a Veja saiu com capa quase igual à Time.
Dessa vez, ambas fazendo propaganda do feminismo radical. A Time, celebrando as mulheres que não têm maridos; a Veja, mostrando como as mulheres se dão muito bem sem homens enquanto os homens não sabem viver sem mulheres.
Certamente aproveitando a deixa, Lew Rockwell publicou em seu site um artigo escrito pelo Murray Rothbard em 1970, descrevendo as duas principais correntes do feminismo: uma, anterior, liderada por Betty Friedan, com seu ódio à dona de casa e sua obsessão pela "discriminação feminina"; a outra, ainda pior, simplesmente odeia os homens em geral, e faz ardorosas pregações contra o casamento e a favor do lesbianismo.
Não deixa de ser engraçado que, trinta anos depois, duas revistas do mainstream midiático defendam em suas capas as posições mais extremadas do feminismo: é mais uma prova de que a esquerda venceu a batalha cultural, e hoje dá as cartas na grande imprensa.
Vale a pena ler não só o ensaio do Rothbard, mas o comentário irônico de Richard Grenier no WorldNetDaily, onde ele lembra que, embora as revistas com pretensões intelectuais se dediquem a atacar os homens, as revistas femininas são obcecadas com eles. Peguem qualquer uma delas - Nova Cosmopolitan, Glamour, Marie Claire - e verão: essas revistas só falam nos truques sexuais que as mulheres podem usar para agarrar seus homens.
E as que não falam sobre sexo falam sobre o corpo. Aqui, vale repetir a pergunta de Grenier: se as mulheres não querem mais os homens, por que diabos estão tão preocupadas em ter corpos perfeitos?
Besteira. Essa história de ódio aos homens, de defesa do lesbianismo é lixo cultural, que cai sob medida para meia dúzia de recalcadas neuróticas.
Palhaçada igual, mas essa com algumas conseqüências na vida real de algumas pessoas, é a que descreve Wendy McElroy (uma feminista de tipo um pouco mais racional) num artigo no LewRockwell.com. Segundo ela, a novidade das feministas na Universidade de Wisconsin é o "controle do ambiente", que pretende, para que as mulheres vivam melhor na universidade, proibir um determinado tipo de conduta, descrita da seguinte maneira (cito do artigo): "'uma categoria de comunicações - verbal e não-verbal - que cria uma distância entre o falante e o ouvinte'. São as comunicações que fazem com que uma outra pessoa 'se sinta separada de seus colegas e seus semelhantes' em suas relações de trabalho diárias. Tais sentimentos de separação não são necessariamente o resultado da malícia ou da intenção consciente do outro. Na verdade, o relatório [das feministas da universidade] continua: 'Essas lembranças do 'lugar' ou do 'papel' ou do 'status' da outra pessoa normalmente são sutis, não maliciosas...' O relatório não especifica mais sua definição de ambiente, e reconhece que o termo é 'vago'."
Mais concretamente, o tipo de comportamento que as feministas de Wisconsin querem proibir são assobios, cantadas, piadas - esse tipo de conduta "discriminatória".
A única coisa que me tranqüiliza é que, se tem uma moda imbecil americana que não vai pegar nunca no Brasil, essa aí é ela. Por mais que a Veja tente.
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Notícias do pervertido mundo da arte (aliás, quem não leu Cultura ou Lixo?, de James Gardner, publicado no Brasil pela Civilização Brasileira, não sabe o que está perdendo).
Na Royal Academy of Arts, em Londres, a mais nova edição da exposição chamada Sensation, que ano passado mostrou esculturas de meninas adolescentes com pênis no lugar de seus narizes, mostra uma escultura do Papa morto por um meteorito, brinquedos de criança feitos de cocô e fotos gays sadomasoquistas. O escultor James Butler disse, com toda razão, que essa exposição deveria estar num circo ou num show de horrores, e não num museu bicentenário.
No México, algum imbecil fez uma gravura com Marilyn Monroe nua representando a Virgem Maria. Como católico mexicano já sofreu demais para aturar esse tipo de palhaçada, dois homens entraram no museu e destruiram o desenho. O Cardeal, mostrando que tem cojones, ao contrário de seus colegas brasileiros, sai em defesa dos dois - e está coberto de razão.
ARTIGO DA SEMANA
Três artigos chamaram a atenção esta semana, todos com assuntos parecidos.
Joseph Sobran escreveu uma dura e brilhante crítica do livro mais recente de um popular esquerdista católico, Gary Wills. Os primeiros parágrafos do artigo são esplêndidos:
"Sempre me espantou o fato de que o homem moderno tem mais fé no Estado do que o homem medieval tinha na Igreja. Embora as promessas utópicas do Estado tenham sido mantidas, nos melhores casos, por fraudes e, nos piores, por guerras e assassinatos em massa, sua autoridade quase não foi diminuída pela experiência - provavelmente porque ele tomou conta da educação e apagou seus crimes da memória de seus súditos.
"Toda discussão política, pensaríamos, deveria naturalmente começar com a recordação de duas guerras mundiais, o Gulag, das fomes punitivas, dos genocídios, dos bombardeios de cidades, das armas nucleares, desse tipo de coisa; sem mencionar a enorme e sempre em expansão economia parasita estatal, de dependência, dívida e dinheiro suspeito. Mas o mal tem um jeito de nos tornar habituados a ele; tendo tragado todo tipo de horrores, paramos de nos horrorizar. Com o tempo, o horrível parece normal, e convivemos contentes com coisas das quais nossos ancestrais teriam cruzado os oceanos para escapar.
"A esta altura, até as pessoas comuns deveriam falar sobre o Estado com o mesmo tom mordaz com que os judeus falam de Hitler. Mas o homem moderno não só ainda obedece ao Estado (ele tem pouca escolha) como ainda espera que ele melhore a condição humana. Ele acha que Hitler foi uma anomalia infeliz, com a qual seus próprios governantes lhe ensinaram que não têm nada em comum, até mesmo quando eles promovem o direito para assassinar crianças que ainda não nasceram."
Um dos principais fatores do crescimento estatal em nosso tempo é o crescimento da burocracia, como muitos obsevadores já notaram. Em seu artigo de 29 de agosto, Joseph Stromberg lembra o liberal inglês Richard Simpson, colaborador de Lord Acton, que escreveu a respeito do crescimento burocrático:
"A burocracia, Simpson notou, não é o mesmo que um governo militar. A burocracia não corresponde diretamente a nenhuma forma de governo, mas pode 'expandir-se gradualmente em qualquer forma de política, e torna qualquer forma de governo despótica.' Advogados, é claro, prosperam com o crescimento burocrático, mas eles não são a essência dela. (...)
"O centro da burocracia não é nenhum dos elementos mencionados acima. Não, 'a idéia de burocracia não é plenamente realizada até que acrescentemos o elemento pedante de uma pretensão de dirigir nossa vida, de saber saber o que é melhor para nós, de medir nosso trabalho, de supervisionar nossos estudos, de prescrever nossas opiniões, de se fazer responsável por nós, de nos pôr na cama, fazer-nos vestir o pijama e a toca de dormir, e de nos servir nosso mingau.' (...)"
Stromberg menciona ainda a visão de Tocqueville - já citada nesta mesma seção desta coluna - da tirania sutil, em que o Estado "garante a segurança das pessoas, prevê e supre suas necessidades, facilita seus prazeres, administra suas principais preocupações, dirige suas indústrias, cria regras para seus testamentos e divide suas heranças. Por que, então, não deveria ele aliviá-los dos problemas de pensar e de todos as preocupações de viver?"
Esse foi - e ainda é - o papel de burocratas, engenheiros sociais, programadores de conflitos, gerentes de ONGs, gente da estirpe desses canalhas James Cavallaro e Rubem César Fernandes, na estruturação das tiranias modernas, as tiranias "democráticas".
Mas, voltanto ao artigo do Sobran, ele diz o seguinte:
"Até mesmo se eu fosse ateu, eu admiraria a Igreja Católica, por ela ser um refúgio contra o preponderante fanatismo do Estado. Como G. K. Chesterton disse certa vez: 'Somente a Igreja Católica pode salvar o homem da degradante escravidão de ser um filho de seu tempo.'"
Justamente por isso, a Igreja foi a instituição mais perseguida pelas tiranias modernas, e seus fiéis suas maiores vítimas. Lew Rockwell, em belíssimo artigo sobre o livro de Robert Royal, Catholic Martyrs of the Twentieth Century (já mencionado em coluna anterior), explica bem (a tradução é de Pedro Sette Câmara):
"O Cristianismo, pregando a dignidade da vida humana, e seu reconhecimento de que todo indivíduo tem uma alma de valor infinito, gerou a idéia moderna de liberdade. De várias maneiras, o Cristianismo tem sido o sustentáculo da liberdade por recusar-se a reconhecer a autoridade final do Estado. A lealdade do cristão sempre tenderá a transcender a autoridade, e assim será capaz de resistir. É por isto que os cristãos foram mortos neste século, e é por isso que eles continuam sendo perseguidos ainda hoje.
"O milagre (e esta palavra foi cuidadosamente escolhida aqui) é que o Cristianismo sobreviveu apesara de tudo. Até agora, ele durou mais do que qualquer governo que tenha tentado exterminá-lo. De fato a promessa da Galiléia era de que as portas do inferno jamais prevaleceriam."