ALVARO VELLOSO DE CARVALHO

No. 27 - 15/09/00

Onde arranjar assunto, se só se fala em Olimpíadas?

Na verdade, estou choramingando à toa. Tem bastante assunto essa semana, como se verá abaixo. A época do ano em que não há assunto nenhum, no Brasil, é a do carnaval. Aí, realmente, o país pára. Durante as Olimpíadas, não, embora os jornais concentrem a maior parte de suas atenções nesse evento.

Mas, já que mencionei os jogos olímpicos, falemos um pouco deles. Acho que terão muito pouca audiência, até porque os horários das provas são sempre meio caóticos, e os masoquistas que quisessem acompanhá-la teriam de ficar acordados a madrugada inteira (imaginem só: futebol às seis horas da manhã!). Quem quiser realmente ver alguma coisa sem sofrer alterações no relógio interno vai programar o vídeo, mas acontece que ninguém sabe programar o vídeo e que mesmo os que sabem terão de se virar para descubrir para qual horário devem marcar o relógio.

Mesmo assim, atenção aos jogos: este pode ser um dos últimos anos em que veremos países competindo uns com os outros. Se tudo correr, nos próximos anos, de acordo com o que pretende a ONU, a idéia de nação será, dentro de alguns anos, apenas uma lembrança de um passado longínquo. Poderemos, então, ter o grupo dos gays enfrentando o grupo dos judeus, o grupo das feministas enfrentando o dos cristãos ortodoxos, o grupo dos ruivos enfretando o dos negros, e assim por diante: continuando a moda de incentivar associações supra-nacionais, em breve os jogos olímpicos serão entre essas associações.

Enquanto isso, Christie Davies disse no último número da The Spectator que os jogos deveriam logo assumir sua feição militarista, e tornar as provas mais explicitamente ligadas aos exércitos, já que é aí que elas se originam.

O pior é que é sério: afinal, quem é que lança dardos e martelos em distância, senão para atingir o Exército inimigo? A própria maratona, como os leitores certamente se lembram, ganhou seu nome da batalha grega de Maratona, e era um método antigo de enviar mensagens urgentes para tropas distantes. Foi mais ou menos isso que Hitler fez na Primeira Guerra, o que lhe valeu uma Cruz de Ferro, e não me surpreende que ele amasse as olimpíadas.

O que Ms. Davies sugere é que, já que maratona, lançamento de martelos e dardos e similares não são mais práticas usuais nas guerras modernas, os jogos olímpicos deveriam se modernizar, e teríamos, então, uma competição de manobras de guerra, com os generais manipulando modelos computadorizados. Veríamos, então, a marinha americana contra os mujahedin, o Mossad contra os serviços secretos australianos, os turcos contra os coreanos, e assim por diante. Íamos finalmente ter a chance de descobrir quem é melhor mesmo.

Os australianos, aliás, já deram um passo à frente, pondo uma imagem do Coliseu Romano, palco das batalhas entre gladiadores, nas medalhas olímpicas. Essa história de que eles são apenas filisteus ignorantes, incapazes de distinguir entre o Partenon e o Coliseu ou entre Grécia e Roma, é uma calúnia de retrógrados incapazes de perceber os sinais dos tempos nos jogos olímpicos.

De qualquer maneira, e para que o leitor não pense que odeio esportes e que estou com raiva das Olimpíadas, confesso que já estou preparando as fitas para me divertir com os esportes menos olímpicos dos jogos - o basquete e o futebol. O atual dream team não empolga tanto quanto o de Atlanta, há oito anos, mas será divertido ver os americanos passear em quadra, e imaginar que o Brasil poderia fazer a mesma coisa no futebol, se tivesséssemos aqui um mínimo de organização, e se tivéssemos técnicos que reconhecessem que os jogadores são mais importantes que eles.

O quê? Futebol e basquete femininos? Nem sei do que se trata.

 

POLITICAGENS

A leitura do jornal de quarta-feira me causou, imediatamente, a impressão de que a Revolução estava finalmente acontecendo, principalmente por causa de duas manchetes. Uma delas dizia que o governador de Minas Gerais estava ameaçando enviar a PM para lutar contra o Exército, que tinha cercado a propriedade do Presidente da República para evitar invasões. A outra, que o candidato do PC do B ao Governo do Ceará tinha subido nas pesquisas e tirado as chances da candidata do Ciro Gomes e do Tasso Jereissati.

Era alarme falso. Na verdade, o tal candidato só subiu a um modesto segundo lugar, ainda distante do primeiro, e o Governador de Minas, como de costume, estava apenas fazendo jogo de cena.

Foi mais um alarme falso, entre muitos outros. Eu imaginei, por exemplo, que quando, ano passado, os militantes orquestraram a "marcha a Brasília", eles iriam depôr o Fernando Henrique. Nada aconteceu. Depois, nos protestos contra os festejos dos 500 anos do Brasil, achei que alguém assassinaria o presidente e que no dia seguinte uma junta tomaria o poder, nomeando o frei Betto ministro da educação. Coisa nenhuma.

E assim tem sido a história da revolução comunista brasileira: eles dão todos os sinais de que vão dar o passo final, mas, na hora H, sempre acabam recuando.

Não sou capaz de adivinhar o que mais a esquerda está esperando, tenho apenas um palpite.

Ora, a primeira parte da revolução gramisciana já foi inteiramente realizada, com sucesso estrondoso: a esquerda ocupa todos os espaços e domina todos os debates. Eles estão nas universidades, nas rádios, nos jornais, nas revistas, nas estações de TV etc.

A marcha progressiva para dentro do aparato do Estado também é um sucesso: praticamente todo o baixo escalão do Governo é esquerdista.

O que falta, então, para a tomada do poder? Será o apoio do Exército, algo que a esquerda vem tentando há algum tempo, como até mesmo leitores esporádicos da Caros Amigos, o órgão oficial da patota, já percebeu?

É uma hipótese. Outra é que, simplesmente, eles estão desnorteados e desistiram da etapa final. Não querem mais o comunismo, querem apenas tornar infernal a vida alheia no capitalismo. Quer dizer, ainda subsistem meios para as pessoas ganharem dinheiro - especialmente os membros da burocracia estatal - mas toda a cultura é comunista. Neste caso, ficaríamos para sempre notando os sinais e os avisos de um banho de sangue revolucionário que nunca virá.

Enquanto seu lobo não vem, vamos respondendo às meninas do censo que aparecem em nossas casas. Não é incrível o grau de intrusão do Estado moderno na vida de seus cidadãos?

Fiquei o tempo todo me lembrando da estratégia das FARCs. Através de funcionários do Governo, seus líderes tiveram acesso às declarações de renda dos cidadãos colombianos, e mandam capangas às casas das famílias mais ricas com o aviso: Nós sabemos que o senhor ganha tanto por mês e, portanto, o senhor deverá "contribuir" com 15% desse total para as FARCs, ou alguns membros de sua família desaparecerão.

Não se iludam, meus caros: se vier a revolução algum dia, é para isso que os dados do IBGE e da Receita Federal servirão. Como aqui em casa moram, excluindo as visitas periódicas, duas pessoas em três quartos, já estou antevendo o dia em que algum comissário do povo chegará com a ordem de desapropriação. Aliás, pela reação da menina do censo, talvez não precise nem vir a revolução: se o governo Fernando Henrique Cardoso tomasse esse tipo de medida, ninguém acharia estranho.

Enquanto não chegamos a medidas tão drásticas, vem o Gregori e anuncia algumas restrições ao conteúdo exibido pelas TVs.

Alguns alarmistas exagerados falaram em "volta da censura", mas não é nada disso: ele apenas exige que as propagandas de tele-sexo sejam exibidas depois das 11 da noite, mesmo horário estabelecido como limite para os programas considerados impróprios para menores de 18 anos.

A medida não é absurda, mas é inútil, como é inútil qualquer medida governamental que tenha como objetivo educar as crianças brasileiras. Isto porque educar é tarefa dos pais e, quanto mais eles a delegarem ao Estado, menos educados estarão seus filhos.

Então, chegamos a este ridículo de ver imbecis sem autoridade para determinar quando seus filhos podem ver televisão apelar para a autoridade estatal e implorar a esta que não deixe que seus filhos tenham acesso a cenas de sexo e violência!

Parem com essa palhaçada. Se querem realmente que seus filhos não sejam bombardeados com a perversão dos canais de TV, dêem um pouco mais de atenção a eles e controlem seus horários de televisão. E, se querem uma ação social mais efetiva, ouçam o conselho que Jude Wanniski deu esta semana aos praticantes do cristianismo, do judaísmo e do islamismo: formem uma liga religiosa e nomeiem representantes respeitáveis das religiões para julgar os filmes e programas de TV, e distribuam esses pareceres para os demais fiéis. Esse é um tipo de censura privada que não impõe aos demais cidadãos as opiniões dos religiosos, e não exige que os pais deleguem seus deveres de pais ao Estado.

Não tenho nenhuma ilusão de que tal coisa acontecerá, assim como não tenho nenhuma ilusão de que a decadência moral e intelectual da sociedade brasileira será revertida nos próximos cem anos.

Pelo contrário, acho que um almoço em família no Brasil tende a ficar cada vez mais parecido com o da família americana, brilhantemente descrito por Taki numa de suas colunas na The Spectator (embora, por enquanto, a nossa TV não seja tão ruim quanto a americana):

"Dois terços das crianças de oito ou mais anos - e uma em cada três com dois a sete - tem uma TV em seus quartos. Quase a metade dos pais entrevistados admitiram que assistem à televisão durante as refeições. Pensem no horror. Um homem obeso e uma mulher ainda mais obesa se sentam para comer uma pizza, com Coca-Cola para ajudá-los a engolir. Eles ordenam a suas crianças debilóides e igualmente obesas que calem a boca, enquanto o pai aumenta o volume da TV. Eles estão assistindo ao Jerry Springer, ou a algo nesse nível. Depois de se empanturrar com quatro ou cinco pizzas, eles vão à geladeira e pegam o sorvete e o bolo de chocolate. E mais refrigerantes. Então, na hora dos comerciais, a mulher berra para que o marido 'tire seus cigarros imundos da minha casa.' Ele segue suas instruções ao pé da letra. Se isso não é uma cena tirada do inferno, eu não sei o que é."

Mais uma da série "a mentalidade anti-capitalista no Brasil" (aliás, eu devia escrever um livro inteiro sobre isso).

Vocês já repararam que é uma raridade encontrarmos um loja onde a pessoa que trabalha no caixa tenha um mínimo de consciência de que ela não está te fazendo um favor, e sim cumprindo um trado implícito de benefício mútuo? Atire a primeira pedra quem nunca passou pela situação abaixo:

- Dois mates, por favor.

- Um real e sessenta centavos.

Ofereci uma nota de dez reais.

- É um real e sessenta centavos, você não tem uma nota menor? (com mau humor)

- Minha filha, se eu quisesse te dar uma nota menor, eu teria dado. Se eu não dei, é ou porque não tenho ou porque simplesmente quero trocar a nota maior.

Não, essa última parte nunca existe, porque já nos acostumamos a esse tipo de pedido ridículo. Às vezes, a menina prefere perder a venda (e o freguês, para sempre) a aceitar a nota alta.

O fato é que as vendedoras de lojas parecem estar sinceramente convencidas de estar fazendo um favor ao cliente, e vão morrer sem perceber que o favor existe, mas é mútuo. Existem, claro, exceções nos ramos de comércio nos quais os vendedores trabalham por comissões, e aí percebem imediatamente a relação entre o trato correto com o cliente e o seu salário no fim do mês. À parte isso, aqui no Brasil o cliente nunca tem razão.

Querem que eu diga o que sobre os sem-terra?! Que é uma organização revolucionária?!

Já falei isso mais de mil vezes e quem quer que, até hoje, não tenha percebido que o MST nada tem a ver com a reforma agrária é um cretino incurável. Essas últimas "manifestações" são mais um exemplo de uma interminável lista de exemplos, e os jornalistas, especialmente na Folha de São Paulo, que tentaram justificá-las o fizeram exclusivamente porque estão comprometidos com o mesmo objetivo do MST.

De resto, só posso supor que essas manifestações periódicas ocorram para testar até que ponto a população brasileira já está preparada para a revolução. Mas o tiro pode acabar saindo pela culatra: o brasileiro médio não agüenta mais ouvir falar em MST e, em breve, só aqueles tipos de que falei semana passada ainda vão estar dispostos a apoiá-los.

 

MUNDO ACADÊMICO

Se os pais brasileiros não têm autoridade para fiscalizar o quanto seus filhos vêem televisão, muito menos a têm para fiscalizar os estudos.

Aliás, a maior parte deles simplesmente não liga. Não digo que não liguem para as notas dos filhos; para isso ligam sim, mas não ligam para o que efetivamente é ensinado a seus filhos.

A coisa mais difícil é encontrarmos um pai revoltado porque seu filho está sendo doutrinado por comunistas na escola, ou porque a escola foi incapaz de ensinar seu filho a montar um argumento lógico.

Imaginem, por hipótese, que os pais de alunos de escolas particulares do segundo grau do Rio de Janeiro montassem uma associação para discutir os livros de História adotados nas escolas, e percebessem que seus filhos estão sendo forçados a estudar coisas como a História Crítica do Brasil do comuna Mário Schmidt. Alguém vai me dizer que eles não teriam forças para alterar a situação? Impossível.

Mas impossível mesmo parece ser a hipótese de tal associação um dia vir a surgir. E, mesmo se fosse formada, é possível que seus integrantes não fossem capazes de perceber o que há de errado com livros como esse. Infelizmente, chegamos a um estado na cultura brasileira em que as pessoas não conseguem mais perceber nem mesmo as coisas óbvias, e ninguém vê a gravidade da doutrinação em massa que ocorre no ensino médio e nas universidades.

Isso me traz a um artigo recente de Charley Reese, no qual ele comenta o último livro de John Gatto, que foi professor em escolas públicas americanas por 26 anos e chegou à conclusão de que o ensino público não pode mais ser reformado e, portanto, a única solução é extingui-lo.

A descrição, citada por Reese, que Gatto faz de seus alunosnas escolas públicas americanas é impressionante, porque reconhecemos imediatamente as características descritas:

"Eles não conseguem se concentrar por muito tempo; eles têm pouco senso de tempo passado e tempo futuro; eles desconfiam da intimidade; eles odeiam a solidão; eles são cruéis, materialistas, dependentes, passivos e violentos, mas tímidos quando confrontam o inesperado. E eles são viciados em distrações."

Só que nós, no Brasil, temos o seguinte problema: não podemos acabar com a educação pública, porque toda a nossa educação é pública. Uma escola particular só difere da pública por custar mais caro e, conseqüentemente, pagar professores de mais renome. Os currículos, porém, são rigorosamente os mesmos, ambos determinados pelo Governo.

A mesma coisa vale para as universidades, com a ressalva de que as particulares nem professores de renome contratam. Tanto as públicas como as privadas, porém, têm de prepara seus alunos em conformidade com as normas do Provão do MEC, ou correm o risco de ser fechadas.

Enquanto o ensino for tão dependente do Governo, enquanto o MEC der as cartas nos currículos e for a instância suprema para julgar a qualidade das escolas, estas serão apenas centros de emburrecimento, não centros de ensino.

 

SÉTIMA ARTE

Steven Sordebergh deslumbrou Cannes com seu sex, lies and videotape, seu primeiro filme, e me deslumbrou com Kafka, seu segundo. Ele é um dos diretores mais originais e de estilo mais característico a surgir no cinema na última década, mas em seus últimos filmes ele parece disposto apenas a provar aos estúdios de Hollywood que ele é capaz de fazê-los ganhar dinheiro.

Corrigindo: não em seus últimos, mas em dois dos seus três últimos filmes. Out of sight, com George Clooney e Jenifer Lopez, era descaradamente comercial, mas ainda tinha um uso interessante da câmera, e a história bobinha era bem contada.

Depois dessa incursão comercial, The Limey parecia uma volta ao curso antigo. O filme trazia o excelente Terence Stamp no papel de um criminoso que acabava de sair da prisão e ia atrás do mafioso que ele julgava ter assassinado sua filha. A história era simples, mas fazia um excelente estudo do caráter dos personagens. Só que o destaque do filme - como nos melhores de Sorderbergh - era a maneira fragmentada e recheada de flashbacks com que ele contava a história. Em The Limey, ele chegou à ousadia de adquirir os direitos do filme Poor Cow, que Terence Stamp fez na década de 60, e usar trechos desse filme, com Stamp jovem, nas cenas em que o personagem relembra passagens de sua juventude. O filme era tão interessante e ousado que foi um fracasso retumbante, e, se não me engano, nem passou nos cinemas brasileiros.

Depois desse filme, porém, ele se sai com Erin Brockovich. O filme é ruim? Não, até porque é muito difícil um filme com a Julia Roberts ser ruim. Mas é provavelmente o filme mais quadrado do ano, com uma direção burocrática que eu imaginava Sordeberg incapaz de cometer.

A história funciona bem, porque aposta na simpatia que qualquer espectador tem pelos fracos e oprimidos, quando em cruzada contra os fortes e opressores. Julia Roberts interpreta a personagem-título, uma mulher vulgar que, com muito custo, arruma um emprego num escritório de advocacia e acaba descobrindo que a empresa Pacific Gas & Eletric envenenou a água do vilarejo de Hinkley, Califórnia, com o inibidor de ferrugem Cromo 6.

Os habitantes da cidade desenvolvem todo tipo de doenças, de Hodgkin a paralisia, e Erin convence seu patrão a processar a PG&E por danos, em nome da cidade inteira. Um mérito do filme é não mostrar nenhuma daquelas tediosas cenas de tribunal que costumam povoar esse gênero, e, principalmente na segunda metade, a história é muito interessante e envolvente.

Pena que, como de costume, apesar de dizer que se baseia em fatos reais, Erin Brockovich é uma obra de ficção, que serve para quase canonizar a personagem e certamente influenciará as decisões judiciais nos casos similares com que Erin e seu patrão estão lidando no momento.

O principal problema, segundo Michael Fumento, é que nenhum agente sozinho poderia causar a multidão de sintomas que o cromo 6 parece causar no filme. Na verdade, cromo 6 só pode causar câncer de pulmão e de septo - o que leva à conclusão óbvia de que precisa ser inalado para ser agente carcinogênico. No seu estudo, Fumento cita outras evidências que destroem o caso do filme e que, segundo ele, só vieram à luz depois que o acordo judicial tinha sido selado.

Em suma: o filme faz propaganda gratuita de uma causa que só se sustenta através de mentiras, e aproveita para lançar suspeitas contra as "grandes corporações" - essas bestas-feras modernas. Sorderbergh embarcou numa canoa furada, mas ganhou um bocado de dinheiro.

Aliás, uma especulação mercadológica: Erin Brockovich é muito parecido com um filme de 1999 chamado A Civil Action, com John Travolta no papel de um advogado que vai à ruína ao processar uma grande empresa por ter envenenado a água de uma cidadezinha americana e, com isso, causado doenças nos habitantes. Por que será que Erin foi um sucesso estrondoso, e A Civil Action foi um fracasso? Será que é só por causa da Julia Roberts?

Um palpite: o público não gosta de histórias em que o mocinho não triunfa no final, e essa é, na verdade, a única diferença considerável entre Erin e A Civil Action.

Algum publicitário imbecil que, como todo publicitário, se julga um gênio, conseguiu convencer os donos do Telecine - provavelmente mais imbecis ainda - de que basta mudar os nomes dos canais para que eles aumentem a audiência, que, atualmente, não é lá das mais altas.

O publicitário, então, saiu-se com os seguintes nomes (espantem-se com a originalidade): o Telecine 1, canal de filmes novos, passará a se chamar "Premium"; o Telecine 2, canal de filmes de ação, "Action"; o Telecine 3, de dramas, "Emotion"; o 4, de comédias, "Happy"; o 5, de "clássicos" (sendo que essa gente entende por "clássico" qualquer filme feito antes de 1980, de preferência em preto e branco), "Classic".

Os nomes são ridículos, mas mais ridícula ainda é a idéia de recuperar a audiência mudando os nomes dos canais. O publicitário, que, como todo publicitário, é incapaz de enxergar além das superfícies, provavelmente presume que o público é tão limitado quanto ele.

Ora, caiam na real: os canais Telecine têm pouca audiência não porque se chamam Telecine, mas porque seus acervos são pequenos e muito, muito ruins. Essa é a chave do mistério, mas é preciso não ser um publicitário para enxergá-la.

 

NA REDE

A melhor notícia recente sobre internet é a reformulação da página do site de Dom Lourenço Fleichman sobre Gustavo Corção. Agora, além dos vários artigos, há uma bibliografia comentada, uma carta de Manoel Bandeira para Corção e um artigo de Nelson Rodrigues sobre Corção.

Para vocês verem o desprezo que este país dedica a seus melhores escritores: essa página e "O Indivíduo" são os dois únicos lugares de toda a internet onde é possível encontrar textos de Corção. Um absurdo.

Com um artigo sobre as dificuldades da CNN em se adaptar ao mercado, John Ellis encerrou sua coluna quinzenal de análises econômicas da imprensa no New York Press. É uma pena, porque, com tanta besteira abundando, a coluna de Ellis era uma fonte de informação confiável e inteligente.

Espero, ao menos, que gente como Marilene Felinto, Thomas Friedman e Artur Xexéo sigam o exemplo e encerrem suas colunas.

Excelente o artigo de Joseph Stromberg sobre a newspeak da ONU, que não fala mais em "guerra", nem em "invasão", nem em "imperialismo", e sim em "operações para manutenção da paz", que visam a "estabelecer a democracia, promover o respeito aos direitos humanos e a supremacia da lei e subordinar os militares ao poder civil" nos países invadidos. A verdade é que nenhuma dessas intervenções da ONU nunca foi benéfica ao país invadido e nunca atingiu nenhum dos objetivos alegados. Pensem na Libéria, no Cambodia, em Sierra Leoa, na Bósnia: esses são os países "ajudados" pela ONU. Grande ajuda.

Esta semana foi distribuído na Inglaterra o prêmio de que falei há algumas semanas, para o autor do melhor poema com métrica e com sentido.

Comentando o prêmio, que ele mesmo inventou, Auberon Waugh fez uma observação precisa sobre os ingleses: as duas coisas que eles fazem melhor são poesia e jardinagem. Nada sei do estado da jardinagem, mas é triste ver que a poesia britânica está decadente. Como diz Waugh, os ingleses deveriam esquecer o futebol, no qual são péssimos, e se dedicar mais à poesia.

 

ARTIGO DA SEMANA

Finalmente alguém percebeu o horror que são esses livrinhos da Jorge Zahar, de autoria de um tal Paul Strathern, propondo-se a resumir determinados filósofos "em 90 minutos".

Esses livros foram escritos por um ignorante, quase um analfabeto filosófico, para um público mais ignorante ainda, e estão recheados de preconceitos, absurdos e falsidades.

Olavo de Carvalho, em seu artigo desta semana no Jornal da Tarde, comenta um trecho do "Nietzsche em 90 minutos" no qual o sr. Strahern afirma que a filosofia "adormeceu" na era cristã, e só foi despertada por Descartes. Diz Olavo, sobre o efeito catastrófico que esse tipo de livro tem nos leitores despreparados:

"O livro que traz essa afirmação, escrito para jovens, é hoje abundantemente distribuído entre estudantes do ensino médio. Quem quer que ingresse no estudo da filosofia por meio dele levará consigo, provavelmente pelo resto da vida útil do seu intelecto, um escotoma, um ponto cego bem no meio do seu horizonte de visão. Nada tem mais força hipnótica sobre as mentes juvenis do que um tacanho preconceito revestido da aura de uma verdade libertária. Uma vez introjetado o esquema do sr. Strathern, o cérebro do leitor já não poderá ser reconduzido à normalidade nem mesmo pela improvável leitura direta dos textos aludidos - porque os textos escolásticos estarão acima da capacidade de quem aprendeu filosofia com o sr. Strathern e os de Descartes serão lidos na linha sugerida pelo sr. Strathern. "

O artigo segue com a demonstração da falsidade da afirmativa de Strahern. O problema é que Descartes, ao tomar como ponto básico de sua reflexão a existência solipsística do ego, percebe que daí nada pode deduzir do mundo exterior e apela para a bondade de Deus para justificar a existência do mundo. Segundo Descartes, como Deus é bom, ele não iria infundir certezas falsas nos homens.

Claro que essa conclusão é muito irracional do que qualquer estudo escolástico, e, como diz Olavo:

"Está claro que o sr. Strathern, seja ele quem for, jamais leu Descartes. Seu Descartes não é o filósofo de carne e osso, autor do Discurso do Método e das Meditações. É uma imagem popular, colhida na cultura de almanaque e reproduzida em milhões de almanaques para a imbecilização geral dos jovens."

E, como falamos bastante de educação na coluna desta semana, vale fechar citando o resto do artigo:

"Para metê-la [a imagem de almanaque de Descartes] no miolo mole de um ginasiano distraído, não é preciso nem os 90 minutos mencionados no título: sua ação cretinizante é instantânea, seu efeito, duradouro. Em nove segundos o leitor terá a garantia de, pelos 90 anos seguintes, não compreender nem René Descartes, nem a escolástica, nem, a rigor, coisa nenhuma.

"No entanto, não é somente pela sua facilidade de absorção que o ensinamento do sr. Strathern será bem recebido. É também porque coincide, no tom geral, com o discurso anticatólico cuja repetição psitacídea é a condição inicial para, nas classes falantes, um sujeito ser admitido como espírito esclarecido.

"E é assim que, de esclarecimento em esclarecimento, com a ajuda de solícitas professorinhas e devotados jornalistas culturais, a burrice, cada vez mais, rege o mundo."

 


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