No. 28 - 22/09/00
O New York Times publicou recentemente uma matéria sobre os padres que foram ativos na década de 60, e agora estão chegando à idade da aposentadoria. Esses senhores estão "desiludidos", porque, segundo eles, o "legado dos anos 60" não deixou marcas profundas nos padres jovens da geração que os está substituindo. Segundo eles, essa geração pode marcar uma volta ao conservadorismo na Igreja.
A maior surpresa, para esses padres, foi ver seus próprios seminários vazios, com todas as vocações verdadeiras se refugiando nos seminários que mantiveram ao menos um resquício dos ensinamentos e práticas tradicionais da Igreja.
Que esse fato os tenha surpreendido mostra como eles são inconscientes, como são incapazes de avaliar as próprias ações e as próprias idéias, e como não têm a menor noção do caráter da fé que dizem abraçar.
Praticamente tudo que os "padres" fizeram e ensinaram nos anos 60 foi negar, um por um, os pontos da fé católica. Eles negaram a autoridade papal, negaram o valor dos sacramentos, negaram a sucessão apostólica, negaram o caráter universal da Igreja, negaram pontos básicos da moral, como o aborto. E queriam, com isso, o quê? Que as pessoas ainda acreditassem na Igreja que, segundo eles, estava errada há 1960 anos e só agora, com sua ajuda iluminada, estava entrando no caminho certo?
Como é que tornando proibido do dia para a noite aquilo que a religião considerou o ponto mais sagrado de sua fé durante 1960 anos, essa religião poderia se reerguer e ganhar mais adeptos?
Quem quer que não percebesse isso à época pode, com toda justiça, ser chamado de um cretino inconsciente. O que dizer, então, dos que não percebem isso até hoje?!
Não fosse pela existência desses padres, eu não jamais acreditaria que alguém pudesse ser tão burro. Eles tiram do catolicismo todos os elementos que o tornavam catolicismo, e esperam que a nova geração de católicos continue a sua obra! É claro que não poderiam continuar. A nova geração que ouviu esses "padres" tomou o caminho natural: abandonou o catolicismo. Afinal, se o importante é a justiça social, e não os atos justos do indivíduo; se o importante é o trabalho nas comunidades, e não os sacramentos; se a moral é relativa e a doutrina também, para que continuar católico? É melhor filiar-se ao PT, ou ao Partido Democrata (nos EUA), e ir fazer campanha política e trabalhar pela reforma agrária.
Além disso, a dedução lógica da pregação desses "padres", especialmente no que diz respeito à ausência de diferença entre leigos e sacerdotes, é que a existência de padres é desnecessária e, portanto, mais uma vez, é conseqüência natural de seus ensinamentos que seus seminários sejam esvaziados. Assim, aqueles que tinham uma vocação autêntica e queriam realmente ser padres foram obrigados a procurar seminários onde o valor do sacerdote fosse respeitado, onde os sacramentos não fossem considerados irrelevantes, e assim por diante.
É por isso que, para desespero dos apóstatas velhos e para surpresa da repórter do diário esquerdista nova-iorquino, "a geração mais jovem está mais interessada em assuntos sacramentais e em questões de fé, e menos interessada nos apelos seculares por justiça social." Se assim não fosse, simplesmente não existiria uma nova geração de padres, ou só uma geração de moleques que viraram padres para praticar impunemente a sodomia e a pedofilia.
Claro que tratar desse assunto, levanta outras questões. Por exemplo, a reportagem do Times refere-se ao choro dos velhos comunas nos EUA, assim como as estatísticas mencionadas na matéria dizem respeito à nova geração de padres americanos. E no Brasil, como estão as coisas?
É difícil dizer, porque não existem estudos oficiais e, aliás, essas questões nem são discutidas na imprensa. É claro que aqui o avanço da teologia da libertação foi muito maior, e aqui a esquerda conseguiu convencer um número muito grande de católicos da mentira de que não há oposição necessária entre comunismo e catolicismo. A apostasia católica abriu espaço para um avanço enorme do protestantismo, e a estratégia da Igreja para combater esse avanço seguiu o lema "se não puder vencê-los, junte-se a eles." O resultado é que, se antes o que mais progredia eram os comunistas da "teologia" da libertação, hoje são os ridículos carismáticos que infestam a Igreja e dominam os seminários.
Os carismáticos não estão preocupados com questões de doutrina, ou de fé: estão preocupados em juntar o maior número possível de pessoas em manifestações de gosto estético cada vez pior, e adotam uma abordagem sentimentalista que, por vezes, dá saudades dos sofismas dos comunas.
Não me parece, portanto, que se possa dizer que a nova geração de padres brasileiros segue os traços dos americanos, e uma evidência disso é que não temos, no Brasil, nem uma sombra dos movimentos de restauração litúrgica tão comuns nos EUA.
Claro que, aqui, nossos velhos apóstatas também estão tristes. Eles detectam, com razão, que o movimento carismático é alienante e afasta as pessoas da política, mas isso não é ruim de todo para a "teologia" da libertação, porque essa alienação anestesia as pessoas a ponto de torná-las suscetíveis à ação de qualquer tirania estatal.
Restaria, ainda, discutir se esse conservadorismo tímido e muito ligado ao Vaticano II que se detecta nos padres americanos é suficiente para a restauração espiritual de que a Igreja necessita para recuperar-se das sandices de João XXIII e Paulo VI. Embora minha reação inicial seja de dizer que não, ainda é cedo para afirmar com certeza. O papa atual, que também teve atos que contribuiram para as ruínas do catolicismo, dá sinais de arrependimento, como indica o recente documento do cardeal Ratzinger sobre o ecumenismo.
No fim das contas, parece que estamos em tempos de transição, e um dos indícios disso é a dubiedade e a fraqueza de João Paulo II. Pode ser que o próximo papa seja um reformista radical, e aí a vaca irá pro brejo de vez, só podendo ser tirada de lá, literalmente, por milagre, ou pode ser que ele siga a linha de reinterpretação do Vaticano II à luz da Tradição, linha na qual se insere o documento referido, e inicie a restauração da Igreja.
Aposto em uma dessas duas hipóteses, e não na repetição de um papado moderado e político como o de João Paulo II, porque creio que, nos próximos anos, as políticas globalistas se intensificarão, e sua oposição ao catolicismo ficará mais evidente e, com isso, o próximo Papa provavelmente se verá forçado a decidir se adere a elas ou se as rejeita. Será tarde demais para rejeitá-las? Rezemos que não.
POLITICAGENS
Vocês já conheceram algum esquerdista que não estivesse inteiramente convicto de seu papel de redentor da humanidade? Eu nunca conheci.
Eles sempre têm as soluções para todos os problemas, e essa solução é sempre a mesma: aumentem o poder do Estado.
Através de novas leis, ou novas comissões, ou novas políticas, eles imaginam ser capazes de acabar com a pobreza, acabar com a fome, acabar com os assassinatos, acabar com as diferenças de desempenho acadêmico, acabar com as diferenças de riquezas entre as nações e com todos os outros problemas, reais ou imaginários, que vierem a suas mentes brilhantes.
Eles não acreditam num mundo real, com determinadas características imutáveis, com exigências intransponíveis, um mundo no qual 2+2=4 e A=A. Para eles, tudo pode ser mudado, desde que haja "vontade política" - e, claro, desde que o poder para efetuar as mudanças seja dado a eles.
Como diz Joseph Sobran, "a coisa mais rara é um esquerdista que não pense que seu esquerdismo é prova suficiente de que seu coração está no lugar certo." Suas políticas são sempre para o benefício da humanidade, não importa o quão monstruosas. Eles falam em nome de uma utopia futura, um Estado perfeito que trará a felicidade para todos os seus súditos, e, em nome dessa utopia, qualquer ação é justificada.
É por isso que esquerdismo e honestidade são incompatíveis. Os esquerdistas não são capazes de reconhecer seus erros passados, porque estão imbuídos dessa crença messiânica num futuro redentor, e atribuem qualquer problema causado por suas políticas ou a interferências da direita no processo revolucionário, ou a desvios temporários necessários para a conquista do objetivo final - um futuro que nunca veio e nunca virá, mas legitima todas as ações da esquerda no presente.
Assim, as vítimas de Lênin, Stálin ou Fidel são meros detalhes, meros obstáculos no caminho da revolução.
Assim, os opositores dos esquerdistas não são apenas pessoas que pensam diferente: são perigosos inimigos do povo, que querem perpetuar seus privilégios e que se beneficiam das "desigualdades sociais".
É só essa crença messiânica que justifica o fato de que, depois de tantos morticínios e tanta pobreza causados pelos regimes de esquerda, eles continuem a dizer que aumentar o poder do Estado e aumentar o controle dos burocratas sobre a população é querer o bem da humanidade.
DESINFORMATZIA
Esta não é uma frase que os leitores esperam ler nesta coluna, mas escrevo-a assim mesmo: em um assunto, tenho de concordar com Luís Fernando Verissimo. Ele disse muito bem: todo mundo que tem espaço em jornal se achou na obrigação moral de escrever sobre o caso do diretor de redação do Estado de São Paulo que matou a ex-namorada, e escreveram as maiores besteiras.
O caso, disse ainda Verissimo, é um problema particular, que diz respeito apenas aos envolvidos e a suas famílias, e não tem todo esse interesse que a imprensa procurou lhe conferir.
Pois mesmo depois que o assunto foi obsessivamente revisado, analisado, desconstruído, e já parecia esgotado, eis que um tal de Oscar Valporto escreve um artigo choroso no Globo se aproveitando do caso para defender a proibição do porte de armas.
Devo confessar que, apesar de meu temperamento pacífico, toda vez que vejo um esquerdista se aproveitar da tragédia pessoal de alguém para avançar suas causas totalitárias, tenho ganas de meter-lhe um tiro na nuca.
Mas como quem gosta de dar tiro na nuca alheia são os comunas, vamos lá, com calma, e perguntemos pela enésima vez: é difícil de perceber que o culpado pelo crime é o sujeito que atirou, e não a arma que ele usou para isso? Quão idiota o sujeito precisa ser para não perceber essa distinção?
Então, tá, sr. Valporto, o tal do Pimenta tinha porte de armas e usou sua arma para matar sua ex-namorada. E daí? Isso quer dizer que devamos proibir todas as armas legalizadas? Isso quer dizer que, se ele não tivesse uma arma legal, não cometeria o assassinato?
A resposta à primeira pergunta é não, porque não é toda a população que tem os mesmos defeitos mentais do Pimenta, e o fato de uma arma ter sido usada para um assassinato num caso não quer dizer que as armas não poderiam ser usadas para auto-defesa em outros casos.
E a resposta à segunda também é não, porque ele poderia pegar a arma de outra pessoa, poderia roubar uma arma, poderia usar um martelo, um machado, uma pedra, uma serra elétrica, uma faca, um pedaço de pano, as próprias mãos... E aí, o que vamos fazer? Proibir martelos, machados, pedras, serras elétricas, pedaços de panos, facas e mãos?
Já posso ver o sr. Valporto escrevendo um artigo sentimentalóide dizendo "se o Pimenta não tivesse mãos, ele não poderia usá-las para estrangular Sandra Gomide, e essa tragédia não teria acontecido" ou "se não tivéssemos acreditado na retórica do lobby pró-pedras, hoje elas seriam proibidas, e Sandra Gomide ainda estaria entre nós" ou "ao comprar facas, sob a alegação de que as usaria apenas para cortar carnes, Pimenta tornou-se uma ameaça para a sociedade, e acabou usando as armas mortíferas para esquartejar Sandra Gomide."
Mas eis aí, nesse artigo do sr. Valporto, um exemplo do delírio esquerdista de que falei acima. Ele imagina que um decreto governamental pode impedir que as pessoas cometam assassinatos, simplesmente por tirar delas os instrumentos para isso. Ele é incapaz de perceber as conseqüências o "efeitos colaterais" dessa política, e raciocina sobre ela a partir de um caso isolado, sem perceber as objeções mais óbvias que alguém poderia lhe fazer. Mas, não: ele está "fazendo o bem", porque está pensando na morte da pobre menina, e nenhuma argumentação poderá libertá-lo desse delírio.
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Querem ver um truque típico da desinformatzia? É o seguinte: fazer uma manchete ou um subtítulo que nada tenha a ver com o texto, dando uma impressão falsa ao leitor apressado.
Um exemplo foi a maneira como o Consultor Jurídico deu a notícia da decisão judicial no caso Wen Ho Lee. A revista diz que o artigo é uma tradução do New York Times. Não sei se a distorção está no artigo original também, mas isso não me surpreenderia (aliás, a própria matéria é muito ruim).
A manchete foi a seguinte: "Processo atômico - Cientista é libertado depois de declarar-se culpado."
Quem lê, pensa que o Wen Ho Lee se declarou culpado das acusações que pesavam sobre ele e que a Justiça americana foi leniente e libertou um criminoso confesso.
Acontece o seguinte: pesavam 59 (cinqüenta e nove) acusações sobre Lee, sendo a mais grave delas a de que ele teria roubado segredos nucleares dos EUA e os repassado para o governo chinês, isto é, teria atuado como espião. Lee declarou-se culpado por 1 (uma, ou, se quiserem huma, como nos cheques) das acusações, e uma das mais leves: a de que teria baixado indevidamente determinadas informações, para uso próprio.
Dá para perceber a diferença brutal de gravidade entre as acusações que pesavam sobre ele e esta que ele admitiu? O corpo da notícia do Consultor, embora não desse a isso a importância que merece, continha essa informação, mas a manchete era completamente enganadora.
Aliás, leitores habituais ou mesmo esporádicos das colunas de Gordon Prather (veja a mais recente) e Jude Wanniski (veja o índice de artigos dele sobre o assunto) no WorldNetDaily sabiam há muito tempo que o caso contra Lee era uma palhaçada, uma piada de péssimo gosto, na qual o Governo americano mentiu, cometeu todo tipo de abusos e feriu direitos constitucionais de um cidadão americano, como tem sido prática costumeira do Governo Clinton, que Charley Reese, com toda razão, disse que é, junto com Lincoln e Wilson, o presidente com maior desprezo pela Constituição na história americana.
Para ter uma idéia dos absurdos cometidos ao longo do caso, leiam os impressionantes comentários do juiz encarregado do caso, transcritos no Albuquerque Tribune, e lembrem-se de que leitores do Consultor Jurídico, se é que eles existem, não saberão de nada disso.
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Falando em manchetes, o que há com o JB? Será que depois da aposentadoria do Nascimento Brito o jornal foi tomado de vez pela patota do Partido Comunista?
Está parecendo. Há uma semana, a manchete da primeira página foi incrível: "Número de mortos no campo nos últimos 4 anos supera vítimas da ditadura." A intenção foi dar a entender que o Governo Fernando Henrique é responsável por sangüinários massacres de sem-terra, mas a matéria não menciona quantos desses mortos começaram os conflitos de que acabaram sendo vítimas, nem distingue entre mortes causadas pela polícia e mortes por outras causas. É jornalismo marrom - e partidário - do pior tipo.
A tentativa de pintar FHC como um continuador da ditadura militar continuou nesta semana, com outra manchete na primeira página: "FH invoca 'a ordem' e pede a prisão de líderes do MST." O destaque para o termo "ordem" dá a entender que o Presidente, lembrando os militares, quer a prisão dos líderes do MST porque eles são "subversivos", e não porque eles se dedicam a invasões criminosas da propriedade alheia; fica parecendo que se trata de um problema político, quando se trata de uma simples questão criminal.
Claro que os sem-terra são, sim, subversivos, e mereciam estar presos por conspiração contra o Estado e contra a democracia, mas FH jamais teria coragem de dizer coisas assim, ao contrário do que o JB, agora em versão Pravda, dá a entender.
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A coluna mais recente de Paul Krugman no Globo (traduzida do New York Times, que parece ser a única fonte de informação da imprensa brasileira) conseguiu ser ainda mais cretina do que de costume.
Krugman tem a cara de pau de elogiar Tony Blair por sua "fibra", ao manter sua posição de aumentar os impostos sobre a gasolina, apesar dos protestos que varreram a Inglaterra nas últimas semanas, protestos que Blair ameaçou enfrentar enviando o Exército.
A decisão de Blair foi desastrada em todos os sentidos: foi ruim para sua imagem política, criou uma crise de popularidade e aumentou os índices até então baixos de apoio para o Partido Conservador, deu a este partido um excelente tema para a próxima campanha, e mostrou, para quem tinha alguma dúvida, que a essência de toda política esquerdista é aumentar o poder do Estado e extorquir os cidadãos.
Como bem disse Gary North, o que há na Inglaterra é muito mais uma crise de impostos do que uma crise de combustível. A rigor, com o aumento de impostos de Blair, os preços não aumetarão muito, mas foi o próprio princípio que irritou os ingleses, numa revolta contra o que Daniel Johnson chamou de "kleptocracia", a multidão de burocratas sempre pronta a se locupletar aumentando a carga tributária sobre os cidadãos.
Impostos, no fim das contas, só servem para manter a classe política ocupada, sentindo-se importante e poderosa, lembrou Auberon Waugh.
Admiráveis foram os protestos dos ingleses, foi a coragem dos manifestantes de dizer ao Governo que existe um limite para o grau de tirania e de opressão fiscal que eles vão tolerar. Fibra mostraram os manifestantes que enfrentaram o poder central, se arriscando a ser massacrados por tanques à moda chinesa.
Claro que sempre surgirá um estatólatra como esse idiota desse Krugman, ou um conservador mainstream como Siôn Simon (que teve a cara de pau de chamar os manifestantes de "fascistas"!) para dizer que Blair tem mesmo de aumentar impostos para conter o consumo e melhorar o meio ambiente, ou que um governo tem o direito de fazer a política fiscal que quiser, e o povo tem de aceitar quietinho. Foi uma pena que, no fim das contas, os protestos tenham recuado, mas a chama foi acesa, a discussão sobre impostos foi lançada, e a hiena sorridente criou um problema sério para si mesma - apesar de Paul Krugman admirá-lo por isso.
MUNDO ACADÊMICO
A revista U.S. News acaba de divulgar seu ranking das universidades americanas. A lista não tem nenhuma novidade, nenhuma surpresa, mas Nicholas Thompson, na revista Washington Monthly, publicou uma interessante crítica não apenas aos métodos usados na elaboração da lista, como à excessiva importância atribuída a ela.
Não só os métodos são absurdos e subjetivos, e os resultados vão sempre na direção das universidades de sempre (Thompson descreve como isso acontece em seu artigo), mas o problema principal é que, por causa da lista, "as universidades são levadas a fazer melhorias em aspectos secundários e tangenciais."
A parte central de sua crítica, como bem notou Bill Steigerwald, diz o seguinte:
"Em um sentido, o ranking da U.S. News serve como um teste; os administradores estão preparando os alunos para ele e a sociedade, incluindo os alunos, dão importância demais a seus resultados.
"E, como em todos os níveis de educação, não há nenhum problema com isso - desde que o teste meça as coisas certas tão bem quanto possível, desde que as pessoas reconheçam que nenhum teste pode medir tudo, e desde que haja métodos bem desenvolvidos para descrever o que o teste deixa de fora. Infelizmente, a U.S. News falha no primeiro objetivo, e nós falhamos nos outros."
Agora, façamos o seguinte exercício: apliquemos esses critérios ao nosso teste de exame de universidades, o Provão. Deixemos a análise do primeiro ponto - a qualidade da avaliação - para outra ocasião, porque nos tomaria muito tempo, e vejamos os outros dois pontos.
É auto-evidente que uma simples prova não pode medir tudo, muito menos pode servir de parâmetro para julgar todo o valor de uma instituição acadêmica, e é decorrência lógica disso que é necessário o desenvolvimento de instrumentos que examinem o que não pode ser examinado pelos testes. Acontece que toda a política do MEC para a educação universitária se baseia nos pressupostos contrários. Eles aplicam uma única prova, elaborada por misteriosas comissões de "especialistas", e com base no resultado dessas provas avaliam as universidades.
Mas notemos a diferença abissal entre os efeitos da avaliação da revista americana e os efeitos da avaliação do MEC.
Ora, a primeira é feita por uma revista particular, circula nas bancas e é lida e levada a sério por quem quiser fazê-lo. Ela não tem nenhuma carga coercitiva, e, se as universidades acabam mudando suas políticas educacionais para adaptar-se a ela, fazem-no por decisão própria. Ademais, existem várias outras listas de avaliação de universidades, como a da revista National Review, e como a pesquisa publicada sob o título Choosing the right college, e os interessados em escolher uma universidade podem comparar essas diversas listas, e as universidades podem escolher qual dos critérios dessas listas elas adotarão para melhorar seu ensino - ou podem optar por não adotar nenhum dos critérios.
O Provão, ao contrário, é realizado pelo Governo, e a universidade não tem nenhuma opção: é adaptar-se ou ser fechada pelos burocratas estatais. A avaliação das unviersidades, em sua versão brasileira, não é uma simples avaliação: é uma lei de ferro totalitária que uniformiza e padroniza o ensino de todas as universidades segundo parâmetros decididos pelo Estado.
ARTIGO DA SEMANA
Imaginem a seguinte história: um aluno branco de uma universidade americana, irritado por ter um pedido de bolsa por pesquisa recusado, mata um professor negro e depois se mata. Depois disso, intelectuais brancos vão à imprensa dizer que "a imprensa não tem o direito de pintar um retrato negativo dele, porque ele se sentia discriminado e excluído pela atmosfera racista do campus e seu crime foi produto dessa tensão."
Primeiro, a história seria manchete em todos os jornais do mundo; depois, esses intelectuais que viessem dar esse tipo de desculpa idiota seriam demonizados.
Pois a história aconteceu exatamente assim como a descrevi, só que com as raças trocadas: o garoto assassino era negro e o professor assassinado era branco, e os intelectuais que defenderam o crime na imprensa eram negros.
Por causa dessa inversão da raça, o crime não é "politicamente correto", nem é um hate crime, e, então, não saiu em praticamente jornal nenhum, e, quando surgiram as justificativas raciais para o crime, ninguém achou estranho, ninguém reclamou.
Quem contou a história, em artigo na National Review, foi Naomi Schaefer, que intitula seu texto "A guerra de raças em Little Rock". Diz ela, citando a revista Chronicle of Higher Education:
"De acordo com a Chronicle, 'Ao longo dos dois últimos anos, [James E.] Kelly, que era negro, tinha se tornado cada vez mais amargurado com o que ele alegava ser o tratamento discriminatório que ele recebia no departamento de Inglês.' Um de seus ex-professores explicava que sua 'desilusão começou' quando seu pedido de crédito educacional para estudar um vilarejo na Costa Rica (habitado por descendentes de africanos que escaparam da escravidão quando seus barcos encalharam) foi negado."
A mesma revista conta que o rapaz se achava envolvido "numa guerra racial", e para isso comprou uma arma. Outros professores da universidade disseram que os sentimentos dele eram "compreensíveis". A resposta de Naomi Schaefer diz tudo:
"É importante notar que James E. Kelly não vivia num vácuo. Na verdade, ele pode ser o produto lógico, embora extremado, de tantos anos nos ambientes acadêmicos durante os quais o refrão de que as minorias são vítimas de opressão deliberada é constantemente repetido. É pouco surpreendente que alguém finalmente tenha levado esse mantra a suas últimas conseqüências."