ALVARO VELLOSO DE CARVALHO

No. 29 - 29/09/00

Ler um debate entre Emir Sader e Olavo de Carvalho é como assistir a uma queda-de-braço entre Stephan Hawking e Mike Tyson. Chega a dar pena.

Apesar disso, O Globo, como o JB tinha feito alguns anos atrás, publicou artigos dos dois lado a lado, na última edição do Prosa & Verso, o estranho caderno "cultural" do diário carioca (a discussão está disponível no site, com uma gafe hilária - os títulos dos dois artigos foram trocados - e outra devida à incompetência invencível do webmaster do Globo - a segunda metade do artigo do Emir Sader se segue à primeira metade do artigo do Olavo, e vice-versa. O site do Globo muda, muda, muda, mas continua, como eu já disse em outra ocasião, o pior site de qualquer jornal brasileiro).

O tema era o recém-lançado Dicionário crítico do pensamento de direita, organizado por alguns ilustres desconhecidos com grana estatal (i.e., tirada dos impostos de quem os paga).

O "dicionário", lembra Olavo, não tem Mises, nem Hayek, nem Jouvenel, nem Rothbard, nem Russel Kirk, nem Paul Johnson, e, aliás, só tem uma meia dúzia de pensadores direitistas sérios, mas tem um monte de pedófilos, psicopatas, racistas, e tem Walt Disney e Monica Lewinsky.

Talvez percebendo que o livro é indefensável, Emir mudou de assunto, e passou a falar dos "crimes da direita", os crimes resultados da receita do "economicamente correto", que ele atribui ao FMI.

Está bem, mas, primeiro, ele está mudando de assunto, o que não é propriamente argumentação de alto nível, e, segundo, quem disse que a receita keynesiana do FMI é de "direita"? Quem é a encarnação política de Lord Keynes, se não o líder máximo da esquerda norte-americana, Franklin Roosevelt?

Pois é: o tema "esquerda/direita" tem nuances demais, e os rótulos, no fim das contas, se aplicam a poucas coisas no mundo real. Na verdade, quem costuma designar direita e esquerda são os próprios esquerdistas: eles têm o futuro nas mãos, e quem se lhes opõe é "de direita". Nesse sentido, até Stálin pode ser "de direita", porque se tornou um entrave à utopia final - e impossível - da sociedade sem classes.

Esquerdismo, no fim das contas, nada mais é do que a crença numa sociedade futura perfeita, crença que permite ao sujeito julgar a sociedade atual pelos parâmetros dessa sociedade futura. Adoto, aqui, a definição de Olavo de Carvalho, dada em seu ensaio "O que é a esquerda?".

Qualquer direita que se permitir definir nesses termos nada mais será do que uma "direita da esquerda", uma direita que se define por se opor à esquerda. É com esse conceito que parecem operar os autores do tal "dicionário", e isso é cômodo o suficiente para quem acredita ter a receita para a felicidade humana.

Por outro lado, é possível definir "direita" como aquela facção política que defende a primazia das organizações não-estatais - religião, família, mercado - sobre o Estado. Dessa definição é possível perceber que diversas facções surgirão dentro da própria direita, e que esta será muito menos dogmática e messiânica do que a esquerda, e também que ela esteve por baixo ao longo de todo o ciclo político moderno, que é o ciclo do estatismo.

Como, então, enquadrar fascismo e nazismo?

O nazismo, claramente, não é de direita: é uma ideologia revolucionária e progressista que, em vez da classe, usa a raça como fator de justificação. É um esquerdismo racista.

O fascismo está numa zona intermediária. Embora seus valores sejam direitistas - nação, tradição - o método de defesa desses ideais é definitivamente esquerdista - o crescimento estatal. O fascismo tenta sintetizar os elementos não-estatais dentro do próprio Estado, e o resultado é que acaba por destrui-los, agindo contra seus próprios objetivos. Fascismo, portanto, não é nem de longe a mesma coisa que conservadorismo; é, na verdade, um paradoxo: o conservadorismo revolucionário.

Nos últimos anos, virou moda dizer que "direita e esquerda são faces da mesma moeda", que ambas são igualmente equivocadas, que ambas trazem totalitarismo. É hora de parar com isso. Não há comparação possível entre direita e esquerda, em termos de crimes.

A esquerda, com seus representantes máximos, os grandes defensores das utopias Stálin, Hitler, Lênin, Fidel etc. matou duzentos milhões de pessoas. Este é o fenômeno mais mortífero da História humana.

E os direitistas, o que fizeram? Cadê os crimes da direita? A direita mesmo, digo, não a direita fascista?

Tudo que os direitistas querem é que o Estado os deixe em paz, mas essa receita não pôde operar em lugar nenhum, desde que a Revolução Francesa inventou o Estado paizão, que "cuida" de todos os seus "cidadãos". Antes dessa revolução, no entanto, nunca tínhamos ouvido falar em milhões de mortos pelo Estado, nunca tínhamos ouvido falar em assassinatos na escala que temos acompanhado ao longo dos últimos duzentos anos. É a isso que chamam "progresso"?!

O ridículo na matéria do "Globo", porém, era a "ilustração" na primeira página. Um fundo preto com as seguintes palavras em branco, supostamente representantes da direita: "Apartheid, Gestapo, Revolução, Lefebvre, Operação Condor, Família, Likud, Fundamentalismo cristão, Guerra Fria, Baderna, Doi-Codi, Maçonaria, Sociobiologia, Teoria do Estado Integral, Sexualidade, Tortura, Plínio Salgado, Liga Pan-germânica, Revisionismo, ONU, Coronelismo, Franquismo, Reagan, Hooligans, Segurança Nacional, Tradição, Judaísmo, Rerum Novarum, Action Française, AIDS, Aliança Anti-comunista, Darwinismo, Escola Superior de Guerra, Comportamento, Autarquia, Nova Ordem Mundial, Cinema, Chauvinismo, Suástica, Atraso, Jacobinismo, Futebol (!), Noite de Cristal, TFP, Enéas, Rock-and-roll, Frente Nacional."

Dá para notar a incoerência, o absurdo, o ridículo? O que diabos esses termos têm a ver um com o outro?! "Action Française" com "ONU"; "Aliança anti-comunista" com "AIDS"; e assim por diante?

Ainda assim, com a manipulação do vocabulário no Brasil pela esquerda, "direita" passou a representar tudo isso aí ao mesmo tempo. É "de direita", então, um sujeito que é ao mesmo tempo defensor da tradição, da nova ordem mundial, do darwinismo, do fundamentalismo cristão, da tortura, do revisionismo e do Likud!

E, como no nosso vocabulário direita não quer dizer nada específico, mas um monte de coisa ruim combinada, ser "de direita" virou um crime terrível, enquanto ser de esquerda é prova de iluminação intelectual e moral.

Eu, porém, volto a dizer: direita e esquerda, propriamente entendidas, não são faces da mesma moeda. Ser de esquerda é defender os regimes mais assassinos e sanguinários da história humana. Ser de esquerda é ser partidário da opressão e do totalitarismo.

Não há retórica embelezadora no mundo capaz de mudar isso, e, se é para ser catalogado, é mil vezes melhor que me chamem de direitista do que que me chamem de esquerdista.

 

POLITICAGENS

Fim de semana das eleições municipais, e todos nós seremos obrigados a comparecer às urnas eletrônicas e votar em alguma imagem desenhada por legiões de marqueteiros e publicitários, depois de algumas semanas de manipulação subliminar e discussões estéreis na TV. Vai fazer alguma diferença? Vai - para o mal. Estaremos, de novo, elegendo aqueles que vão roubar nosso dinheiro para se locupletar, para fazer obras inúteis, para passar leis que nunca serão aplicadas e, quando forem aplicadas, vão aumentar o controle governamental sobre nossas vidas - e assim por diante.

O prefeito e o vereador, na verdade, são as figuras mais inofensivas da política, porque seus poderes abrangem esferas muito inferiores às dos demais políticos. O prefeito, no fim das contas, é meramente um administrador, que será tanto melhor quanto menos coisas fizer, quanto menos aparecer. Essa é a minha principal objeção ao César Maia: todo dia, o sujeito era manchete de jornal. Chato demais. E os vereadores são burocratas pagos para fazer nada.

Palhaços, mesmo, nessa história, somos nós, que vamos às urnas votar porque se não o fizermos nos tornaremos praticamente não-cidadãos, e ainda procuramos seguir as notícias sobre a eleição para tentar inutilmente escolher o menor ruim.

Me perguntam em quem eu vou votar, e revelo que, apesar de morar aqui no Rio há cinco anos, ainda voto em Campos, e não faço a menor idéia de quais sejam os candidatos por lá. Deve ser o mais novo capacho do Garotinho, que ganhará a eleição no primeiro turno, contra o mais novo capacho dos usineiros, e os vereadores que correspondem a ambas as facções. Vou a Campos votar, e vou votar nulo.

Se fosse possível, aliás, eu faria campanha pelo não-voto, e recomendaria a todos os meus quinze leitores que não votassem, mas estamos num país socialista e liberdade não é o valor preferido do Governo central, muito menos da Constituição maluca que o fundou em 1988.

Mas cá estou eu desprezando as eleições, e se a CNBB visse isso provavelmente acharia aí um motivo para me excomungar (proibido para sempre de atender às assembléias do Partido Comunista Eclesiástico!). Pois vejam só o que esses comunas de saias andam distribuindo nas missas em Santa Catarina:

"O voto é sagrado."

É isso que diz um panfleto intitulado "Eleições 2000", que, segundo me conta um leitor amigo, foi escrito pelo Conselho Regional de Pastoral, da Regional Sul IV da CNBB, e traz na sua capa apoios da CUT, MST e Pastorais Sociais.

Outro trecho sensacional, enviado pelo mesmo leitor, revela o que a CNBB entende por votos:

"De um lado temos os partidos que defendem: a manutenção do acordo com o FMI, com o Banco Mundial; o Estado Mínimo, com o mínimo de direitos garantidos aos cidadãos; a entrega do patrimônio público com as privatizações; o pagamento da dívida externa e interna com sacrifício dos investimentos na área social; um salário mínimo de R$ 151,00. Há muito tempo no poder, estes partidos, com suas políticas, tem [sic] feito crescer assustadoramente o número dos excluídos e o empobrecimento das classes trabalhadoras. Se definem, ou assumem na prática as políticas Liberais.

"De outro lado temos os partidos que lutam por cidadania, por participação dos cidadãos nas decisões, pela soberania da nação frente a ingerência externa, pelo resgate da dívida social que a nação tem com o seu povo, por salário e renda, por emprego e desenvolvimento, por um projeto de sociedade onde todos sejam incluídos. Se definem, ou assumem na prática as políticas Sociais."

Bem pergunta o leitor (os termos chulos, porém, são de minha responsabilidade): o que será essa porcaria de "sociedade onde todos sejam incluídos"? O que diabos esses cretinos querem dizer com isso?

Eis aí um mistério insondável, mas qualquer pessoa racional percebe que o panfleto foi escrito por analfabetos para analfabetos, e que só analfabetos vão cair no conto do vigário da CNBB.

Não é ridículo que essa gente divulgue, com ares de declaração oficial da Igreja, um manifesto de apoio ao partido comunista como esse? E, depois, se surpreendem quando as igrejas ficam vazias. Quem quer ir à igreja para ser doutrinado politicamente?!

Eu poderia gastar uma coluna inteira analisado cada frase desse trecho de panfleto. Mas há uma frase que me fascina, uma frase que me deixa embevecido, quase obcecado, porque poucas vezes o credo estatólatra se revela com tanta clareza, aquela clareza ingênua do idiota que não tem a menor idéia da monstruosidade que está dizendo.

Leiam de novo. Segundo a CNBB, ou segundo os "padres" que escreveram o panfleto, existem candidatos que defendem o "Estado mínimo", e esse "Estado mínimo" significa "o mínimo de direitos garantidos ao cidadão."

Essa frase contém toda uma concepção política e, eu diria mais, toda uma concepção cosmológica. Nessa concepção, as pessoas são pobres coitadas, incapazes de fazer qualquer coisa por conta própria, e que precisam desesperadamente de "direitos". Do outro lado, armado de todos os poderes, imbuído da solução para todos os problemas está o "Estado", uma entidade abstrata quase sobrenatural (como se sabe, ninguém mais acredita no sobrenatural, mas todo mundo acredita no Estado, que é o mais próximo do que podem chegar). Esse Estado iluminado pode ajudar a pessoa - que não é mais pessoa, e sim "cidadão" - a resolver todos os seus problemas. Esse Estado pode garantir que todos tenham saúde, educação, comida, roupas, amigos, um "ambiente propício ao desenvolvimento", sexo, e não sei mais quantas "necessidades básicas". O Estado é o grande benfeitor, o grande fornecedor de "direitos" e, quanto mais ele expandir sua área de atuação, quanto mais "direitos" ele garantir ao "cidadão", melhor será a vida na polis.

Não há nenhuma evidência teórica e nenhuma evidência empírica para sustentar essa crença no Estado. Ninguém nunca viu uma sociedade com a vida fantástica que o "Estado máximo", supostamente, proporciona. Mas isso não incomoda os crentes: eles querem o Estado máximo, e pronto. Eles não têm mais fé em Deus, mas têm uma fé inabalável no Estado, apesar de haver evidências abundantes da existência do primeiro, e apesar de inexistirem evidências da eficiência do segundo. Sua religião não se baseia mais no sobrenatural, mas se baseia na proposta de atribuir poderes sobrenaturais a uma entidade natural.

Essa pseudo-religião naturalista e estatólatra tem, à maneira do xamanismo, suas próprias palavras mágicas, e o panfleto da CNBB faz uso abundante delas: "cidadania", "direitos", "área social", "luta". Tem também seus elementos sagrados, e dois deles aparecem no panfleto: "voto" e "povo".

O "voto" é a instituição que decide quem controlará temporariamente o Estado, que é a fonte de toda sabedoria, e, na verdade, só é sagrado enquanto elege as pessoas certas. Quando elege as pessoas erradas, é um sacrilégio: o "voto manipulado".

O "povo" é a entidade abstrata em nome da qual tudo se justifica, em nome da qual se enobrecem todos os esforços do Estado em roubar a riqueza alheia ou em tolhir a liberdade dos súditos. O "povo", aliás, nunca tem voz própria, só a voz que seus iluminados "líderes" lhe atribuem.

Mas não se preocupem, nem se assustem os padrecos da Pastoral da Terra: eles não estão sozinhos no culto ao Estado. Seus companheiros estão por toda parte, sempre prontos a procurar para si um nicho na burocracia que comanda as vidas alheias, sempre prontos a puxar o saco de quem quer que ocupe cargos mais altos nessa burocracia. Vejam, por exemplo, a pérola da estupidez humana que produziu George Will, colunista centrista do Washington Post, em coluna elogiando um colega estatólatra, o senador americano Patrick Moynihan:

"O Governo cresce porque o conhecimento cresce, e o conhecimento freqüentemente cresce por causa do Governo."

Eis aí o credo estatólatra: o Estado torna as pessoas mais inteligentes, e as pessoas mais inteligentes devem governar as outras.

É claro que, por um lado, esse fenômeno nunca foi presenciado por ninguém, em nenhuma era da história humana, e, por outro, eu saber algo a mais que você não me dá o direito de impor meu conhecimento a você, mas isso não importa aos estatólatras, principalmente porque outro dado fundamental de sua crença é o progressismo. Não existe a sociedade perfeita hoje, mas ela existirá no futuro. Não existe o Estado perfeito hoje, mas ele (ou "Ele"?) existirá no futuro. Basta, para isso, que o poder do Estado seja aumentado, e que os burocratas certos assumam seus lugares na máquina estatal. Aí, estaremos caminhando em direção à "utopia" da "sociedade em que todos serão incluídos".

Não interessa, para essa gente, que no meio do caminho morram duzentos milhões de pessoas e que todos percamos nossas liberdades fundamentais; afinal, o "conhecimento progride" e o Estado progride junto, rumo ao conhecimento total e ao Estado total, estágio no qual todos seremos "cidadãos" com todos os nossos "direitos" garantidos. E as ovelhas imbecilizadas dizem amém.

 

NA REDE

Divertido, apesar do incômodo gosto neo-conservador e da inexplicável tendência pró-gay do jornal, o "guia do melhor de Manhattan" do New York Press.

Neo-conservadorismo, como se sabe, é o conservadorismo centrista que aceita o New Deal de Roosevelt e as intervenções estatistas "necessárias"; é representado principalmente pelas revistas National Review, editada por William Buckley, e Weekly Standard, editada por William Kristol - não por acaso, eleitas "melhor site de notícias" e "melhor revista" pelo NY Press. As duas revistas têm virtudes inegáveis, mas os prêmios são muito exagerados.

O que vale a pena mesmo, no guia, são as gozações com o New York Times e o Village Voice, além de uma brilhante crítica ao ombudsman do Boston Globe que defendeu, num dos artigos mais ridículos do ano, a suspensão do colunista neo-conservador Jeff Jacoby.

Aproveitem a visita ao New York Press para ler o último artigo de Alexander Cockburn.

É uma pena que Cockburn seja esquerdista radical, colunista da principal revista marxista americana The Nation, porque ele é um dos jornalistas mais brilhantes que eu conheço.

Sua crítica devastadora ao ridículo Thomas Friedman, correspondente estrangeiro do New York Times, é um exemplo de como críticas devem ser redigidas, e reduz Friedman a pó.

O artigo de Cockburn na semana anterior também é notável, com um resumo de como o New York Times, seus repórteres Jeff Gerth e James Risen e seu colunista William Safire ajudaram o Governo americano a prosseguir na sua imoral perseguição a Wen Ho Lee, que comentei semana passada. O defeito do artigo é que Cockburn livra a barra de Clinton, sem ter nenhum motivo concreto para isso. Como ele bem diz: "O colapso do caso do Governo contra Wen Ho Lee representa uma das maiores humihações de um jornal nacional na história do jornalismo."

Trecho esplêndido do ótimo artigo de Gary North, Bland Leaders and Bland Leviathan, no LewRockwell.com:

"Leonard E. Read, o avô do movimento libertário americano, costumava dizer no seu discurso 'antigos crentes' que os eleitores americanos num período menor que o de uma vida, 1910 a 1970, passaram de um sistema de governo civil que extraía em torno de 5% de sua riqueza para um que extraía mais de 40%, e ainda assim não foram capazes de perceber a diferença.

"Eu honestamente acredito que este é o cerne do problema político. Os eleitores entendem tão pouco do significado da liberdade, que eles não são capazes de perceber a diferença.

"Cristãos e judeus lêem o relato de José no Egito, quando José torna os egípcios escravos da divindade oficial do Egito, o Faraó, impondo sobre eles um imposto de renda de 20% (Genesis 47:24) ["{23}José disse ao povo: 'Eu vos comprei hoje, vós e vossas terras, para o Faraó. Aqui tendes sementes: semeai os vossos campos. {24}No tempo da colheita, dareis a quinta parte ao Faraó: as outras quartas partes vos servirão para semente do campo e para vosso alimento com vossos filhos e os que moram convosco.' "]. Hoje, seria necessário um corte de 50% nos impostos de todas as nações ocidentais para trazer as taxas de impostos de volta ao patamar da tirania egípcia [!!]. E quanto a um 'liberal' imposto 'fixo' de 10%, foi isso que o profeta Samuel identificou como tirania real em Israel (I Samuel 8:15, 17) ["{10}Referiu Samuel todas as palavras do Senhor ao povo que reclamava um rei: {11}Eis, disse ele, como vos há de tratar o vosso rei: Tomará os vossos filhos para os seus carros e sua cavalaria, e para correr diante do seu carro. {...} {15}Tomará também o dízimo de vossas semeaduras e de vossas vinhas para dá-los aos seus eunucos e aos seus servos. {16}Tomará também vossos servos e vossas servas, vossos melhores bois e vossos jumentos, para empregá-los no seu trabalho. {17} Tomará ainda o dízimo de vossos rebanhos, e vós mesmos sereis seus escravos. {18}E, no dia em que clamardes ao Senhor por causa do rei, que vós mesmos escolhestes, o Senhor não vos ouvirá."]. Os fiéis nos bancos das igrejas [e, lamento acrescentar, os sacerdotes nos púlpitos] não relacionam o que lêem com o que são obrigados a pagar. Eles não fazem a conexão. Eles não são capazes de perceber a diferença."

 

ARTIGO DA SEMANA

Do ponto de vista sociológico, o traço central de nossa era é a primazia da comunidade política sobre as demais comunidades. Até onde eu sei, o único sociólogo a notar isso e a dar ao assunto a devida importância foi o americano Robert Nisbet.

O artigo de Andrew Sandlin no LewRockwell.com, Let's gut the political community, é notável por recordar a análise de Nisbet. Eis o melhor trecho do artigo:

"A sociedade de hoje é dominada pelo que Robert Nisbet chamou 'a comunidade política'. Nisbet, um sociólogo conservador/libertário profundamente arguto, argumentou que o homem é uma criatura inerentemente social e, portanto, vive sua vida em comunidades (em termos simples, nenhum homem é uma ilha). Em sua extensa obra The Social Philosophers, ele descreveu e enumerou as principais comunidades nas quais as sociedades humanas, ao longo da História, se organizaram: a comuniade da guerra, a comunidade do parentesco, a comunidade religiosa, a comunidade política, a comunidade revolucionária, a comunidade ecológica e a comunidade pluralista. Ele ressaltou que no mundo ocidental, ao longo dos últimos trezentos anos, a comunidade política tem sido a comunidade dominante na sociedade.

"O que é a comunidade política? É uma sociedade centrada e dominada pelo Estado. Na verdade, na mente de algumas pessoas, usar o termo 'sociedade' é simplesmente pronunciar um sinônimo de 'Estado'. Antes dos tempos modernos, isso estava muito longe da verdade. Enquanto o Egito antigo, a Babilônia, a Pérsia, a Grécia e Roma eram predominantemente comunidades políticas, a antiga comunidade hebraica, assim como a comunidade romana, eram uma mistura de comunidades religosa e de parentesco. A sociedade não era ancorada no e governada pelo Estado, mas por famílias (famílias extensas, não o que chamamos de famílias 'nucleares'), ligadas a fortes grupos religiosos. O papel do Estado, onde existia, era negligenciável. As famílias normalmente lidavam com quase todos os problemas sociais, até mesmo o crime. Mais tarde, no Império Bizantino, a igreja era subserviente ao Estado; mas no mundo medieval ocidental, a igreja tornou-se bem forte e eventualmente servia como contra-balanço ao poder dos Estados europeus (...).

"Esta [a de limitar o poder do Estado] é uma tarefa crucial, porque, de todas as comunidades humanas, o Estado é a única que é inerentemente coercitiva. O significado simples disso é que o Estado pode matá-lo se ele não gostar do que você faz. Isto não se aplica às outras duas principais comunidades humanas - a de parentesco (família) e a religiosa (igreja). Isto não é quer dizer que estas comunidades não podem ultrapassar seus limites; quer apenas dizer que nem a família nem a igreja possuem a autoridade de matá-lo se não gostar do que você faz. Cada uma delas é um governo, mas é um governo não-coercitivo. É por isso que muitos defensors da liberdade humana apoiaram entusiasticamente famílias fortes e igrejas fortes, mesmo que eles mesmos não fossem pessoas de família ou de igreja."

O artigo continua com uma imprecisão histórica, porque Sandlin atribui ao protestantismo a criação de um novo tipo de comunidade - o livre-mercado - mas isso, primeiro, não é uma criação do protestantismo e, segundo, não é uma comunidade independente das outras. O que se trata, na verdade, é de poder econômico autônomo, que, assim como um núcleo familiar forte, uma intelectualidade independente e uma vida religiosa forte, é um elemento indispensável da liberdade numa sociedade. A invasão do poder político sobre essas esferas, em nosso tempo, é feita numa escala sem precedentes na história mundial, e é a causa da profusão de governos totalitários a que este século assistiu.

 


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