ALVARO
VELLOSO DE CARVALHONo. 30 - 06/10/00
Muito relevante a pergunta que a Bravo! fez a seus ensaístas este mês. Tão relevante que até eu, que não tenho a menor paciência para ler a revista paulista e que acho seu preço de capa absurdo, comprei esta edição. A pergunta é: "qual o balanço do jornalismo cultural brasileiro?".
Por incrível que pareça, os dois Sérgios Augustos, que de augustos não têm nada, deram boas respostas, complementando o - naturalmente - muito bom artigo de Olavo de Carvalho.
Olavo discute causas mais gerais e diz, em suma, o seguinte: a imprensa cultural brasileira reflete o estado da própria cultura brasileira, que é o pior possível, dominada que está por fanáticos que só são capazes de repetir palavras de ordem e frases feitas.
Sérgio Augusto de Andrade diz, com toda razão, que a imprensa cultural brasileira é destinada ou a retardados ou a acadêmicos - o que, no fim das contas, dá no mesmo. De um lado, estão as colunas de fofocas para consumo de donas de casa; de outro, os ensaios das nulidades intelectuais da moda, para consumo do beautiful people uspiano.
E Sérgio Augusto critica a falta de imaginação e ousadia dos editores dos cadernos culturais, mais preocupados em dar "furos" do que em tratar de temas relevantes, preocupação que surgiu quando a seção de cultura foi igualada, na falta de lógica das redações, às seções de política e economia.
Pois é a mistura de tudo isso que faz do jornalismo cultural brasileiro o lixo que é: seus editores e seus repórteres são fanáticos ideológicos, escrevem mal, não sabem distinguir temas relevantes de bobagens inúteis.
Qualquer porcaria produzida por um prócer esquerdista ganha as primeiras páginas - livros ridículos como "Os sete pecados do capital" - enquanto o simples selo do "Instituto Liberal" na capa é suficiente para garantir que nem uma linha será escrita sobre o livro na imprensa - o que explica o silêncio ensurdecedor sobre livros importantes lançados recentemente, como "A Sociedade de Confiança", de Alain Peyreffite, e "Em Berço Esplêndido", de J.O. de Meira Penna. Da mesma forma, qualquer porcaria anti-religiosa ganha as primeiras páginas, mas ninguém ouviu falar do lançamento no Brasil do último livro de um dos maiores filósofos do mundo, o espanhol Julián Marías.
O próprio Sérgio Augusto ressalta o absurdo de as capas recentes dos cadernos culturais terem sido dedicadas ao novo musical de Edu Lobo e Chico Buarque - não o espetáculo pronto, mas o início da produção e dos ensaios. E, pior, os textos dos diversos cadernos eram quase iguais, porque não eram matérias dos repórteres, e sim reproduções quase literais de press releases.
E é só para isso que serve a imprensa cultural brasileira: para reproduzir press releases e ajudar a vender ingressos para peças de teatro, filmes e shows, ou aumentar a audiência de algum programa de TV, ou para reproduzir manifestos partidários pseudo-culturais.
Enquanto isso, acho curioso notar que não temos, no Brasil, um único crítico de TV - não digo autor de coluna de fofocas sobre atores e atrizes televisivos, mas crítico de TV mesmo, desses que assiste aos programas e os comenta, seja a mais recente minissérie ou o mais recente documentário - assim como não temos crítica de cinema decente - os críticos parecem brigar para ver quem vai ter a sua frase estampada no cartaz de propaganda do filme - e que os bons críticos de pintura, teatro e literatura têm todos mais de 60 anos.
Até mesmo a Bravo!, que poderia ser um local para textos mais longos que se dispusessem a refletir sobre a cultura, tornou-se o guia cultural do paulista, uma espécie de encarte de fim de semana com mais páginas e design mais moderninho. Mas não culpo a revista, pelo menos não inteiramente. Acho que, simplesmente, não existem pessoas capacitadas para tarefa.
Ah, sim: a Bravo! também trouxe para a discussão ensaios de Otávio Frias Filho e Fernandinho Barros e Silva, mas não vale a pena comentá-los detidamente, porque o ensaio de Frias Filho é apenas uma inócua coleção de lugares comuns mercadológicos, e o de Fernandinho é uma coleção quase ilegível e totalmente desprovida de sentido e significado de lugares comuns uspianos.
Mas a coluna de Fernandinho não deixa de ser divertida. É sempre uma diversão ler coisas como: "Os neo-espiritualistas da cultura podem até não gostar, mas, mesmo em suas redomas, têm de conviver com concursos de DJs, 'intelectuais' da moda, pagodeiros e ideólogos da internet. Uma época que é ao mesmo tempo relativista e protofascista pede discernimento e lucidez. A começar pelo reconhecimento de que o inferno, sendo os outros, somos nós mesmos."
Estão vendo por que é que eu disse que a imprensa cultural é um lixo?
LENDO O LEITOR
Comentando minha tipologia da esquerda brasileira, um leitor que prefere ficar anônimo me mandou uma ótima mensagem:
From: "xxxxx"
To: <cartas@oindividuo.com>
Subject: Tipos da esquerda
Date: Mon, 11 Sep 2000 14:47:03 -0300
"Gostei muito da tua coleção de tipos da esquerda brasileira.O tipo com o qual eu convivi há bem pouco tempo foi o "filhinho da mamãe revoltado" dentro do qual eu incluo três figuras que assistiram algumas aulas comigo.
"Mas você se esqueceu de um tipo: "pedagoga-que-cospe-no-prato-que-come" no qual incluo minha ex-professora que lecionava também para os filhinhos da mamãe. Você acredita que as três figuras faltaram quase o período letivo inteiro e foram aprovados? Os caras faziam parte de diretório acadêmico e quando abriam a boca em sala se limitavam a repetir a cartilha marxista como papagaios (eu quase esmurrei um sujeito durante uma aula porque ele repetiu a expressão "lógica de mercado" seis vezes seguidas em uma "debate" em sala de aula!).
"Mas você deve ter resolvido o mistério do desempenho acadêmico dos sujeitos. Os caras apresentaram uma porcaria de seminário explicando a teoria de Marx aplicada à Educação e ao final a professorinha aplaudiu os patetas dizendo: "Ficou ótimo o seminário de vocês!". Agora me diga você: sendo os três sujeitos estudantes de História que beleza de professores você acha que eles serão? A disciplina ministrada pela dita cuja era ***** [o autor me pediu que não revelasse; direi apenas que é uma disciplina obrigatória nos cursos de Licenciatura] e ela se limitava a falar mal do Governo Federal em todas as aulas.
"Ela cometeu algumas sandices também, tais como atribuir a frase "Conhece-te a ti mesmo" ao senhor Antonio Gramsci [!!] e criticar o ensino conservador e sua moral conservadora (ela deve achar que os alunos devem ser um bando de calhordas mas que contribuam para a campanha do Betinho...). Confesso que eu quase perdi a paciência.
"Pedi à criatura durante o curso inteiro que ela apresentasse para discussão em sala um texto sobre o projeto educacional neoliberal de que tanto ela falava mal, ESCRITO POR UM INTELECTUAL NEOLIBERAL, mas ela me enrolou o curso inteiro. Eu fico revoltado com a palhaçada que vejo na minha universidade. Os caras tiveram a petulância de convidar um representante das FARC colombianas para despejar seu monte de baboseiras em plena ****! Um sujeito que é candidato a prefeito pelo PSTU lançou sua campanha em palestra em um prédio do campus da [universidade] e eu nunca vi um sujeito do PFL, por exemplo, fazer tal coisa. É incrível!"
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Mas nem tudo são flores no e-mail do oindividuo, e vejam só esta peça espetacular que recebi esta semana (o remetente não assinou a mensagem, mas como seu e-mail é "felipeguev", ele deve Felipe alguma coisa):
Date: Wed, 4 Oct 2000 13:40:48 -0300
Subject: Estado
From: "felipeguev"
To: cartas@oindividuo.com
"1-Vcs sao uns egoistas, pois tendo posicao privilegiada na vida defendem um sistema que gera miseria para quem nao tem a mesma qualificaçao escolar que vcs.
"2-Vcs sao uns mentirosos:
Participação de Alguns Estados na Economia & Renda Per Capita
Países Desenvolvidos % do Estado no PIB
Dinamarca 51.96 $34,890
Suécia 49.78 $26,210
França 42.10 $26,300
EUA 28.14 $29,080
Países Subdesenvolvidos % do Estado no PIB
Brasil 21.44 $4,802
Costa Rica 19.18 $2,680
Índia 16.76 $ 370
Etiópia 16.21 $ 110
"Além do Estado brasileiro se caracterizar como um dos mais ausentes do mundo, possui um quadro de pessoal dos mais enxutos.
"Ao contrário do que se veicula quotidianamente nos meios de comunicação, já em 1994 o número de funcionários públicos no Brasil estava muito aquém daquele que as economias desenvolvidas consideram como adequado: Brasil (8 funcionários por cada mil habitantes), Estados Unidos (26.1), França (46.4), Espanha (53.4), Itália (65), Inglaterra (91.4). (Fonte: Jornal Zero Hora, Caderno de Economia de 13 de fevereiro de 1994.)"
O que responder a esse besteirol estatólatra? Vamos lá, bem devagar.
"Posição privilegiada na vida"? Mas ele nem me conhece, como é que pode saber?
"Vocês"? Vocês quem? Essa, infelizmente, é uma prática comum a todos que mandam e-mails raivosos para cá: eles não sabem a quem estão dirigindo sua raiva. Ora, o nome do site é "O Indivíduo", e nunca são publicados artigos sem assinatura. Para quem, portanto, o nosso Felipe estava escrevendo?
Como dediquei minha coluna passada quase inteira a atacar o avanço estatal sobre a vida privada, imagino que ele esteja se dirigindo a mim. Mesmo assim, permanece misteriosa a relação entre a primeira de suas estatísticas e qualquer coisa que eu já tenha escrito na vida.
Eu não ataquei o crescimento estatal com a justificativa de isso "impedia o progresso econômico". O valor que estou defendendo não é a eficiência econômica, mas sim a liberdade, o direito de cada pessoa viver sua vida como bem entender, dentro dos limites sem os quais uma sociedade não subsiste.
Tomemos, por exemplo, um país que o nosso missivista raivoso menciona, a Suécia. Ninguém vai negar que se trata de um país próspero (isso certamente se poderia negar no caso da França, que o missivista claramente ignora), mas quem agüentaria viver mais de doze horas na Suécia?!
Poucos, o que é indicado pela alta taxa de suicídios desse que é um dos países com mais elevado grau de tirania estatal no mundo.
Há cerca de um ano, escrevi um artigo, que breve publicarei revisado na minha home-page, no qual citava parte de um depoimento do cientista político Eric Brodin, no seu livro When we are free:
""Por que deixei a Suécia? (...)
"Deixei a Suécia porque queria ser livre para escolher o trabalho que desejasse sem ser obrigado a me tornar membro de um sindicato e sem me filiar a um partido político escolhido por esse sindicato, partido com o qual talvez eu não simpatizasse. (...)
"Deixei a Suécia porque acreditava no direito de vencer do empresário, incluindo o direito de empregar quem ele considerar conveniente e o de não ser obrigado a contratar empregados por intermédio de uma agência governamental. Acho que os empregadores deveriam ter o direito de demitir os que roubam bens ou desperdiçam o tempo e acredito que deveriam poder abrir vagas sempre que quisessem e utilizar agências de emprego privadas para preencher essas vagas, um direito que lhes é negado. (...)
"Deixei a Suécia porque, concretamente, me foram negados os frutos do meu trabalho. Lá, metade de um salário, mesmo modesto, é levado pelo Imposto de Renda e alíquotas progressivas podem elevar esse desconto a até 85%. Um empregador pode ser obrigado a pagar impostos especiais sobre "lucros excessivos" e "encargos sociais". (...)
"Deixei a Suécia porque me foi negado não apenas o direito de herdar os resultados merecidos do duro trabalho de meus pais, mas também o de legar a meus filhos a minha própria herança, devido a um imposto punitivo sobre heranças, que, em alguns casos, deixaria à minha família apenas 25% de minha fortuna. (...)
"Deixei a Suécia porque, embora continue existindo no país uma liberdade formal de expressão, na medida em que existe um controle total dos meios de comunicação pelo Estado não pode haver nenhuma oportunidade de defesa de posições ou opiniões divergentes naqueles veículos. (...) Com poucas exceções, jornais e revistas de opinião recebem subsídios governamentais, com tudo que isso implica. Não pode haver um recurso efetivo contra a ortodoxia elitista de esquerda que controla rádio e televisão e que caracteriza as notícias da maioria dos jornais independentemente de seus proprietários, conseqüência de uma efetiva infiltração nas escolas de jornalismo, nas quais mais de 60% dos estudantes são comunistas (...).
"Deixei a Suécia porque busquei para mim mesmo e para meus filhos o direito de escolher a educação. Nesse país, 99,7% da educação está nas mãos do setor público e aos pais é negada uma influência efetiva - em alguns casos, são proibidos até de ver os livros que os filhos utilizam. (...)
"Deixei a Suécia porque queria ter a liberdade de escolher meu próprio médico e dentista, escolher o sistema previdenciário e de saúde que mais conviesse às minhas necessidades. Lá, isso é impossível, porque a socialização dos serviços atinge 95% dos médicos, restando apenas um hospital particular do país.(...)
"Deixei a Suécia porque queria que meu filho pertencesse a mim, e não fosse propriedade do Estado, que me 'permite' criá-lo só nos primeiros anos de vida. Queria ter o direito de educar meu filho de acordo com minhas convicções éticas e religiosas, sem ser potencialmente privado de meus direitos de pai pela denúncia anônima de um vizinho, que, pelo fato de eu ter repreendido meu filho ou restringido seus movimentos como punição temporária, tornou-me passível de uma pena de prisão. Quis abandonar uma sociedade que, declarando-se 'protetora das crianças', nega aos pais seus direitos fundamentais. Em que os tribunais acolhem um 'pedido de divórcio' de uma família apresentado por uma garota de dezesseis anos, e uma menina de catorze, com a simples autorização de uma enfermeira escolar, pode abortar sem o conhecimento ou a permissão dos pais."
É esse tipo de horror estatal que estou vendo florescer no Brasil, e sobre isso tenho escrito praticamente toda semana, porque não quero que a situação chegue a um ponto em que as pessoas que desejarem um mínimo de liberdade em suas vidas terão de mudar de país.
É preciso ser um microcéfalo para achar que esse tipo de coisa se mede pela participação do Estado no PIB. Esqueçam estatísticas inúteis, e olhem para o mundo real: o Estado brasileiro determina quantas pessoas podem andar no seu carro, regula que tipo de coisa você vai aprender na escola e na universidade, o que você pode comprar em outros países, o que você pode falar em público, onde você pode fumar, e isso é só o começo; o Estado brasileiro privatiza as estradas, mas continua cobrando impostos pelo uso delas, como cobra impostos por quase tudo e, quando precisa equilibrar suas finanças, em vez de cortar gastos com a multidão de burocratas que povoam Brasília, aumenta ainda mais a carga tributária.
É a esse tipo de peso sobre a vida dos cidadãos que eu me refiro. No Brasil atual, padres podem ir para a cadeia porque criticaram o estilo de vida homossexual, ou porque se recusaram a adotar rituais africanos nas missas. No Brasil atual, só pode exercer o jornalismo, ou a medicina, ou qualquer outra profissão, quem o Estado permitir que exerça.
Restrições desse tipo, alguns séculos atrás, seriam motivo para rebeliões populares e para tiranicídio, e talvez assustassem os próprios tiranos - e eu nem mencionei o desarmamento, nem o serviço militar obrigatório e sua nova e mais absurda versão, o "serviço comunitário obrigatório". Mas, hoje em dia, tudo o que temos são alminhas tacanhas, como esse ridículo Felipe qualquer-coisa, que acham tudo isso pouco, acham que o Estado deveria intervir ainda mais, atuar ainda mais, controlar ainda mais, para "o bem do povo".
É, os estatólatras sempre falam em nome do povo e do "bem comum", e sempre usam seus nefelibáticos lugares comuns como "justiça social" e "sistema que gera miséria". Pois que algum desses iluminados revele, por favor, a um ignorante "egoísta" como eu onde, exatamente, o Governo brasileiro ainda precisa intervir para melhorar as "condições de vida" da população.
Precisa aumentar ainda mais o imposto de renda, para penalizar aqueles que têm a audácia de ganhar mais dinheiro que os burocratas estatais? Precisa controlar ainda mais o que é ensinado nas universidades, e dar ainda mais dinheiro para os comunas que as infestam? Precisa aumentar sua ação nas escolas primárias, à moda do Governo cubano, que ensina direitinho suas crianças a adorar o Comandante (e aquelas que não aprendem ou são reeducadas nas prisões ou arriscam suas vidas tentando chegar a Miami)? Precisa reestatizar as empresas de telefonia, para que ninguém mais gaste dinheiro com contas de celular e ninguém mais perca tempo "produtivo" acessando a internet? Precisa aumentar os impostos sobre o petróleo, e o IPVA, para que menos pessoas poluam o ar com seus carros? Precisa criar ainda mais impostos para empresas, grandes e pequenas, para infernizar ainda mais a vida daqueles que têm a ousadia de criar um empreendimento próprio, em vez de esperar que o Estado trabalhe por eles?
Enfim, onde mais o Governo brasileiro precisa atuar - e, já que estamos no assunto, quantos cargos burocráticos mais precisam ser criados, já que o número deles por aqui não é "adequado"?
POLITICAGENS
Quem vai entender a cabeça do eleitor, nestes tempos em que a política é dominada pelo marketing, e os candidatos já não representam idéias e propostas, mas são produtos a ser vendidos?
Os "especialistas" podem dizer o que quiserem, mas é praticamente impossível saber o que levou os eleitores a votar de determinada maneira, porque inúmeros fatores irracionais e imponderáveis entram em cena.
No Rio de Janeiro, por exemplo, o JB, que é praticamente o órgão oficial do Governo Garotinho, atribui a vitória do Conde ao apoio do governador. Mas como saber com certeza?
A verdade é que, cada vez mais, o voto não faz a menor diferença para a atuação do político, e a distância entre o eleitor e seu "representante" no poder só aumenta. Ninguém sabe ao certo o que seu candidato fará, se eleito: os candidatos quase nunca apresentam propostas e, quando o fazem, é em linguagem ambígua, escorregadia e genérica. O máximo que o eleitor escolhe, como Alan Bock apontou muito bem em artigo no WorldNetDaily, são as linhas ideológicas gerais do governante - e essas linhas ideológicas estão cada vez mais idênticas, cada vez mais indistinguíveis.
De qualquer maneira, é curioso observar que Conde e Garotinho são políticos quase opostos. Não pelos seus partidos ou por suas ideologias, porque, como acabei de dizer, já praticamente não há diferenças entre eles, mas por suas posturas como políticos.
Garotinho é centralizador, autoritário e egocêntrico. Gosta de controlar cada detalhe da administração, não admite nenhuma voz discordante e detesta que outros apareçam mais que ele. É, também, um dos políticos mais ambiciosos do país, ao ponto de o editor do jornal campista Folha da Manhã (órgão que diz "amém" a Garotinho desde sua primeira eleição para prefeito de Campos) ter dito que, quando conheceu o Governador pela primeira vez, exclamou: "Sua ambição só será satisfeita quando você for secretário-geral da ONU!". Ou rei do mundo.
Por outro lado, Conde nem parece um político. É um administrador, trabalha quieto, quase não aparece nos jornais, fala mal em público, nunca faz frases de efeito, e dificilmente se candidatará a qualquer coisa nas próximas eleições.
Talvez, aliás, esse contraste seja uma das razões para o apoio de Garotinho a Conde, e não a César Maia, um político tão ambicioso e exibicionista quanto ele. Nosso Governador não gosta de dividir o palco - como Brizola e Benedita aprenderam rapidinho. Aliás, como eu previ na primeira vez que mencionei o tema eleições nesta coluna, ambos ficaram de fora do segundo turno carioca.
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Falando em exibicionismo e em egocentrismo, São Paulo tem um bizarro segundo turno entre Paulo Maluf e Marta Suplicy.
Devem ter sido os petistas que deram os últimos votos a Maluf, alavancando sua candidatura à frente da de Alckmin por poucos votos. Todos eles sabem muito bem que Maluf não tem a menor chance, porque os eleitores do PSDB não votarão nele em hipótese alguma.
Marta Suplicy e seu cônjuge, Eduardo Mogadon, devem ter comemorado duplamente.
Marta, aliás, é a cara da Nova Ordem Mundial, a Hillary Clinton brasileira, e gosta de repetir as mesmas estatísticas idiotas sobre a "discriminação" das mulheres. Mas acho Marta ainda pior: tirando uma ou outra visita à "igreja" metodista (que não conta mesmo), Hillary nunca se fingiu de religiosa; enquanto Marta, embora tenha as mesmas opiniões da primeira dama americana sobre o assassinato de bebês, ainda tem a cara de pau de se dizer católica. E conta com o apoio da cúria paulista, uma das mais corruptas do país.
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Mencionei Campos, e aproveito para contar aos senhores que o candidato do Garotinho, o médico Arnaldo Vianna, foi eleito com 65% dos votos, cerca de 10% a menos do que teve o próprio Garotinho nas eleições de 1996.
Com isso, serão dezesseis anos de domínio de Garotinho em Campos: ele foi eleito prefeito pela primeira vez em 1988, elegeu seu sucessor em 1992, teve uma candidatura derrotada ao governo do Estado em 1994, voltou a se eleger prefeito em 1996 (quando enfrentou até impeachment), saiu em 1998 para virar governador do Rio, deixando em seu lugar seu vice, Arnaldo Vianna, que acaba de se eleger prefeito.
No Governo do Rio, ele, até agora, mostrou uma incrível capacidade de atribuir os sucessos do Governo a si próprio e os erros aos outros, e parece ter saído com a imagem imaculada de todas as trapalhadas que cometeu até aqui e de todas as denúncias de corrupção que pesam sobre ele e seus assessores. Até parece o Bill Clinton.
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Assisti na CNN a um resumo de cinco minutos do debate entre os dois principais candidatos à Presidência americana (veja a reação de alguns colunistas da Salon aqui - não perca o comentário da Camille Paglia! - e a transcrição na íntegra do debate aqui). Esse tipo de debate, claro, é muito chato, primeiro porque, ao contrário dos debates brasileiros, um candidato não pode fazer perguntas ao outro, segundo, porque os caras mais divertidos da eleição americana - Pat Buchanan e Ralph Nader - foram deixados de fora.
Bush e Gore não divergiram em quase nada, exceto no tamanho do corte de impostos - modesto em ambos os casos - na tímida oposição de Bush ao aborto e no fato de Gore apelar a uma retórica mais radical de luta de classes, insinuando que Bush vai ajudar os ricos e que ele é que é o amigo dos pobres (dos pobres e das freiras budistas, como Bush fez questão de lembrar).
O que me espanta, porém, é a expectativa geral de que Gore se saísse melhor no debate. Porca miséria!, vejam os dois falando: nenhum deles tem muita substância, mas Bush pelo menos parece uma pessoa de carne e osso! Gore parece um robô: pescoço imóvel, toneladas de maquiagem, voz cadavérica, dicção mecânica ("I-may-not-be-the-most-exciting-politician"; you bet!); eu fiquei esperando o curto-circuito, com fios desencapados saindo pelo pescoço.
E o Lieberman, que apareceu um pouco depois?! O cara parece o Coringa, do primeiro Batman. Ele deve ter feito umas quinze plásticas no rosto, e ficou tudo tão puxado que ele tem um sorriso permanente, parece um bobo alegre. Aliás, um robô bobo alegre.
E eis aí a única conclusão que foi possível tirar do debate: os americanos correm o risco de ser governados por um par de robôs da esquerda. Como todo mundo sabe que Hollywood é um dos principais cabos eleitorais do Partido Democrata, vai ver que é para tornar esses candidatos mais simpáticos que têm saído tantos filmes com robôs que se tornam seres humanos ou quase humanos, como o repulsivo Bicentennial Man e o divertido Supernova.
NA REDE
Duas dicas para quem gosta de fotografia, mas não desses "grandes" fotógrafos que só sabem retratar pornografia.
No site da Nikon, estão as vinte primeiras colocadas no concurso "Small World", concurso de micro-fotografia prmovido todo ano por essa empresa.
Micro-fotografia, como vocês já devem ter adivinhado, é uma combinação de microscopia com fotografia, e no site vocês verão coisas impressionantes como a foto de uma célula do pulmão em mitose, a do Viagra dissolvido em amônia, a de Vitamina B3 cristalizada, e muito mais.
Outro site com fotografias interessantes é o do Sergio de Biasi, especialmente nas seções "experiments" e "kirlian".
Eu não fazia a menor idéia do que era "kirlian photography", mas esta foi a explicação que o próprio Sergio me deu:
"São fotografias tiradas da seguinte forma : coloca-se o objeto, num quarto escuro, diretamente em cima do negativo e então passa-se alta voltagem através do objeto e do filme!!!!!"
Crianças, não tentem isso em casa!
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Mencionei rapidamente, semana passada, o movimento neo-conservador americano, que tomou de assalto o movimento conservador americano no auge da Guerra Fria, e hoje dá as cartas por lá.
O assunto foi abordado com detalhes por Paul Gottfried na sua palestra no movimento Accuracy in Academia (veja aqui a lista de palestras), e ele mostrou como o antigo movimento pró-família, pró-religião e anti-Estado foi tomado por ex-esquerdistas que só queriam um esquerdismo "moderado".
Esta semana, Joseph Sobran abordou o mesmo assunto, em artigo republicado no LewRockwell.com (preciso, mais uma vez, lembrar que o termo "liberal" tem, nos EUA, um sentido diferente do que tem no Brasil e no resto do mundo):
"No fim dos anos 1960, um pequeno mas influente grupo de intelectuais liberais, revoltados com a Nova Esquerda e com a virada à esquerda do Partido Democrata, abandonou o trem. Eles logo se aliaram a conservadores tradicionais, com os quais, no entanto, eles continuaram a ter diferenças, mas estas foram abafadas."
(...)
"Apesar de algumas simpatias conservadoras, eles eram basicamente intelectuais liberais que esgotaram sua cota de liberalismo. Eles não tinham renunciado ao liberalismo; eles tinham, precisamente, tido o suficiente dele. Eles ainda eram a favor do New Deal e seus programas, e eles não se opunham necessariamente o legado da Grande Sociedade, embora tivessem algumas reservas a respeito dela. Mas eles sentiam que o país já tinha adotado todos os programas liberais que podia suportar no momento. E eles eram anti-comunistas ardentes. Então eles gravitaram em direção ao conservadorismo, sem se tornar completamente conservadores. Em pouco tempo, eles tinham conquistado a amizade de William F. Buckley, da National Review, e eram bem-vindos em reuniões de intelectuais conservadores mais tradicionais."
Aí está boa parte da explicação para o fato de a direita e a esquerda americanas serem tão parecidas uma com a outra, e também o fato de que qualquer opositor do avanço estatal é chamado de "extremista".
Como, porém, o próprio Sobran ressalta, isso não significa que alguns dos neo-conservadores não tenham coisas interessantes para dizer. Confesso que não entendo uma palavra dos escritos de William Buckley e não entendo como ele chegou a ter tanta importância na direita americana, e que não acompanho os escritos de William Kristol, mas os pais de William, Irving Kristol e Gertrude Himmelfarb, são escritores interessantíssimos. E um dos principais neo-conservadores atuais é David Horowitz, que freqüentemente escreve bons artigos. Há também, claro, Jude Wanniski, que até respondeu ao artigo de Sobran, e que tem razão em criticar o keynesianismo de alguns conservadores mais antigos, mas está errado em dar primazia à economia em relação à cultura, erro, aliás, bastante comum entre os economistas.
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Ótimo o artigo de Richard Grenier criticando a inclusão nas Olimpíadas de versões femininas de esportes que nada têm a ver com mulheres. Se eu já acho ridículos basquete e futebol femininos, o que dizer de levantamento de peso e lançamento de martelo?!
Grenier resume o problema muito bem, quando diz:
"Uma das idéias modernas mais populares é a de que as mulheres são, ou deveriam ser, absolutamente iguais aos homens em tudo. Acho loucura aceitar isso como uma proposição universalmente válida. Ela não só enfraquece as virtudes masculinas dos homens, como diminui as virtudes femininas das mulheres."
Infelizmente, até falar em virtudes femininas e virtudes masculinas virou anátema.
ARTIGO DA SEMANA
Larry Elder, em artigo reproduzido no Town Hall, conta que Richard Zeller, professor de sociologia na Universidade de Bowling Green, Ohio, acaba de pedir demissão, depois de 25 anos ensinando lá. Por quê?
"Ele queria dar um curso sobre o 'politicamente correto'. Conversando com alunos, Zeller descobriu que muitos deles se sentiam pressionados a adotar opiniões politicamente corretas para não perder o curso. Um aluno contou a Zeller que, para obter uma boa nota, ele foi virtualmente forçado por um professor a concordar que todos os brancos são racistas. Outro aluno disse que ele se sentia pressionado a adotar uma posição 'pró-escolha' a respeito do aborto, embora ele se considerasse fortemente pró-vida."
Quem nunca viu um caso desses? Quem não sabe que as universidades - e não só as americanas - viraram lugares de terror, onde impera uma insuportável atmosfera esquerdista, que ninguém ousa confrontar, por medo de ser reprovado. É a prática mais comum e conhecida nessas pocilgas: os alunos se vêem obrigados a escrever, nas provas, coisas contrárias às que acreditam, só para agradar a seus professores ideologicamente comprometidos.
Zeller resolveu dar um curso sobre essa atmosfera opressiva, e selecionou alguns livros, que, com a exceção do tolo Bell Curve, eu recomendo também :"Illiberal Education" de Dinesh D'Souza; "The Bell Curve" de R. Herrnstein e C. Murray; "Two Steps Ahead of the Thought Police" de John Leo; "Inside American Education" de Thomas Sowell; "A Nation of Victims" de Charles Sykes; e "Civil Wrongs: What Went Wrong With Affirmative Action" de Steven Yates. Poderia ter incluído "The Shadow University", de Alan Charles Kors e Harvey Silvergate.
Mas os colegas do departamento de sociologia disseram "não" e, numa votação no departamento, Zeller foi derrotado por 9 a 5.
Um professor de estudos étnicos na universidade deu uma justificativa sensacional, conta Elder: "O curso faria os alunos sentir-se bem com relação ao paradigma reinante, que desde o surgimento dos Estados Unidos diz que o genocídio é bom, o racismo é melhor, e que a melhor maneira de proceder é explorar mulheres e pobres."
Isto porque o professor ia questionar as restrições à liberdade de expressão na universidade?!
Mas minha justificativa preferida, aquela que, a meu ver, melhor resume a típica atitude dos tiranetes nas universidades, é a resposta da diretora de estudos femininos da universidade, Kathleen Dixon:
"Nós proibimos qualquer curso que diga que nós restringimos o discurso."
É como dizer, "cala a boca, seu intolerante", ou "vá para a câmara de gás, seu nazista".