ALVARO VELLOSO DE CARVALHO

No. 31 - 13/10/00

Uma das mudanças mais recentes na cultura americana é o aumento dos relacionamentos inter-raciais. Comentando os diversos aspectos do assunto, não sem um certo desconforto, o colunista Fred Reed acaba admitindo que esse aumento é a única forma de evitar que o país se desfaça em meio a conflitos raciais:

"Nossa divisão costumeira em linhas raciais não é satisfatória, dizem os defensores desse argumento. Ela promove a injustiça, e pode ser perigosa: o país realmente poderia se esfacelar numa guerra racial. Portanto, quanto mais cedo fizermos casamentos entre raças, mais cedo nossos antagonismos raciais desaparecerão. A verdade desta teoria não é imediatamente evidente, mas ela não é de forma alguma insana."

E mais:

"A longo prazo, se nenhuma explosão ocorrer, o país provavelmente vai evoluir em direção ao exemplo do Brasil."

Tomem um minuto e releiam o argumento acima: os EUA terão de evoluir em direção ao exemplo do Brasil, porque do contrário o país não suportará as guerras raciais.

A verdade, meus caros, é a seguinte: o único antídoto para o racismo é a receita brasileira: a miscigenação. Falar em racismo num país de mestiços é demência, primeiro porque, no fim das contas, as raças simplesmente não são distinguíveis por aqui, segundo porque se existe miscigenação, é porque há boa convivência entre as raças, já que ninguém tem relações sexuais com pessoas que odeia.

Mas - e cá está o X da questão - enquanto os americanos começam a reconhecer que só o modelo brasileiro pode impedir tensões raciais (que, vale lembrar, nunca ocorreram por aqui), os brasileiros, liderados por uma legião de cretinos mal intencionados, querem adotar o modelo americano!

Pior ainda: esta semana, um relatório da ONU chegou ao nosso país tentando nos fazer sentir vergonha de nós mesmos, porque somos racistas para os quais a única cura é a iluminada ajuda da própria ONU - e seus programas de racismo anti-racista à americana.

Os argumentos da ONU são tão idiotas que nem vale a pena perder tempo com eles. Digamos apenas que repetem a mesma falácia, que desmenti numa coluna recente, de que, porque os negros têm, em média, menos dinheiro que os brancos, o país é racista. Mesmo esquecendo por um instante os problemas de metodologia e os parâmetros duvidosos usados na pesquisa, existe aí uma confusão entre aceitação social e progresso econômico. Uma confusão tão primária que só pode ser proposital.

Por exemplo, nos EUA são comuns as expressões "América negra" e "América branca". Alguém já ouviu falar em "Brasil branco" e "Brasil negro"? Pode haver uma divisão entre o Brasil pobre e o Brasil rico, mas não entre as raças que compõem o nosso país. Pelo menos não até que a ONU e seus servos começassem a dar o tom do debate racial.

É que o propósito da ONU não é diagnosticar os problemas do país, porque, se fosse, eles não viriam com um besteirol desses. Seu propósito é criar problemas que não temos para enfraquecer a unidade nacional, é jogar brasileiros contra brasileiros.

Porque o exemplo americano prova para além de qualquer dúvida que não existe meio melhor de criar racismo do que instilar a "consciência racial", e quanto mais movimentos de black power, quanto mais cotas raciais tivermos por aqui, mais as divisões raciais vão se acentuar, e mais os brasileiros estarão indo no explosivo caminho americano - esse mesmo que está deixando aquele país à beira de uma explosão de ódio.

 

SÉTIMA ARTE

O Caminho de Casa.

Depois de um filme que parecia ter sido feito para agradar aos burocratas do Partido chinês, o morno Nenhum a menos, Zhang Yimou está de volta com um belíssimo drama familiar, abandonando comentários políticos de qualquer tipo - nem a crítica que marcou seus primeiros trabalhos a aparecer no Ocidente, nem o discurso conciliatório do filme anterior.

O Caminho de Casa começa num deslumbrante preto-e-branco, com um executivo voltando para a vila em que nasceu para reencontrar sua mãe, por causa da morte de seu pai. Lá, ele descobre que ela não quer que ele seja trazido de carro da cidade grande, em cujo hospital morreu, para a vila, mas quer reviver uma antiga tradição ("fora de uso desde a Revolução Cultural") segundo a qual o corpo deve se trazido para o lugar de seu enterro a pé, "para que ele não se esqueça do caminho de casa."

Antes de mostrar o desfecho dessa situação, no entanto, Yimou faz o filho contar a história do romance entre seus pais: ela, a "solteira mais bela da vila", filha de uma senhora cega; ele, um professor recém-chegado da cidade grande para montar uma escola na vila. O relato do romance ocupa dois terços do filme, durante os quais o impressionante preto-e-branco do começo se transmuda em vívidas cores, e o rigoroso inverno dá lugar à primavera.

Dito assim, parece um filme banal. Mas lembrem-se de que cinema é imagem em movimento, e que fazer filmes é contar uma história ou relatar uma impressão através de imagens em movimento. Só, pois, acompanhando a maneira como Yimou relata a volta do rapaz à sua cidade natal e suas lembranças do romance de seus pais é possível perceber a grandeza desta obra.

Nenhum outro cineasta vivo, e poucos mortos, tem o mesmo domínio das cores, o mesmo domínio dos enquadramentos, a mesma capacidade de fazer cada detalhe da cena refletir o estado de espírito das personagens.

E raras vezes veremos uma história de amor contada com tanta delicadeza, a dedicação de uma mulher a seu amado retrada com tanta sensibilidade.

Há diversas tomadas em paisagens amplas, em florestas, em jardins e na estrada do título, mas, a meu ver, a cena que melhor sintetiza a perfeição deste filme é a que mostra o trabalho de um velho, na aldeia, consertando um vaso de porcelana quebrado.

O vaso tem um papel importante na trama, porque enquanto os homens trabalhavam na construção da escola, as mulheres da vila faziam comida, e cada uma punha o prato que cozinhara numa mesa próxima à construção, para que os homens escolhessem o que preferissem. A mãe do protagonista, ainda sem coragem de falar com o professor, procurava sempre fazer os melhores pratos que conhecia, e os levava sempre no mesmo vaso.

Algumas semanas depois, com a escola já pronta, o professor foi almoçar em sua casa - ele almoçava cada dia numa casa da vila - e ela lhe perguntou se ele lembrava do vaso. Incapaz de lembra-se, mas incapaz também de contrariá-la, ele inventou que sim, e fingiu lembra-se dos pratos que ela lhe descrevia, mostrando especial entusiasmo quando ela se referiu às trouxinhas de cogumelo, entusiasmo que ela retribuiu prometendo fazer mais trouxinhas no mesmo dia, e convidando-o para voltar mais tarde para comê-las, convite que ele prontamente aceitou.

No mesmo dia, porém, um oficial chegou com um comunicado para o professor, e ele foi obrigado a voltar cidade, para responder a um interrogatório. Ele veio à sua casa avisá-la, e ela fez comoventes apelos para que, ao menos, ele comesse as trouxinhas antes de ir.

Mas ele não pôde voltar para isso, e, ao saber que ele estava indo sem comer, ela saiu correndo atrás da carroça que o levava pela estrada. No caminho, porém, ela tropeçou e derrubou o vaso de cerâmica, destruindo-o.

Num dia em que ela não está em casa, sua mãe chama o velho reparador e pede que ele conserte o vaso. E, como eu dizia, nessa cena, em que vemos com detalhes as mãos do velho manipulando instrumentos antigos e reconstruindo os cacos do vaso quebrado, estão sintetizadas não só a dor da partida do amado, como a esperança de que ele retorne em breve, esperança simbolizada também pela estrada, pelo "caminho de volta" que liga a cidade à vila.

Mas não é só o professor que percorre esse caminho; seu filho, o protagonista da história, também o percorre, tambémjunta os cacos do vaso quebrado e o reconstrói. Voltando à sua cidade natal, ele percebe a necessidade de contar para si mesmo a sua própria história, a necessidade de saber de onde veio, saber a partir de que ponto do drama humano ele surgiu.

"É importante saber ler e escrever, conhecer o presente e o passado, manter um diário atualizado", diz uma das lições que o professor ministrava às crianças. É na jornada de volta ao passado, que o protagonista melhor compreende a si mesmo no presente e "atualiza seu diário".

A consciência humana, além de consciência do mundo é consciência de si mesma - e, mais ainda, é consciência do que ela própria conhece sobre o mundo, de tal maneira que toda consciência de algo é também inseparavelmente auto-consciência, e também consciência da auto-consciência. É impossível o indivíduo conhecer o mundo sem conhecer também a si mesmo, sem conhecer suas próprias impressões sobre o mundo.

Justamente por isso o ato de contar a própria história para si mesmo é tão importante. Ele representa a fidelidade e a honestidade do ser hmano para consigo mesmo, a sinceridade de si para si, e é o ato que prepara o indivíduo para atacar as questões maiores da vida. No fim das contas, é esta a mensagem deste esplêndido filme.

 

La Veuve de St. Pierre

No mais recente filme de Patrice Leconte (do engraçadíssimo Ridicule), o ótimo cineasta Emir Kusturica faz sua estréia como ator intepretando um sujeito que, bêbado, matou um indefeso cidadão da ilha de St. Pierre, e foi condenado à morte por seu crime. Como a cidade não tem guilhotina - o único método que a República admitia - ela tem de ser trazia de uma cidade próxima, e ele fica sob a custódia do oficial do local, interpretado por Daniel Auteuil, e de sua esposa, Juliette Binoche (numa caracterização esplêndida).

Mas a mulher não gosta de ver o condenado isolado em sua cela, e resolve dar a ele várias responsabilidades, como ajudá-la a cuidar das flores, a consertar telhados de casas da cidade, a limpar as ruas. Com o tempo, o rapaz, antes odiado, se torna uma espécie de herói local, e surge um forte sentimento popular contra a sua execução, para desgosto dos administradores locais.

À primeira vista, o filme levanta a seguinte questão política: se a população desaprova enfaticamente uma medida penal, ela ainda assim deve ser tomada?

Parece ser, portanto, um apelo à "democratização" do sistema judiciário. Não preciso nem dizer que tal apelo seria absurdo. Como bem demonstrou Olavo de Carvalho no artigo A metonímia democrática, a democracia só subsiste se for confinada ao sistema político, porque os demais aspectos da sociedade se organizam segundo uma hierarquia de valores, que não pode estar sujeita ao arbítrio popular. Em outras palavras: mesmo que toda a população de um lugar aprove o homicídio e o roubo, se essa sociedade quiser manter-se intacta, continuará tendo de interditá-los.

Poderíamos também interpretar o filme como uma crítica à pena de morte, à brutalidade da morte imposta pelo Estado.

Parece-me, no entanto, que precisamos ir um pouco além, e notar a oposição central do filme: de um lado, a burocracia local, pronta a afirmar os ideiais da revolução francesa, pronta a resguardar a lei e a ordem, e com mais preocupação com a sua imagem pública do que com a justiça de seus atos; de outro, o personagem de Auteuil e sua esposa, que buscaram restaurar a dignidade do prisioneiro, reinseri-lo na sociedade, fazê-lo redimir-se de seu crime. No centro dessa oposição está o próprio prisioneiro, e ele, à medida que vai trabalhando com a esposa de Auteuil, passa de um bêbado inconseqüente a um trabalhador responsável, preocupado com os problemas da comunidade, e acaba até se casando com uma mulher cujo telhado consertara e vira um pai de família.

Dessa observação, já é possível passar para uma análise mais sutil, e dizer-se que o filme confronta duas visões da justiça penal: a pena é aplicada sobre o condenado como uma vingança da sociedade contra ele, ou como uma forma de ressocializá-lo (neste último caso, evidentemente, a pena de morte teria de ser excluída)?

Acho essa discussão meio ociosa, primeiro porque ainda não se inventou um meio eficaz de ressocializar um criminoso, segundo porque alguns criminosos simplesmente não podem ser ressocializados; a pena tem um aspecto evidente e nem um pouco nobre de "organização da vingança", aspecto que o antropólogo René Girard explicou brilhantemente no seu A violência e o sagrado, e ao mesmo tempo tem um aspecto - este sim importante, mas que tem sido enfatizado de forma excessiva pelos movimentos de repressão penal crescente - de prevenção geral, porque sinaliza para a população a conseqüência de seus atos criminosos.

Peço perdão pelo devaneio jurídico-sociológico, e volto ao filme: como o criminoso foi eficientemente ressocializado, como ele deixou de ser uma ameaça para a sociedade, a pena contra ele deixou de ter sentido, tornou-se injusta, até porque nem mesmo a função de vingança social ela cumpriria, porque a população inteira voltou-se contra ela.

Essa também é uma leitura possível, mas vamos mais adiante com os detalhes do filme. O prisioneiro progride moralmente, e a purificação de sua alma coincide com o aprofundamento da miséria moral dos burocratas da cidade. Como nenhum cidadão de St. Pierre admite exercer o cargo de carrasco, eles bolam um plano malicioso para convencer um sujeito pobre e com família a criar a aceitar o cargo; depois disso, irritados com a forma benigna como foi tratado o prisioneiro, eles bolam um ardil para condenar o oficial da cidade (Auteuil) à morte por crime de sedição.

Eis aí o que, para mim, é o verdadeiro tema central: o criminoso se arrepende e, à medida que trabalha para apagar na sua alma os frutos do ato mau que cometeu, vai se tornando moralmente superior a seus algozes. Ele caminha para a redenção, mas, ao mesmo tempo, não se rebela contra sua punição, que ele reconhece como uma conseqüência de seus atos.

É por isso que, quando a guilhotina chega à cidade, e o oficial recusa permissão para que o navio que a carrega aporte, criando a necessidade de organizar-se uma expedição até o navio para buscá-la, e ninguém aparece para voluntariar-se a participar da expedição, é o próprio condenado o primeiro a se oferecer, sob a alegação de que precisa do dinheiro para deixar para sua família. É por isso que, quando ele tem a chance de fugir para a Inglaterra, ele acaba por recusá-la, embora inicialmente hesite.

Eis o ponto nevrálgico: este filme é uma reedição do tema bíblico do "bom ladrão".

O sujeito comete um crime grave, se arrepende, se modifica moralmente, e sofre as punições temporais pelo seu crime, mas as enfrenta com a alma serena, com a certeza de que elas são preço a ser pago pelo cumprimento da promessa do Cristo: "Em verdade te digo, hoje estarás co'Migo no paraíso."

Ele sabe que o que importa não são os frutos temporais de seus erros ou acertos, mas o destino final de sua alma.

Algumas palavras sobre os aspectos técnicos do filme: da condução da câmera à elaboração de figurinos e cenários, tudo é impecável, e ainda há o benefício adicional das interpretações de Binoche e Kusturica.

E uma nota sobre o título: "veuve" é, ao mesmo tempo, viúva e guilhotina. Binoche fica viúva duplamente - de seu marido e do homem cuja dignidade ela ajudou a restaurar - por causa da guilhotina, no primeiro caso indireta e no segundo diretamente. Claro que o trocadilho é intraduzível, e talvez "guilhotina" fosse mais fiel ao filme, mas o tradutor brasileiro, por óbvias e justas razões comerciais, adotou "a viúva de St. Pierre".

 

Est-Ouest

Também da França nos chega o último filme de Régis Wargnier, com Sandrine Bonnaire e Catherine Deneuve.

É uma pena que filmes como Est-Ouest e La Veuve St. Pierre estejam se tornando cada vez mais raros no cinema francês, e este esteja sendo infestado por bobagens onanistas de esquerdistas pequeno-burgueses que sobrevivem de subsídios estatais.

Eu gostaria, aliás, que Est-Ouest ajudasse a criar um filão cinematográfico, o dos filmes que exploram dramas que ocorreram nos regimes comunistas.

Façam as contas: quantos desses vocês já viram? Assim, de cabeça, eu só me lembro de Dr. Zhivago, The Inner Circle, e alguns filmes russos como O Sol Enganador e Anna dos 6 aos 18. Notem que Zhivago é de 1965 e que Inner Circle é um filme de orçamento modesto e diretor desconhecido que quase ninguém viu. O problema todo é a infiltração do comunismo em Hollywood, estratégia muito bem orquestrada pelo Comintern, como contou Kenneth Lloyd Billingsley, se apoiando nos documentos do livro The Soviet World of American Communism, em excelente matéria de capa na revista Reason.

Verdade que, se o tema é tabu em Hollywood, também o é na França, porque poucos países tiveram uma intelectualidade tão subserviente ao Partido Comunista e tão pronta a negar os crimes soviéticos quanto a França. Est-Ouest causou um certo desconforto, mas, afinal, eram franceses os hitoriadores que publicaram o "Livro Negro do Comunismo", e este delicado tema já começa a ser tratado sem hipocrisia.

Est-Ouest conta a história de uma mulher francesa que, em 1945, depois do fim da guerra, vai com seu marido e seu filho viver no inferno - isto é, na União Soviética stalinista. Nesse período, a URSS estava encorajando a volta ao país de russos que tinham ido morar em outros países, e o médico interpretado por Oleg Menchikov aproveitou a ocasião, iludido pela propaganda comunista. Quando percebeu o erro, já era tarde demais.

O filme foge a duas armadilhas: o maniqueísmo e o sentimentalismo barato. Os personagens não são mostrados como santos; eles têm ambigüidades, erram, sucumbem a paixões indevidas, mas acabam mostrando-se nobres nos momentos que contam, e sobrevivem por atos de heroísmo.

A caracterização do opressivo ambiente soviético é esplêndida, e Sandrine Bonnaire, no papel da esposa, atua sempre no tom exato, mostrando o sofrimento da personagem com a situação em que vive, e sua obstinação em sair dali de algum jeito.

A personagem de Catherine Deneuve também é interessante: uma atriz de esquerda, que faz uma excursão aos países comunistas para conferir de perto o resultado de seus ideais, mas acaba descobrindo a situação da personagem de Sandrine, e acaba por ajudar a resgatá-la.

São muitos os temas de que o filme trata, e há uma boa dosagem de romance, drama familiar e suspense (nos momentos em que, primeiro, um jovem nadador tenta escapar da Rússia e, depois, no momento da fuga de Sandrine). Mas minha cena preferida envolve o relacionamento entre mãe e filho.

Para explicar, preciso expor alguns detalhes: a personagem de Sandrine, num momento do filme, é presa em um campo de concentração, por ter ajudado na fuga do jovem nadador. Ela passa muitos anos lá, não me lembro exatamente quanto tempo, mas tempo suficiente para que, nesse período, seu filho, que era apenas uma criança, se tornasse quase adulto.

Quando ela sai, e a família se reencontra, existe uma certa tensão, porque o garoto repete alguns clichês do regime, afirma que era uma pena que o "camarada Stálin" tenha morrido antes de ter podido intervir pessoalmente no caso de sua mãe, porque ela era inocente. Ela responde que era culpada, que tinha mesmo ajudado o rapaz a escapar.

Esta tensão só se resolve no momento em que os dois estão executando o plano que o marido bolou para que eles escapassem, mesmo ao sacrifício de sua própria liberdade. O garoto se vira para a mãe e diz: "Meu pai elaborou o plano, e me contou dele. Durante semanas, fiquei pensando, sem saber o que fazer, mas acabei concluindo que não quero viver longe de você."

A maneira como a cena é realizada mostra claramente seu propósito: por mais propaganda que um governo totalitário tente impingir aos jovens; por mais que o Estado tente substituir os pais, ainda existe um laço sagrado, um laço de amor que une pais e filhos e que o totalitarismo, com todas as suas ameças e todas as suas técnicas de lavagem cerebral, é impotente para destruir, desde que as pessoas envolvidas se esforcem para presevá-lo. Ninguém consegue roubar a liberdade interior daqueles que a cultivam. Nestes tempos em que só se fala em intervenção estatal sobre a família e sobre a consciência, é bom que um filme nos lembre disso.

 

DESINFORMATZIA

O melhor jornal para informações que dizem respeito aos conflitos entre árabes e judeus no Oriente Médio é o inglês Independent, especialmente as colunas do repórter Robert Fisk.

Na maioria dos outros jornais, parece que os palestinos é que estão atacando Israel e que o exército israelense, coitadinho, está apenas defendendo o Estado de Israel da ameaça terrorista.

Gente que define assim uma situação na qual crianças jogando pedras são respondidas com tiros de fuzis devia ter vergonha de levantar da cama de manhã, e mais ainda de escrever artigo na imprensa.

Charley Reese definiu muito bem:

"Não consigo entender como qualquer pessoa decente pode argumentar que os judeus - 50 anos depois do fato - merecem compensações por propriedades tomadas pelo governo nazista mas que os refugiados palestinos, cujas propriedades foram tomadas pelo governo israelense, não têm nenhum direito de compensação."

Por outro lado, o WorldNetDaily, o principal site "alternativo" de notícias, fez o papel vergonhoso de contratar recentemente o ridículo Hal Lindsey, e o último artigo deste cidadão é coisa mais bisonha que eles já publicaram, ao insinuar que o que todos vimos na televisão é falso, e que na verdade foram os palestinos que mataram o garoto Mohammed al-Durah.

Os próprios israelenses, aliás, não parecem muito comovidos com o assassinato do garoto, e um deles disse à reporter Emma Williams, da The Spectator, "Ele jogou pedras, ele toma um tiro. E daí?", como contou Taki no trecho abaixo de seu último artigo:

"Tendo coberto a guerra tanto no Golan quanto no deserto de Sinai, achei repugnante ler que o exército de Israel agora está usando helicópteros para atirar mísseis contra crianças que estavam atirando pedras. Isto é um absurdo, e os políticos e tablóides jingoístas desta cidade [Nova York] deveriam ter vergonha de si mesmos. Os palestinos não começaram isto. Ariel Sharon começou, e a arrogância israelita está fora de controle. Como um israelita disse a minha amiga Emma Williams, escrevendo na The Spectator, 'Ele atirou pedras, ele toma um tiro. E daí?' Os israelitas podem fingir deplorar o assassinato de crianças e de motoristas de ambulância correndo para ajudá-las, mas depois de 52 anos de opressão aos palestinos, um dia - infelizmente, não no meu período de vida - haverá retaliações. "

 

ARTIGO DA SEMANA

Thomas Woods, no LewRockwell.com, escreveu um artigo sobre quatro coisas que está aguardando ansiosamente. Deixemos as duas últimas, que são específicas da política americana, e vejamos as duas primeiras:

"1) Eu estou esperando um líder negro que tenha a coragem e a integridade de dizer algo como o seguinte:

" 'Meu povo, é hora de encarar os fatos. Quaisquer que tenham sido as injustiças e humilhações que sofremos no passado, e elas não foram poucas, não pode haver desculpa por não pormos nossa casa em ordem hoje em dia. Quando um grupo de rufiões inicia uma confusão num estádio escolar, nenhum povo com alguma dignidade e orgulho corre em sua defesa. Um povo digno não pede nada abaixo de virtude e excelência.

" 'Eu seria a última pessoa a argumentar que não estamos vivendo num dos períodos culturais mais depravados da história. Ao mesmo tempo, a cultura sendo vendida à nossa juventude negra é a pior e mais depravada de todas. Por que nenhum de nós levantou a voz para um desses 'músicos' - cuja 'arte' encoraja a promiscuidade, o estupro e até o assassinato, e diz aos nossos jovens que é certo tratar as mulheres como objetos descartáveis - e lhes disse que eles são uma desgraça para a memória de nossos ancestrais, como o hoje vilipendiado Booker T. Washington, que exigiam de nós que nós nos educássemos e nos elevássemos a um nível no qual a América branca teria de levantar-se e nos notar? É isso o que a cultura dos nossos jovens está fazendo pela próxima geração?

"(...) 'Nós devemos, especialmente, nos lembrar do conselho de São Pedro em sua primeira epístola. Ele estava falando para cristãos contra os quais a perseguição poderia começar em qualquer momento, mas sua mensagem se aplica a nós de uma maneira especial. Os cristãos, ele disse, devem ser bons, de tal forma que, se eles forem perseguidos ou tratados de forma injusta, todos saberiam que sua fé havia sido seu único crime.

" 'Vamos, então, arregaçar as mangas e trabalhar. Para o inferno com as provocações de ódio racial de Jesse Jackson e Al Sharpton. Vamos conquistar algo genúino, para variar.'

"2) Eu estou esperando o seguinte de algum bispo católico:

" 'Meu caro povo laico católico, eu devo lembrar a vocês que em questões de julgamento e prudência o corpo do episcopado, em união com o Papa, não é infalível. Nós provamos isso com o que pode caridosamente ser descrito como um sério lapso de julgamento que mostramos com a inexplicável série de mudanças que instituímos à sombra do Vaticano II, mais notavelmente o rito revisado da Missa.

" 'Meus irmãos no episcopado têm tentado desperadamente explicar de outras maneiras o catastrófico declínio em vocações que ocorreu depois desse Concílio, mas não há como escapar da conexão entre esta situação infeliz e o novo rito da missa. Nos maus dias antigos, o padre era uma figura de respeito, o único que podia se aproximar do tabernáculo, o único que podia distribuir o Pão da Vida aos trepidantes comungantes na beira do altar, e que não dava a mínima para a popularidade ou para o aplauso do mundo. Ele oferecia um belo e majestoso rito da Missa que até mesmo os não-católicos achavam impressionante e sublime. Pode ser alguma surpresa, então, que os jovens sejam menos atraídos pela moderna figura do padre, que os esquerdistas fizeram de tudo para tornar efeminada e desprezível, e cujos ritos da Missa foram tão criminosamente destruídos e expurgados do mistério e da adoração que uma vez converteram um mundo?

" 'Estamos vivendo num mundo que se torna mais agressivamente vulgar e imoral a cada dia. Agora não é a hora, se é que alguma vez houve tal hora, de suprimir, ou de permitir apenas em raras instâncias, a Missa imemorial que foi uma fortaleza da Fé e uma fonte certa de graça por tantos séculos. Estamos numa guerra, meus amigos, e o missal tradicional é nossa maior arma. Para um mundo que crê que nada é imune à mudança, que até mesmo a família está sujeita à redefinição de acordo com os caprichos humanos, respondamos com a piedade e a reverência da Missa Latina tradicional, que em sua beleza e sua solenidade, e na sua preservação das tarefas sagradas para padres apenas, nos recorda que algumas coisas não devem ser tocadas pelo homem. De que mensagem o nosso mundo precisa mais do que dessa?

" 'Retornem, então, meus padres, ao rito tradicional da Missa, nunca suprimido pela Igreja e ainda uma realidade viva nas vidas de milhões ao redor do mundo. Neste esforço vocês terão toda minha assistência.' "

Claro que Woods, assim como eu, ainda está esperando...