ALVARO VELLOSO DE CARVALHO

No. 32 - 20/10/00

A universidade brasileira é obcecada com a "produção do conhecimento" - que ela entende como sinônimo de produção de teses. Esse é, inclusive, o critério usado pelo MEC para avaliá-las: para o MEC, quanto mais teses produz uma universidade, melhor ela é.

Essa é a prioridade do ensino: produzir teses, produzir papers, produzir resultados externos do aprendizado. É para isso que os alunos são preparados.

Uma análise mais cuidadosa, no entanto, revela, antes de tudo, o seguinte fato: é impossível "produzir conhecimento", porque conhecimento não é um produto social, e sim o resultado da percepção de um determinado indivíduo num determinado instante. O máximo que esse indivíduo produzirá, como sinal exterior dessa percepção, é um registro dela, registro esse que conterá uma seqüência de atos intuitivos que, se refeitos, levarão à mesma conclusão. Não existe conhecimento quando o registro simplesmente é produzido; existe quando ele é compreendido, isto é, quando é lido por alguém capaz de refazer o percurso cognitivo que ele indica e, do texto passar à coisa de que ele trata, repetindo, assim, a intuição do autor.

Disso se percebe que, no processo de conhecimento, é mais importante a capacidade de reconhecer a verdade do que a de produzir registros, e que esta é apenas uma decorrência daquela. A conseqüência educacional disso é que é mais importante produzir indivíduos capazes de compreender os registros disponíveis do que indivíduos capazes de produzir novos; é mais importante produzir homens cultos e inteligentes do que homens bem treinados para, seguindo algum modelo oficial, produzir uma tese que ninguém vai ler e que só servirá para que ele galgue novas posições na carreira acadêmica.

Esta questão pedagógica é um dos temas centrais da imensa obra do prof. Olavo de Carvalho, e talvez um dos temais que nossa academia mais urgentemente precisa ouvir.

Ele ressaltou esse ponto em palestra recente, ao lançar a pergunta: "Não estamos enfocando mais, na educação, a produção de objetos culturais do que a formação de homens cultos e inteligentes capazes de compreendê-los?"

Falamos tanto em progresso do conhecimento, mas confundimos esse progresso com o aumento no número dos registros. O próprio Olavo sugeriu que se fizesse um estudo da proporção entre o número de registros sobre o número de pessoas capacitadas para compreendê-los, e é fácil perceber que o primeiro tem crescido, mas o segundo não. Na verdade, cada vez mais notamos que as pessoas esquecem coisas que eram de domínio comum há algumas décadas, e ignoram soluções para problemas que datam de séculos e mais séculos.

Por exemplo, a ignorância contemporânea a respeito da história é estarrecedora, como evidencia artigo de renomado "filósofo" brasileiro que - porca miséria! - falando sobre temas educacionais disse que "o ensino de um único ponto de vista em matéria controversa é uma doutrina medieval"; ou aqueles dementes que, sempre que criticamos o comunismo, dizem que estamos exagerando, ou que o comunismo morreu; ou aqueles que repetem, com ares de douta sabedoria, argumentos anti-religiosos que foram respondidos pela Patrística há mil e setecentos anos, e ainda dizem que a Igreja sempre teve medo de discussões.

E, então, volto à pergunta do prof. Olavo: "não há algo errado com um sistema que produz tantos registros, enquanto as pessoas são cada vez menos capazes de compreendê-los e lembrar-se deles?"

Lembremos, por exemplo, que em certas ciências nem mesmo os companheiros de departamento entendem as pesquisas um do outro, e notaremos a que ponto chegou o distanciamento entre registro e conhecimento.

Foi isso que o Olavo chamou de "desvio fundamental do sistema educacional". Invertemos as prioridades, e estamos mais preocupados em produzir simulacros de inteligência, sinais exteriores de conhecimento, do que a própria inteligência - "a capacidade de apreender a verdade".

Não confiamos na nossa própria inteligência, não confiamos na inteligência dos outros, e, portanto, precisamos de diplomas para satisfazer nossa desconfiança, e passamos a cultuar esses pedaços de papel como se fossem provas necessárias e suficientes de sabedoria.

E, com isso, acabamos diminuindo a pessoa humana, diminuindo a capacidade humana, e chegamos ao estágio deprimente em que alguns indivíduos não conseguem mais perceber a distinção entre o homem e o macaco.

Afinal, como diz o próprio Olavo (no texto "Inteligência e verdade"): "O que nos torna humanos é o fato de que tudo aquilo que imaginamos, raciocinamos, recordamos, somos capazes de vê-lo como um conjunto e, com relação a este conjunto, podemos dizer um sim ou um não, podemos dizer: 'É verdadeiro', ou: 'É falso'. Somos capazes de julgar a veracidade ou falsidade de tudo aquilo que a nossa própria mente vai conhecendo ou produzindo, e isto não há animal que possa fazer."

 

SÉTIMA ARTE

A Cor do Paraíso

Enquanto ainda acompanhamos os créditos de abertura, começamos a ouvir o som de um gravador: a fita começa, toca um pouco, e pára. "De quem é esta? É sua? Pegue-a." Os mesmos sons e a mesma frase se repete várias vezes, até que os créditos terminam e percebemos que a cena se passa numa escola de crianças cegas. É o começo das férias, e as crianças estão recolhendo suas coisas para aguardar seus pais, que os levarão para suas casas.

Todos vão embora, e fica um garoto. E aí, enquanto ele espera seu pai, ele ouve um ruído no meio de um arbusto, e vai tateando, até achar a fonte do ruído, que é um passarinho, ainda sem asas, que acaba de cair no ninho. Acompanhamos, passo a passo, o esforço do garoto para devolver o passarinho ao ninho.

Passaram-se apenas dez minutos de filme, mas esta cena, do garoto cego com o passarinho, é daquelas que costumamos ver no ápice de filmes sentimentais. A cena é sentimental, sem dúvida, mas é incrivelmente bem feita, incrivelmente sincera; é impossível não se deixar comover. Mas vem a dúvida: e agora? O filme vai manter o mesmo nível?

É, certamente, uma manobra ousada pôr uma cena dessas logo no começo. Primeiro, porque há o risco de descambar para a chorumela, armadilha na qual qualquer diretor americano cairia. Segundo, porque, como já disse, esse tipo de cena costuma ser o ápice dos filmes, mas, cá está, posta no começo, como uma introdução à personagem.

Pelo menos uma coisa fica logo estabelecida: este não é o tipo de filme intelectualizado e ambíguo que nois acostumamos a esperar do cinema iraniano. O diretor Majid Majidi é sentimental e, com o risco de parecermos igualmente sentimentais, podemos até dizer que ele fala direto ao coração. Vai dar certo? Ele conseguirá passar uma mensagem tão poderosa quanto seus colegas mais intelectuais? Chegaremos à resposta aos poucos.

Depois de muita espera, o pai do garoto finalmente chega, mas não parece interessado em falar com o garoto, e sim com o diretor da escola.

"Por favor, eu não posso sustentá-lo. Fiquem com ele."

"Não somos uma entidade de assistência social, senhor, somos uma escola. Não podemos ficar com seu filho. Não o decepcione: ele está esperando por você."

Contrariado em seus planos de se livrar do peso de ter um filho cego, o pai acaba se conformando, e inicia a viagem de volta ao vilarejo interiorano onde moram.

Lá, o garoto é recebido pela avó e pela irmã que o adoram. Ele traz um presente para cada uma delas, e seu encontro com a avó, no meio de uma plantação, é outra cena extraordinária.

Logo, porém, descobrimos, ao menos aparentemente, por que o pai quer tão desesperadamente livrar-se do garoto. Ele, viúvo, está apaixonado por uma mulher da cidade e, depois de uma reunião meio constrangedora com a família dela, consegue finalmente acertar a data do casamento. Ele não quer casar-se e manter o filho cego.

Enquanto isso, vemos o garoto ir à mesquita com sua avó, e vemo-lo ir à escola com sua irmã - e, na escola, ele surpreende a todos, porque a lição em seu livro - em braile - é a mesma dos livros das outras crianças, e ele consegue lê-la com muito mais precisão e rapidez do que elas.

Mas o fato de ele ir à escola é a gota d'água para o pai, que já tem o destino dele traçado em sua cabeça: levá-lo para aprender carpintaria com um carpinteiro cego que mora em uma vila vizinha, e é isso que ele faz no dia seguinte.

No caminho em direção ao carpinteiro, há uma cena curiosa: pai e filho estão no meio de uma floresta, onde o pai tem um trabalho a fazer. Ele deixa o menino num canto, por alguns instantes, e vai fazer seu trabalho. Nesses instantes, o menino se dirige, sem perceber, para a beira de um precipício, e o pai apenas observa, de longe, incapaz de mover-se para ajudá-lo. Um homem passa por perto e acaba puxando o garoto de volta para a floresta, mas o pai continua apenas observando.

Para não me alongar demais na história, resumirei: o garoto vai trabalhar com o carpinteiro cego e, enquanto isso, sua avó tem uma discussão séria com seu pai, revoltada com o que este fez, e vai, a pé, em direção à vila onde está o carpinteiro. Ela cai no meio do caminho, e fica gravemente doente, em casa.

A discussão girou em torno dos problemas na vida do pai, que ficou sem emprego, perdeu a esposa, e ainda teve um filho cego, do qual quer livrar-se, o que, para sua mãe, é inadmissível. Ela sai de casa quando ele blasfema: "onde estava o seu Deus durante isso tudo?"

Quando já está de volta, e doente, ela não quer mais conversar com ninguém, e, pressentindo a morte, passa seus últimos dias rezando.

Sua morte acaba provocando o cancelamento do casamento previamente marcado, porque a família da noiva a percebe como "sinal de maldição" e decide que o casamento traria má sorte.

O pai recebe esta notícia por carta, que ele lê dentro de um celeiro escuro. O celeiro escuro simboliza a descida aos infernos, e este é o momento máximo em que ele observa as próprias fraquezas, reconhece a multidão de sofrimentos que teve ao longo da vida, mas, desta vez, não blasfema. Ele sai do celeiro e pega seu cavalo para ir buscar o filho.

O filho, por sua vez, se adaptou bem à carpintaria, e já produziu um belo pássaro de madeira, enquanto lamenta sua solidão e lamenta ser cego, porque por ser cego não pode ver a Deus. O carpinteiro responde que Deus é invisível, e que não é preciso enxergar para percebê-Lo.

O pai chega e quer levar o filho de volta para a fazenda. O verdadeiro motivo pelo qual ele queria livrar-se do filho, percebemos aí, não é o casamento ou as necessidades da vida prática: é porque o filho cego é o símbolo de seu sofrimento e de sua própria cegueira para enfrentar esse sofrimento. Ele só vem buscar o garoto porque já é capaz de aceitar esse sofrimento, porque quer começar a enxergar.

No caminho de volta, porém, a tragédia acontece: eles estão atravessando uma ponte, o garoto sentado no cavalo e o pai puxando, e, depois que o pai passou, o garoto e o cavalo caem e são arrastados por uma forte correnteza. Mas ele já não consegue ficar indiferente: embora hesite em princípio, acaba se jogando na água, para tentar resgatar seu filho. Ele vai descendo a correnteza, batendo com a cabeça em algumas pedras, e vê um dos sapatos de seu filho preso a um galho, antes de desfalecer.

Ele acorda numa praia, e vai procurar o filho, que está a alguns metros - aparentemente morto. Ele abraça o filho, que não se move, e a câmera começa a se distanciar da cena, até que vemos as costas do menino, sendo abraçado pelo pai, com os praços pendurados. De repente, uma de suas mãos é iluminada e começa a se mover.

Termina aí o filme, e eu preferi contar a história a ir direto para a análise, porque este simples resumo já deixa clara a mensagem do diretor e faz com que praticamente não precisemos dizer mais nada.

Um detalhe interessante, que não contei acima, é que o garoto cego "lê" a natureza (e, através do magnífico uso que o diretor faz do som e das imagens, nós "lemos" junto): ele passa as mãos nas folhas, na areia, na terra, como se estivesse lendo um livro em código braile - segundo ele, para procurar Deus. Mas ele não precisa procurar, porque Deus não precisa ser procurado: Deus apenas precisa ser aceito.

O garoto não vê a Deus na natureza, porque Deus não se confunde com a natureza, mas ele tem uma tal percepção da harmonia natural que percebe que essa harmonia só pode ser sustentada pelo sobrenatural que a abarca e que não pode ser visto, mas é a suprema evidência.

Essa percepção o garoto cego tem desde o início, mas ele só se conscientiza dela depois da conversa com o carpinteiro. Mas o desenvolvimento dela é o que falta ao pai, e é a história de sua progressiva aceitação da influência sobrenatural de sua vida - do sentido de sua vida - o tema principal do filme.

Ele é o verdadeiro cego, é ele que não consegue enxergar a ação divina sobre a sua vida, e, justamente por isso, tenta livar-se de seu filho.

Como já disse, o momento em que seu casamento - sua última esperança de felicidade - é cancelado é o momento da virada moral em sua vida. É o momento em que, para lembrar as palavras brilhantemente paradoxais de Georges Bernanos, ele começa a conquistar a Esperança que só os que chegaram ao fundo do desespero podem conquistar.

Mas ele só chega ao fundo do desespero - e só conquista a Esperança - no final. Porque aí, depois que ele pegou seu filho de volta, ele vê o garoto escapar dele, vê a natureza realizar seu desejo perverso anterior - um desejo do qual ele, agora, começa a ser livrar. E neste momento ele se descobre capaz de dar a sua própria vida para salvar a do filho, ele se arrepende das maldades passadas e busca a redenção. E, aí, Deus se mostra para ele, com evidência máxima, ao ressuscitar seu filho.

Ele enxerga o sobrenatural, e confia nele, depois que deixou a confiança neste mundo, depois que abandonou suas esperanças de felicidade terrestre, e percebeu que só em Deus sua alma pode repousar.

Esta é a mensagem mais profunda do filme: a natureza, em sua beleza e harmonia, reflete a perfeição divina, e é só olharmos de perto para percebermos isso; mas este mundo é, essencialmente, um lugar de dor e sofrimento, e é muito mais difícil enxergar a Deus no meio desse sofrimento. Ele parece silenciar, parece se retirar de cena e nos deixar sozinhos, à mercê de forças que não compreendemos e que parecem destinadas a fazer de nossas vidas uma piada cósmica.

A blasfêmia que o pai lança à sua santa mãe, "onde está o seu Deus que me deixa sofrer tanto?" é a mesma blasfêmia que proferimos incontáveis vezes em nossas vidas, filhos rebeldes e almas torpes e cegas que somos.

Mas nós também não queremos ver nossa própria torpeza, nós também não queremos descer aos infernos e não queremos aceitar as oportunidades de aprendizado e purificação que a Providência nos oferece. E transformamos oportunidades de salvação em causas de danação, porque somos incapazes de enxergar nossa própria vida sob o pano de fundo de nosso destino final, e somos profundamente desesperançados.

Não que não tenhamos "esperanças". Temos, sim, claro que temos. Mas são esperanças nas coisas mais idiotas, nas promessas mais passageiras, mais ligeiras, mais desimportantes. Acreditamos no progresso da humanidade, acreditamos que Deus nos dará saúde, emprego, sexo, dinheiro - aliás, nem bem acreditamos: exigimos. E, quando rezamos por algumas dessas coisas e nossas preces não são atendidas, logo balançamos em nossa "fé", logo perdemos a "esperança" - porque não temos fé coisa nenhuma, e esperança coisa nenhuma.

Sim, a Esperança, caros amigos, é só para os desesperançados - para os desesperados. Para os que não precisam apostar neste mundo, não se iludem com promessas vãs e, portanto, não vendem sua alma para ganhar o mundo, mas perdem o mundo para manter a integridade da alma. E, mais ainda, é para os humildes: aqueles que aceitam a verdade como ela é e que reconhecem a própria miséria.

E assim, no meio das tribulações, no meio dos sofrimentos, é possível enxergar a mão divina, é possível enxergar o sentido que a situação aponta, o dever a cumprir não para triunfar na Terra mas para tentar assegurar a salvação da alma.

A Cor do Paraíso - que, no original, se chama A Cor de Deus - é um filme profundamente muçulmano, mas não entendo de islamismo, e, como essa temática é muito cara ao cristianismo, não resisto em chamar à cena um dos representantes máximos do cristianismo, para comentar a questão do "silêncio de Deus" levantada pelo filme. Santo Agostinho, em seu "Sermão sobre a Devastação de Roma", prefigura alguns dos temas de que viria a tratar com detalhes na "Cidade de Deus". Valeria citar o sermão inteiro, mas vou citar apenas duas partes - a partir da tradução para o português de Luiz Jean Lauand, numa compilação notável lançada há pouco pela Martins Fontes, chamada "Cultura e educação na Idade Média" (grifos meus):

"III

"No entanto, meus irmãos (que vossa caridade preste especial atenção às minhas palavras), ouvimos a leitura do santo Jó, queperdeu tudo: os bens e os filhos. E até a própria carne - a única coisa que lhe restava - não lhe ficou sã, mas coberta por uma chaga da cabeça aos pés. Ele sentava-se no esterco, com as feridas podres, sofrendo a corrupção do corpo, cheio de vermes, torturado por tormentos insuportáveis (Jó 2, 7). Se nos tivesse sido anunciado que toda a cidade de Roma, vejam bem: a cidade toda, esteve sentada como Jó, sem nada são, com uma chaga terrível, comida pelos vermes, podre como os mortos, não seria isto mais grave do que aquela guerra?

"Penso que é mais tolerável sofrer a espada do que os vermes; jorrar o sangue do que destilar a podridão. Quando vemos um cadáver corrompendo-se, horrorizamo-nos; mas isso é atenuado pelo fato de estar ausente a alma. Jó, porém, a corrupção em vida, com a alma presente à dor, a alma atada ao sofrimento, inclinada a blasfemar. E Jó suportou a tribulação e, por isso, elevou-se a uma santidade grande. Não importa o que um homem sofra, mas como ele se comporta no sofrimento. Ó homem, não está em tua mão sofrer ou não sofrer, mas sim se no sofrimento tua vontade se degrada ou se dignifica.

"Jó sofreu. Sua mulher lhe foi deixada, e isso não para consolação, mas para tentação; não para lhe suavizar os males, mas para aonselhá-lo a blasfemar: 'Amaldiçoa a Deus, diz-lhe, e morre!' Vejam como, para ele, morrer seria um benefício, mas esse benefício ninguém lho dava.

"Todas as aflições que esse santo sofreu exercitaram-lhe a paciência, provaram-lhe a fé para refutar a mulher e vencer o diabo. Que grande espetáculo! Em meio da infecta podridão, brilha a beleza da virtude. Um inimigo oculto, que corrói seu corpo, e uma inimiga manifesta, que o quer induzir ao mal, mais companheira do diabo do que de seu marido; ela, uma nova Eva, mas ele, não já um velho Adão. 'Amaldiçoa a Deus e morre!' Arranca com a blasfêmia o que não podes obter com tuas preces. 'Falaste, responde-lhe Jó, como uma mulher insensata' (Jó 2, 10). Reparai bem nas palavras desse forte na fé; disse que está podre por fora, mas íntegro por dentro.

" 'Falaste como uma mulher insensata. Se recebemos os bens das mãos de Deus, por que não receber os males?' Deus é pai, e acaso havemos de amá-lo só quando nos agrada e rejeitá-lo quando nos corrige? Acaso não é Pai tanto quando nos promete a vida quanto quando disciplina? Esquecemos do Eclesiástico (2, 1, 4 e 5)?: 'Filho, quando te aproximas do serviço de Deus, permanece na justiça e no temor, e prepara a tua alma para a provação. Aceita o que vier e suporta a dor, e na tua humilhação guarda a paciência. Porque o ouro e a prata se provam pelo fogo, mas os homens se tornam gratos a Deus pelo cadinho da humilhação.' Esquecemo-nos da Escritura (Pr 3,12; Heb 12,6)? 'Deus repreende aquele a quem ama; e castiga a quem reconhece como filho.' "

Santo Agostinho encerra o sermão reiterando a Sabedoria dos desígnios divinos, e nosso dever de aceitá-los:

"VIII

"Oxalá tivéssemos um saudável temor e refreássemos a má concupiscência sequiosa do mundo, que apetece o gozo volúvel do que é pernicioso, perante os sinais com que Deus nos mostra a instabilidade e a caducidade de todas as vaidades do mundo e da mentira de suas loucuras. Aproveitemos esses sinais, em vez de ficar murmurando contra o Senhor.

(...)

"Não nos escandalizemos ao ver o justo neta terra sofrer agravos e ultrajes: acaso esquecemos o que passou com o justo dos justos, o santo dos santos? O que sofreu toda a cidade de Roma, sofreu Ele sozinho. E vede quem Ele é: 'O rei dos reis, o senhor dos senhors' (Ap 19, 16), preso, amarrado, flagelado, objeto de todas as ofensas, suspenso num madeiro e pregado, morto. Comparemos Roma com Cristo; a terra inteira com Cristo; o céu e a terra com Cristo - nenhuma criatura pode ser comparada ao Criador, nenhuma obra ao artífice: 'Todas as coisas foram por Ele feitas, e sem Ele nada foi feito' (Jo 1, 3). E, no entanto, foi desprezado pelos verdugos.

"Suportemos o que Deus quer que suportemos. Ele, que é o médico que nos cura e salva, sabe o que é útil para nós, mesmo que seja a dor. Como bem sabeis, está escrito 'A paciência produz uma obra perfeita' (Tg, 1, 4). Ora, qual será a obra de nossa paciência se não sofrermos nenhuma adversidade? Por que recusamos sofrer os males temporais? Temos medo de nos aperfeiçoar? Não hesitemos em orar e implorar, gemendo e chorando diante do Senhor, para que, também em relação a nós, se cumpra o que diz o Apóstolo: 'Fiel é Deus e não permitirá que sejais provados acima de vossas forças, mas com a tentação ele vos dará os meios de suportá-la e sairdes dela' (I, Cor, 10, 13)."

Voltando um pouco ao filme: no final, o homem se cura de sua cegueira espiritual por uma mainfestação divina, por um milagre. Não sei se o diretor gostaria dessa associação, mas não consigo deixar de ver aí uma ligação com o cego de que fala o capítulo IX de São João. Cito do esplêndido livro de Léon Bloy, "Dans les ténèbres":

"Jesus diz ao cego que acaba de curar: 'Crês no Filho de Deus?' Este lhe pergunta: 'Quem é ele, Senhor, para que eu creia nele?' E Jesus responde: 'Tu o vês, é o mesmo que fala contigo.'

"Esta última frase é arrasadora para o nosso espírito. Jesus curou esse cego, esse mendigo cego que jamais vira nada, para que o primeiro objeto que ele pudesse ver fosse precisamente o Filho de Deus! (...)

"Antes de tentar, com uma audácia que pode se parecer com a loucura, uma interpretação qualquer, eu quero ainda pensar nesse privilégio único, desconcertante e inconcebível do cego de nascença, o único entre todos os homens a poder contemplar a Face de Jesus virginalmente, isto é, sem jamais ter visto qualquer outra coisa sobre a terra. (...)

"O que pensar, então, do cego de nascença do Evangelho (...), chamado de súbito a ver o Filho de Deus, senão que ele foi, por um milagre não menor que a criação dos sóis, nomeado, de uma hora para outra, o Clarividente da Divindade dolorosa? 'Credo, Domine, creio, Senhor', diz ele, e, se prostando, O adorou. Neste minuto grande como os séculos, que via ele, não tendo jamais tido o pressentimento e talvez nem mesmo o desejo de uma visão qualquer, e a Face do Cristo cobrindo todo o horizonte à sua frente?"

Não podemos ver o Cristo como pôde o cego, mas podemos também dizer "credo, Domine", e esperar vê-lo, se assim merecermos. E merecer é carregar, também, a nossa cruz, carregar o fardo do Cristo. Voltando a Santo Agostinho, agora no sermão 112A, sobre a parábola do filho pródigo, incluído na mesma coletânea citada acima:

"VI

"(...)

" 'Levantou-se, pois, e foi ter com seu pai. Estava ainda longe, quando seu pai o viu e, movido de compaixão, correu-lhe ao encontro, lançou-se-lhe ao pescoço e o beijou' (Lc, 15, 20), isto é, pôs o braço sobre o pescoço dele.

"Ora, o braço do Pai é o Filho: deu-lhe, portanto, Cristo para carregar: uma carga que não pesa, mas alivia. 'Meu jugo é suave, diz Cristo, e meu fardo é leve' (Mt, 11, 30). Ele se apoiava sobre o que estava de pé e, por apoiar-se, impedia-o de tornar a cair. Tão leve é o fardo de Cristo que não só não pesa, mas, pelo contrário, até ergue.

"Não que o fardo de Cristo seja uma carga dessas que se chamam leves (não há carga, por mais leve que seja, que não tenha algum peso). Pode-se carregar um fardo pesado, um fardo leve ou, ainda, não carregar fardo algum. Anda oprimido quem carrega fardo pesado; menos oprimido quem leva uma carga leve (embora também ande oprimido); com os ombros totalmente desembaraçados quem não carrega fardo algum. Não é dessa ordem o fardo do Cristo, mas um fardo tal que convém carregá-lo para sentir-se aliviado; se nos desvencilharmos dele, mais carregados nos sentiremos.

"E que esta nossa afirmação, irmãos, não vos pareça absurda! Talvez encontremos alguma comparação que vos torne plausível, até em termos de nossa experiência sensível, o que estou dizendo. Um caso, também ele, espantoso e totalmente incrível.

"É o seguinte: considerai as aves. Toda ave carrega o peso de suas asas: não reparastes como, quando descem ao chão, recolhem as asas para poder descansar e como que as levam nos costados? Julgais que estão oprimidas pelo peso das asas? Tirai-lhe este peso e cairão: quanto menos pesarem as asas, menos a ave pode voar.

"Alguém que, a título de misericórdia, as privasse deste peso, não estaria sendo misericordioso. A verdadeira misericórdia está em poupar-lhes esta privação e, se já perderam as asas, em dar-lhes alimento para que readquiram asas pesadas e possam arrancar-se da terra e voar. É bem este o peso que desejava o salmista: 'Quem me dará asas como as da pomba para que eu voe e encontre meu repouso?' (Sl 55, 7)

"Assim, o peso do braço do pai sobre o pescoço do filho não o carregou, mas o aliviou; foi-lhe honroso e não oneroso. Como é, pois, o homem capaz de carregar consigo a Deus se não é porque o está carregando, o Deus que ele carrega?"

 

ARTIGO DA SEMANA

Nestes tempos de "proteção às minorias" e coisas do tipo, existe um grupo que pode ser discriminado, ridicularizado, difamado e até exterminado, que pouquíssimas vozes se levantarão em sua defesa. Refiro-me, claro, aos palestinos, que, não bastasse terem tido suas terras invadidas por Israel, ainda sofrem todos os tipos de abusos e a imprensa mundial noticia os casos como se fossem abusos de palestinos contra israelenses.

É por isso que faço minhas as palavras de um editorial do jornal inglês Observer, citado por Alexander Cockburn em sua coluna desta semana:

"Se os palestinos fossem negros, Israel seria agora um Estado rejeitado, sujeito a sanções econômicas lideradas pelos Estados Unidos. Seu desenvolvimento e assentamento da margem ocidental seria visto como um sistema de apartheid, no qual se permite à população nativa viver em uma fração minúscula de seu próprio país, em 'bantustans' auto-administrados, com 'brancos' monopolizando o suprimento de água e eletricidade. E assim como a população negra só podia viver nas áreas brancas da África do Sul em áreas desgraçadamente subdesenvolvidas, o tratamento que Israel dedica aos árabes israelitas - discriminando-os flagrantemente nos gastos com habitação e educação - também seriam reconhecidos como escandalosos.

"O acordo de Oslo criou uma enorme vantagem territorial para Israel na faixa ocidental, e inevitavelmente transformou Arafat num líder comprometido. Ele está preso entre um parceiro de negociações intransigente e uma população suspeitosa e chateada sobre a qual ele tem pouco controle direto - um boneco criado pela política israelense e sustentado por ela. E enquanto isso os israelenses estendem seus assentamentos na faixa ocidental. [sobre Arafat, não percam também o artigo de Robert Fisk na revista "New Statesman"]

"Não há e não haverá nunca qualquer legitimidade a longo prazo para o Estado de Israel no Oriente Médio enquanto esse processo continuar - e é isto que ameaça a sobrevivência de Israel a longo prazo. Não foi a visita do sr. Sharon à área de al-Aqsa em 28 de setembro que despertou a atual desordem; foi o assassinado por Israel de sete palestinos, com outros 220 feridos, um ato de opressão calculado pelo qual o 'pacificador' sr. Barak tem de aceitar a responsabilidade."