No. 34 - 03/11/00
Aleister Crowley está voltando à moda, com duas biografias sendo lançadas quase ao mesmo tempo, uma na Inglaterra, escrita por Martin Booth, outra nos EUA, escrita por Lawrence Sutin.
Ambas se proclamam "livres de preconceitos" e pretendem fazer análises fiéis do assunto, sem "julgar" seu personagem, e os autores dos livros criticam biógrafos anteriores, que pintaram retratos excessivamente críticos de seu biografado.
É muito curiosa essa pretensão de neutralidade, porque de que pode valer uma biografia se ela nem mesmo tira algumas conclusões a respeito da vida do biografado?
Crowley, para quem não sabe, foi um ocultista inglês, que se dizia mago e se dizia a encarnação da Besta do Apocalipse. Fernando Pessoa era um grande admirador de seus "ensinamentos", e traduziu alguns de seus poemas para o português. Na década de 70, quase trinta anos depois de sua morte (que foi em 1947), Crowley foi um dos grandes inspiradores dos movimentos dark e punk, e os adeptos de sua seita aqui no Brasil incluem os parceiros Raul Seixas e Paulo Coelho.
A questão é que o sujeito fundou uma seita, e esta seita tinha determinados ensinamentos e determinadas práticas rituais. Qualquer estudo que deixe de lado o julgamento desses ensinamentos e a eficácia dessas práticas é um estudo inútil.
Portanto, ou essas duas biografias são, na verdade, apologias da vida e obra de Crowley, disfarçadas de descrições "neutras", assim como o New York Times é um jornal de propaganda Democrata mas se diz "neutro", ou os livros não passam de uma coleção de casos desprovida de conjunto e de interesse.
Não sei qual das duas hipóteses é verdadeira, porque não li os livros, mas é claro que os autores se esforçam para dar uma impressão de neutralidade por imaginarem que essa é a melhor maneira de dar credibilidade a seus estudos.
Essa abstenção de juízo, no entanto, longe de corresponder a um rigor científico, revela ou um fingimento, ou uma abstenção de usar a inteligência.
Afinal, as doutrinas do Crowley eram verdadeiras ou não? Afinal, as práticas que ele realizava tinham que tipo de resultado?
É inadmissível que pesquisadores pretensamente sérios fujam dessas perguntas.
Mas esta é a prática corrente nas ciências sociais, e nos estudos religiosos. O pesquisador diz que não faz "juízos de valor", e que todas as culturas e todas as religiões devem ser consideradas em pé de igualdade; no caso das religiões, porque todas elas representariam uma "busca pelo transcendente".
No entanto, a diferença entre uma tradição espiritual duradoura, como o cristianismo e o judaísmo, e uma simples seita como a de Crowley, não é uma mera questão de projeção de juízos do pesquisador sobre seus objetos: essa diferença é um dado inquestionável da realidade.
Primeiro, judaísmo e cristianismo fundaram civilizações inteiras, e sua simples ausência da História deixaria um vácuo insuperável. Se Moisés ou Jesus Cristo não tivessem vindo à Terra, o modo de viver e de ver o mundo de praticamente toda a humanidade seria completamente diferente; se Crowley ou Idries Shah ou Allan Kardec não tivessem nascido, ou não tivessem produzido nenhum livro em suas vidas, poucos notariam a diferença.
Isso pode parecer bobagem, mas é preciso ter em mente que as religiões se apresentam como emanações de Deus, isto é, como revelações. Ora, se Deus vai se revelar, se vai interferir diretamente no mundo terrestre, é óbvio que essa intervenção terá uma importância fundamental para a história que se segue depois dela.
Segundo, cristianismo e judaísmo fazem determinadas promessas, determinadas profecias, que depois são verificáveis, e essas promessas são renovadas através dos milagres. As seitas também fazem profecias, e elas sempre se revelam falsas, e não produzem milagres, mas podem produzir simulacros de milagres, meras projeções ilusionistas ou truques mágicos sem maiores propósitos ou conseqüências.
Terceiro, existe, para os milagres nas tradições mencionadas, um suporte moral. Não apenas os milagres visam ao aperfeiçoamento moral dos indivíduos, como todas as práticas das religiões tradicionais visam a pôr o indivíduo em comunhão com Deus, e essa comunhão só pode ser atingida com um esforço de aperfeiçoamento das almas. É aí que surge outro elemento característico dessas tradições: o fenômeno da santidade, das vidas que elevam as potencialidades da alma humana ao seu ponto máximo, atingindo proporções quase angélicas.
Mas o que prometem as seitas é justamente o oposto disso: elas prometem uma comunicação com algum tipo de divindade, sim, mas não exigem do indivíduo nenhum tipo de esforço moral, nenhum tipo de aperfeiçoamento interior. Elas prometem os frutos da religião, sem as práticas ascéticas que devem acompanhar a ascensão espiritual do indivíduo; pelo contrário, elas exacerbam tudo aquilo que há de pior no sujeito, promovendo tendências sexuais bizarras, promovendo a repressão da consciência moral, promovendo a divisão interior do ego, promovendo um interesse mórbido por práticas e ritos inúteis.
As seitas como a de Crowley nunca produziram santos, mas produziram maníacos sexuais, drogados, esquizofrênicos e dementes, e tudo leva a crer que as práticas dessas seitas visam precisamente a este resultado. Sua influência na vida cultural - que é maior do que parece - criou o modelo da "fé" religiosa que não exige nenhum comprometimento individual autêntico, que faz o indivíduo contentar-se com a contemplação dos próprios vícios ao mesmo tempo que professa uma crença difusa em algum tipo de divindade indefinível.
A proliferação das seitas satanistas, com suas doutrinas absurdas e suas falsas promessas, é um dos fatos mais curiosos - e mais vergonhosos - do século XX. A quantidade de pessoas aparentemente e sensatas sérias que se deixaram enganar por esses estelionatos pseudo-espirituais é assomobrosa. Infelizmente, não vamos compreender melhor o fenômeno com estudos que apresentem uma fachada de "neutralidade" e "isenção" e, ao mesmo tempo, comecem por ignorar os dados mais fundamentais a seu respeito.
POLITICAGENS
Antes de comentar algumas de suas declarações, preciso dizer que não aprovo o métier do sr. Peter Stringfellow, e que acho que, num país civilizado, talvez não houvesse lugar para a criação de clubes noturnos do tipo que ele dirige. É que Stringfellow é dono de um clube de lap dancing em Londres. O leitor certamente está familiarizado com o conceito de lap dancing, até porque é uma verdadeira obsessão do cinema policial americano. Caso não esteja, esclareço: são lugares onde mulheres dançam, nuas ou semi-nuas, nos colos dos clientes que se sentam às mesas, ao mesmo tempo que, num palco central, ocorre um strip-tease. As leis para esse tipo de lugar na Inglaterra são bem mais rígidas do que nos EUA, mas isso não vem ao caso.
Esqueçamos como o sr. Stringfellow ganhou dinheiro, o fato é que ele saiu de uma família de operários pobres, todos partidários do Partido Trabalhista britânico, e se tornou um milionário, defensor do Partido Conservador. Entende-se sua mudança de status social, mas o que o fez mudar de política? Ele responde, em entrevista a Harry Mount, da revista The Spectator:
"Eu não gostava da maneira como o Partido Trabalhista nunca encorajava você a se esforçar para melhorar. Hoje em dia, até o meu pai mudou de idéia e passou a concordar comigo. Ele vê como eu estou bem de vida como um homem de negócios - até os anos 1970, ele nunca tivera casa própria, e então eu comprei uma para ele."
Existe aí uma lição para os nossos empresários.
Ora, os partidos de esquerda não encorajam o espírito de iniciativa individual porque isso é o que eles menos querem: eles gostam é de populações reduzidas a rebanhos, que sigam as ordens dos comandantes do Partido e dependam do Estado para fazer qualquer coisa na vida. O espírito empreendedor, essencial ao capitalismo, não é encorajado pelas esquerdas: o que elas encorajam é o espírito de reivindicação, em que o indivíduo implora ao Estado que lhe conceda esta ou aquela benesse, mesmo que em troca ele tenha de ceder um pouco da sua liberdade, um pouco da sua dignidade - e, no meio desse processo, tomar o dinheiro dos outros.
E os empresários brasileiros, o que fazem? Orgulham-se de seus empreendimentos, e procuram incentivar políticos que os defendam, que defendam o crescimento da riqueza na sociedade? Coisa nenhuma. Fazem justamente o contrário: vivem com uma consciência culpada, acreditam em todas as mentiras da esquerda contra eles, e acham que estão tirando dinheiro dos pobres, que estão explorando os trabalhadores.
Os empresários brasileiros vivem com a consciência dividida: acreditam na baboseira socialista de que o Estado é o grande promotor da riqueza e do bem estar social, e que a busca individual do lucro é imoral e causadora de pobreza, ao mesmo tempo que, na sua vida prática, têm de buscar o lucro, sob pena de acabarem saindo do mercado e indo à falência.
Alguns - normalmente os mais ricos - acabam conciliando essas duas posições fazendo uma aliança estratégica com o Estado, a famosa aliança entre os burocratas e as grandes empresas. Dessa aliança surgem políticas tributárias que praticamente impedem o surgimento de novas empresas, surgem as taxações protecionistas de determinados setores do mercado, surgem os encargos sociais tão altos que só as empresas mais ricas conseguem arcar com eles e as demais são forçadas a sair do mercado. Aí a conciliação é perfeita: o grande empresário está ao mesmo tempo tirando seus concorrentes do mercado e satisfazendo sua falsa consciência, ao pagar encargos sociais mais altos (que não valem nada, porque, quando há pouca concorrência, os preços tendem a subir).
Voltando a Stringfellow, ele critica o imposto de renda, com um argumento irrespondível:
"Esse imposto acaba com os negócios. Vários empresários, depois de juntarem dinheiro - e não falo de muito dinheiro, não falo de £ 50 milhões, e sim de £ 5 milhões - abandonam o mercado, porque os impostos são tão altos que eles preferem se aposentar, viajar, em vez de voltar a investir. E esse é exatamente o tipo de pessoas que deveriam estar na Inglaterra criando mais empregos."
A equação é bem simples: mais impostos significam mais restrições aos empreedimentos individuais; mais restrições significam menos investimentos; menos investimentos significam menos emprego e menos produção de riquezas.
Mas, para as grandes empresas, que já se estabilizaram no mercado, tanto melhor, porque terão menos concorrência e terão de investir menos em mudanças e aprimoramentos - até, claro, que as tendências anti-capitalistas do Governo se voltem contra eles, momento que eles nunca imaginam que chegará. É por isso que não me surpreendo quando leio, como no último artigo do embaixador Meira Penna no Jornal da Tarde, que algum guru dos protecionistas empresários paulistas defendeu a teoria da mais-valia. Infelizmente, essa é a regra, e não a exceção, para os empresários brasileiros. Eles têm, sim, algo a aprender com Peter Stringfellow.
SÉTIMA ARTE
Segundo matéria do Washington Post, teremos este ano mais uma leva de filmes satanistas produzidos em Hollywood.
A paixão hollywoodiana pelo diabo não é novidade nenhuma, e não creio que nenhum dos novos filmes chegue ao extremo de "Ninth Gate", que é literalmente uma peça de propaganda do diabo e nem era hollywoodiano, mas não deixa de ser indicador do grau de desorientação espiritual em que a sociedade moderna vive que esse tipo de filme prolifere dessa maneira.
Falando em confusão, vejam só a afirmação da produtora de um desses filmes, citando - porca miséria - uma personagem do próprio filme:
"Se você tem tanta certeza de um, isso não significa que você também tem de ter certeza do outro? Se as pessoas querem acreditar em Deus, um poder superior que é bom, não segue daí que você tem de acreditar num poder superior que é maligno? Eu acho que esse é o conceito central desses filmes."
Se esse é o conceito central desses filmes, e se é nisso que seus produtores estão pensando, então tanto os filmes quanto os produtores são perfeitos idiotas. Eu provavelmente já escrevi isso em algum lugar - e se não escrevi, shame on me! - mas sempre vale lembrar que o diabo não é, de forma alguma, o inimigo de Deus, porque se isso fosse possível o próprio conceito de Deus perderia sentido e a própria existência do universo seria impossível, porque haveria uma força criadora e uma força destruidora, ambas com o mesmo poder.
O diabo não é inimigo de Deus; é um inimigo do homem, é a força que tenta levar o homem a perder sua alma - e, assim sendo, atua como instrumento divino, porque a tentação, quando vencida, é uma via de salvação. Leiam o Livro de Jó e saberão exatamente do que estou falando.
Voltando um pouco aos filmes, vale lembrar que nem todos os filmes são satanistas só porque retratam o diabo: depende de como esse retrato é feito. A matéria do Post menciona "O Exorcista", que tanto não é satanista que acaba de ser relançado numa versão mais longa que tem como objetivo deixar mais clara a mensagem católica do filme, como o próprio roteirista William Peter Blatty explicou em entrevista à National Review.
De qualquer maneira, o tema é extremamente delicado, e certamente seria melhor para todos que Hollywood procurasse outros assuntos para tratar com o puerilismo que caracteriza os filmes lá produzidos.
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Falando em satanismo, foi relançado recentemente, com o som regravado em estéreo, um dos clássicos do gênero, "The Omen", dirigido por Richard Donner em 1976.
Há uma cena muito engraçada num dos episódios de "Seinfeld", na qual o próprio Seinfeld está discutindo esse filme com o George e a Elaine, e chega o Kramer:
- Kramer, você deve saber. O garoto de "A Profecia" é o diabo, ou é apenas um emissário do diabo?
- Quem, Damien? Ah, nada disso. É só um garotinho travesso e mal-educado.
Por incrível que pareça, a opinião do diretor Donner é a mesma do Kramer: Damien não é o anti-cristo, só parece ser, e o mal não triunfa no final do filme, porque Gregory Peck - o "pai" - não consegue matar o garoto; pelo contrário, o pai estava enloquecido por uma série de coincidências, e não consegue consumar sua loucura.
Os produtores, o roteirista e os consultores religiosos do filme não concordam com essa visão meio absurda, até porque ela vai contra todos os detalhes da história. Há pouco espaço para dúvidas: "The Omen" é sobre o anti-cristo, e sobre os riscos que corre um mundo que fugiu da religião. A personagem de Gregory Peck, que adota o anti-cristo e acaba encarregado de matá-lo, nunca antende aos apelos que lhe faz um padre para que se converta e receba a comunhão, e falha na sua missão.
É também um exemplo de como é possível fazer um filme genuinamente assustador sem apelar para a violência, sem gastar zilhões em efeitos especiais (o filme inteiro, cachês e publicidade incluídos, custou U$ 2,5 milhões), e de como é possível tratar de Satã sem ser satanista e sem desenvolver nenhum tipo de curiosidade mórbida sobre o assunto.
A uma coisa, porém, devo objetar: é, em grande parte, graças a este filme que os rottweilers têm uma imagem tão ruim perante a opinião pública. Esses cães, que no fundo são amitosos e dóceis, aparecem como os cães de guarda do demônio, uma posição nada confortável para uma raça canina. O pior é que a idéia original era usar pastores alemães, que seriam uma escolha ainda pior para o papel. Se alguém quisesse a minha opinião, eu diria que a raça mais indicada era a dos mastins napolitanos, os cães mais feios e assustadores que já vi, e que, inclusive, foram usados para a formação dos rottweilers. Mas não sei se, ao contrário dos rottweilers, os mastins têm inteligência suficiente para trabalhar num filme.
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No filme Europa, Europa (também recebeu o título de Filhos da Guerra), há uma cena em que um soldado nazista, diante de várias crianças judias reunidas em um campo de concentração, diz mais ou menos o seguinte:
- Querem saber por que não devem acreditar em Deus, e sim em Hitler? Peçam a Deus que lhes mandem balas e doces!
As crianças pedem e, naturalmente, nada acontece.
- Agora, peçam a Hitler.
E começam a chover balas e doces, jogados sobre as crianças por soldados nazistas.
A esplêndida cena consegue resumir o horror do nazismo, o ódio dos ditadores à religião e as táticas de propaganda do totalitarismo.
Para mim, esse tinha sido o ponto máximo da carreira da diretora polonesa Agnieszka Holland. Seu filme seguinte, Oliver, Olivier (1992), era uma história interessante mas não muito profunda sobre um rapaz que desaparece numa cidade pequena, e depois desse veio uma adaptação - que não vi - do belo livro infantil de Frances Hodgson Burnett, The Secret Garden, seguida, em 1995, de Total Eclipse, um horroroso filme sobre Rimbaud, com Leonardo DiCaprio no papel do poeta.
Deixei de me interessar pelos filmes da diretora, até que The Third Miracle, de 1999, chamou a minha atenção, pela temática católica: Ed Harris interpreta um padre encarregado da investigação dos casos de suposta santidade, e está em crise de fé depois de ter desmascarado um padre que era venerado por toda uma comunidade e a quem milagres tinham sido atribuídos, mas que era um adorador do diabo. O próximo caso de que ele é encarregado é o de uma imagem que derrama lágrimas de sangue, e que miraculosamente curou uma menina com câncer, quando esta menina rezou para uma dona de casa que acabara de falecer na paróquia.
Ele vai investigar a santidade dessa dona de casa, ao mesmo tempo que pede a Deus que lhe dê fé. Confesso que, quando o filme chegou a esse ponto, já estava odiando, porque achei que a história seguiria o caminho de pseudo-conflitos imbecis tipo "Madre Agnes", e que o padre descobriria alguma explicação física ou para-psicológica para o milagre, mas o defenderia assim mesmo com algum argumento sentimentalista do tipo "a fé é o que importa".
Tive de assistir até o fim para perceber que minhas expectativas pessimistas estavam erradas. Não vou entrar nos detalhes da história aqui, mas basta dizer que este filme é uma raridade: é um filme católico.
O padre tem uma crise de fé, comete alguns atos pecaminosos, mas persiste no seu trabalho, persiste nas suas orações, e acompanhamos uma impressionante trajetória espiritual.
Os procedimentos de beatificação são mostrados de forma extremamente fidedigna, os parâmetros e os requisitos são apresentados corretamente. Os clérigos não são mostrados como malucos pervertidos, mas como homens de verdade - alguns melhores, outros piores, mas assim é a vida.
Em suma: assistam ao filme. Ele nem passou nos cinemas, e isso é um bom sinal, porque é um sinal de ele não se enquadra na linha de depravação moral e de propaganda anti-cristã que caracteriza a maior parte da produção cinematográfica contemporânea.
Depois descobri que Holland não é marinheira de primeira viagem em temas católicos: ela dirigiu, em 1988, To Kill a Priest, inspirado na vida de um dos mártires da luta polonesa contra o comunismo, o padre Jerzy Popieluszko. Ainda não vi esse filme, mas, a julgar pela maestria com que ela conduz The Third Miracle, deve ser outra pérola.
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Os personagens de High Fidelity passam boa parte do tempo enfurnados numa loja de discos velhos fazendo listas do tipo "10 maiores crimes musicais cometidos por Stevie Wonder" e "10 melhores músicas para um funeral", e o personagem principal, quando tem problemas amorosos, busca conselhos em músicas de Bruce Springsteen.
Para mim, isso é mais que suficiente para desqualificar um filme: não apenas acho que o pop/rock é um gênero musical abominável, como acho ainda mais abomináveis os sujeitos que nunca saem da adolescência e ficam idolatrando cantores e compositores de pop/rock.
Aliás, já que estamos no assunto, a coisa mais imbecil que li nas últimas semanas foi um sujeito no caderno de cultura (!) do "O Globo" dizendo que Villa-Lobos não era "apenas" um compositor clássico, porque isso era "muito pouco". E o que "mais" Villa-Lobos era? O inspirador da "música popular brasileira", o inspirador de Tom Jobim, Edu Lobo e não sei mais quem. Porca miséria, quem disse que o sujeito precisa disso para tornar mais admirável seu currículo?! A que grau de estupidez musical precisamos chegar para não percebermos mais a diferença entre uma "bachiana" e um sambinha? Para não ter de me alongar, proponho aos que ainda acham que não existe diferença entre música erudita e música popular um exercício: tentem compor uma sonata (ou um poema sinfônico, ou uma sinfonia, ou uma fuga...) e depois tentem compor um rap (ou um samba ou qualquer outra coisa do tipo). A diferença se esclarecerá rapidamente.
Mas voltando ao filme: os personagens de High Fidelity são meio retardados, e tudo parece apontar para um filme péssimo, mas o resultado na tela é justamente o contrário. Este é talvez o melhor filme da carreira do superestimado Stephen Frears: uma comédia romântica muito divertida, sem grandes pretensões, com interessantes observações sobre as besteiras que cometemos nas nossas vidas amorosas (e os problemas psicolólgicos que se seguem) e com uma bela apologia do casamento monogâmico no final. Guardadas as devidas proporções, esta foi, para mim, uma supresa tão agradável quanto The Third Miracle.
ARTIGO DA SEMANA
Vocês devem ter percebido que, na campanha presidencial americana, um dos temas centrais é o tipo de juízes que os candidatos pretendem nomear para a Suprema Corte. Este assunto nunca é discutido aqui no Brasil, e ninguém parece perceber a importância que tem o tipo de juiz que o Presidente indica para o Supremo Tribunal Federal.
Esta semana, o Presidente Fernando Henrique indicou a juíza Ellen Northfleet, de quem ninguém nunca ouvira falar, e cujas idéias ninguém conhece, até porque a distinta senhora nunca publicou nada. Não estou dizendo que tenha sido uma má indicação; estou dizendo apenas que se trata de uma incógnita, e que as discussões sobre a nomeação se concetraram em uma questão secundária - o fato de ela nunca ter pertencido ao STJ - e no costumeiro besteirol politicamente correto (afinal, que diferença faz se ela é mulher ou não?!)..
Cito este caso como um exemplo do poder presidencial, e, aliás, do crescimento do poder do Estado em geral: o presidente apontou a juíza, e ela, posteriormente, decidirá sobre uma incrível variedade de questões, questões nas quais, há alguns séculos, o Estado nem pensava em intervir.
Nesse sentido, James Bovard publicou um artigo na American Spectator afirmando que os americanos, ao se preocuparem com a definição do próximo presidente, estão se preocupando com a questão errada. "Em vez disso, diz ele, devemos perguntar quanto poder podemos confiar a qualquer candidato."
Nos EUA, a expansão estatal chegou aos extremos que descreve Bovard: o sistema Carnivore, do FBI, e o Echelon; leis que determinam as condições de seguranças nos veículos (como o nosso Código de Trânsito); mais de 25.000 regulações produzidas desde 1993, regulando até as descargas de banheiro; mais de 3.000 delitos penais definidos em lei federal; ataques aos direitos de propriedade; intervencionismo econômico (Bovard menciona o controle de preços do açúcar) e protecionismo, e assim por diante.
Então, pergunta ele:
"Quanto poder você conferiria a qualquer um dos candidatos para, por meio da força, proteger você de você mesmo - vetando suas escolhas de estilo de vida, comida e recreação?
"Há algum político proeminente de qualquer um dos partidos que poderia dirigir sua vida melhor do que você mesmo? Há algum político que seja tão superior a você em termos de caráter e intelecto, que você deveria efetivamente entregar sua vida nas mãos dele? Embora poucas pessoas admitiriam que qualquer político pudesse ser-lhe tão superior, o regime atual classifica os cidadãos como sendo, por definição, muito inferior a seus governantes."
Em suma: o poder estatal cresceu tanto que não há mais ninguém capaz de controlá-lo racionalmente. O Estado moderno é um monstrengo com tantos tentáculos que se tornou efetivamente ingorvernável. Estamos muito preocupados em eleger este ou aquele político, mas devíamos estar mais preocupados em nos livrar dos políticos, em diminuir sua influência sobre nossas vidas.
"Uma certa quantidade de poder governamental é necessária para preservar a paz e evitar agressões estrangeiras. Mas o governo passou desse ponto décadas atrás. Einstein avisou em 1945 que, com a invenção da bomba atômica, a humanidade tinha muito mais poder destrutivo do que o que as pessoas eram capazes de controlar responsavelmente. É a mesma coisa agora, com o poder político: o governo acumulou muito mais poder coercitivo do que o que os políticos são capazes de administrar.
"Mesmo que o cidadão mais sábio e mais virtuoso fosse eleito Presidente, nosso Leviatã ainda assim seria um incômodo. Não há nenhuma varinha mágica com a qual mesmo o melhor presidente possa resolver todos os problemas do governo federal. A única maneira de melhorar o governo é reduzir radicalmente seu tamanho e seu poder. Esta é também a melhor aposta para transformar eleições presidenciais em algo mais do que o triunfo da esperança sobre a experiência."
Nota: repito a nota da semana passada. Continuo sem poder verificar os e-mails do oindividuo.com, situação que só será solucionada terça ou quarta-feiras da semana que vem. Peço paciência aos que enviaram e-mails e não os tiveram respondidos: todos o serão na semana que vem.